domingo, 10 de julho de 2016

Autores:

1.Ana Maria Resende Junqueira - Professora do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios - Universidade de Brasília.

2.Isaac Leandro de Almeida - Mestrando em Gestão em Agronegócios pela Universidade de Brasília. Email: isaac_leandro@hotmail.com

Universidade de Brasília, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Programa de Pós-Graduação em Agronegócios

Artigo publicado na revista Cultivar, em 17/11/2010: http://www.grupocultivar.com.br/

1. Introdução

Nesse artigo objetivou-se fazer um breve estudo sobre a importância da produção de hortaliças na manutenção da segurança alimentar. Buscou-se valorizar a importância da agricultura familiar na produção de olerícolas e explanar a possibilidade da utilização da produção orgânica na olericultura familiar, além de ressaltar a relevância da utilização de mecanismos de certificação e selos no processo produtivo dos produtos orgânicos, em especial, na olericultura familiar orgânica.

Se, por um lado, a relevância da olericultura, enquanto atividade econômica, é reconhecida por sua importância social, gerando emprego e renda, especialmente para o segmento da olericultura familiar, por outro lado, as hortaliças orgânicas ganham cada vez mais espaço no Brasil - graças à diversidade de espécies à disposição dos consumidores e à melhoria da qualidade dos produtos ofertados e principalmente à promoção de uma alimentação mais balanceada e saudável.

Não é por outro motivo que durante as últimas décadas a discussão sobre a agricultura familiar tem ganhado força. Os debates sobre desenvolvimento sustentável, geração de emprego e renda, segurança alimentar, desenvolvimento local e saúde têm a cada dia alcançado um número maior de estudiosos e se alicerçado na demandas sociais.

2. Importância da Horticultura para Segurança Alimentar

A necessidade de se alimentar convenientemente é uma necessidade humana primária que remonta à origem da humanidade. Essa é a condição essencial para toda a atividade humana e qualquer definição ou processo de desenvolvimento deve integrá-la e/ou realizá-la plenamente. Nesse sentido, o conceito de segurança alimentar tem evoluído ao longo do tempo, mas tem sempre por base uma preocupação de certezas e/ou incertezas no que se refere ao acesso ao alimento em quantidade e qualidade adequada à vida saudável do homem. Contudo, o conceito de segurança alimentar preconiza a realização do direito que todos têm de alcançar regular e permanentemente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades básicas, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, as quais respeitam a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis, conforme SILVA (2009).

Para as políticas de desenvolvimento, as questões referentes à segurança alimentar devem ser encaradas como fator de extrema relevância, principalmente no que diz respeito ao setor de produção agropecuária. Este tipo de preocupação, embora com enfoques diferentes, é comum aos países desenvolvidos e, mormente, aos países menos desenvolvidos. A questão de segurança alimentar engloba duas perspectivas em função da localização das regiões em análise. O contraste entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é bastante acentuado também na questão alimentar. Para os primeiros, enfrentá-la foi um componente decisivo na conformação dos seus padrões de desenvolvimento, hoje caracterizada pela auto-suficiência produtiva agroalimentar e pela pequena importância dos problemas de acesso da população aos mesmos. Para os países em desenvolvimento, a preocupação com a segurança alimentar está mais voltada para a estabilidade no abastecimento e manutenção dos estoques estratégicos dos alimentos básicos, do que com programas institucionais destinados aos seguimentos mais débeis (MALUF et al, 1996).

Diante disso, é comum os países menos desenvolvidos utilizarem o conceito de segurança alimentar da maneira mais ampla ou “primitiva”, ou seja, o acesso físico e econômico das pessoas aos alimentos e a capacidade de satisfação das necessidades básicas do ser humano em quantidade e qualidade adequada. Haja vista que a alimentação inadequada ainda é um flagelo presente em muitas regiões do mundo, com conseqüências diretas e indiretas para a saúde e para a vida social.

Destarte, é extremamente importante identificar falhas no consumo alimentar e assim considerar soluções para corrigir essas deficiências. É nesse sentido, então, que a horticultura é vista como meio importante de melhorar as condições de vida da população e de promover a segurança alimentar e nutricional. Logo observa-se que os governos podem e devem exercer um papel importante tanto no estimulo como no aumento da produção, na melhoria da infraestrutura de distribuição e principalmente no que diz respeito à educação alimentar e nutricional.

Tamanha é a importância das hortaliças na alimentação, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) coloca o baixo consumo de hortifrutícolas como um dos dez principais fatores de risco para a mortalidade e morbilidade no mundo. De acordo com Silva (2009), estima-se que o baixo consumo de hortifrutícolas seja responsável por cerca de 19% dos cancros gastrointestinais, 31% da doença cardiovascular isquêmica e por 11% dos enfartes do miocárdio, e que potencialmente mais de 2,7 milhões de vidas podiam ser salvas todos os anos se cada pessoa consumisse porções adequadas de frutas, legumes e verduras (FLV).

E apesar de todas as evidências relacionadas ao consumo de hortifrutícolas, o consumo desses alimentos é significativamente inferior ao recomendado (80 kg de FLV por habitante por ano). E isso ocorre tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. Não é por outro motivo que a segurança alimentar coloca esse grupo de frutas e hortaliças como fonte mais acessível e sustentável de vitaminas, minerais, macro e micronutrientes, além de outros componentes indispensáveis para atividades orgânicas.

Assim, o aumento da produção e consumo de hortifrutícolas revela-se como a forma direta e de menor custo para melhorar a dieta alimentar da população dos países mais pobres. No entanto, esse aumento só pode ser oriundo da educação alimentar e vir através de incentivos do governo no sentido de atender à segurança alimentar local.

3. Agricultura Familiar

Devido à grande complexidade do universo agrário – sobre os aspectos das diferenças entre os tipos de agricultores, sobre os aspectos econômicos, sociais e culturais – é extremamente difícil definir a agricultura, principalmente, a agricultura familiar. Há múltiplas metodologias, critérios e variáveis para construir diversas tipologias de produtores.

Apesar da abordagem sobre a agricultura familiar, não foi o intuito principal desse trabalho o aprofundamento sobre a definição desse termo. De uma maneira simples, utilizou-se o termo assim como utilizado por Guanziroli e Cardim (2000) e Guanziroli et al. (2001). Nesta definição, o universo de produtores familiares é caracterizado como aquele que o produtor dirige sua produção e o trabalho familiar do estabelecimento é superior ao trabalho contratado. Por mais que se saiba que essa não é uma definição unânime (e tampouco muito operacional), é perfeitamente compreensível. Deve-se levar em consideração que os diferentes setores sociais e suas representações constroem categorias científicas que servirão a certas finalidades práticas e que a definição de agricultura familiar pode não ser exatamente a mesma daquela estabelecida para estudos acadêmicos sociais.

A concepção que prioriza a agricultura familiar como unidade de análise centra-se nos estudos da FAO/Incra (1994), que divide a exploração agrícola em modelo patronal e familiar (Quadro 1) e do estabelecimento do Programa Nacional de Produção Familiar (Pronaf) (MARAFON e RIBEIRO, 2006)

A renda total por estabelecimento apresenta a grande diferença entre os agricultores familiares e os patronais, assim como entre os agricultores da mesma região. A renda total média, em toda parte, dos agricultores patronais, é superior à dos familiares. No entanto, quando se considera a renda total por unidade área, os resultados da agricultura familiar são superiores aos dos estabelecimentos patronais em todas as regiões do país. Com relação à terra, 75% dos produtores familiares brasileiros são proprietários (MACHADO e SILVA, 2004).

Segundo o Censo Agropecuário 1995/96 (GUANZIROLI e CARDIM, 2000) existem no Brasil 4.859.864 estabelecimentos rurais ocupando uma área de 353,6 milhões de hectares. Os agricultores familiares representam, portanto, 85,2% do total de estabelecimentos e ocupam 30,5% da área total, além de serem responsáveis por 37,9% do Valor Bruto da Produção Agropecuária Nacional, recebendo apenas 22,3% do financiamento destinado à agricultura. Existe ainda grande diferenciação entre agricultores familiares e patronais, sendo a renda patronal (19.085 reais) muito superior à encontrada entre os familiares (2.717 reais). A Renda total média por estabelecimento familiar foi de 2.717,00 reais, variando entre 1.159 reais/ano no nordeste e 5.152 reais/ano na região Sul. A Renda Total por hectare demonstra que a agricultura familiar é mais eficiente que a patronal, produzindo uma média de 104 reais/ha/ano.

Vale ressaltar que se optou por usar o Censo Agropecuário de 1995/6, porque essa pesquisa define agricultura familiar da mesma maneira que foi abordado neste trabalho. Em relação à ocupação pessoal, a agricultura familiar é a principal geradora de posto de trabalho no meio rural brasileiro. Mesmo dispondo de 30% da área, é responsável por 76,9% do Pessoal Ocupado. Os agricultores familiares são responsáveis por 16,8% do total de empregados permanentes contratados no Brasil, enquanto que os patronais são responsáveis por 81,7%.

Este segmento familiar tem um papel crucial na economia das pequenas cidades - 4.928 municípios têm menos de 50 mil habitantes e destes, mais de quatro mil têm menos de 20 mil habitantes. Estes produtores e seus familiares são responsáveis por inúmeros empregos no comércio e nos serviços prestados nas pequenas cidades. A melhoria de renda deste segmento por meio de sua maior inserção no mercado tem impacto importante no interior do país e por conseqüência nas grandes metrópoles. Esta inserção no mercado ou no processo de desenvolvimento depende de tecnologia e condições político-institucionais, representadas por acesso a crédito, informações organizadas, canais de comercialização, transporte, energia, dentre outros (PORTUGAL, 2004).

Do mesmo modo, os investimentos realizados na agricultura são inferiores para os produtores familiares. Dos investimentos realizados, a agricultura familiar é responsável por 32% e os patronais por 66,1% do total. Entretanto, os investimentos por hectare realizados pelos produtores familiares são mais elevados que os patronais: R$ 23,50/ha e R$ 21,30/ha, respectivamente. Os principais destinos dos investimentos realizados pelos agricultores familiares são a formação de novas plantações e a compra de animais, seguidas de máquinas e benfeitorias e compra de terras (MACHADO e SILVA, 2004).

O desafio é maior se for considerada a diversidade de situações. Quando se analisa o cenário em que se insere a agricultura familiar observa-se que os problemas são diferentes para cada região, estado ou município. No Norte há dificuldades de comercialização pela distância dos mercados consumidores e esgotamento da terra nas áreas de produção. No Nordeste são minifúndios inviáveis economicamente. No Sudeste é a exigência em qualidade e salubridade dos produtos por parte dos consumidores. No Sul é a concorrência externa de produtos do MERCOSUL (PORTUGAL, 2004).

Mesmo assim, é possível observar atualmente nas prateleiras dos supermercados uma grande diversidade de produtos oriundos da agricultura familiar, com marca própria e registro nos órgãos oficiais de defesa sanitária. São várias as Associações que procuram atingir padrões de qualidade e alcançar nichos de mercado.

4. Participação da Agricultura Familiar na Produção de Hortaliças

O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas, legumes e verduras (FLV) do mundo, cujo valor de produção foi de R$19 bilhões em 1999, próximo à soma da produção dos principais grãos. Esse mercado possui ainda uma perspectiva de crescimento muito mais favorável do que os grãos. Em termos de consumo per capita, o Brasil consome 19kg/hab./ano de FLV, na Europa este consumo, em alguns países, chega a 120kg/hab./ano. Tal fato evidencia o potencial do mercado interno brasileiro. A olericultura - tanto comercial como de subsistência - tem um importante papel na atividade agrícola familiar, contribuindo para o seu fortalecimento e garantindo sua sustentabilidade (FAULIN e AZEVEDO, 2003).

No Estado de São Paulo, por exemplo, apesar de terem participação de apenas 1% na área total cultivada com as principais culturas, as olerícolas respondem por cerca de 9% do total da demanda da força de trabalho agrícola (DEL GROSSI e SILVA, 2002a). Esse fato, pelo ponto de vista econômico, é muito importante já que permite uma renda relativamente constante à família produtora de hortaliças e, pelo ponto de vista social, permite a ocupação dos membros da família em uma mesma atividade durante todos os períodos produtivos, o que garante a lida no mesmo lugar de moradia e a manutenção das relações familiares.

Ainda diante desse quadro, torna-se importante salientar que devido à demanda e à produção constante dessa atividade (menos dependente de longos ciclos produtivos) a mão-de-obra do estabelecimento não passa por oscilações severas. Afinal, para esse tipo de produção, praticamente todos os dias são dias para o preparo da terra, para o plantio, para a colheita, para o controle de pragas, dentre outras atividades. Além do mais, em função da maior exigência por mão-de-obra na olericultura (principalmente a orgânica) as ações públicas destinadas a promover os sistemas orgânicos têm maior receptividade junto aos produtores familiares, resultando em número maior de ocupações e, sobretudo, melhor renda para os membros da família ou contratados.

As principais vantagens na aquisição de hortaliças de agricultores familiares são a alta qualidade dos produtos e os baixos preços praticados. Entretanto, na época da chuva, os produtores familiares têm a qualidade dos produtos reduzida e dificuldades para manter a regularidade de entrega, o que contraria as principais exigências das empresas varejistas.

5. Novas Alternativas para a Olericultura Familiar: Produção Alternativa para um Mercado Alternativo

As tendências recentes do sistema agroalimentar caracterizam-se principalmente pelas tendências de processos de diferenciação no consumo dos alimentos, cujos reflexos vão até as etapas da produção agrícola. Gradativamente, a valorização de produtos com atributos diferenciados de qualidade cria novas oportunidades de mercado, muitas das quais, acessíveis aos diversos agricultores. As novas oportunidades incluem desde a inserção desses agricultores em mercados de nicho nacionais e internacionais, nos mercados com denominação de origem e nos mercados orgânicos, até o aprimoramento dos circuitos regionais de produção, distribuição e consumo de alimentos.

As novas possibilidades de inserção da agricultura familiar nos mercados agroalimentares com base em estratégias autônomas requerem uma ótica de “construção de mercados” adequada à realidade dos agentes econômicos de pequeno porte (MALUF e WILKISON, 1999). Ao se considerarem os mercados como resultado de construção social, elementos tais como os processos que levam a construção do próprio valor dos produtos; as relações que se estabelecem entre os agentes econômicos (produtivos, comerciais e financeiros) e a instituição de formas associativas unindo produtores ganham importância.

A agricultura familiar mantém vínculos simultâneos de distintos tipos com os mercados de produtos agroalimentares em razão do seu perfil produtivo diversificado. Assim, a reprodução das unidades familiares rurais baseia-se no conjunto das atividades produtivas por elas desenvolvidas e nos vínculos com os mercados que lhes são correspondentes. Há sempre que mencionar a parcela da produção que é destinada ao autoconsumo, importante componente da reprodução dessas famílias (da sua segurança alimentar). No que se refere aos fatores “dentro da porteira”, as opções de estratégia de inserção nos distintos mercados dependem da disponibilidaddisponibilidade de recursos e implicam distintas combinações dos recursos produtivos disponíveis no interior das unidades familiares. A essa combinação acrescentam-se as hortaliças e as frutas, que, em alguns casos, podem integrar o núcleo principal dos cultivos comerciais (MALUF, 2004). 

A estratégia sugerida nesse trabalho apóia-se, portanto, na maior agregação de valor ao produto final, através da utilização de métodos de cultivos não convencionais. Sua vantagem mais evidente está na apropriação, pelas famílias rurais, de maior parcela do valor do produto final de consumo. Contudo é importante que a estratégia voltada para o produtor familiar busque nos modelos existentes aprimorar um padrão diversificado e sustentável. Até porque a agregação de valor às matérias-primas agrícolas e as novas formas de inserção nos mercados fazem-se, em geral, de forma gradativa, sem romper, imediatamente, as relações comerciais preexistentes. 

Cada vez mais nota-se a presença de produção vegetal em sistemas protegidos e utilizando métodos alternativos como ocorre nas estufas e na produção hidropônica. A produção rural tem buscado novos fôlegos e nichos de mercado com pouca ou nenhuma exploração. Principalmente a agricultura familiar que encontrou muitas vezes entre os produtos orgânicos, os artesanais, no turismo ou em outras atividades não-agrícolas motivos para se multiplicar e fortalecer. 

Nesse sentido uma abordagem alternativa seria direcionar esses produtores para culturas de maior valor agregado, fora do segmento de commodities, cujos mercados ainda não estão tão bem organizados, como, por exemplo, o de algumas plantas medicinais, de fontes de corantes ou nutrientes naturais, de plantas aromáticas ou condimentares, certas frutas e hortaliças, cujas tecnologias de produção, mesmo as mais modernas, ainda são relativamente intensivas em mão-de-obra e se prestam à aplicação em escalas reduzidas de cultivo (VIEIRA, 1997). 

Ou seja, direcionar ainda mais esse segmento para atividades agropecuárias, ou a elas relacionadas, que permitissem algum grau de diferenciação de produtos ou sua associação a marcas. E nesse caso se enquadrariam, por exemplo, produtos agropecuários com atributos específicos para determinadas aplicações, como vegetais tecnologicamente adequados para conservas, frutas e hortaliças de maior resistência e vida útil, produtos orgânicos e outros. 

O expressivo crescimento da olericultura familiar é resposta, então, à grande expansão e diferenciação do mercado consumidor, alavancado principalmente pelas novas tendências de consumo. Houve nessas transformações mercadológicas (culturais, sociais, educacionais, legais), por exemplo, a aparição das redes fast food, da comida congelada, dos alimentos liofilizados e muitos outros. Além da grande manutenção daqueles mecanismos comerciais já existentes, como por exemplo, as feiras, os mercados, os supermercados e os demais. Esses que embora possam se auto-abastecer por meio de produção integrada, geralmente estabelecem parcerias com os agricultores. Segundo Del Grossi e Silva (2002a), essa relação dos agricultores com as redes de supermercado e de fast food, além do fornecimento para sofisticados hotéis e restaurantes, acaba por determinar mudanças na forma de produzir e comercializar esses produtos. 

Para se ter uma ideia, os estudos de Belik e Chaim (2002 apud FAULIN e AZEVEDO, 2003) informam que um supermercado de porte médio reserva 10,5% da sua área de venda para os hortifrutícolas, contribuindo com 7,5% do seu faturamento anual. Na França, a contribuição das frutas, legumes e ver-duras (FLV) no faturamento das lojas é de 4% a 6% para os hipermercados e de 10% a 12% para os supermercados. Esse aumento de impor¬tância tem feito com que os supermercados se preocupem mais com a qualidade dos produtos, não apenas com a aparência, mas também com o sabor e seus valores nutricionais. 

Já se nota, ainda que de maneira incipiente, que as empresas que atendem às novas demandas apresentam investimentos significativos em qualidade e apresentam um grande aumento na competição por esse segmento do mercado. Além do mais, dentro dos “novos” grupos de consumidores identificam-se subgrupos importantes, influenciados por costumes étnicos ou regionais, cuja demanda por alimentos tem significativas ligações com traços culturais específicos, e que além dos produtos da indústria de âmbito nacional, consomem produtos diferenciados, geralmente oferecidos por agroindústrias alimentícias de âmbito local ou regional. Ainda nesse sentido, Vieira (1997) faz previsões de que uma influência que deve crescer de importância nos próximos anos diz respeito à ação de entidades de proteção ao consumidor, que trabalham levantando e disseminando informações sobre características de segurança e qualidade de produtos. 

No entanto, deve-se levar em consideração que uma característica importante do mercado de alimentos é a não aceitação de mudanças rápidas ou radicais na forma dos produtos. A modernização e as mudanças mais profundas, em busca de maior produtividade e qualidade, acontecem nos processos de produção, na apresentação e embalagens dos produtos e nos processos gerenciais das empresas. As alterações no produto em si, tais como novas formulações ou outras mudanças nas características sensoriais, são operadas lentamente e com muita cautela (VIEIRA, 1997). 

Contudo, há uma maior diversificação da produção de olerícolas para garantir um melhor atendimento aos novos grupos de consumidores, um melhor abastecimento e uma maior receita. Também ocorrem mudanças nos sistemas de produção, com a introdução da hidropônica e do cultivo orgânico, por exemplo. Outra mudança importante diz respeito ao processamento das olerícolas e sua comercialização na forma de saladas ou produtos individuais prontos para o consumo, cujos preços chegam a ser 30% maiores que o produto in natura, constituindo-se num meio de agregação de valor para os agricultores, bem como de criação de empregos (DEL GROSSI e SILVA, 2002a). 

Essas novas possibilidades de geração de renda – conforme sugerido por Del Grossi e Silva (2002b) no “O Novo Rural”, tem como uma de suas características um conjunto de “novas” atividades agropecuárias, localizadas em nichos especiais de mercados. Quando esses autores utilizaram o termo ‘nova’, colocaram-no entre aspas justamente porque muitas dessas atividades, na verdade, são seculares no país, mas não tinham, até recentemente, importância econômica. Eram atividades de "fundo de quintal", hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais e outros) que foram transformados em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes. 

Ainda nesse sentido é importante ressaltar Van Der Ploeg (2009) que toma o exemplo da disseminação da agricultura familiar na Europa, onde essa vem sendo, recentemente, fortalecida pelo processo de recampesinização. Deve-se eliminar, contudo, a idéia de que a agricultura familiar (camponesa, segundo o autor) seja atrasada, sendo que isso também não é obstáculo para o desenvolvimento e a mudança, mas pode ser um excelente ponto de partida para tanto. 

A característica fundamental do modo camponês, de acordo com Van Der Ploeg (2009), é ser orientado para a produção e para o aumento de valor agregado. O crescimento se realiza, no plano da unidade de produção, com base o processo do trabalho. O crescimento é realizado em ciclos prévios, ou no próprio ciclo corrente, e é chamado de “crescimento autônomo – orgânico”. Uma importante conseqüência do modo de produção camponês é que ele produz um crescimento contínuo do valor agregado, sobretudo, do valor agregado cultural. 

Nesse sentido, nota-se que boa parte dos agricultores tem começado a diversificar suas atividades a partir da efetivação de uma série de alternativas: novos produtos (e serviços) são produzidos, com criação simultânea de novos mercados e novos circuitos mercantis; distanciamento em relação aos principais mercados de insumos; reconexão da agricultura com a natureza; pluriatividade; novas formas de cooperação local e reintrodução do artesanato. Sendo que essa reintrodução está associada ao desenvolvimento e à implementação de uma nova geração de tecnologias baseadas na habilidade técnica e resulta na produção de inovações. Essas tendências de desenvolvimento são resumidas, por Van der Ploeg (2009), como desenvolvimento rural ou criação de multifuncionalidade (recampesinização). 

Muitas dessas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, hoje assumem importantes fontes de renda para valorização e fortalecimento da agricultura familiar, caso da produção de hortaliças sem uso de fertilizantes químicos e defensivos, com um valor agregado ancorado na sustentabilidade e na saúde. 

6. Produção Orgânica de Hortaliças 

A agricultura orgânica representa uma oportunidade de valorização da produção agrícola, principalmente de hortaliças, uma vez que existe demanda por esses produtos frescos, em particular nas grandes cidades. A agregação de valor que o sistema de produção acrescenta a esses produtos estimula a expansão da produção e garante a inserção em novos nichos de mercado. No entanto não basta ser orgânico para ter qualidade, o produto tem que ser um alimento com qualidade, isto é, no mínimo saudável - alimento sem resíduos de agrotóxicos, sem aditivos químicos (muito usados nos alimentos industrializados) e também sem contaminações microbiológicas prejudiciais a saúde humana. Por isso, de uma maneira geral, nota-se uma tendência em consumir alimentos frescos (“in natura”) e, sempre que possível, produzidos de forma orgânica. 

A produção orgânica de hortaliças é uma atividade que demanda recursos financeiros relativamente baixos, sobretudo para a produção familiar. Neste caso, os principais fatores limitantes são a falta de conhecimento técnico e a dificuldade de certificação do produto. Contudo, torna-se relevante destacar que, além de produção qualificada de alimentos, o agricultor e sua família promoverão a utilização sustentável da propriedade e ainda terão uma alimentação equilibrada, variada e garantida. Isso permite um auto-abastecimento do estabelecimento e gera um excedente que será comercializado a um preço mais favorável ao produtor. 

Dentre os vários aspectos que interferem a conversão da agricultura convencional para a orgânica estão os aspectos econômicos, políticos e sociais. Os quais precisam ser considerados quando o assunto é uma produção em maior escala. As dificuldades de mercado junto às perdas iniciais de produtividade (devido ao tempo para recondicionamento do solo) geram incertezas que por fim desestimulam uma maior receptividade da maioria dos agricultores - mesmo considerando os preços melhores que os consumidores estão dispostos a pagar. 

É evidente que historicamente, os primeiros movimentos ligados à agricultura orgânica no Brasil sempre estiveram relacionados à produção de hortigranjeiros. O chamado segmento de FLV (frutas, legumes e verduras) frescos, principalmente hortaliças (legumes e verduras). 

Em relação à comercialização de hortaliças orgânicas, ela teve origem em dois sistemas principais: as feiras livres e a entrega de cestas à domicílio que, apesar do sucesso inicial, têm representado dificuldades para a expansão da olericultura orgânica para um grande número de agricultores. Diante desse quadro, os supermercados aparecem cada vez mais como um caminho para uma efetiva expansão desse mercado. No Brasil, seguindo uma tendência mundial, grandes redes de supermercados têm mostrado interesse crescente nesses produtos, que é para muitos agricultores orgânicos uma importante alternativa para comercialização de seus produtos (AMARAL, 1996 e MEIRELLES, 1997 apud ASSIS e ROMERO, 2007). 

Para se ter uma ideia da importância que esse setor pode trazer à agricultura familiar, segundo pesquisa feita pelo Instituto Gallup (1996) na cidade de São Paulo sobre o mercado de legumes e verduras (LV) orgânicos, há um enorme potencial de crescimento desse mercado, já que os compradores desses produtos possuem consciência dos problemas de contaminação das hortaliças produzidas com agrotóxicos. A mesma pesquisa coloca ainda que a grande maioria prefere hortaliças orgânicas e admitem pagar de 20% a 30% mais caro por isso, desde que a venda seja feita em condições atraentes e garantidas. 

Para se ter uma noção da importância e da evolução da agricultura orgânica no Brasil, do ano de 2001 ao ano de 2003 houve um crescimento na área planta de mais de 210%. Ou seja, no ano de 2001 a área plantada era apenas de 270.000 hectares enquanto que em 2003 ultrapassava o 840.000 hectares (Figura 1). E a distribuição dessa produção, neste ano, se fazia da seguinte forma: Sudeste 60%; Sul 25%; Nordeste 9%; Centro-Oeste 3% e Norte 3%. 

De acordo com as estatísticas apresentadas pelo SEBRAE (PEIXOTO, 2004), o Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de propriedades com lavoura orgânica – na ocasião estudada havia cerca de 19 mil agricultores. E nestas propriedades, de 70 a 80% são agricultores familiares. É uma nação com grande potencial para esse tipo de agricultura por apresentar uma ótima localização, riqueza da biodiversidade e condições climáticas variadas para cada tipo de cultura, potencial de produção de produtos com alto valor agregado, possibilidades de verticalização da produção e principalmente pela demanda dos mercados internos e externos. Porém, há quem veja essas variações ou “faces do Brasil” como dificuldades para a padronização e organização da produção. Embora esse fato seja verdade para o estudo desses estabelecimentos familiares, há outros muito mais otimistas que vêem a diversidade como grande oportunidade. Por isso, Bellon e Abreu (2005) afirmam que o desenvolvimento da agricultura orgânica no Brasil tem múltiplas formas, além de diversos nichos de mercado ou de oportunidades de exportação. Consiste, portanto, numa prática social alternativa, que recria espaços de produção e novas relações entre produtores, mercado e consumidores. 

Entende-se que a agricultura orgânica não é somente uma forma de produção ou um método cultural, mas também um instrumento articulador de prática social. Ou seja, a agricultura orgânica funciona no sentido de renovar as relações entre produtores e consumidores e, também, estabelece interações como os agentes de certificação (públicos ou privados). A diferenciação dessa forma de organização se faz por conjunto de valores que necessitam ser caracterizados. A Agricultura Orgânica não se resume a uma substituição de fatores químicos de produção, freqüentemente qualificados de agrotóxicos ou de veneno, pelos produtores orgânicos. A atividade orgânica convida a conhecer novas formas de explorar e monitorar o solo, que podem resultar numa exploração racional dos recursos hídricos e numa efetiva aplicação das disposições legais, conforme relatam BELLON E ABREU (2005). 

7. Selos e Certificações 

Os selos e as certificações são importantes ferramentas a serem utilizados pelos produtores familiares de orgânicos, ou seja, servem para garantir e atestar a real forma de cultivo empregada durante o processo produtivo. Além de receber o amparo legal para inserção em alguns programas de governo que auxiliam de maneira relevante esse setor. 

Além da dificuldade em produzir orgânicos, o produtor encontra uma grande dificuldade na certificação. Existem diversas etapas (muitas vezes burocráticas) de reconhecimento dos orgânicos. Segundo Bellon e Abreu (2005), a primeira etapa de reconhecimento da agricultura orgânica consiste na elaboração de normas relativas à produção, transformação, identificação e certificação da qualidade de produtos vegetais e animais. De acordo com a pesquisa apresentada pelo SEBRAE (PEIXOTO 2004), no Brasil, observa-se a divisão da quantidade de certificadoras por região da seguinte forma: Sudeste 16% (15); Sul 24% (6); Nordeste 12% (3); Centro Oeste 4% (1) e a região Norte não possui certificadoras. 

No entanto, a opção de certificação em grupo permite uma considerável redução do custo de certificação, além das diversas possibilidades de certificação filiadas a associações. Conseqüentemente, seria importante que os produtores orgânicos fizessem parte de organizações ou tivessem um meio de controle que fosse capaz de imprimir confiança ou estivesse de acordo com a legislação. 

Com o intuito de alcançar nichos de mercado, com um valor mais elevado para o produto, independente dos entraves, a produção de orgânicos tem compensando o maior custo de produção. Então, a presença de "selos" certificando a origem orgânica dos produtos, tem-se tornado necessária em nossos mercados, fornecendo um enorme diferencial de competitividade desses produtos. Analiticamente a certificação de produtos abriu um amplo leque de atuação de garantia de qualidade, tanto para instituições governamentais como não governamentais, seguindo normas nacionais e até internacionais. Os certificados vão desde os orgânicos, naturais, não transgênicos, de origem regional, ou mesmo com maior apelo social, como a ausência de trabalho infantil. 

De acordo com Caldas et al. (2007), a lógica de atuação das empresas certificadoras, que funcionam atualmente nos mercados de produtos agropecuários, mostra-se invariavelmente refratária à realidade do agricultor familiar. As contradições decorrem, entre outros aspectos, da cobrança de taxas elevadas, da ausência de compromissos sociais e da falta de identidade com os princípios democráticos e participativos. É justamente por isso que se tenta construir em algumas situações uma proposta de certificação social e solidária que requeira uma filosofia de atuação estribada, entre outras coisas, na participação dos atores sociais em todas as etapas do processo de construção, mormente os que se orientam no intuito de forjar uma identidade enquanto produtores de artigos com um forte apelo social. 

Contudo, de nada serve as diversas tentativas sociais e os benefícios dessas estratégias se os próprios atores não tiverem consciência do processo de certificação. Os participantes devem reconhecer e se esforçarem juntos aos demais setores sociais para definir o sucesso de suas iniciativas. 

O Ministério da Agricultura, Pesca e Abastecimento (MAPA) publicou, em junho de 2004, a Instrução Normativa nº 016/04, que altera alguns pontos da Instrução Normativa 007/99, a qual estabelece, entre outras coisas, a Declaração de Conformidade do Produtor como instrumento voltado à garantia da qualidade dos produtos orgânicos registrados no MAPA (insumos, matéria prima – grãos, cereais, carnes e bebidas), conforme relata Caldas et al. (2007). 
Para obtenção do registro junto ao MAPA, torna-se necessário que se cumpra alguns critérios de avaliação da conformidade, tais como o fato de ser membro de um grupo ou associação. Isso gera uma série de desafios a serem superados para levar a frente o processo de certificação. Dessa forma, há a possibilidade de incremento na renda e ampliação do universo de possibilidades de comercialização. Tal certificação é oriunda de uma proposta que vai muito além da garantia de um produto sem agrotóxicos, que tem como pretensão transmitir uma identidade social com diferentes formas de relação entre as pessoas e o mercado. Na prática observa-se que a certificação participativa é resultado do compromisso/confiança das famílias com o grupo envolvido. 

Certificação solidária pode ser entendida como uma iniciativa com características que permitem a auto-gestão. Gestão esta exercida e fiscalizada, durante todo o processo produtivo, pelos próprios participantes da produção. Isso garante qualidade dos produtos no sentido mais amplo, pois além de trazer melhorias para o produto final, garante qualidade econômica, social e ambiental. De acordo com Prezotto (2005), as diretrizes promocionais de mercado tendem a modelar os gostos alimentares da população que, depois da segunda guerra mundial, têm se orientado por alimentos cosmeticamente perfeitos, sem manchas e imperfeições visuais de nenhum tipo. Sendo esse um papel totalmente irrelevante a qualidade do produto. Se o agricultor não aplica determinada quantidade de pesticida na produção, por exemplo, de maçãs, não poderá lançar no mercado maçãs visualmente perfeitas e não obterá o máximo preço possível. 

Na ansiedade por convencer os consumidores a comprar determinada mercadoria e na ausência de mecanismos claros e precisos de controle, um produto de boa aparência e praticidade e com boa estratégia de marketing, mas de qualidade duvidosa quanto à sanidade, à higiene e à pureza química, por exemplo, pode passar uma imagem enganosa aos consumidores. No entanto, um produto de qualidade ampla, além de atender a critérios pré-estabelecidos pelo mercado, deve contemplar o caráter de desenvolvimento e de inclusão social que contribua para a formação da cidadania. Deve ser bem mais que um produto bonito ou sadio, precisa trazer qualidade também para aqueles que participam do processo produtivo, conforme relata Prezotto (2005). 

Essa certificação é oriunda de uma proposta que vai muito além da garantia de um produto sem agrotóxicos, que tem como pretensão transmitir uma identidade social com diferentes formas de relação entre as pessoas e o mercado. Na pratica observa-se que a certificação participativa é resultado do compromisso/confiança das famílias com o grupo envolvido. 

Considerações Finais 

Durante muitas décadas tem sido possível constatar a importância da agricultura familiar para produção de hortaliças e para manutenção da segurança alimentar. Por maior que sejam as variações e diversidades da agricultura familiar no território nacional, observa-se que as tendências de mercado abrem um espaço significativo para a entrada da produção orgânica. Mercado esse transformado e alternativo que tem dado muita importância à qualidade, diversidade, sustentabilidade e saúde. Assim sendo, diante das características específicas da agricultura familiar, da olericultura e, sobretudo, da produção orgânica, torna-se possível traçar expectativas de agregação de valor e melhorias na renda para um setor que tem enfrentado dificuldades no Brasil - o setor agrícola familiar. 

Como forma de suprir as deficiências das diferentes categorias socioeconômicas vê-se que a agricultura orgânica tem um papel extremamente relevante no processo de construção de valor agregado. Segundo Assis e Romero (2007), no caso da olericultura orgânica especificamente, não se observam diferenças marcantes entre produção familiar e não-familiar no que tange à interação com o mercado e o acesso a informações. É nesse sentido, então, que se sugere a horticultura orgânica como forma de produção alternativa para a agricultura familiar. 


Ferreira On 7/10/2016 02:21:00 PM Comentarios LEIA MAIS

sexta-feira, 10 de junho de 2016



Implantation and Management of an Agroecosystem According to Ernst Götsch's Syntropic Agriculture Principles

Autores: ANDRADE, Dayana Velozo Pastor1 ; PASINI, Felipe dos Santos2 .

1..Projeto Agenda Götsch, www.agendagotsch.com, dayana.andrade@gmail.com; 2. Projeto Agenda Götsch, www.agendagotsch.com, felipepasini@gmail.com.

Publicação: Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 9, No. 4, Nov 2014


Resumo: A realização de um projeto audiovisual em parceria com o agricultor Ernst Götsch oportunizou o registro da aplicação dos princípios da Agricultura Sintrópica na implantação e manejo de um experimento agroflorestal no sul da Bahia. O objetivo foi demonstrar estratégias de recuperação de solos com fortes indícios de degradação por meio de técnicas que privilegiam a sucessão das espécies. Foram feitos consórcios complexos com espécies estratégicas como a Acacia mangium, buscando alcançar as condições ideais, sem o uso de insumos mas sim por meio de processos. Com isso é possível reintegrar o homem ao ambiente do qual ele faz parte, ressignificando a função do agricultor cuja intervenção resulta no aumento de recursos em todos os níveis. Após dois anos de experimento, a regeneração natural foi visivelmente estimulada, foram colhidas 28t de mandioca ha-1 , as espécies madeireiras estão estabelecidas e, em um futuro breve, o ambiente herdará uma agrofloresta capaz de evoluir por sua própria dinâmica. 

Palavras-chave: produção de alimentos, recuperação de áreas degradas, resiliência dos sistemas. 

Abstract: The production of an audiovisual project in partnership with the farmer Ernst Götsch provided an opportunity to register the application of Syntropic Agriculture's principles in implementation and management of an agroforestry experiment in southern Bahia. The objective was to demonstrate soil recovery strategies with strong signs of degradation through techniques that favor the succession of species. Strategic complex consortia were designed with species such as Acacia mangium, seeking to achieve the ideal conditions not via inputs but via processes. This makes it possible to reinstate the man to the environment which he is part, redefines the role of the farmer whose intervention results in increased resources at all levels. After two years of experiment, natural regeneration was visibly stimulated, 28t ha-1 of cassava were harvested, species of timber are established and, in the near future, the environment will inherit an agroforestry able to evolve by its own dynamics.

Keywords: food production, restoration of degraded soil, system's resilience.



Contexto 

Ao redor de todo o mundo, agricultores e pesquisadores desenvolvem soluções e práticas sustentáveis diariamente. Apesar disso, as ciências da sustentabilidade, por serem uma área cuja sistematização é ainda relativamente recente, requerem o amadurecimento de seu corpo teórico de modo a se tornar capaz de responder às questões urgentes de nosso tempo. E, dentre essas demandas, está uma pergunta fundamental: o que é agricultura sustentável? Em meio a tantos esforços pela busca de respostas e tantas controvérsias em torno das técnicas e tecnologias, podemos assegurar que a única certeza que podemos ter é a de que uma boa definição de agricultura sustentável emergirá da identificação do denominador comum extraído de experiências reais. Para isso, apresentar a história de como foram alcançados resultados bem sucedidos se mostra peça fundamental na construção da base teórica e prática que dará suporte às ciências da sustentabilidade, contribuindo dessa forma para a transição em direção a uma agricultura realmente sustentável. Também não podemos deixar de considerar que vivemos hoje uma importante fase da chamada "era da informação", em que a validação do conhecimento está intimamente ligada à sua difusão e o aprimoramento de ambos os processos é amplamente exigido. Em um contexto de novas mídias e redes colaborativas, ideias inovadoras comunicadas de forma eficiente têm o potencial de alcançar resultados compatíveis com a velocidade, o alcance e a intensidade de nosso tempo. Nossa participação nesse sentido se dá com o registro por meio de ferramentas audiovisuais da experiência de acompanhamento da implantação de uma área de cultivo em terras degradadas em Piraí do Norte/BA, segundo os métodos desenvolvidos por Ernst Götsch, procurando, eventualmente, constatar a eficiência não só de seu desenho e implantação, mas também das decisões e intervenções que seriam feitas durante o manejo da área. Hoje esse projeto já está em seu terceiro ano de vida e o material audiovisual resultante tem sido organizado e publicado no site www.agendagotsch.com de livre acesso ao público, sob a licença creative commons de uso não comercial, contribuindo assim para a ampla divulgação do tema. Tanto o trabalho em campo quanto o trabalho de divulgação continuam em andamento e aqui procuraremos compartilhar parte das observações e resultados alcançados até o momento. Ernst Götsch é um agricultor e pesquisador suíço que migrou para o Brasil no começo da década de 80 e se estabeleceu em uma fazenda na zona cacaueira do sul da Bahia. Desde então, vem desenvolvendo técnicas de recuperação de solos por meio de métodos de plantio que mimetizam a regeneração natural de florestas. Com o acúmulo de mais de três décadas de trabalho que resultaram na recomposição de 410 hectares de terras degradadas (dos quais 350 foram transformados em RPPN, a primeira da Bahia), Götsch elaborou um conjunto de princípios e técnicas que viabilizam integrar produção de alimentos à dinâmica de regeneração natural de florestas, sempre complexificando sistemas, ao que convencionou chamar de Agricultura Sintrópica.

Descrição da Experiência 

Embora o trabalho de Ernst Götsch tenha se tornado extensamente conhecido por meio de mídias, cursos e consultorias, ainda há profunda insciência sobre a manutenção de Sistemas Sintrópicos, especialmente após a implementação. Segundo Götsch, para se estabelecer tal sistema 5% do trabalho está em sua implantação e 95% no manejo. Desta forma, foi essencial realizar esta experiência na Bahia para assim assegurar a precisão dos dados e a garantia da aplicação dos princípios da Agricultura Sintrópica, já que o próprio criador do conceito seria o responsável pela manutenção e manejo da área. Para o início do projeto no ano de 2012, Ernst Götsch selecionou em sua Fazenda Olhos d'Água uma área experimental de 1.140m2 que se encontrava em pousio há 80 anos, e cuja vegetação e solo denunciavam alto grau de degradação. A área localiza-se às margens da BA 250, estrada que faz a ligação entre os municípios de Gandu e Ituberá, na longitude 13º77'75''W e latitude 39º32'49''S, com altitude de 350m e 5º de inclinação. Pesquisando o histórico da área escolhida para a experiência, tomou-se conhecimento de que lá predominavam originalmente as características de Floresta Ombrófila Densa sub-montana, até que em 1925 iniciou-se a derrubada e queima dessa mata para o plantio de mandioca (Manihot spp.). Entre os anos de 1930 a 1940 relatos dos moradores apontam que a área foi destinada à pastagem de equinos e manejada anualmente com fogo. A partir de 1941 até o ano de 2012 - início do projeto - foi deixada em pousio, sem registros de fogo, segundo testemunho dos vizinhos próximos e do próprio Ernst Götsch de 1982 em diante. A vegetação no momento da implantação da experiência era constituída aproximadamente por: 70% de feto-de-gaiola (Pteridium aquilinum) com até dois metros de altura; 1% de tiririca-navalha (Cyperus rotundus); 19% de árvores e arbustos, em sua maioria melastomastáceas com até seis metros de altura - sendo que estas últimas não conseguiam sobreviver a ponto de produzir sementes, o que Götsch atribuía à baixa resiliência do sistema, incapaz de dar um novo passo no caminho da complexificação. Essa hipótese foi fundamental para orientar as tomadas de decisões durante o processo. A partir dessa lógica foram determinadas tanto a escolha das técnicas de plantio quanto a seleção das espécies que iriam compor o sistema, como explicaremos mais adiante. As características do solo correspondem às identificadas por Fabiana M. Peneireiro como "solos latossólicos e podzólicos argilosos com alto grau de intemperização, profundos, ricos em óxido de ferro e alumínio, considerados pouco férteis, derivados de rochas gnaissicas e graniticas de planalto cristalino, do período Pré-Cambriano" (PENEIREIRO, 1999). A análise de solo indicou pH 4.9. Segundo Götsch, a região fora considerada não propícia e não recomendada para o cultivo de cacau segundo o mapa das terras da zona cacaueira feito pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC).

O plantio da área experimental ocorreu entre os dias 30 de junho e 4 de julho de 2012 e o preparo contou com os seguintes passos: 

1. Roçagem da área de 1.140m2 , o que resultou em uma camada de aproximadamente 20cm de matéria orgânica. 2. Derrubada da vegetação arbórea, com recorte do material resultante e a separação das madeiras de espessura maior que 6cm de diâmetro para uso como lenha, gerando um total de 4.8m3 de lenha. 3. Aplicação de 30kg de calcário. Para o plantio das faixas de mandioca, distantes 1.5m entre si, foram feitos os seguintes procedimentos: 1. Recorte e afastamento da matéria orgânica em blocos de 40 x 40cm a cada 75cm.

2. Afofamento do solo descoberto. 

3. Plantio dos berços compostos por mandioca, sementes e mudas. As mandiocas foram plantadas com apenas os pés enterrados em um ângulo de 45o para direcionar a produção das raízes. Isso possibilita o plantio de sementes sob a outra extremidades (cabeça) das manivas. As sementes e suas quantidades por berço foram as seguintes: 3 a 5 - feijão carioquinha (Phaseolus vulgaris); 1 a 3 - feijão fradinho (Vigna unguiculata); 2 a 3 - feijão-de-porco (Canavalia Ensiformis); 3 - cacau (Theobroma cacao L.); 2 - cupuaçu (Theobroma grandiflorum); 1 a 2 - santa bárbara (Melia azedarach); 1 a 2 - jaca (Artocarpus heterophyllus); 1 semente a cada 40 berços - abacate (Persea americana); 3 - maracujá (Passiflora edulis); 1 a 3 - sombreiro (Clitoria fairchildiana); 1 a 2 - açaí (Euterpe oleracea); 1 a 2 - biribá (Eschweira ovata). As mudas por berço foram: 1 muda a cada 2 berços Acacia mangium e 1 muda a cada 5 berços eucalipto (Eucalyptus spp.). As sementes das 3 espécies de feijão foram inoculadas com Rhizobium para obter uma melhor capacidade de fixar nitrogênio.

4. As sementes foram misturadas em um substrato preparado previamente, o qual era composto por aproximadamente 50ml de terra peneirada, cerca de 50ml de esterco seco de gado e 30g de pó de rocha por berço. O material foi levemente umedecido para que as sementes menores pudessem aderir aos grumos do substrato. Por outro lado, as sementes de abacate não entraram na mistura pois, devido ao seu calibre desproporcional às demais, preferiu-se plantá-las uma a uma (nas mesmas condições do berço preparado) de modo a garantir uma boa distribuição. 

5. Imediatamente após o plantio, os berços foram cobertos com a matéria orgânica que fora previamente afastada, sempre mantendo um formato côncavo de berço ou ninho pois este formato fisicamente beneficia a entrada de água e mantém a temperatura mais baixa, contribuindo para o crescimento. 

Entre as faixas dos berços de mandioca foi preparada uma linha mais estreita, com cerca de 10cm de largura, para o plantio do margaridão (Tithonia diversifolia) e do feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), da seguinte maneira:

1. As estacas de margaridão foram inseridas em um ângulo de 20º sob a camada de matéria orgânica recortada com enxadão.

2. As sementes de feijão-de-porco foram plantadas a cada 30cm com ponta de facão. Na secção da área em que havia maior concentração de árvores foram preparados 12 berços para o plantio de banana da terra e banana prata antígua (Musa spp.), seguindo os passos:

1. Cada berço foi afofado a 40x40x40cm e recoberto com a matéria orgânica afastada para esse preparo. 

2. Os 12 berços receberam 3L de esterco seco de gado e 3L de cinzas cada, considerando este último como recurso (indireto) do próprio local, já que a lenha dali retirada seria queimada. 

Observa-se que a quantidade de adubo utilizado é praticamente simbólica, principalmente considerando que estamos tratando de solo degradado: 300kg de pó de rocha ha -1 , 260kg ha -1 de calcário e 5.360L ha -1 de esterco. Com isso pretende-se demonstrar que o objetivo é alcançar as condições ideais não via insumos mas sim via processos, tendo como principais ajudantes para esse primeiro momento o feijão-de-porco, o feijão carioquinha, a mandioca e a Acacia mangium.

O mão de obra necessária para a implantação dos 1140 m2 foi assim distribuída (considerando-se 1 trabalhador): quatro diárias para roçagem manual com facão; uma diária para derrubada e recorte da vegetação arbórea com motosserra; doze diárias para preparo das faixas da maniveira com facão e enxada; duas diárias para preparo das faixas do margaridão com facão e enxada; uma diária para colheita e preparo das estacas de maniveira e margaridão; meia diária para colheita das sementes que seriam usadas no plantio; uma diária e meia para plantio das maniveiras, sementes e mudas; uma diária para plantio da faixa do margaridão; uma diária para serviços diversos. Vale aqui uma breve descrição de alguns conceitos-chave que norteiam o pensamento de Ernst Götsch para que possamos voltar ao ponto em que se justificam a escolha de algumas das espécies acima citadas.

Um dos principais entendimentos que estão diretamente relacionados aos princípios de Agricultura Sintrópica relaciona-se com o fato de que os sistemas tendem sempre a evoluir das formas mais simples para as formas mais complexas - daí a nomenclatura "Sintrópica" que surge como contraposição ao conceito de entropia. Götsch impõe para si e para suas atividades esse imperativo como direcionador de todas as suas ações. Dessa forma, o papel do agricultor seria o de agente que maneja o ecossistema de modo com que o resultado de sua intervenção seja sempre o "aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada tanto no sublocal de sua ação como, consequentemente, no planeta por inteiro" (GÖTSCH, 2012). 

Este papel do agricultor sendo executado na prática foi o que pôde ser acompanhado no presente caso. Considerando a área que foi base para essa experiência, observou-se que, apesar do pousio de 80 anos, o sistema ainda não conseguia, por si só, recuperar o estágio original em termos de biodiversidade e qualidade do solo. Na região constatava-se facilmente a presença tanto dos dispersores como das matrizes. No entanto, mesmo assim, a exemplo das melastomastáceas que ali se encontravam, nenhuma apresentava saúde e vigor suficientes para sustentar o processo de complexificação do local.

Para Ernst Götsch certamente essa área chegaria a se recompor em algum momento, pois as atividades fotossintéticas estão presentes, o acúmulo de matéria orgânica do feto de gaiola é visível e os meios para que isso aconteça estão disponíveis nas dinâmicas naturais. Ou seja, a recuperação acontecerá, ainda que para isso leve muitos outros anos, o que para a vida no planeta significa um tempo irrisório. No entanto, para o ser humano, os 80 anos que já se passaram sem produtividade naquela área são um tempo significativo. E o ponto em que aquele ecossitema se encontra hoje, com as espécies mais exigentes tentando se estabelecer mas sem encontrar condições suficientes para isso, é basicamente o mesmo ponto em que ele já estava 40 anos atrás. Em situações como esta que emerge a função do agricultor como agente que pode se valer de estratégias que contribuam para a modificação positiva do ambiente, otimizando os processos de vida e promovendo a recuperação tanto da biodiversidade quanto da qualidade do solo, em um espaço de tempo consideravelmente reduzido em comparação com a regeneração que ocorre durante o pousio. Como subproduto dessa interação, temos a produção de alimentos e o ser humano reintegrado ao meio ambiente do qual ele faz parte. Voltamos, então, ao ponto em que surge a questão do uso de espécies como o sombreiro (Clitoria fairchildiana), o eucalipto (Eucalipytus spp.) e, principalmente, a Acacia mangium, todas elas exóticas para o local do experimento. Uma das estratégias utilizadas por Ernst Götsch para estimular o sistema a reagir à condição de degradação na qual se encontra é justamente a introdução de espécies oriundas de ecossistemas menos privilegiados no que diz respeito à disponibilidade de água e nutrientes. A presença dessas espécies menos exigentes no início do processo é o que garante o estabelecimento das outras espécies mais exigentes. O manejo adequado e as podas regulares garantem o aporte de matéria orgânica e promovem a cooperação entre todas as espécies, sendo que cada uma exerce sua função em seu determinado espaço-tempo. Ou seja, não há que se preocupar com a ocupação da Acacia mangium, por exemplo, pois ela naturalmente irá cumprir o seu ciclo de vida, que pela experiência de Götsch é de 7 a 10 anos quando dentro dos plantios. Após esse período - que será muito bem aproveitado pelo sistema considerando-se sua enorme capacidade de mobilização de nutrientes e de biomassa - a Acacia mangium irá se retirar da área que, a essa altura, já terá outras árvores de grande porte para ocupar o seu lugar. É importante lembrar que a fama de "invasora" geralmente associada à Acacia mangium está relacionada a sua capacidade de "invadir" áreas abertas, áreas degradadas, o que é uma característica bem vinda quando o interesse é reflorestar. "Eucalipto não é o mal em si, Acacia mangium não é o mal em si, o modo de plantá-los é que pode ser o mal" (GÖTSCH, 2012). Rotular espécies de maneira obtusa só faz com que as preocupações que deveriam recair sobre o modo como elas têm sido cultivadas se diluam em preconceitos que, na melhor das hipóteses, não têm finalidade alguma.

Aqui essas espécies são usadas como peças-chave para sucessão natural, contribuindo para que o sistema adquira a resiliência necessária para voltar a ser capaz de abrigar espécies mais exigentes. "Não existem inimigos quando compreendemos a função de cada participante do sistema. É a falta de compreensão que faz com que existam preconceitos contra o eucalipto e a Acacia mangium" (GÖTSCH, 2012). 

Resultados 

Em setembro de 2012, passados dois meses da implantação, foi possível constatar o sucesso do estabelecimento das mudas de Eucalyptus sp. e Acacia mangium. Apesar da comprovada presença de formigas cortadeiras (Atta e Acromyrmex), não houve ataques às plantas. Algumas das árvores começavam a nascer, as maniveiras e os feijões desenvolviam-se bem e aqui ressalta-se a importância do manejo. Nessa fase as intervenções de manutenção foram realizadas semanalmente e consistiam, basicamente, na retirada dos poucos brotos de regeneração de feto-de-gaiola e na poda do feijão-de-porco sempre que este ultrapassa a altura da maniveira. Nesses dois primeiros meses o feijão-de-porco foi podado duas vezes. Götsch não viu essa mesma necessidade para o feijão carioquinha pois, como seu ciclo é mais curto, ele não iria atrapalhar o desenvolvimento da mandioca, podendo inclusive valer-se dela como tutor.

Além da poda no feijão-de-porco e da retirada de eventuais brotos de feto-de-gaiola (cada vez mais raros e mais fracos), em dezembro de 2012 também foi feita poda no margaridão. Nesse mês começaram a ser podados o eucalipto e a Acacia mangium, esta última, em especial, correspondendo integralmente às expectativas de espécie estratégica para ajudar o sistema a dar o passo que precisava no sentido do aumento da resiliência. Em janeiro de 2013, após seis meses da implantação, houve um momento de déficit hídrico de cerca de quatro meses, comum na região para aquele período. Para Götsch, a época de seca no hemisfério sul equivale ao inverno no hemisfério norte, quando os sistemas entram em uma fase de "descanso", imprescindível para o maior vigor que virá logo em seguida. Para ele, portanto, a seca normalmente é benéfica pois, com ela são encaminhados processos que disponibilizam minerais justamente para a época das águas. Os efeitos da poda realizada em dezembro de 2012 dão sinais em janeiro de 2013, em forma de novos lançamentos que puderam ser observados nas mandiocas. Aqui a intervenção seguiu a mesma regra de podas do feijão-de-porco, da Acacia mangium, do margaridão e do eucalipto. Começou a ser possível identificar a regeneração natural ilustrada pela presença de espécies como candeia (Gochnatia polymorpha), taquari (Wisadula amplissima), pau-pombo (Matayba elaeagnoides), pau-pólvora (Trema micrantha) e embaúba (Cecropia pachystachya). Apesar da seca, houve novos lançamentos no cacau e no cupuaçu. Como foram plantados em grande número, nessa etapa foi possível ter a prerrogativa de se escolher por aqueles que melhor se desenvolveram, retirando os que apresentavam algum sinal de fragilidade. Alguns sombreiros também começavam a ultrapassar as maniveiras e então foram podados. Ainda em janeiro de 2013, os feijões já haviam sido colhidos e se retiraram do sistema, completando seu ciclo. Ernst Götsch entende que eles cumpriram sua função na sucessão e foram decisivos no estabelecimento das árvores. Evidência disso foi que nos pontos em que o feijão não se desenvolveu de maneira satisfatória a mandioca também não cresceu tão rápido e houve ataque de grilos nas árvores. Seguindo a mesma lógica da sucessão, a mandioca (estrato alto) fez o segundo passo, junto com o feijão-de-porco (estrato baixo-médio), qual seja o de formação de uma espécie de placenta para a futura floresta que ali irá se estabalecer.

Além do conjunto de sementes que foi plantado, Ernst Götsch confia aos dispersores do local a função de completar o sistema. Por sua experiência, ele afirma que a partir do segundo ano começam a ser incorporadas algumas lauráceas, mirtáceas e sapotáceas, todas trazidas por dispersores, pois estes sempre estiveram presentes, assim como as matrizes. A diferença será que, dessa vez, tais sementes encontrarão as condições adequadas para seu pleno desenvolvimento. Em fevereiro de 2013, a Acacia mangium passou por nova poda gerando, nesta ocasião, 9ton ha-1 de matéria orgânica seca e 135ton ha-1 de matéria orgânica verde. Em março de 2013 o eucalipto já havia sido podado quatro vezes - que foram quantas vezes ele chegou a ultrapassar a mandioca. A mandioca, por sua vez, apresentava novos lançamentos e estavam com 1,5m de altura em média. Também no mês de março de 2013 foram feitas algumas seleções, retirando o cacau que cresceu menos para otimizar o desenvolvimento das espécies cujo crescimento é mais lento, como por exemplo algumas anonácias e mirtáceas. O feijão-de-porco começava a amadurecer e logo teria cumprido a sua função, pois a mandioca começaria a crescer por cima dele. Seguem as podas na A. mangium que, apesar disso, já atinge uma média de 1,8m de altura, agora com 8 meses de plantio. Podam-se também especialmente eucalipto e sombreiro. Além desse trabalho, para cuja realização Ernst Götsch dedicou em média 30 minutos semanais, não foi feita nenhuma intervenção que demandasse enxada ou instrumento semelhante. Em maio de 2013 observou-se que a jaqueira e o sombreiro estavam quase acompanhando o crescimento da A. mangium e do eucalipto. Os abacateiros já estavam bem estabelecidos e o margaridão, embora não tenha crescido muito bem, recebeu de 3 a 4 podas e foi importante para ajudar a disponibilizar fósforo e nitrogênio. Começavam a aparecer as embaúbas indicando a transformação do solo. Em agosto de 2013 foi feita a colheita da mandioca que rendeu pouco mais de 28.000kg ha-1 . A partir desse momento as árvores deixaram de ser podadas. Conclui-se que a mandioca cumpriu um papel fundamental na criação das condições para o crescimento do grupo de plantas. São dessa época também os primeiros registros da presença de minhocas puladeiras (Amynthas gracilis). Em dezembro de 2013, a A. mangium e o eucalipto passaram por sua quinta poda. A A. mangium, nesse momento com média de 5 metros de altura, havia dobrado sua massa vegetal em comparação ao seu estado há 10 meses, quando foi realizada sua primeira poda drástica. Ainda em dezembro de 2013 a altura média do cacau chegava a 1 metro e a do cupuaçu e do abacateiro aproximadamente 1.5 metro.

Em março de 2014, por ocasião de um curso de capacitação que Ernst Götsch ministrou em sua fazenda, foi realizado um plantio na borda no sentido Norte da área experimental, aproveitando para aumentar a entrada de luz por essa faixa na época de inverno. Para isso, foi feita uma roçagem no feto-de-gaiola ali existente. Nesse processo constatou-se que as raízes de A. mangium plantadas na área experimental já se estendiam até as bordas, começando a modificar o ambiente. A espécie de "carpete" que era formado pelas raízes de feto-de-gaiola estava ali mais permeável e desconectada. Outra observação que pôde ser feita foi no momento da cavação, quando então foram encontrados exemplares de minhocuçu (Rhinodrilus alatus) em três pontos distintos. Ainda durante esse curso de capacitação, foi feito o plantio de mudas de bananeira com a intenção de usá-las como indicadores para analisar as possíveis modificações no solo provocadas pela experiência em andamento. Em junho de 2014 tais bananeiras haviam confirmado a suspeita positiva, crescendo de maneira satisfatória. As poucas A. mangium que não foram submetidas às podas regulares estavam nessa época cerca de 20% menores do que aquelas que foram podadas, evidenciando os efeitos benéficos da intervenção. Todas essas observações são exemplos do efeito da Agricultura Sintrópica. Ao invés de gastar recursos, o homem/agricultor reintegrado à sua função no sistema promove a fertilidade, a melhoria do solo, a produção de alimentos, o aumento da biodiversidade, melhorando assim as condições de vida para todos os presentes. O trabalho de manutenção, com capina seletiva e podas, diminuiu gradativamente sua frequência. As intervenções que no começo precisavam ser semanais, passaram a ser quinzenais e, hoje, são realizadas a cada 45 dias. Na visita de junho de 2014 constatou-se a presença de cajá (Spondias mombin), cana-de-macaco ou cana-de-brejo (Costus spicatus) e ipê (Tabebuia spp.) . Observou-se que o chão se encontrava tomado de matéria orgânica principalmente oriunda da poda da Acacia mangium que, em breve, passaria por raleamento de modo a privilegiar seu potencial madeireiro. As plântulas de santa bárbara apareceram tardiamente, demonstrando que não são uma boa escolha para esses tipos de solo. Outra conclusão que se pôde tirar da secção em que foram plantadas as bananeiras foi a de que estas não são suficientemente eficientes para promover modificações em condições como aquela. Infere-se isso pelo fato de que a matéria orgânica oriunda da remoção inicial das raízes do feto de gaiola não foram tão bem digeridas como nos demais locais. Apesar disso, as bananeiras se desenvolveram e produziram - inclusive, nessa ocasião foram colhidos alguns cachos.

Embora o manejo da área experimental seja relativamente rápido, a implantação demandou um alto custo de mão de obra. Deve-se a isso o tempo de roçagem da área de feto-de-gaiola e o afofamento do solo. No entanto, Ernst Götsch afirma que estas etapas poderiam ser mecanizadas, diminuindo drasticamente os custos de implantação.

De um modo geral a experiência é avaliada de forma positiva por Ernst Götsch que acredita que em breve poderá colher cacau dessa área, onde há pouco predominava o feto-de-gaiola. Como descrito, os primeiros sinais de melhoria das condições de vida naquele ambiente já começaram a aparecer, as primeiras colheitas já foram feitas e, assim, o sistema bem manejado seguirá seu curso no sentido da complexificação até que se estabeleça uma floresta que por sua auto-dinâmica será capaz de se manter. Acompanhar a prática da Agricultura Sintrópica nos revelou um novo patamar para o conceito de sustentabilidade. 


Referências 

PENEIREIRO, F. M. Sistemas Agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso, São Paulo. 1999. 13 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) – Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo, Piracicaba. 1999.

GÖTSCH, E. Projeto Agenda Götsch, Bahia, 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 agosto 2014.
Ferreira On 6/10/2016 02:37:00 PM Comentarios LEIA MAIS

terça-feira, 10 de maio de 2016

Autor: Antônio Henrique dos Santos



Publicação: O trabalho compõe a parte II – Orientações específicas para o cultivo de hortaliças - do Boletim Didático nº 107 “Produção de hortaliças em Santa Catarina”, publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 156 páginas, devem entrar em contato através do site: www.epagri.sc.gov.br




Taiá e mangarito
Essas plantas pertencem à família Araceae. e ao gênero Xanthosoma. Acredita-se que o cultivo de Xanthosoma seja muito antigo no novo mundo (Onwueme, 1978), e provavelmente este gênero originou-se na parte norte da América do Sul (Purseglove, 1972). Já eram cultivados pelos índios guaranis e outras tribos, desde antes do descobrimento.

Os principais representantes cultivados como alimento são o taiá e o mangarito. Em Santa Catarina são cultivados principalmente no Litoral Norte catarinense (Vale do Itajaí, Joinville), por agricultores de origem alemã, que procuraram substitutos para a batatinha.



Inhame do seco ou taiá-japão e Inhame de porco
Também fazendo parte da família Araceae, o gênero Colocasia é formado por dois grandes grupos principais: o grupo eddoes, que possui um túbera principal pequeno (soca) e os túberas secundários (dedos) grandes e pelo grupo dasheen, que possui uma soca grande e pequenos dedos. O taiá-japão pertence ao grupo eddoes e o inhame de porco ou da água, pertence ao grupo dasheen. São plantas originárias do sul da Ásia Central, provavelmente da Índia ou Malásia. Outra característica que distingue os dois gêneros é o formato das folhas, sendo que as Xanthosomas possuem uma fenda que vai até o pecíolo enquanto nas Colocasias a fenda é parcial. Foi introduzida no Brasil por escravos africanos (Figura 33).




FIGURA 33. Folhas de Xanthosoma (esquerda) e Colocasia (direita).



Manejo Tradicional de Mangarito e Taiá e Classificação Popular e Botânica:
Como essas espécies são nativas e não respondem à agricultura denominada “modernizada”, com utilização de insumos como calcário, adubos sintéticos, descrever-se-á o manejo que os produtores tradicionais do Vale do Itajaí e Joinville executam com essas plantas.



Taiá (Xanthosoma sagittifolium Schott)
Os produtores classificam popularmente em cinco variedades, que são: taiá vermelho, taiá branco, taiá cachorro e taiá louco. Botanicamente todas são Xanthosoma sagittifolium. O taiá vermelho e o branco são os preferidos para o consumo e a preferência varia conforme a região. Por exemplo, em Joinville, o preferido do mercado é o branco, enquanto que em Itajaí, o vermelho. Do taiá, podem ser consumidas as folhas, sendo o preferido para esta finalidade, o taiá branco. O taiá cachorro e louco são impróprios para o consumo, com relatos de intoxicação de suínos que consumiram o taiá louco.



Épocas de plantio
Os meses de agosto, setembro e outubro são os melhores meses, sendo colhido em média nove meses após o plantio, nos meses de maio, junho e julho.



Solos

Os solos preferenciais para seu cultivo são áreas novas, de coivara, de encosta, com menor teor de umidade.



Consórcios

O taiá pode ser cultivado à sombra. É comum seu consórcio com bananeiras, cafezais, cará tutorado e outras plantas altas.



Espaçamento
Quando em monocultivo, o espaçamento utilizado é de 1,00 X 0,80 m.



Adubação e correção do solo

Não há recomendação para adubação na ROLAS.

Em experimento de avaliação de nutrição em inhame realizado pela Emepa, chegou-se à seguinte conclusão:

A cultura do inhame respondeu positivamente às adubações de nitrogênio e fósforo, mas não apresentou resposta significativa à adubação com potássio e micronutrientes;

2 - A dose de nitrogênio de 62 kg/ha fracionada em duas parcelas iguais e aplicadas, em cobertura, aos 60 e 90 dias após o plantio, proporciona elevada produtividade, sendo indicada para fertilização nitrogenada da cultura do inhame;

3 - O emprego de 120 kg/ha de P O aplicado totalmente no plantio é indicado para fertilização da cultura do inhame, em solo de textura arenosa a média e de baixa fertilidade.
Assim, pode-se recomendar para as culturas Taiá, mangarito, inhame e cará a seguinte recomendação de adubação: 62 kg/ha de N, 80 kg/ha de P2O5 e 80 kg/ha de K2O.

Produtores entrevistados relatam que em locais onde foi aplicado o calcário, não conseguiram mais colher o taiá, que passou a ser atacado por podridões de solo.



Preparo para o comércio
Para esta finalidade, retiram-se as raízes e lavam-se os túberas em água corrente.


Mangaritos
No Vale do Itajaí e Joinville são cultivados dois tipos de mangaritos: o mangarito branco, classificado como Xanthosoma riedelianum Schott e o mangarito roxo, erroneamente classificado como Caladium Poecile Schott, sendo que o envio de plantas para classificação em recente estudo do autor, irá resultar em nova classificação que será Xanthosoma poecile Schott.



Mangarito Branco (Xanthosoma riedelianum Schott)
Este mangarito é cultivado principalmente em Joinville, sendo encontrado também no Vale do Itajaí, em algumas propriedades.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio variam de agosto a outubro e a colheita de maio a julho.


Solos

Os solos cultivados em Joinville são os mesmos utilizados para hortaliças introduzidas, porém, a utilização de calcário tem causado podridões. Em Itajaí, em solos turfosos sem correção alguma com calcário, as plantas desenvolvem-se muito bem.

Consórcios

Na maioria das propriedades onde este mangarito é cultivado, é feito o monocultivo, porém como é uma planta adaptada a sombreamento, possui potencial para ser cultivada em consórcio.

Espaçamento

Os espaçamentos utilizados podem ser: 0,30 m entre plantas e 0,75 m entre linhas e também 0,40m entre plantas e 0,60m entre linhas.

Correção do solo

Calcário não é recomendado para esta cultura.

Preparo para o comércio

As touceiras são colhidas, debulhadas na roça e é feita uma pré-limpeza, com a remoção de raízes e barro aderido. Os túberas são colocados em sacos de ráfia e batidos contra uma tábua para soltar a casca, sendo após lavados em um riacho (Figura 34). Em seguida, são colocados em caixas plásticas ou de madeira e lavados com bombas elétricas ou tratorizadas, com 300 libras de pressão (Figura 35). Este processo remove a casca e o barro e o produto deve em seguida ser refrigerado (Figura 36).


FIGURA 34. Mangarito branco em saco de ráfia sendo sacudido e lavado em riacho.




FIGURA 35 . Mangarito branco lavado sob pressão.




FIGURA 36. Túberas de mangarito branco descascadas por meio de jato de água.



Mangarito roxo (Xanthosoma poecile Schott):

O mangarito roxo é encontrado na região de Blumenau, predominantemente. Em municípios como Ilhota, Luis Alves, Guabiruba, este mangarito predomina.

Épocas de Plantio

Os meses mais indicados para o plantio são agosto e setembro, e a colheita é realizada de maio a junho.

Solos

Os melhores solos para seu plantio são os solos ricos em matéria orgânica, de coivara (Figura 37), que não devem ser expostos ao sol durante o período da tarde. Estas áreas geralmente são de encostas.



FIGURA 37. Mangarito roxo plantado em coivara.

Consórcios

O cultivo pode ser em monocultivo ou consorciado com milho ou aipim.


Espaçamento

O espaçamento utilizado em monocultivo, é de 1 X 1m, e em cultivo consorciado utiliza-se o mesmo espaçamento, porém a cada 4 linhas de mangarito roxo, é inserida uma linha de milho ou aipim.

Correção do solo

A aplicação de calcário não é realizada.


Preparo para o comércio
O preparo para o comércio é realizado, inicialmente na roça, logo após a colheita, quando são separados os túberas secundários. Em seguida é feita uma pré-limpeza de raízes e a remoção do barro, e por fim são separadas as mudas. Na propriedade, as raízes são lavadas em água corrente sem pressão, para a limpeza de pêlos radiculares e barro (Figura 38).


FIGURA 38. Lavação de mangarito roxo com água sem pressão.



Taiá-japão (Colocasia esculenta Schott “Eddoes”)

O taiá-japão é encontrado na região de Joinville e no Vale do Itajaí existindo duas variedades locais de taiá-japão: uma de pecíolo verde-claro (conhecido como “branco”) e outra de pecíolo arroxeado (Figura 58). A variedade de pecíolo arroxeado produz túberas arroxeados e a de pecíolo verde, túberas brancos.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio são: julho, agosto, e setembro, preferencialmente agosto. O taiá-japão apresenta um ciclo de vida mais curto que as outras raízes tuberosas, de aproximadamente 6 meses. A colheita estende-se de janeiro a março.

Solos

Os melhores solos para seu cultivo são os argilosos, não-encharcados, em áreas que recebam sombra.

Consórcios

Como é resistente ao sombreamento, pode ser encontrado em quintais agroflorestais, disperso com outras plantas como, por exemplo: batata-doce, tagetes (cravo de defunto), plantas medicinais, árvores frutíferas e ornamentais e também em monocultivo. Em Pirabeiraba é cultivado consorciado com cará.

Espaçamento

O espaçamento no plantio pode variar sendo plantado em monocultivo, com espaçamentos de 1,5 X 0,70m ou de 1 X 0,50m.


Correção do solo

A correção do solo com calcário não é realizada diretamente para esta planta e sim para as plantas que antecederam esta cultura.

Preparo para o comércio

O preparo dos túberas secundários para o comércio é feito através da lavação, remoção das raízes e dos pêlos radiculares. A manipulação destas plantas causa irritação na pele (coceiras), provocada pelo oxalato de cálcio e outros compostos presentes na planta. Para eliminar o oxalato de cálcio, os produtores colhem as plantas e deixam-nas secar por dois dias para após recolherem os túberas.



Cará (Dioscorea sp)

O gênero Dioscorea estava distribuído em eras geológicas primevas nos hemisférios ocidental e oriental, onde se desenvolveu independentemente em cada região (Purseglove, 1972). Pertence à família Dioscoreaceae.


Carás plantados em Santa Catarina
Existem três tipos de carás mais comumente encontrados em Santa Catarina, conforme figuras 40, 41 e 42.



FIGURA 40. Túberas e folha de cará-mimoso (Dioscorea trifida L.). 



FIGURA 41. Túberas e folhas de cará-de-pão (Dioscorea alata L.). 




FIGURA 42. Túberas e folhas de cará-do-ar (Dioscorea bulbifera L.). 



Manejo da Cultura

A seguir será descrito o manejo com a cultura do cará-mimoso, o qual recebe maior esmero no manejo, principalmente na região de Joinville, onde seu cultivo é mais expressivo.



Épocas de Plantio

Os melhores meses para o plantio são agosto e setembro, colhendo-se em maio e junho.


Solos

Segundo os agricultores, os melhores solos para seu cultivo são os solos novos, soltos.


Consórcios

O cará mimoso é produzido em monocultivo ou consorciado com o taiá-japão ou com milho. Quando consorciado com o milho, o qual é plantado no espaçamento de 1 X 1m, são colocadas duas plantas de cará entre duas plantas de milho. Assim, cada planta de milho escora duas plantas de cará. O cará é plantado um mês após a semeadura do milho, para que não haja concorrência. Antes da introdução do milho híbrido, o consórcio era realizado com o milho comum, o qual possuía uma estrutura mais robusta, com colmos de maior diâmetro, os quais suportavam o peso das plantas de cará. Com a introdução do milho híbrido, menos resistente, esta prática foi aos poucos abandonada. Quando em monocultivo, este é tutorado em sistema piramidal (Figura 43).



FIGURA 43. Diferentes tipos de tutoramento do cará



Espaçamento

Em monocultivo, as plantas são espaçadas de 0,90 X 0,90m e são tutoradas por três varas de bambu, que escoram uma planta de cada fila (tutoramento piramidal). Estas estruturas são amarradas entre si com arame a uma altura de 2,20m. Neste espaçamento, o número de plantas por hectare é de aproximadamente 12.300.

Quando das capinas entre linhas com microtrator, o espaçamento pode variar, de 1,20m entre linhas e 0,50m entre plantas, com aproximadamente 16.600 plantas por hectare.

Correção do Solo

O calcário não é aplicado visando a correção do solo para a cultura do cará, e sim para outras hortaliças que são cultivadas anteriormente na mesma área.

Preparo para o Comércio 


Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial  e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

















Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.
Ferreira On 5/10/2016 05:34:00 AM Comentarios LEIA MAIS

domingo, 10 de abril de 2016


Cultivado no sistema convencional o morangueiro pode receber em média 45 pulverizações com agrotóxicos, motivo pelo qual já encontra-se na lista negra dos alimentos campeões de resíduos químicos. Entretanto, a prática de alguns produtores orgânicos tem mostrado que existe viabilidade técnica, econômica, social e ecológica da produção orgânica de morango, como veremos neste artigo baseado no relato de experiência de dois produtores do sul do Brasil.

O morangueiro (Fragaria x Ananassa) é uma cultura típica de climas mais amenos, não sendo muito tolerante a temperaturas elevadas. No Brasil o morango tem se adaptado melhor do sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, porém existem experiências até mesmo no cerrado.

Sendo botanicamente classificado como uma hortaliça da família das rosáceas, o morango ainda é mais conhecido como um delicioso frutinho rasteiro, tendo a vantagem de ir para o mercado, na primavera, quando há poucas frutas à venda, alcançando bons preços. Ademais, na indústria é conhecido pelo uso freqüente em iogurtes e sorvetes.


Variedades: Seleção Deve Aliar Produtividade, Resistência e Sabor

A escolha da variedade deve levar em conta a produtividade, a precocidade, a conservação, o sabor e a resistência contra pragas e doenças. Outro ponto importante no sistema orgânico é a adaptação da planta às condições regionais. A experiência do produtor gaúcho Gilson Teixeira – que nos últimos 5 anos vem selecionando mudas de uma das primeiras variedades comerciais lançadas no país – a Campinas, confirma que no sistema orgânico é possível reduzir custos produzindo mudas próprias (Figura 1).

FIGURA 1 – Variedade de morango “Campinas”: boa adaptação ao sistema orgânico. Propriedade de Gilson Teixeira em Caçapava do Sul, RS.
Este procedimento possibilita maior controle sobre o planejamento de produção e melhor adaptação da cultura às condições locais. Apesar de as mudas importadas, basicamente do Chile, apresentarem ótima qualidade comercial, o custo inicial da lavoura aumenta demasiadamente, ficando o produtor altamente dependente de recursos externos ao sistema.

Uma boa opção é o plantio de duas variedades ao mesmo tempo – uma de maior produtividade e resistência e outra de produção mais precoce. Com a primeira obtém-se grande quantidade, com a segunda, bons preços.

Solo e Local de Plantio

O morangueiro é uma cultura especialmente exigente em condições físicas e nutricionais do solo. Produz melhor em solos areno-argilosos, bem drenados, ricos em matéria orgânica e de boa constituição física. A faixa de pH preferido fica entre 5,5 e 6,0. Em solos mais ácidos é recomendável uma calagem.

Sabe-se que a planta do morangueiro é muito delicada, especialmente em relação ao seu sistema radicular, exigindo canteiros muito bem preparados, visto que a maior parte das raízes concentra-se na camada superficial do leito de plantio.

Outro ponto importante é a nutrição do morangueiro. A adubação orgânica traz uma série de benefícios que resultam em melhoria de produtividade e resistência das plantas. Por isso, inicialmente pode-se proceder a adubação orgânica em toda área e, em seguida, realiza-se a preparação de canteiros. Após o levantamento de canteiros, ainda pode-se utilizar o húmus que pode ser espalhado homogeneamente e incorporado com enxada rotativa.

O plantio realizado de março a julho na região Sul, pode ser feito em canteiros com 15 a 20 cm de altura e 0,80 a 1,20 m de largura, num espaçamento entre plantas de 30 x 30 cm, preferentemente no final da tarde para facilitar o pegamento. Outra sugestão interessante é plantar as mudas em “ziguezague”, semelhante aos cultivos da Califórnia, fator que proporciona melhor aproveitamento do espaço útil. Isso permite maior vigor do sistema radicular o que favorece a nutrição e autodefesa das plantas.

Mudas: Multiplicação Própria Diminui Custos

As mudas orgânicas podem ser produzidas na própria propriedade, a partir dos morangueiros que produziram no ano anterior. Este método vem sendo empregado nos últimos 5 anos com excelentes resultados pelo produtor gaúcho Gilson Teixeira que faz a preparação das mudas da variedade “Campinas” por meio do arrancamento dos morangueiros que produziram no ano anterior, fazendo uma seleção criteriosa. Após é realizado uma limpeza e preparação da muda, que consiste na retirada de parte das folhas e do excesso de raízes.

Adubação Orgânica: Conteúdo Ruminal e Húmus são Opções Complementares

Um dos materiais que vem sendo utilizado com sucesso como suprimento de matéria orgânica para o solo é o conteúdo ruminal descartado nas operações de frigorífico. Este subproduto já possui um determinado grau de decomposição e também serve de alimento para as minhocas, possibilitando produção de húmus na própria propriedade.

Além disso, como adubação foliar, os produtores orgânicos têm utilizado preparados a base de biofertilizantes como o supermagro, biogel, extratos de algas marinhas e microorganismos eficientes (EM) que servem para reforçar a resistência das plantas.

Tratos Culturais: Cobertura de Casca de Arroz é Boa Alternativa ao Plástico

O controle de invasoras é essencial, pois o morangueiro sofre muito com a concorrência. A primeira capina é realizada cerca de um mês depois do plantio quando as mudas já estão com brotação nova e bem enraizadas. Como a raiz do morangueiro nasce da parte superior, bem junto ao solo, deve se utilizar uma enxada de lâmina estreita para evitar danos às raízes. Posteriormente, após a colocação da cobertura morta é realizada mais uma ou duas operações de limpeza. Estas consistem no arrancamento das invasoras que persistiram ou que brotaram sobre a cobertura morta.

Como cobertura morta utiliza-se a casca de arroz em substituição ao plástico preto, espalhando-se uma camada de cerca de 3 a 5 centímetros sobre a superfície do canteiro (Figura 2). Esse material, pela sua coloração espanta a maioria dos insetos praga, além de favorecer as condições ambientais locais. Entre os canteiros pode-se utilizar também acículas de pinus.

FIGURA 2 – Cobertura morta com casca de arroz: opção ambientalmente correta em substituição ao plástco preto.



Na época de plantio e em plena produção o morangueiro exige grande umidade do solo com irrigações freqüentes (duas a três vezes ao dia). Diferentemente da maioria dos produtores de morango que utilizam a irrigação por gotejamento, induzindo a planta a um enraizamento mais localizado, na propriedade de Gilson Teixeira a irrigação por aspersão tem mostrado bons resultados permitindo um desenvolvimento radicular mais expressivo.

Pragas e doenças: Prevenir é Fundamental

O ácaro e os pulgões são as principais pragas do morangueiro. A umidade e a temperatura elevadas facilitam o seu aparecimento. Se as pragas atingirem poucas plantas recomenda-se a eliminação das mesmas. O ácaro ataca a face inferior das folhas, causando amarelecimento, secamento ou uma tonalidade pardo-avermelhada. Um sinal típico da presença dos ácaros é um entrelaçamento de fios de seda, sobre o qual eles vivem. Para o controle existem alguns produtos de uso restrito que devem ser consultados junto às certificadoras. O controle dos pulgões é mais fácil, pode-se utilizar desde preparados a base de plantas e minerais até o controle biológico com joaninhas.

As doenças são mais acentuadas em climas quentes e úmidos. O mais grave e disseminado problema fitossanitário é a “mancha das folhas”, causada pelo fungo Mycosphaerella fragariae. O controle pode ser obtido seguindo alguns cuidados: plantio de variedades resistentes; escolha de um local bem arejado e sem excesso de umidade; além de uso de mudas sadias. Em caso de ataque a morangueiros deve-se descartar o material afetado. Se o ataque for às folhas sugere-se a retirada das atingidas.

Outro ponto importante para evitar problemas fitossanitários é a rotação de culturas, pois o morangueiro deve ser retirado do terreno após seu ciclo anual. Não se recomenda o replantio em seguida no mesmo local, nem o uso de plantas da família das solanáceas (tomate, batata, pimentão, berinjela) que podem transmitir viroses e fungos que atacam as raízes do morango. Neste caso, o ideal seria utilizar na rotação um adubo verde ou outra cultura comercial.

Colheita: Maior Parte é Comercializada “in natura”

Nas principais regiões produtoras do Sul do Brasil a colheita é realizada de agosto a dezembro (Figura 3). Após colheita e seleção os morangos são colocados em embalagens plásticas (PET) com capacidade variável dependendo do mercado (200 ou 350 gramas). Neste relato, os morangos orgânicos selecionados para consumo “in natura” representavam cerca de 70 % da quantidade colhida. Os frutos menores ou com pequenas imperfeições que não comprometam sua qualidade, são destinados a produção de polpa ou a venda para industrialização.

FIGURA 3 – Vista geral da cultura do morango orgânico em época  de colheita em  Caçapava do Sul, RS.
Segundo o produtor paranaense Anderson de Almeida, o morango orgânico é vendido em média a 33% acima do similar convencional. O mesmo produtor aponta algumas diferençasmarcantes em relação ao convencional: melhor aparência, maior durabilidade e resistência,melhor sabor e maior aproveitamento final. 

Em síntese, os produtores orgânicos têm obtido produções competitivas comparadas ao sistema convencional. No Paraná, a média de produtividade dos últimos anos tem ficado entre 300 a 500 gramas por planta. Nos Estados Unidos, estudos de GLIESSMAN et. al. (1996), mostraram uma superioridade de produção no sistema convencional. Entretanto, neste mesmo estudo os custos foram significativamente menores no sistema orgânico, fazendo com que o retorno econômico final fosse superior no orgânico, sem contar a melhoria das características biológicas do sistema. As experiências práticas não deixam dúvidas que o sistema de produção de morango orgânico tem sido competitivo em termos técnicos, econômicos e ecológicos, sendo uma alternativa viável para pequenas propriedades familiares.



Ferreira On 4/10/2016 01:16:00 PM Comentarios LEIA MAIS

domingo, 10 de julho de 2016

A participação da agricultura familiar na produção de hortaliças e o mercado dos orgânicos

Autores:

1.Ana Maria Resende Junqueira - Professora do Programa de Pós-Graduação em Agronegócios - Universidade de Brasília.

2.Isaac Leandro de Almeida - Mestrando em Gestão em Agronegócios pela Universidade de Brasília. Email: isaac_leandro@hotmail.com

Universidade de Brasília, Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, Programa de Pós-Graduação em Agronegócios

Artigo publicado na revista Cultivar, em 17/11/2010: http://www.grupocultivar.com.br/

1. Introdução

Nesse artigo objetivou-se fazer um breve estudo sobre a importância da produção de hortaliças na manutenção da segurança alimentar. Buscou-se valorizar a importância da agricultura familiar na produção de olerícolas e explanar a possibilidade da utilização da produção orgânica na olericultura familiar, além de ressaltar a relevância da utilização de mecanismos de certificação e selos no processo produtivo dos produtos orgânicos, em especial, na olericultura familiar orgânica.

Se, por um lado, a relevância da olericultura, enquanto atividade econômica, é reconhecida por sua importância social, gerando emprego e renda, especialmente para o segmento da olericultura familiar, por outro lado, as hortaliças orgânicas ganham cada vez mais espaço no Brasil - graças à diversidade de espécies à disposição dos consumidores e à melhoria da qualidade dos produtos ofertados e principalmente à promoção de uma alimentação mais balanceada e saudável.

Não é por outro motivo que durante as últimas décadas a discussão sobre a agricultura familiar tem ganhado força. Os debates sobre desenvolvimento sustentável, geração de emprego e renda, segurança alimentar, desenvolvimento local e saúde têm a cada dia alcançado um número maior de estudiosos e se alicerçado na demandas sociais.

2. Importância da Horticultura para Segurança Alimentar

A necessidade de se alimentar convenientemente é uma necessidade humana primária que remonta à origem da humanidade. Essa é a condição essencial para toda a atividade humana e qualquer definição ou processo de desenvolvimento deve integrá-la e/ou realizá-la plenamente. Nesse sentido, o conceito de segurança alimentar tem evoluído ao longo do tempo, mas tem sempre por base uma preocupação de certezas e/ou incertezas no que se refere ao acesso ao alimento em quantidade e qualidade adequada à vida saudável do homem. Contudo, o conceito de segurança alimentar preconiza a realização do direito que todos têm de alcançar regular e permanentemente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades básicas, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, as quais respeitam a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis, conforme SILVA (2009).

Para as políticas de desenvolvimento, as questões referentes à segurança alimentar devem ser encaradas como fator de extrema relevância, principalmente no que diz respeito ao setor de produção agropecuária. Este tipo de preocupação, embora com enfoques diferentes, é comum aos países desenvolvidos e, mormente, aos países menos desenvolvidos. A questão de segurança alimentar engloba duas perspectivas em função da localização das regiões em análise. O contraste entre países desenvolvidos e em desenvolvimento é bastante acentuado também na questão alimentar. Para os primeiros, enfrentá-la foi um componente decisivo na conformação dos seus padrões de desenvolvimento, hoje caracterizada pela auto-suficiência produtiva agroalimentar e pela pequena importância dos problemas de acesso da população aos mesmos. Para os países em desenvolvimento, a preocupação com a segurança alimentar está mais voltada para a estabilidade no abastecimento e manutenção dos estoques estratégicos dos alimentos básicos, do que com programas institucionais destinados aos seguimentos mais débeis (MALUF et al, 1996).

Diante disso, é comum os países menos desenvolvidos utilizarem o conceito de segurança alimentar da maneira mais ampla ou “primitiva”, ou seja, o acesso físico e econômico das pessoas aos alimentos e a capacidade de satisfação das necessidades básicas do ser humano em quantidade e qualidade adequada. Haja vista que a alimentação inadequada ainda é um flagelo presente em muitas regiões do mundo, com conseqüências diretas e indiretas para a saúde e para a vida social.

Destarte, é extremamente importante identificar falhas no consumo alimentar e assim considerar soluções para corrigir essas deficiências. É nesse sentido, então, que a horticultura é vista como meio importante de melhorar as condições de vida da população e de promover a segurança alimentar e nutricional. Logo observa-se que os governos podem e devem exercer um papel importante tanto no estimulo como no aumento da produção, na melhoria da infraestrutura de distribuição e principalmente no que diz respeito à educação alimentar e nutricional.

Tamanha é a importância das hortaliças na alimentação, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) coloca o baixo consumo de hortifrutícolas como um dos dez principais fatores de risco para a mortalidade e morbilidade no mundo. De acordo com Silva (2009), estima-se que o baixo consumo de hortifrutícolas seja responsável por cerca de 19% dos cancros gastrointestinais, 31% da doença cardiovascular isquêmica e por 11% dos enfartes do miocárdio, e que potencialmente mais de 2,7 milhões de vidas podiam ser salvas todos os anos se cada pessoa consumisse porções adequadas de frutas, legumes e verduras (FLV).

E apesar de todas as evidências relacionadas ao consumo de hortifrutícolas, o consumo desses alimentos é significativamente inferior ao recomendado (80 kg de FLV por habitante por ano). E isso ocorre tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. Não é por outro motivo que a segurança alimentar coloca esse grupo de frutas e hortaliças como fonte mais acessível e sustentável de vitaminas, minerais, macro e micronutrientes, além de outros componentes indispensáveis para atividades orgânicas.

Assim, o aumento da produção e consumo de hortifrutícolas revela-se como a forma direta e de menor custo para melhorar a dieta alimentar da população dos países mais pobres. No entanto, esse aumento só pode ser oriundo da educação alimentar e vir através de incentivos do governo no sentido de atender à segurança alimentar local.

3. Agricultura Familiar

Devido à grande complexidade do universo agrário – sobre os aspectos das diferenças entre os tipos de agricultores, sobre os aspectos econômicos, sociais e culturais – é extremamente difícil definir a agricultura, principalmente, a agricultura familiar. Há múltiplas metodologias, critérios e variáveis para construir diversas tipologias de produtores.

Apesar da abordagem sobre a agricultura familiar, não foi o intuito principal desse trabalho o aprofundamento sobre a definição desse termo. De uma maneira simples, utilizou-se o termo assim como utilizado por Guanziroli e Cardim (2000) e Guanziroli et al. (2001). Nesta definição, o universo de produtores familiares é caracterizado como aquele que o produtor dirige sua produção e o trabalho familiar do estabelecimento é superior ao trabalho contratado. Por mais que se saiba que essa não é uma definição unânime (e tampouco muito operacional), é perfeitamente compreensível. Deve-se levar em consideração que os diferentes setores sociais e suas representações constroem categorias científicas que servirão a certas finalidades práticas e que a definição de agricultura familiar pode não ser exatamente a mesma daquela estabelecida para estudos acadêmicos sociais.

A concepção que prioriza a agricultura familiar como unidade de análise centra-se nos estudos da FAO/Incra (1994), que divide a exploração agrícola em modelo patronal e familiar (Quadro 1) e do estabelecimento do Programa Nacional de Produção Familiar (Pronaf) (MARAFON e RIBEIRO, 2006)

A renda total por estabelecimento apresenta a grande diferença entre os agricultores familiares e os patronais, assim como entre os agricultores da mesma região. A renda total média, em toda parte, dos agricultores patronais, é superior à dos familiares. No entanto, quando se considera a renda total por unidade área, os resultados da agricultura familiar são superiores aos dos estabelecimentos patronais em todas as regiões do país. Com relação à terra, 75% dos produtores familiares brasileiros são proprietários (MACHADO e SILVA, 2004).

Segundo o Censo Agropecuário 1995/96 (GUANZIROLI e CARDIM, 2000) existem no Brasil 4.859.864 estabelecimentos rurais ocupando uma área de 353,6 milhões de hectares. Os agricultores familiares representam, portanto, 85,2% do total de estabelecimentos e ocupam 30,5% da área total, além de serem responsáveis por 37,9% do Valor Bruto da Produção Agropecuária Nacional, recebendo apenas 22,3% do financiamento destinado à agricultura. Existe ainda grande diferenciação entre agricultores familiares e patronais, sendo a renda patronal (19.085 reais) muito superior à encontrada entre os familiares (2.717 reais). A Renda total média por estabelecimento familiar foi de 2.717,00 reais, variando entre 1.159 reais/ano no nordeste e 5.152 reais/ano na região Sul. A Renda Total por hectare demonstra que a agricultura familiar é mais eficiente que a patronal, produzindo uma média de 104 reais/ha/ano.

Vale ressaltar que se optou por usar o Censo Agropecuário de 1995/6, porque essa pesquisa define agricultura familiar da mesma maneira que foi abordado neste trabalho. Em relação à ocupação pessoal, a agricultura familiar é a principal geradora de posto de trabalho no meio rural brasileiro. Mesmo dispondo de 30% da área, é responsável por 76,9% do Pessoal Ocupado. Os agricultores familiares são responsáveis por 16,8% do total de empregados permanentes contratados no Brasil, enquanto que os patronais são responsáveis por 81,7%.

Este segmento familiar tem um papel crucial na economia das pequenas cidades - 4.928 municípios têm menos de 50 mil habitantes e destes, mais de quatro mil têm menos de 20 mil habitantes. Estes produtores e seus familiares são responsáveis por inúmeros empregos no comércio e nos serviços prestados nas pequenas cidades. A melhoria de renda deste segmento por meio de sua maior inserção no mercado tem impacto importante no interior do país e por conseqüência nas grandes metrópoles. Esta inserção no mercado ou no processo de desenvolvimento depende de tecnologia e condições político-institucionais, representadas por acesso a crédito, informações organizadas, canais de comercialização, transporte, energia, dentre outros (PORTUGAL, 2004).

Do mesmo modo, os investimentos realizados na agricultura são inferiores para os produtores familiares. Dos investimentos realizados, a agricultura familiar é responsável por 32% e os patronais por 66,1% do total. Entretanto, os investimentos por hectare realizados pelos produtores familiares são mais elevados que os patronais: R$ 23,50/ha e R$ 21,30/ha, respectivamente. Os principais destinos dos investimentos realizados pelos agricultores familiares são a formação de novas plantações e a compra de animais, seguidas de máquinas e benfeitorias e compra de terras (MACHADO e SILVA, 2004).

O desafio é maior se for considerada a diversidade de situações. Quando se analisa o cenário em que se insere a agricultura familiar observa-se que os problemas são diferentes para cada região, estado ou município. No Norte há dificuldades de comercialização pela distância dos mercados consumidores e esgotamento da terra nas áreas de produção. No Nordeste são minifúndios inviáveis economicamente. No Sudeste é a exigência em qualidade e salubridade dos produtos por parte dos consumidores. No Sul é a concorrência externa de produtos do MERCOSUL (PORTUGAL, 2004).

Mesmo assim, é possível observar atualmente nas prateleiras dos supermercados uma grande diversidade de produtos oriundos da agricultura familiar, com marca própria e registro nos órgãos oficiais de defesa sanitária. São várias as Associações que procuram atingir padrões de qualidade e alcançar nichos de mercado.

4. Participação da Agricultura Familiar na Produção de Hortaliças

O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas, legumes e verduras (FLV) do mundo, cujo valor de produção foi de R$19 bilhões em 1999, próximo à soma da produção dos principais grãos. Esse mercado possui ainda uma perspectiva de crescimento muito mais favorável do que os grãos. Em termos de consumo per capita, o Brasil consome 19kg/hab./ano de FLV, na Europa este consumo, em alguns países, chega a 120kg/hab./ano. Tal fato evidencia o potencial do mercado interno brasileiro. A olericultura - tanto comercial como de subsistência - tem um importante papel na atividade agrícola familiar, contribuindo para o seu fortalecimento e garantindo sua sustentabilidade (FAULIN e AZEVEDO, 2003).

No Estado de São Paulo, por exemplo, apesar de terem participação de apenas 1% na área total cultivada com as principais culturas, as olerícolas respondem por cerca de 9% do total da demanda da força de trabalho agrícola (DEL GROSSI e SILVA, 2002a). Esse fato, pelo ponto de vista econômico, é muito importante já que permite uma renda relativamente constante à família produtora de hortaliças e, pelo ponto de vista social, permite a ocupação dos membros da família em uma mesma atividade durante todos os períodos produtivos, o que garante a lida no mesmo lugar de moradia e a manutenção das relações familiares.

Ainda diante desse quadro, torna-se importante salientar que devido à demanda e à produção constante dessa atividade (menos dependente de longos ciclos produtivos) a mão-de-obra do estabelecimento não passa por oscilações severas. Afinal, para esse tipo de produção, praticamente todos os dias são dias para o preparo da terra, para o plantio, para a colheita, para o controle de pragas, dentre outras atividades. Além do mais, em função da maior exigência por mão-de-obra na olericultura (principalmente a orgânica) as ações públicas destinadas a promover os sistemas orgânicos têm maior receptividade junto aos produtores familiares, resultando em número maior de ocupações e, sobretudo, melhor renda para os membros da família ou contratados.

As principais vantagens na aquisição de hortaliças de agricultores familiares são a alta qualidade dos produtos e os baixos preços praticados. Entretanto, na época da chuva, os produtores familiares têm a qualidade dos produtos reduzida e dificuldades para manter a regularidade de entrega, o que contraria as principais exigências das empresas varejistas.

5. Novas Alternativas para a Olericultura Familiar: Produção Alternativa para um Mercado Alternativo

As tendências recentes do sistema agroalimentar caracterizam-se principalmente pelas tendências de processos de diferenciação no consumo dos alimentos, cujos reflexos vão até as etapas da produção agrícola. Gradativamente, a valorização de produtos com atributos diferenciados de qualidade cria novas oportunidades de mercado, muitas das quais, acessíveis aos diversos agricultores. As novas oportunidades incluem desde a inserção desses agricultores em mercados de nicho nacionais e internacionais, nos mercados com denominação de origem e nos mercados orgânicos, até o aprimoramento dos circuitos regionais de produção, distribuição e consumo de alimentos.

As novas possibilidades de inserção da agricultura familiar nos mercados agroalimentares com base em estratégias autônomas requerem uma ótica de “construção de mercados” adequada à realidade dos agentes econômicos de pequeno porte (MALUF e WILKISON, 1999). Ao se considerarem os mercados como resultado de construção social, elementos tais como os processos que levam a construção do próprio valor dos produtos; as relações que se estabelecem entre os agentes econômicos (produtivos, comerciais e financeiros) e a instituição de formas associativas unindo produtores ganham importância.

A agricultura familiar mantém vínculos simultâneos de distintos tipos com os mercados de produtos agroalimentares em razão do seu perfil produtivo diversificado. Assim, a reprodução das unidades familiares rurais baseia-se no conjunto das atividades produtivas por elas desenvolvidas e nos vínculos com os mercados que lhes são correspondentes. Há sempre que mencionar a parcela da produção que é destinada ao autoconsumo, importante componente da reprodução dessas famílias (da sua segurança alimentar). No que se refere aos fatores “dentro da porteira”, as opções de estratégia de inserção nos distintos mercados dependem da disponibilidaddisponibilidade de recursos e implicam distintas combinações dos recursos produtivos disponíveis no interior das unidades familiares. A essa combinação acrescentam-se as hortaliças e as frutas, que, em alguns casos, podem integrar o núcleo principal dos cultivos comerciais (MALUF, 2004). 

A estratégia sugerida nesse trabalho apóia-se, portanto, na maior agregação de valor ao produto final, através da utilização de métodos de cultivos não convencionais. Sua vantagem mais evidente está na apropriação, pelas famílias rurais, de maior parcela do valor do produto final de consumo. Contudo é importante que a estratégia voltada para o produtor familiar busque nos modelos existentes aprimorar um padrão diversificado e sustentável. Até porque a agregação de valor às matérias-primas agrícolas e as novas formas de inserção nos mercados fazem-se, em geral, de forma gradativa, sem romper, imediatamente, as relações comerciais preexistentes. 

Cada vez mais nota-se a presença de produção vegetal em sistemas protegidos e utilizando métodos alternativos como ocorre nas estufas e na produção hidropônica. A produção rural tem buscado novos fôlegos e nichos de mercado com pouca ou nenhuma exploração. Principalmente a agricultura familiar que encontrou muitas vezes entre os produtos orgânicos, os artesanais, no turismo ou em outras atividades não-agrícolas motivos para se multiplicar e fortalecer. 

Nesse sentido uma abordagem alternativa seria direcionar esses produtores para culturas de maior valor agregado, fora do segmento de commodities, cujos mercados ainda não estão tão bem organizados, como, por exemplo, o de algumas plantas medicinais, de fontes de corantes ou nutrientes naturais, de plantas aromáticas ou condimentares, certas frutas e hortaliças, cujas tecnologias de produção, mesmo as mais modernas, ainda são relativamente intensivas em mão-de-obra e se prestam à aplicação em escalas reduzidas de cultivo (VIEIRA, 1997). 

Ou seja, direcionar ainda mais esse segmento para atividades agropecuárias, ou a elas relacionadas, que permitissem algum grau de diferenciação de produtos ou sua associação a marcas. E nesse caso se enquadrariam, por exemplo, produtos agropecuários com atributos específicos para determinadas aplicações, como vegetais tecnologicamente adequados para conservas, frutas e hortaliças de maior resistência e vida útil, produtos orgânicos e outros. 

O expressivo crescimento da olericultura familiar é resposta, então, à grande expansão e diferenciação do mercado consumidor, alavancado principalmente pelas novas tendências de consumo. Houve nessas transformações mercadológicas (culturais, sociais, educacionais, legais), por exemplo, a aparição das redes fast food, da comida congelada, dos alimentos liofilizados e muitos outros. Além da grande manutenção daqueles mecanismos comerciais já existentes, como por exemplo, as feiras, os mercados, os supermercados e os demais. Esses que embora possam se auto-abastecer por meio de produção integrada, geralmente estabelecem parcerias com os agricultores. Segundo Del Grossi e Silva (2002a), essa relação dos agricultores com as redes de supermercado e de fast food, além do fornecimento para sofisticados hotéis e restaurantes, acaba por determinar mudanças na forma de produzir e comercializar esses produtos. 

Para se ter uma ideia, os estudos de Belik e Chaim (2002 apud FAULIN e AZEVEDO, 2003) informam que um supermercado de porte médio reserva 10,5% da sua área de venda para os hortifrutícolas, contribuindo com 7,5% do seu faturamento anual. Na França, a contribuição das frutas, legumes e ver-duras (FLV) no faturamento das lojas é de 4% a 6% para os hipermercados e de 10% a 12% para os supermercados. Esse aumento de impor¬tância tem feito com que os supermercados se preocupem mais com a qualidade dos produtos, não apenas com a aparência, mas também com o sabor e seus valores nutricionais. 

Já se nota, ainda que de maneira incipiente, que as empresas que atendem às novas demandas apresentam investimentos significativos em qualidade e apresentam um grande aumento na competição por esse segmento do mercado. Além do mais, dentro dos “novos” grupos de consumidores identificam-se subgrupos importantes, influenciados por costumes étnicos ou regionais, cuja demanda por alimentos tem significativas ligações com traços culturais específicos, e que além dos produtos da indústria de âmbito nacional, consomem produtos diferenciados, geralmente oferecidos por agroindústrias alimentícias de âmbito local ou regional. Ainda nesse sentido, Vieira (1997) faz previsões de que uma influência que deve crescer de importância nos próximos anos diz respeito à ação de entidades de proteção ao consumidor, que trabalham levantando e disseminando informações sobre características de segurança e qualidade de produtos. 

No entanto, deve-se levar em consideração que uma característica importante do mercado de alimentos é a não aceitação de mudanças rápidas ou radicais na forma dos produtos. A modernização e as mudanças mais profundas, em busca de maior produtividade e qualidade, acontecem nos processos de produção, na apresentação e embalagens dos produtos e nos processos gerenciais das empresas. As alterações no produto em si, tais como novas formulações ou outras mudanças nas características sensoriais, são operadas lentamente e com muita cautela (VIEIRA, 1997). 

Contudo, há uma maior diversificação da produção de olerícolas para garantir um melhor atendimento aos novos grupos de consumidores, um melhor abastecimento e uma maior receita. Também ocorrem mudanças nos sistemas de produção, com a introdução da hidropônica e do cultivo orgânico, por exemplo. Outra mudança importante diz respeito ao processamento das olerícolas e sua comercialização na forma de saladas ou produtos individuais prontos para o consumo, cujos preços chegam a ser 30% maiores que o produto in natura, constituindo-se num meio de agregação de valor para os agricultores, bem como de criação de empregos (DEL GROSSI e SILVA, 2002a). 

Essas novas possibilidades de geração de renda – conforme sugerido por Del Grossi e Silva (2002b) no “O Novo Rural”, tem como uma de suas características um conjunto de “novas” atividades agropecuárias, localizadas em nichos especiais de mercados. Quando esses autores utilizaram o termo ‘nova’, colocaram-no entre aspas justamente porque muitas dessas atividades, na verdade, são seculares no país, mas não tinham, até recentemente, importância econômica. Eram atividades de "fundo de quintal", hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais e outros) que foram transformados em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes. 

Ainda nesse sentido é importante ressaltar Van Der Ploeg (2009) que toma o exemplo da disseminação da agricultura familiar na Europa, onde essa vem sendo, recentemente, fortalecida pelo processo de recampesinização. Deve-se eliminar, contudo, a idéia de que a agricultura familiar (camponesa, segundo o autor) seja atrasada, sendo que isso também não é obstáculo para o desenvolvimento e a mudança, mas pode ser um excelente ponto de partida para tanto. 

A característica fundamental do modo camponês, de acordo com Van Der Ploeg (2009), é ser orientado para a produção e para o aumento de valor agregado. O crescimento se realiza, no plano da unidade de produção, com base o processo do trabalho. O crescimento é realizado em ciclos prévios, ou no próprio ciclo corrente, e é chamado de “crescimento autônomo – orgânico”. Uma importante conseqüência do modo de produção camponês é que ele produz um crescimento contínuo do valor agregado, sobretudo, do valor agregado cultural. 

Nesse sentido, nota-se que boa parte dos agricultores tem começado a diversificar suas atividades a partir da efetivação de uma série de alternativas: novos produtos (e serviços) são produzidos, com criação simultânea de novos mercados e novos circuitos mercantis; distanciamento em relação aos principais mercados de insumos; reconexão da agricultura com a natureza; pluriatividade; novas formas de cooperação local e reintrodução do artesanato. Sendo que essa reintrodução está associada ao desenvolvimento e à implementação de uma nova geração de tecnologias baseadas na habilidade técnica e resulta na produção de inovações. Essas tendências de desenvolvimento são resumidas, por Van der Ploeg (2009), como desenvolvimento rural ou criação de multifuncionalidade (recampesinização). 

Muitas dessas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, hoje assumem importantes fontes de renda para valorização e fortalecimento da agricultura familiar, caso da produção de hortaliças sem uso de fertilizantes químicos e defensivos, com um valor agregado ancorado na sustentabilidade e na saúde. 

6. Produção Orgânica de Hortaliças 

A agricultura orgânica representa uma oportunidade de valorização da produção agrícola, principalmente de hortaliças, uma vez que existe demanda por esses produtos frescos, em particular nas grandes cidades. A agregação de valor que o sistema de produção acrescenta a esses produtos estimula a expansão da produção e garante a inserção em novos nichos de mercado. No entanto não basta ser orgânico para ter qualidade, o produto tem que ser um alimento com qualidade, isto é, no mínimo saudável - alimento sem resíduos de agrotóxicos, sem aditivos químicos (muito usados nos alimentos industrializados) e também sem contaminações microbiológicas prejudiciais a saúde humana. Por isso, de uma maneira geral, nota-se uma tendência em consumir alimentos frescos (“in natura”) e, sempre que possível, produzidos de forma orgânica. 

A produção orgânica de hortaliças é uma atividade que demanda recursos financeiros relativamente baixos, sobretudo para a produção familiar. Neste caso, os principais fatores limitantes são a falta de conhecimento técnico e a dificuldade de certificação do produto. Contudo, torna-se relevante destacar que, além de produção qualificada de alimentos, o agricultor e sua família promoverão a utilização sustentável da propriedade e ainda terão uma alimentação equilibrada, variada e garantida. Isso permite um auto-abastecimento do estabelecimento e gera um excedente que será comercializado a um preço mais favorável ao produtor. 

Dentre os vários aspectos que interferem a conversão da agricultura convencional para a orgânica estão os aspectos econômicos, políticos e sociais. Os quais precisam ser considerados quando o assunto é uma produção em maior escala. As dificuldades de mercado junto às perdas iniciais de produtividade (devido ao tempo para recondicionamento do solo) geram incertezas que por fim desestimulam uma maior receptividade da maioria dos agricultores - mesmo considerando os preços melhores que os consumidores estão dispostos a pagar. 

É evidente que historicamente, os primeiros movimentos ligados à agricultura orgânica no Brasil sempre estiveram relacionados à produção de hortigranjeiros. O chamado segmento de FLV (frutas, legumes e verduras) frescos, principalmente hortaliças (legumes e verduras). 

Em relação à comercialização de hortaliças orgânicas, ela teve origem em dois sistemas principais: as feiras livres e a entrega de cestas à domicílio que, apesar do sucesso inicial, têm representado dificuldades para a expansão da olericultura orgânica para um grande número de agricultores. Diante desse quadro, os supermercados aparecem cada vez mais como um caminho para uma efetiva expansão desse mercado. No Brasil, seguindo uma tendência mundial, grandes redes de supermercados têm mostrado interesse crescente nesses produtos, que é para muitos agricultores orgânicos uma importante alternativa para comercialização de seus produtos (AMARAL, 1996 e MEIRELLES, 1997 apud ASSIS e ROMERO, 2007). 

Para se ter uma ideia da importância que esse setor pode trazer à agricultura familiar, segundo pesquisa feita pelo Instituto Gallup (1996) na cidade de São Paulo sobre o mercado de legumes e verduras (LV) orgânicos, há um enorme potencial de crescimento desse mercado, já que os compradores desses produtos possuem consciência dos problemas de contaminação das hortaliças produzidas com agrotóxicos. A mesma pesquisa coloca ainda que a grande maioria prefere hortaliças orgânicas e admitem pagar de 20% a 30% mais caro por isso, desde que a venda seja feita em condições atraentes e garantidas. 

Para se ter uma noção da importância e da evolução da agricultura orgânica no Brasil, do ano de 2001 ao ano de 2003 houve um crescimento na área planta de mais de 210%. Ou seja, no ano de 2001 a área plantada era apenas de 270.000 hectares enquanto que em 2003 ultrapassava o 840.000 hectares (Figura 1). E a distribuição dessa produção, neste ano, se fazia da seguinte forma: Sudeste 60%; Sul 25%; Nordeste 9%; Centro-Oeste 3% e Norte 3%. 

De acordo com as estatísticas apresentadas pelo SEBRAE (PEIXOTO, 2004), o Brasil é o segundo país no mundo com o maior número de propriedades com lavoura orgânica – na ocasião estudada havia cerca de 19 mil agricultores. E nestas propriedades, de 70 a 80% são agricultores familiares. É uma nação com grande potencial para esse tipo de agricultura por apresentar uma ótima localização, riqueza da biodiversidade e condições climáticas variadas para cada tipo de cultura, potencial de produção de produtos com alto valor agregado, possibilidades de verticalização da produção e principalmente pela demanda dos mercados internos e externos. Porém, há quem veja essas variações ou “faces do Brasil” como dificuldades para a padronização e organização da produção. Embora esse fato seja verdade para o estudo desses estabelecimentos familiares, há outros muito mais otimistas que vêem a diversidade como grande oportunidade. Por isso, Bellon e Abreu (2005) afirmam que o desenvolvimento da agricultura orgânica no Brasil tem múltiplas formas, além de diversos nichos de mercado ou de oportunidades de exportação. Consiste, portanto, numa prática social alternativa, que recria espaços de produção e novas relações entre produtores, mercado e consumidores. 

Entende-se que a agricultura orgânica não é somente uma forma de produção ou um método cultural, mas também um instrumento articulador de prática social. Ou seja, a agricultura orgânica funciona no sentido de renovar as relações entre produtores e consumidores e, também, estabelece interações como os agentes de certificação (públicos ou privados). A diferenciação dessa forma de organização se faz por conjunto de valores que necessitam ser caracterizados. A Agricultura Orgânica não se resume a uma substituição de fatores químicos de produção, freqüentemente qualificados de agrotóxicos ou de veneno, pelos produtores orgânicos. A atividade orgânica convida a conhecer novas formas de explorar e monitorar o solo, que podem resultar numa exploração racional dos recursos hídricos e numa efetiva aplicação das disposições legais, conforme relatam BELLON E ABREU (2005). 

7. Selos e Certificações 

Os selos e as certificações são importantes ferramentas a serem utilizados pelos produtores familiares de orgânicos, ou seja, servem para garantir e atestar a real forma de cultivo empregada durante o processo produtivo. Além de receber o amparo legal para inserção em alguns programas de governo que auxiliam de maneira relevante esse setor. 

Além da dificuldade em produzir orgânicos, o produtor encontra uma grande dificuldade na certificação. Existem diversas etapas (muitas vezes burocráticas) de reconhecimento dos orgânicos. Segundo Bellon e Abreu (2005), a primeira etapa de reconhecimento da agricultura orgânica consiste na elaboração de normas relativas à produção, transformação, identificação e certificação da qualidade de produtos vegetais e animais. De acordo com a pesquisa apresentada pelo SEBRAE (PEIXOTO 2004), no Brasil, observa-se a divisão da quantidade de certificadoras por região da seguinte forma: Sudeste 16% (15); Sul 24% (6); Nordeste 12% (3); Centro Oeste 4% (1) e a região Norte não possui certificadoras. 

No entanto, a opção de certificação em grupo permite uma considerável redução do custo de certificação, além das diversas possibilidades de certificação filiadas a associações. Conseqüentemente, seria importante que os produtores orgânicos fizessem parte de organizações ou tivessem um meio de controle que fosse capaz de imprimir confiança ou estivesse de acordo com a legislação. 

Com o intuito de alcançar nichos de mercado, com um valor mais elevado para o produto, independente dos entraves, a produção de orgânicos tem compensando o maior custo de produção. Então, a presença de "selos" certificando a origem orgânica dos produtos, tem-se tornado necessária em nossos mercados, fornecendo um enorme diferencial de competitividade desses produtos. Analiticamente a certificação de produtos abriu um amplo leque de atuação de garantia de qualidade, tanto para instituições governamentais como não governamentais, seguindo normas nacionais e até internacionais. Os certificados vão desde os orgânicos, naturais, não transgênicos, de origem regional, ou mesmo com maior apelo social, como a ausência de trabalho infantil. 

De acordo com Caldas et al. (2007), a lógica de atuação das empresas certificadoras, que funcionam atualmente nos mercados de produtos agropecuários, mostra-se invariavelmente refratária à realidade do agricultor familiar. As contradições decorrem, entre outros aspectos, da cobrança de taxas elevadas, da ausência de compromissos sociais e da falta de identidade com os princípios democráticos e participativos. É justamente por isso que se tenta construir em algumas situações uma proposta de certificação social e solidária que requeira uma filosofia de atuação estribada, entre outras coisas, na participação dos atores sociais em todas as etapas do processo de construção, mormente os que se orientam no intuito de forjar uma identidade enquanto produtores de artigos com um forte apelo social. 

Contudo, de nada serve as diversas tentativas sociais e os benefícios dessas estratégias se os próprios atores não tiverem consciência do processo de certificação. Os participantes devem reconhecer e se esforçarem juntos aos demais setores sociais para definir o sucesso de suas iniciativas. 

O Ministério da Agricultura, Pesca e Abastecimento (MAPA) publicou, em junho de 2004, a Instrução Normativa nº 016/04, que altera alguns pontos da Instrução Normativa 007/99, a qual estabelece, entre outras coisas, a Declaração de Conformidade do Produtor como instrumento voltado à garantia da qualidade dos produtos orgânicos registrados no MAPA (insumos, matéria prima – grãos, cereais, carnes e bebidas), conforme relata Caldas et al. (2007). 
Para obtenção do registro junto ao MAPA, torna-se necessário que se cumpra alguns critérios de avaliação da conformidade, tais como o fato de ser membro de um grupo ou associação. Isso gera uma série de desafios a serem superados para levar a frente o processo de certificação. Dessa forma, há a possibilidade de incremento na renda e ampliação do universo de possibilidades de comercialização. Tal certificação é oriunda de uma proposta que vai muito além da garantia de um produto sem agrotóxicos, que tem como pretensão transmitir uma identidade social com diferentes formas de relação entre as pessoas e o mercado. Na prática observa-se que a certificação participativa é resultado do compromisso/confiança das famílias com o grupo envolvido. 

Certificação solidária pode ser entendida como uma iniciativa com características que permitem a auto-gestão. Gestão esta exercida e fiscalizada, durante todo o processo produtivo, pelos próprios participantes da produção. Isso garante qualidade dos produtos no sentido mais amplo, pois além de trazer melhorias para o produto final, garante qualidade econômica, social e ambiental. De acordo com Prezotto (2005), as diretrizes promocionais de mercado tendem a modelar os gostos alimentares da população que, depois da segunda guerra mundial, têm se orientado por alimentos cosmeticamente perfeitos, sem manchas e imperfeições visuais de nenhum tipo. Sendo esse um papel totalmente irrelevante a qualidade do produto. Se o agricultor não aplica determinada quantidade de pesticida na produção, por exemplo, de maçãs, não poderá lançar no mercado maçãs visualmente perfeitas e não obterá o máximo preço possível. 

Na ansiedade por convencer os consumidores a comprar determinada mercadoria e na ausência de mecanismos claros e precisos de controle, um produto de boa aparência e praticidade e com boa estratégia de marketing, mas de qualidade duvidosa quanto à sanidade, à higiene e à pureza química, por exemplo, pode passar uma imagem enganosa aos consumidores. No entanto, um produto de qualidade ampla, além de atender a critérios pré-estabelecidos pelo mercado, deve contemplar o caráter de desenvolvimento e de inclusão social que contribua para a formação da cidadania. Deve ser bem mais que um produto bonito ou sadio, precisa trazer qualidade também para aqueles que participam do processo produtivo, conforme relata Prezotto (2005). 

Essa certificação é oriunda de uma proposta que vai muito além da garantia de um produto sem agrotóxicos, que tem como pretensão transmitir uma identidade social com diferentes formas de relação entre as pessoas e o mercado. Na pratica observa-se que a certificação participativa é resultado do compromisso/confiança das famílias com o grupo envolvido. 

Considerações Finais 

Durante muitas décadas tem sido possível constatar a importância da agricultura familiar para produção de hortaliças e para manutenção da segurança alimentar. Por maior que sejam as variações e diversidades da agricultura familiar no território nacional, observa-se que as tendências de mercado abrem um espaço significativo para a entrada da produção orgânica. Mercado esse transformado e alternativo que tem dado muita importância à qualidade, diversidade, sustentabilidade e saúde. Assim sendo, diante das características específicas da agricultura familiar, da olericultura e, sobretudo, da produção orgânica, torna-se possível traçar expectativas de agregação de valor e melhorias na renda para um setor que tem enfrentado dificuldades no Brasil - o setor agrícola familiar. 

Como forma de suprir as deficiências das diferentes categorias socioeconômicas vê-se que a agricultura orgânica tem um papel extremamente relevante no processo de construção de valor agregado. Segundo Assis e Romero (2007), no caso da olericultura orgânica especificamente, não se observam diferenças marcantes entre produção familiar e não-familiar no que tange à interação com o mercado e o acesso a informações. É nesse sentido, então, que se sugere a horticultura orgânica como forma de produção alternativa para a agricultura familiar. 


sexta-feira, 10 de junho de 2016

16653 - Implantação e Manejo de Agroecossistema Segundo os Métodos da Agricultura Sintrópica de Ernst Götsch



Implantation and Management of an Agroecosystem According to Ernst Götsch's Syntropic Agriculture Principles

Autores: ANDRADE, Dayana Velozo Pastor1 ; PASINI, Felipe dos Santos2 .

1..Projeto Agenda Götsch, www.agendagotsch.com, dayana.andrade@gmail.com; 2. Projeto Agenda Götsch, www.agendagotsch.com, felipepasini@gmail.com.

Publicação: Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 – Vol 9, No. 4, Nov 2014


Resumo: A realização de um projeto audiovisual em parceria com o agricultor Ernst Götsch oportunizou o registro da aplicação dos princípios da Agricultura Sintrópica na implantação e manejo de um experimento agroflorestal no sul da Bahia. O objetivo foi demonstrar estratégias de recuperação de solos com fortes indícios de degradação por meio de técnicas que privilegiam a sucessão das espécies. Foram feitos consórcios complexos com espécies estratégicas como a Acacia mangium, buscando alcançar as condições ideais, sem o uso de insumos mas sim por meio de processos. Com isso é possível reintegrar o homem ao ambiente do qual ele faz parte, ressignificando a função do agricultor cuja intervenção resulta no aumento de recursos em todos os níveis. Após dois anos de experimento, a regeneração natural foi visivelmente estimulada, foram colhidas 28t de mandioca ha-1 , as espécies madeireiras estão estabelecidas e, em um futuro breve, o ambiente herdará uma agrofloresta capaz de evoluir por sua própria dinâmica. 

Palavras-chave: produção de alimentos, recuperação de áreas degradas, resiliência dos sistemas. 

Abstract: The production of an audiovisual project in partnership with the farmer Ernst Götsch provided an opportunity to register the application of Syntropic Agriculture's principles in implementation and management of an agroforestry experiment in southern Bahia. The objective was to demonstrate soil recovery strategies with strong signs of degradation through techniques that favor the succession of species. Strategic complex consortia were designed with species such as Acacia mangium, seeking to achieve the ideal conditions not via inputs but via processes. This makes it possible to reinstate the man to the environment which he is part, redefines the role of the farmer whose intervention results in increased resources at all levels. After two years of experiment, natural regeneration was visibly stimulated, 28t ha-1 of cassava were harvested, species of timber are established and, in the near future, the environment will inherit an agroforestry able to evolve by its own dynamics.

Keywords: food production, restoration of degraded soil, system's resilience.



Contexto 

Ao redor de todo o mundo, agricultores e pesquisadores desenvolvem soluções e práticas sustentáveis diariamente. Apesar disso, as ciências da sustentabilidade, por serem uma área cuja sistematização é ainda relativamente recente, requerem o amadurecimento de seu corpo teórico de modo a se tornar capaz de responder às questões urgentes de nosso tempo. E, dentre essas demandas, está uma pergunta fundamental: o que é agricultura sustentável? Em meio a tantos esforços pela busca de respostas e tantas controvérsias em torno das técnicas e tecnologias, podemos assegurar que a única certeza que podemos ter é a de que uma boa definição de agricultura sustentável emergirá da identificação do denominador comum extraído de experiências reais. Para isso, apresentar a história de como foram alcançados resultados bem sucedidos se mostra peça fundamental na construção da base teórica e prática que dará suporte às ciências da sustentabilidade, contribuindo dessa forma para a transição em direção a uma agricultura realmente sustentável. Também não podemos deixar de considerar que vivemos hoje uma importante fase da chamada "era da informação", em que a validação do conhecimento está intimamente ligada à sua difusão e o aprimoramento de ambos os processos é amplamente exigido. Em um contexto de novas mídias e redes colaborativas, ideias inovadoras comunicadas de forma eficiente têm o potencial de alcançar resultados compatíveis com a velocidade, o alcance e a intensidade de nosso tempo. Nossa participação nesse sentido se dá com o registro por meio de ferramentas audiovisuais da experiência de acompanhamento da implantação de uma área de cultivo em terras degradadas em Piraí do Norte/BA, segundo os métodos desenvolvidos por Ernst Götsch, procurando, eventualmente, constatar a eficiência não só de seu desenho e implantação, mas também das decisões e intervenções que seriam feitas durante o manejo da área. Hoje esse projeto já está em seu terceiro ano de vida e o material audiovisual resultante tem sido organizado e publicado no site www.agendagotsch.com de livre acesso ao público, sob a licença creative commons de uso não comercial, contribuindo assim para a ampla divulgação do tema. Tanto o trabalho em campo quanto o trabalho de divulgação continuam em andamento e aqui procuraremos compartilhar parte das observações e resultados alcançados até o momento. Ernst Götsch é um agricultor e pesquisador suíço que migrou para o Brasil no começo da década de 80 e se estabeleceu em uma fazenda na zona cacaueira do sul da Bahia. Desde então, vem desenvolvendo técnicas de recuperação de solos por meio de métodos de plantio que mimetizam a regeneração natural de florestas. Com o acúmulo de mais de três décadas de trabalho que resultaram na recomposição de 410 hectares de terras degradadas (dos quais 350 foram transformados em RPPN, a primeira da Bahia), Götsch elaborou um conjunto de princípios e técnicas que viabilizam integrar produção de alimentos à dinâmica de regeneração natural de florestas, sempre complexificando sistemas, ao que convencionou chamar de Agricultura Sintrópica.

Descrição da Experiência 

Embora o trabalho de Ernst Götsch tenha se tornado extensamente conhecido por meio de mídias, cursos e consultorias, ainda há profunda insciência sobre a manutenção de Sistemas Sintrópicos, especialmente após a implementação. Segundo Götsch, para se estabelecer tal sistema 5% do trabalho está em sua implantação e 95% no manejo. Desta forma, foi essencial realizar esta experiência na Bahia para assim assegurar a precisão dos dados e a garantia da aplicação dos princípios da Agricultura Sintrópica, já que o próprio criador do conceito seria o responsável pela manutenção e manejo da área. Para o início do projeto no ano de 2012, Ernst Götsch selecionou em sua Fazenda Olhos d'Água uma área experimental de 1.140m2 que se encontrava em pousio há 80 anos, e cuja vegetação e solo denunciavam alto grau de degradação. A área localiza-se às margens da BA 250, estrada que faz a ligação entre os municípios de Gandu e Ituberá, na longitude 13º77'75''W e latitude 39º32'49''S, com altitude de 350m e 5º de inclinação. Pesquisando o histórico da área escolhida para a experiência, tomou-se conhecimento de que lá predominavam originalmente as características de Floresta Ombrófila Densa sub-montana, até que em 1925 iniciou-se a derrubada e queima dessa mata para o plantio de mandioca (Manihot spp.). Entre os anos de 1930 a 1940 relatos dos moradores apontam que a área foi destinada à pastagem de equinos e manejada anualmente com fogo. A partir de 1941 até o ano de 2012 - início do projeto - foi deixada em pousio, sem registros de fogo, segundo testemunho dos vizinhos próximos e do próprio Ernst Götsch de 1982 em diante. A vegetação no momento da implantação da experiência era constituída aproximadamente por: 70% de feto-de-gaiola (Pteridium aquilinum) com até dois metros de altura; 1% de tiririca-navalha (Cyperus rotundus); 19% de árvores e arbustos, em sua maioria melastomastáceas com até seis metros de altura - sendo que estas últimas não conseguiam sobreviver a ponto de produzir sementes, o que Götsch atribuía à baixa resiliência do sistema, incapaz de dar um novo passo no caminho da complexificação. Essa hipótese foi fundamental para orientar as tomadas de decisões durante o processo. A partir dessa lógica foram determinadas tanto a escolha das técnicas de plantio quanto a seleção das espécies que iriam compor o sistema, como explicaremos mais adiante. As características do solo correspondem às identificadas por Fabiana M. Peneireiro como "solos latossólicos e podzólicos argilosos com alto grau de intemperização, profundos, ricos em óxido de ferro e alumínio, considerados pouco férteis, derivados de rochas gnaissicas e graniticas de planalto cristalino, do período Pré-Cambriano" (PENEIREIRO, 1999). A análise de solo indicou pH 4.9. Segundo Götsch, a região fora considerada não propícia e não recomendada para o cultivo de cacau segundo o mapa das terras da zona cacaueira feito pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC).

O plantio da área experimental ocorreu entre os dias 30 de junho e 4 de julho de 2012 e o preparo contou com os seguintes passos: 

1. Roçagem da área de 1.140m2 , o que resultou em uma camada de aproximadamente 20cm de matéria orgânica. 2. Derrubada da vegetação arbórea, com recorte do material resultante e a separação das madeiras de espessura maior que 6cm de diâmetro para uso como lenha, gerando um total de 4.8m3 de lenha. 3. Aplicação de 30kg de calcário. Para o plantio das faixas de mandioca, distantes 1.5m entre si, foram feitos os seguintes procedimentos: 1. Recorte e afastamento da matéria orgânica em blocos de 40 x 40cm a cada 75cm.

2. Afofamento do solo descoberto. 

3. Plantio dos berços compostos por mandioca, sementes e mudas. As mandiocas foram plantadas com apenas os pés enterrados em um ângulo de 45o para direcionar a produção das raízes. Isso possibilita o plantio de sementes sob a outra extremidades (cabeça) das manivas. As sementes e suas quantidades por berço foram as seguintes: 3 a 5 - feijão carioquinha (Phaseolus vulgaris); 1 a 3 - feijão fradinho (Vigna unguiculata); 2 a 3 - feijão-de-porco (Canavalia Ensiformis); 3 - cacau (Theobroma cacao L.); 2 - cupuaçu (Theobroma grandiflorum); 1 a 2 - santa bárbara (Melia azedarach); 1 a 2 - jaca (Artocarpus heterophyllus); 1 semente a cada 40 berços - abacate (Persea americana); 3 - maracujá (Passiflora edulis); 1 a 3 - sombreiro (Clitoria fairchildiana); 1 a 2 - açaí (Euterpe oleracea); 1 a 2 - biribá (Eschweira ovata). As mudas por berço foram: 1 muda a cada 2 berços Acacia mangium e 1 muda a cada 5 berços eucalipto (Eucalyptus spp.). As sementes das 3 espécies de feijão foram inoculadas com Rhizobium para obter uma melhor capacidade de fixar nitrogênio.

4. As sementes foram misturadas em um substrato preparado previamente, o qual era composto por aproximadamente 50ml de terra peneirada, cerca de 50ml de esterco seco de gado e 30g de pó de rocha por berço. O material foi levemente umedecido para que as sementes menores pudessem aderir aos grumos do substrato. Por outro lado, as sementes de abacate não entraram na mistura pois, devido ao seu calibre desproporcional às demais, preferiu-se plantá-las uma a uma (nas mesmas condições do berço preparado) de modo a garantir uma boa distribuição. 

5. Imediatamente após o plantio, os berços foram cobertos com a matéria orgânica que fora previamente afastada, sempre mantendo um formato côncavo de berço ou ninho pois este formato fisicamente beneficia a entrada de água e mantém a temperatura mais baixa, contribuindo para o crescimento. 

Entre as faixas dos berços de mandioca foi preparada uma linha mais estreita, com cerca de 10cm de largura, para o plantio do margaridão (Tithonia diversifolia) e do feijão-de-porco (Canavalia ensiformis), da seguinte maneira:

1. As estacas de margaridão foram inseridas em um ângulo de 20º sob a camada de matéria orgânica recortada com enxadão.

2. As sementes de feijão-de-porco foram plantadas a cada 30cm com ponta de facão. Na secção da área em que havia maior concentração de árvores foram preparados 12 berços para o plantio de banana da terra e banana prata antígua (Musa spp.), seguindo os passos:

1. Cada berço foi afofado a 40x40x40cm e recoberto com a matéria orgânica afastada para esse preparo. 

2. Os 12 berços receberam 3L de esterco seco de gado e 3L de cinzas cada, considerando este último como recurso (indireto) do próprio local, já que a lenha dali retirada seria queimada. 

Observa-se que a quantidade de adubo utilizado é praticamente simbólica, principalmente considerando que estamos tratando de solo degradado: 300kg de pó de rocha ha -1 , 260kg ha -1 de calcário e 5.360L ha -1 de esterco. Com isso pretende-se demonstrar que o objetivo é alcançar as condições ideais não via insumos mas sim via processos, tendo como principais ajudantes para esse primeiro momento o feijão-de-porco, o feijão carioquinha, a mandioca e a Acacia mangium.

O mão de obra necessária para a implantação dos 1140 m2 foi assim distribuída (considerando-se 1 trabalhador): quatro diárias para roçagem manual com facão; uma diária para derrubada e recorte da vegetação arbórea com motosserra; doze diárias para preparo das faixas da maniveira com facão e enxada; duas diárias para preparo das faixas do margaridão com facão e enxada; uma diária para colheita e preparo das estacas de maniveira e margaridão; meia diária para colheita das sementes que seriam usadas no plantio; uma diária e meia para plantio das maniveiras, sementes e mudas; uma diária para plantio da faixa do margaridão; uma diária para serviços diversos. Vale aqui uma breve descrição de alguns conceitos-chave que norteiam o pensamento de Ernst Götsch para que possamos voltar ao ponto em que se justificam a escolha de algumas das espécies acima citadas.

Um dos principais entendimentos que estão diretamente relacionados aos princípios de Agricultura Sintrópica relaciona-se com o fato de que os sistemas tendem sempre a evoluir das formas mais simples para as formas mais complexas - daí a nomenclatura "Sintrópica" que surge como contraposição ao conceito de entropia. Götsch impõe para si e para suas atividades esse imperativo como direcionador de todas as suas ações. Dessa forma, o papel do agricultor seria o de agente que maneja o ecossistema de modo com que o resultado de sua intervenção seja sempre o "aumento da quantidade e da qualidade de vida consolidada tanto no sublocal de sua ação como, consequentemente, no planeta por inteiro" (GÖTSCH, 2012). 

Este papel do agricultor sendo executado na prática foi o que pôde ser acompanhado no presente caso. Considerando a área que foi base para essa experiência, observou-se que, apesar do pousio de 80 anos, o sistema ainda não conseguia, por si só, recuperar o estágio original em termos de biodiversidade e qualidade do solo. Na região constatava-se facilmente a presença tanto dos dispersores como das matrizes. No entanto, mesmo assim, a exemplo das melastomastáceas que ali se encontravam, nenhuma apresentava saúde e vigor suficientes para sustentar o processo de complexificação do local.

Para Ernst Götsch certamente essa área chegaria a se recompor em algum momento, pois as atividades fotossintéticas estão presentes, o acúmulo de matéria orgânica do feto de gaiola é visível e os meios para que isso aconteça estão disponíveis nas dinâmicas naturais. Ou seja, a recuperação acontecerá, ainda que para isso leve muitos outros anos, o que para a vida no planeta significa um tempo irrisório. No entanto, para o ser humano, os 80 anos que já se passaram sem produtividade naquela área são um tempo significativo. E o ponto em que aquele ecossitema se encontra hoje, com as espécies mais exigentes tentando se estabelecer mas sem encontrar condições suficientes para isso, é basicamente o mesmo ponto em que ele já estava 40 anos atrás. Em situações como esta que emerge a função do agricultor como agente que pode se valer de estratégias que contribuam para a modificação positiva do ambiente, otimizando os processos de vida e promovendo a recuperação tanto da biodiversidade quanto da qualidade do solo, em um espaço de tempo consideravelmente reduzido em comparação com a regeneração que ocorre durante o pousio. Como subproduto dessa interação, temos a produção de alimentos e o ser humano reintegrado ao meio ambiente do qual ele faz parte. Voltamos, então, ao ponto em que surge a questão do uso de espécies como o sombreiro (Clitoria fairchildiana), o eucalipto (Eucalipytus spp.) e, principalmente, a Acacia mangium, todas elas exóticas para o local do experimento. Uma das estratégias utilizadas por Ernst Götsch para estimular o sistema a reagir à condição de degradação na qual se encontra é justamente a introdução de espécies oriundas de ecossistemas menos privilegiados no que diz respeito à disponibilidade de água e nutrientes. A presença dessas espécies menos exigentes no início do processo é o que garante o estabelecimento das outras espécies mais exigentes. O manejo adequado e as podas regulares garantem o aporte de matéria orgânica e promovem a cooperação entre todas as espécies, sendo que cada uma exerce sua função em seu determinado espaço-tempo. Ou seja, não há que se preocupar com a ocupação da Acacia mangium, por exemplo, pois ela naturalmente irá cumprir o seu ciclo de vida, que pela experiência de Götsch é de 7 a 10 anos quando dentro dos plantios. Após esse período - que será muito bem aproveitado pelo sistema considerando-se sua enorme capacidade de mobilização de nutrientes e de biomassa - a Acacia mangium irá se retirar da área que, a essa altura, já terá outras árvores de grande porte para ocupar o seu lugar. É importante lembrar que a fama de "invasora" geralmente associada à Acacia mangium está relacionada a sua capacidade de "invadir" áreas abertas, áreas degradadas, o que é uma característica bem vinda quando o interesse é reflorestar. "Eucalipto não é o mal em si, Acacia mangium não é o mal em si, o modo de plantá-los é que pode ser o mal" (GÖTSCH, 2012). Rotular espécies de maneira obtusa só faz com que as preocupações que deveriam recair sobre o modo como elas têm sido cultivadas se diluam em preconceitos que, na melhor das hipóteses, não têm finalidade alguma.

Aqui essas espécies são usadas como peças-chave para sucessão natural, contribuindo para que o sistema adquira a resiliência necessária para voltar a ser capaz de abrigar espécies mais exigentes. "Não existem inimigos quando compreendemos a função de cada participante do sistema. É a falta de compreensão que faz com que existam preconceitos contra o eucalipto e a Acacia mangium" (GÖTSCH, 2012). 

Resultados 

Em setembro de 2012, passados dois meses da implantação, foi possível constatar o sucesso do estabelecimento das mudas de Eucalyptus sp. e Acacia mangium. Apesar da comprovada presença de formigas cortadeiras (Atta e Acromyrmex), não houve ataques às plantas. Algumas das árvores começavam a nascer, as maniveiras e os feijões desenvolviam-se bem e aqui ressalta-se a importância do manejo. Nessa fase as intervenções de manutenção foram realizadas semanalmente e consistiam, basicamente, na retirada dos poucos brotos de regeneração de feto-de-gaiola e na poda do feijão-de-porco sempre que este ultrapassa a altura da maniveira. Nesses dois primeiros meses o feijão-de-porco foi podado duas vezes. Götsch não viu essa mesma necessidade para o feijão carioquinha pois, como seu ciclo é mais curto, ele não iria atrapalhar o desenvolvimento da mandioca, podendo inclusive valer-se dela como tutor.

Além da poda no feijão-de-porco e da retirada de eventuais brotos de feto-de-gaiola (cada vez mais raros e mais fracos), em dezembro de 2012 também foi feita poda no margaridão. Nesse mês começaram a ser podados o eucalipto e a Acacia mangium, esta última, em especial, correspondendo integralmente às expectativas de espécie estratégica para ajudar o sistema a dar o passo que precisava no sentido do aumento da resiliência. Em janeiro de 2013, após seis meses da implantação, houve um momento de déficit hídrico de cerca de quatro meses, comum na região para aquele período. Para Götsch, a época de seca no hemisfério sul equivale ao inverno no hemisfério norte, quando os sistemas entram em uma fase de "descanso", imprescindível para o maior vigor que virá logo em seguida. Para ele, portanto, a seca normalmente é benéfica pois, com ela são encaminhados processos que disponibilizam minerais justamente para a época das águas. Os efeitos da poda realizada em dezembro de 2012 dão sinais em janeiro de 2013, em forma de novos lançamentos que puderam ser observados nas mandiocas. Aqui a intervenção seguiu a mesma regra de podas do feijão-de-porco, da Acacia mangium, do margaridão e do eucalipto. Começou a ser possível identificar a regeneração natural ilustrada pela presença de espécies como candeia (Gochnatia polymorpha), taquari (Wisadula amplissima), pau-pombo (Matayba elaeagnoides), pau-pólvora (Trema micrantha) e embaúba (Cecropia pachystachya). Apesar da seca, houve novos lançamentos no cacau e no cupuaçu. Como foram plantados em grande número, nessa etapa foi possível ter a prerrogativa de se escolher por aqueles que melhor se desenvolveram, retirando os que apresentavam algum sinal de fragilidade. Alguns sombreiros também começavam a ultrapassar as maniveiras e então foram podados. Ainda em janeiro de 2013, os feijões já haviam sido colhidos e se retiraram do sistema, completando seu ciclo. Ernst Götsch entende que eles cumpriram sua função na sucessão e foram decisivos no estabelecimento das árvores. Evidência disso foi que nos pontos em que o feijão não se desenvolveu de maneira satisfatória a mandioca também não cresceu tão rápido e houve ataque de grilos nas árvores. Seguindo a mesma lógica da sucessão, a mandioca (estrato alto) fez o segundo passo, junto com o feijão-de-porco (estrato baixo-médio), qual seja o de formação de uma espécie de placenta para a futura floresta que ali irá se estabalecer.

Além do conjunto de sementes que foi plantado, Ernst Götsch confia aos dispersores do local a função de completar o sistema. Por sua experiência, ele afirma que a partir do segundo ano começam a ser incorporadas algumas lauráceas, mirtáceas e sapotáceas, todas trazidas por dispersores, pois estes sempre estiveram presentes, assim como as matrizes. A diferença será que, dessa vez, tais sementes encontrarão as condições adequadas para seu pleno desenvolvimento. Em fevereiro de 2013, a Acacia mangium passou por nova poda gerando, nesta ocasião, 9ton ha-1 de matéria orgânica seca e 135ton ha-1 de matéria orgânica verde. Em março de 2013 o eucalipto já havia sido podado quatro vezes - que foram quantas vezes ele chegou a ultrapassar a mandioca. A mandioca, por sua vez, apresentava novos lançamentos e estavam com 1,5m de altura em média. Também no mês de março de 2013 foram feitas algumas seleções, retirando o cacau que cresceu menos para otimizar o desenvolvimento das espécies cujo crescimento é mais lento, como por exemplo algumas anonácias e mirtáceas. O feijão-de-porco começava a amadurecer e logo teria cumprido a sua função, pois a mandioca começaria a crescer por cima dele. Seguem as podas na A. mangium que, apesar disso, já atinge uma média de 1,8m de altura, agora com 8 meses de plantio. Podam-se também especialmente eucalipto e sombreiro. Além desse trabalho, para cuja realização Ernst Götsch dedicou em média 30 minutos semanais, não foi feita nenhuma intervenção que demandasse enxada ou instrumento semelhante. Em maio de 2013 observou-se que a jaqueira e o sombreiro estavam quase acompanhando o crescimento da A. mangium e do eucalipto. Os abacateiros já estavam bem estabelecidos e o margaridão, embora não tenha crescido muito bem, recebeu de 3 a 4 podas e foi importante para ajudar a disponibilizar fósforo e nitrogênio. Começavam a aparecer as embaúbas indicando a transformação do solo. Em agosto de 2013 foi feita a colheita da mandioca que rendeu pouco mais de 28.000kg ha-1 . A partir desse momento as árvores deixaram de ser podadas. Conclui-se que a mandioca cumpriu um papel fundamental na criação das condições para o crescimento do grupo de plantas. São dessa época também os primeiros registros da presença de minhocas puladeiras (Amynthas gracilis). Em dezembro de 2013, a A. mangium e o eucalipto passaram por sua quinta poda. A A. mangium, nesse momento com média de 5 metros de altura, havia dobrado sua massa vegetal em comparação ao seu estado há 10 meses, quando foi realizada sua primeira poda drástica. Ainda em dezembro de 2013 a altura média do cacau chegava a 1 metro e a do cupuaçu e do abacateiro aproximadamente 1.5 metro.

Em março de 2014, por ocasião de um curso de capacitação que Ernst Götsch ministrou em sua fazenda, foi realizado um plantio na borda no sentido Norte da área experimental, aproveitando para aumentar a entrada de luz por essa faixa na época de inverno. Para isso, foi feita uma roçagem no feto-de-gaiola ali existente. Nesse processo constatou-se que as raízes de A. mangium plantadas na área experimental já se estendiam até as bordas, começando a modificar o ambiente. A espécie de "carpete" que era formado pelas raízes de feto-de-gaiola estava ali mais permeável e desconectada. Outra observação que pôde ser feita foi no momento da cavação, quando então foram encontrados exemplares de minhocuçu (Rhinodrilus alatus) em três pontos distintos. Ainda durante esse curso de capacitação, foi feito o plantio de mudas de bananeira com a intenção de usá-las como indicadores para analisar as possíveis modificações no solo provocadas pela experiência em andamento. Em junho de 2014 tais bananeiras haviam confirmado a suspeita positiva, crescendo de maneira satisfatória. As poucas A. mangium que não foram submetidas às podas regulares estavam nessa época cerca de 20% menores do que aquelas que foram podadas, evidenciando os efeitos benéficos da intervenção. Todas essas observações são exemplos do efeito da Agricultura Sintrópica. Ao invés de gastar recursos, o homem/agricultor reintegrado à sua função no sistema promove a fertilidade, a melhoria do solo, a produção de alimentos, o aumento da biodiversidade, melhorando assim as condições de vida para todos os presentes. O trabalho de manutenção, com capina seletiva e podas, diminuiu gradativamente sua frequência. As intervenções que no começo precisavam ser semanais, passaram a ser quinzenais e, hoje, são realizadas a cada 45 dias. Na visita de junho de 2014 constatou-se a presença de cajá (Spondias mombin), cana-de-macaco ou cana-de-brejo (Costus spicatus) e ipê (Tabebuia spp.) . Observou-se que o chão se encontrava tomado de matéria orgânica principalmente oriunda da poda da Acacia mangium que, em breve, passaria por raleamento de modo a privilegiar seu potencial madeireiro. As plântulas de santa bárbara apareceram tardiamente, demonstrando que não são uma boa escolha para esses tipos de solo. Outra conclusão que se pôde tirar da secção em que foram plantadas as bananeiras foi a de que estas não são suficientemente eficientes para promover modificações em condições como aquela. Infere-se isso pelo fato de que a matéria orgânica oriunda da remoção inicial das raízes do feto de gaiola não foram tão bem digeridas como nos demais locais. Apesar disso, as bananeiras se desenvolveram e produziram - inclusive, nessa ocasião foram colhidos alguns cachos.

Embora o manejo da área experimental seja relativamente rápido, a implantação demandou um alto custo de mão de obra. Deve-se a isso o tempo de roçagem da área de feto-de-gaiola e o afofamento do solo. No entanto, Ernst Götsch afirma que estas etapas poderiam ser mecanizadas, diminuindo drasticamente os custos de implantação.

De um modo geral a experiência é avaliada de forma positiva por Ernst Götsch que acredita que em breve poderá colher cacau dessa área, onde há pouco predominava o feto-de-gaiola. Como descrito, os primeiros sinais de melhoria das condições de vida naquele ambiente já começaram a aparecer, as primeiras colheitas já foram feitas e, assim, o sistema bem manejado seguirá seu curso no sentido da complexificação até que se estabeleça uma floresta que por sua auto-dinâmica será capaz de se manter. Acompanhar a prática da Agricultura Sintrópica nos revelou um novo patamar para o conceito de sustentabilidade. 


Referências 

PENEIREIRO, F. M. Sistemas Agroflorestais dirigidos pela sucessão natural: um estudo de caso, São Paulo. 1999. 13 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) – Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo, Piracicaba. 1999.

GÖTSCH, E. Projeto Agenda Götsch, Bahia, 2012. Disponível em: . Acesso em: 10 agosto 2014.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Taiá, mangarito, inhame e cará

Autor: Antônio Henrique dos Santos



Publicação: O trabalho compõe a parte II – Orientações específicas para o cultivo de hortaliças - do Boletim Didático nº 107 “Produção de hortaliças em Santa Catarina”, publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 156 páginas, devem entrar em contato através do site: www.epagri.sc.gov.br




Taiá e mangarito
Essas plantas pertencem à família Araceae. e ao gênero Xanthosoma. Acredita-se que o cultivo de Xanthosoma seja muito antigo no novo mundo (Onwueme, 1978), e provavelmente este gênero originou-se na parte norte da América do Sul (Purseglove, 1972). Já eram cultivados pelos índios guaranis e outras tribos, desde antes do descobrimento.

Os principais representantes cultivados como alimento são o taiá e o mangarito. Em Santa Catarina são cultivados principalmente no Litoral Norte catarinense (Vale do Itajaí, Joinville), por agricultores de origem alemã, que procuraram substitutos para a batatinha.



Inhame do seco ou taiá-japão e Inhame de porco
Também fazendo parte da família Araceae, o gênero Colocasia é formado por dois grandes grupos principais: o grupo eddoes, que possui um túbera principal pequeno (soca) e os túberas secundários (dedos) grandes e pelo grupo dasheen, que possui uma soca grande e pequenos dedos. O taiá-japão pertence ao grupo eddoes e o inhame de porco ou da água, pertence ao grupo dasheen. São plantas originárias do sul da Ásia Central, provavelmente da Índia ou Malásia. Outra característica que distingue os dois gêneros é o formato das folhas, sendo que as Xanthosomas possuem uma fenda que vai até o pecíolo enquanto nas Colocasias a fenda é parcial. Foi introduzida no Brasil por escravos africanos (Figura 33).




FIGURA 33. Folhas de Xanthosoma (esquerda) e Colocasia (direita).



Manejo Tradicional de Mangarito e Taiá e Classificação Popular e Botânica:
Como essas espécies são nativas e não respondem à agricultura denominada “modernizada”, com utilização de insumos como calcário, adubos sintéticos, descrever-se-á o manejo que os produtores tradicionais do Vale do Itajaí e Joinville executam com essas plantas.



Taiá (Xanthosoma sagittifolium Schott)
Os produtores classificam popularmente em cinco variedades, que são: taiá vermelho, taiá branco, taiá cachorro e taiá louco. Botanicamente todas são Xanthosoma sagittifolium. O taiá vermelho e o branco são os preferidos para o consumo e a preferência varia conforme a região. Por exemplo, em Joinville, o preferido do mercado é o branco, enquanto que em Itajaí, o vermelho. Do taiá, podem ser consumidas as folhas, sendo o preferido para esta finalidade, o taiá branco. O taiá cachorro e louco são impróprios para o consumo, com relatos de intoxicação de suínos que consumiram o taiá louco.



Épocas de plantio
Os meses de agosto, setembro e outubro são os melhores meses, sendo colhido em média nove meses após o plantio, nos meses de maio, junho e julho.



Solos

Os solos preferenciais para seu cultivo são áreas novas, de coivara, de encosta, com menor teor de umidade.



Consórcios

O taiá pode ser cultivado à sombra. É comum seu consórcio com bananeiras, cafezais, cará tutorado e outras plantas altas.



Espaçamento
Quando em monocultivo, o espaçamento utilizado é de 1,00 X 0,80 m.



Adubação e correção do solo

Não há recomendação para adubação na ROLAS.

Em experimento de avaliação de nutrição em inhame realizado pela Emepa, chegou-se à seguinte conclusão:

A cultura do inhame respondeu positivamente às adubações de nitrogênio e fósforo, mas não apresentou resposta significativa à adubação com potássio e micronutrientes;

2 - A dose de nitrogênio de 62 kg/ha fracionada em duas parcelas iguais e aplicadas, em cobertura, aos 60 e 90 dias após o plantio, proporciona elevada produtividade, sendo indicada para fertilização nitrogenada da cultura do inhame;

3 - O emprego de 120 kg/ha de P O aplicado totalmente no plantio é indicado para fertilização da cultura do inhame, em solo de textura arenosa a média e de baixa fertilidade.
Assim, pode-se recomendar para as culturas Taiá, mangarito, inhame e cará a seguinte recomendação de adubação: 62 kg/ha de N, 80 kg/ha de P2O5 e 80 kg/ha de K2O.

Produtores entrevistados relatam que em locais onde foi aplicado o calcário, não conseguiram mais colher o taiá, que passou a ser atacado por podridões de solo.



Preparo para o comércio
Para esta finalidade, retiram-se as raízes e lavam-se os túberas em água corrente.


Mangaritos
No Vale do Itajaí e Joinville são cultivados dois tipos de mangaritos: o mangarito branco, classificado como Xanthosoma riedelianum Schott e o mangarito roxo, erroneamente classificado como Caladium Poecile Schott, sendo que o envio de plantas para classificação em recente estudo do autor, irá resultar em nova classificação que será Xanthosoma poecile Schott.



Mangarito Branco (Xanthosoma riedelianum Schott)
Este mangarito é cultivado principalmente em Joinville, sendo encontrado também no Vale do Itajaí, em algumas propriedades.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio variam de agosto a outubro e a colheita de maio a julho.


Solos

Os solos cultivados em Joinville são os mesmos utilizados para hortaliças introduzidas, porém, a utilização de calcário tem causado podridões. Em Itajaí, em solos turfosos sem correção alguma com calcário, as plantas desenvolvem-se muito bem.

Consórcios

Na maioria das propriedades onde este mangarito é cultivado, é feito o monocultivo, porém como é uma planta adaptada a sombreamento, possui potencial para ser cultivada em consórcio.

Espaçamento

Os espaçamentos utilizados podem ser: 0,30 m entre plantas e 0,75 m entre linhas e também 0,40m entre plantas e 0,60m entre linhas.

Correção do solo

Calcário não é recomendado para esta cultura.

Preparo para o comércio

As touceiras são colhidas, debulhadas na roça e é feita uma pré-limpeza, com a remoção de raízes e barro aderido. Os túberas são colocados em sacos de ráfia e batidos contra uma tábua para soltar a casca, sendo após lavados em um riacho (Figura 34). Em seguida, são colocados em caixas plásticas ou de madeira e lavados com bombas elétricas ou tratorizadas, com 300 libras de pressão (Figura 35). Este processo remove a casca e o barro e o produto deve em seguida ser refrigerado (Figura 36).


FIGURA 34. Mangarito branco em saco de ráfia sendo sacudido e lavado em riacho.




FIGURA 35 . Mangarito branco lavado sob pressão.




FIGURA 36. Túberas de mangarito branco descascadas por meio de jato de água.



Mangarito roxo (Xanthosoma poecile Schott):

O mangarito roxo é encontrado na região de Blumenau, predominantemente. Em municípios como Ilhota, Luis Alves, Guabiruba, este mangarito predomina.

Épocas de Plantio

Os meses mais indicados para o plantio são agosto e setembro, e a colheita é realizada de maio a junho.

Solos

Os melhores solos para seu plantio são os solos ricos em matéria orgânica, de coivara (Figura 37), que não devem ser expostos ao sol durante o período da tarde. Estas áreas geralmente são de encostas.



FIGURA 37. Mangarito roxo plantado em coivara.

Consórcios

O cultivo pode ser em monocultivo ou consorciado com milho ou aipim.


Espaçamento

O espaçamento utilizado em monocultivo, é de 1 X 1m, e em cultivo consorciado utiliza-se o mesmo espaçamento, porém a cada 4 linhas de mangarito roxo, é inserida uma linha de milho ou aipim.

Correção do solo

A aplicação de calcário não é realizada.


Preparo para o comércio
O preparo para o comércio é realizado, inicialmente na roça, logo após a colheita, quando são separados os túberas secundários. Em seguida é feita uma pré-limpeza de raízes e a remoção do barro, e por fim são separadas as mudas. Na propriedade, as raízes são lavadas em água corrente sem pressão, para a limpeza de pêlos radiculares e barro (Figura 38).


FIGURA 38. Lavação de mangarito roxo com água sem pressão.



Taiá-japão (Colocasia esculenta Schott “Eddoes”)

O taiá-japão é encontrado na região de Joinville e no Vale do Itajaí existindo duas variedades locais de taiá-japão: uma de pecíolo verde-claro (conhecido como “branco”) e outra de pecíolo arroxeado (Figura 58). A variedade de pecíolo arroxeado produz túberas arroxeados e a de pecíolo verde, túberas brancos.

Épocas de Plantio
As épocas de plantio são: julho, agosto, e setembro, preferencialmente agosto. O taiá-japão apresenta um ciclo de vida mais curto que as outras raízes tuberosas, de aproximadamente 6 meses. A colheita estende-se de janeiro a março.

Solos

Os melhores solos para seu cultivo são os argilosos, não-encharcados, em áreas que recebam sombra.

Consórcios

Como é resistente ao sombreamento, pode ser encontrado em quintais agroflorestais, disperso com outras plantas como, por exemplo: batata-doce, tagetes (cravo de defunto), plantas medicinais, árvores frutíferas e ornamentais e também em monocultivo. Em Pirabeiraba é cultivado consorciado com cará.

Espaçamento

O espaçamento no plantio pode variar sendo plantado em monocultivo, com espaçamentos de 1,5 X 0,70m ou de 1 X 0,50m.


Correção do solo

A correção do solo com calcário não é realizada diretamente para esta planta e sim para as plantas que antecederam esta cultura.

Preparo para o comércio

O preparo dos túberas secundários para o comércio é feito através da lavação, remoção das raízes e dos pêlos radiculares. A manipulação destas plantas causa irritação na pele (coceiras), provocada pelo oxalato de cálcio e outros compostos presentes na planta. Para eliminar o oxalato de cálcio, os produtores colhem as plantas e deixam-nas secar por dois dias para após recolherem os túberas.



Cará (Dioscorea sp)

O gênero Dioscorea estava distribuído em eras geológicas primevas nos hemisférios ocidental e oriental, onde se desenvolveu independentemente em cada região (Purseglove, 1972). Pertence à família Dioscoreaceae.


Carás plantados em Santa Catarina
Existem três tipos de carás mais comumente encontrados em Santa Catarina, conforme figuras 40, 41 e 42.



FIGURA 40. Túberas e folha de cará-mimoso (Dioscorea trifida L.). 



FIGURA 41. Túberas e folhas de cará-de-pão (Dioscorea alata L.). 




FIGURA 42. Túberas e folhas de cará-do-ar (Dioscorea bulbifera L.). 



Manejo da Cultura

A seguir será descrito o manejo com a cultura do cará-mimoso, o qual recebe maior esmero no manejo, principalmente na região de Joinville, onde seu cultivo é mais expressivo.



Épocas de Plantio

Os melhores meses para o plantio são agosto e setembro, colhendo-se em maio e junho.


Solos

Segundo os agricultores, os melhores solos para seu cultivo são os solos novos, soltos.


Consórcios

O cará mimoso é produzido em monocultivo ou consorciado com o taiá-japão ou com milho. Quando consorciado com o milho, o qual é plantado no espaçamento de 1 X 1m, são colocadas duas plantas de cará entre duas plantas de milho. Assim, cada planta de milho escora duas plantas de cará. O cará é plantado um mês após a semeadura do milho, para que não haja concorrência. Antes da introdução do milho híbrido, o consórcio era realizado com o milho comum, o qual possuía uma estrutura mais robusta, com colmos de maior diâmetro, os quais suportavam o peso das plantas de cará. Com a introdução do milho híbrido, menos resistente, esta prática foi aos poucos abandonada. Quando em monocultivo, este é tutorado em sistema piramidal (Figura 43).



FIGURA 43. Diferentes tipos de tutoramento do cará



Espaçamento

Em monocultivo, as plantas são espaçadas de 0,90 X 0,90m e são tutoradas por três varas de bambu, que escoram uma planta de cada fila (tutoramento piramidal). Estas estruturas são amarradas entre si com arame a uma altura de 2,20m. Neste espaçamento, o número de plantas por hectare é de aproximadamente 12.300.

Quando das capinas entre linhas com microtrator, o espaçamento pode variar, de 1,20m entre linhas e 0,50m entre plantas, com aproximadamente 16.600 plantas por hectare.

Correção do Solo

O calcário não é aplicado visando a correção do solo para a cultura do cará, e sim para outras hortaliças que são cultivadas anteriormente na mesma área.

Preparo para o Comércio 


Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial  e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

















Os túberas são desenterrados, são retirados os de valor comercial e em seguida deixam-se dois túberas médios que são novamente enterrados, que brotarão na primavera. Em seguida são encaixotados e lavados ficando prontos ao comércio.

domingo, 10 de abril de 2016

Cultivo de morango orgânico


Cultivado no sistema convencional o morangueiro pode receber em média 45 pulverizações com agrotóxicos, motivo pelo qual já encontra-se na lista negra dos alimentos campeões de resíduos químicos. Entretanto, a prática de alguns produtores orgânicos tem mostrado que existe viabilidade técnica, econômica, social e ecológica da produção orgânica de morango, como veremos neste artigo baseado no relato de experiência de dois produtores do sul do Brasil.

O morangueiro (Fragaria x Ananassa) é uma cultura típica de climas mais amenos, não sendo muito tolerante a temperaturas elevadas. No Brasil o morango tem se adaptado melhor do sul de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, porém existem experiências até mesmo no cerrado.

Sendo botanicamente classificado como uma hortaliça da família das rosáceas, o morango ainda é mais conhecido como um delicioso frutinho rasteiro, tendo a vantagem de ir para o mercado, na primavera, quando há poucas frutas à venda, alcançando bons preços. Ademais, na indústria é conhecido pelo uso freqüente em iogurtes e sorvetes.


Variedades: Seleção Deve Aliar Produtividade, Resistência e Sabor

A escolha da variedade deve levar em conta a produtividade, a precocidade, a conservação, o sabor e a resistência contra pragas e doenças. Outro ponto importante no sistema orgânico é a adaptação da planta às condições regionais. A experiência do produtor gaúcho Gilson Teixeira – que nos últimos 5 anos vem selecionando mudas de uma das primeiras variedades comerciais lançadas no país – a Campinas, confirma que no sistema orgânico é possível reduzir custos produzindo mudas próprias (Figura 1).

FIGURA 1 – Variedade de morango “Campinas”: boa adaptação ao sistema orgânico. Propriedade de Gilson Teixeira em Caçapava do Sul, RS.
Este procedimento possibilita maior controle sobre o planejamento de produção e melhor adaptação da cultura às condições locais. Apesar de as mudas importadas, basicamente do Chile, apresentarem ótima qualidade comercial, o custo inicial da lavoura aumenta demasiadamente, ficando o produtor altamente dependente de recursos externos ao sistema.

Uma boa opção é o plantio de duas variedades ao mesmo tempo – uma de maior produtividade e resistência e outra de produção mais precoce. Com a primeira obtém-se grande quantidade, com a segunda, bons preços.

Solo e Local de Plantio

O morangueiro é uma cultura especialmente exigente em condições físicas e nutricionais do solo. Produz melhor em solos areno-argilosos, bem drenados, ricos em matéria orgânica e de boa constituição física. A faixa de pH preferido fica entre 5,5 e 6,0. Em solos mais ácidos é recomendável uma calagem.

Sabe-se que a planta do morangueiro é muito delicada, especialmente em relação ao seu sistema radicular, exigindo canteiros muito bem preparados, visto que a maior parte das raízes concentra-se na camada superficial do leito de plantio.

Outro ponto importante é a nutrição do morangueiro. A adubação orgânica traz uma série de benefícios que resultam em melhoria de produtividade e resistência das plantas. Por isso, inicialmente pode-se proceder a adubação orgânica em toda área e, em seguida, realiza-se a preparação de canteiros. Após o levantamento de canteiros, ainda pode-se utilizar o húmus que pode ser espalhado homogeneamente e incorporado com enxada rotativa.

O plantio realizado de março a julho na região Sul, pode ser feito em canteiros com 15 a 20 cm de altura e 0,80 a 1,20 m de largura, num espaçamento entre plantas de 30 x 30 cm, preferentemente no final da tarde para facilitar o pegamento. Outra sugestão interessante é plantar as mudas em “ziguezague”, semelhante aos cultivos da Califórnia, fator que proporciona melhor aproveitamento do espaço útil. Isso permite maior vigor do sistema radicular o que favorece a nutrição e autodefesa das plantas.

Mudas: Multiplicação Própria Diminui Custos

As mudas orgânicas podem ser produzidas na própria propriedade, a partir dos morangueiros que produziram no ano anterior. Este método vem sendo empregado nos últimos 5 anos com excelentes resultados pelo produtor gaúcho Gilson Teixeira que faz a preparação das mudas da variedade “Campinas” por meio do arrancamento dos morangueiros que produziram no ano anterior, fazendo uma seleção criteriosa. Após é realizado uma limpeza e preparação da muda, que consiste na retirada de parte das folhas e do excesso de raízes.

Adubação Orgânica: Conteúdo Ruminal e Húmus são Opções Complementares

Um dos materiais que vem sendo utilizado com sucesso como suprimento de matéria orgânica para o solo é o conteúdo ruminal descartado nas operações de frigorífico. Este subproduto já possui um determinado grau de decomposição e também serve de alimento para as minhocas, possibilitando produção de húmus na própria propriedade.

Além disso, como adubação foliar, os produtores orgânicos têm utilizado preparados a base de biofertilizantes como o supermagro, biogel, extratos de algas marinhas e microorganismos eficientes (EM) que servem para reforçar a resistência das plantas.

Tratos Culturais: Cobertura de Casca de Arroz é Boa Alternativa ao Plástico

O controle de invasoras é essencial, pois o morangueiro sofre muito com a concorrência. A primeira capina é realizada cerca de um mês depois do plantio quando as mudas já estão com brotação nova e bem enraizadas. Como a raiz do morangueiro nasce da parte superior, bem junto ao solo, deve se utilizar uma enxada de lâmina estreita para evitar danos às raízes. Posteriormente, após a colocação da cobertura morta é realizada mais uma ou duas operações de limpeza. Estas consistem no arrancamento das invasoras que persistiram ou que brotaram sobre a cobertura morta.

Como cobertura morta utiliza-se a casca de arroz em substituição ao plástico preto, espalhando-se uma camada de cerca de 3 a 5 centímetros sobre a superfície do canteiro (Figura 2). Esse material, pela sua coloração espanta a maioria dos insetos praga, além de favorecer as condições ambientais locais. Entre os canteiros pode-se utilizar também acículas de pinus.

FIGURA 2 – Cobertura morta com casca de arroz: opção ambientalmente correta em substituição ao plástco preto.



Na época de plantio e em plena produção o morangueiro exige grande umidade do solo com irrigações freqüentes (duas a três vezes ao dia). Diferentemente da maioria dos produtores de morango que utilizam a irrigação por gotejamento, induzindo a planta a um enraizamento mais localizado, na propriedade de Gilson Teixeira a irrigação por aspersão tem mostrado bons resultados permitindo um desenvolvimento radicular mais expressivo.

Pragas e doenças: Prevenir é Fundamental

O ácaro e os pulgões são as principais pragas do morangueiro. A umidade e a temperatura elevadas facilitam o seu aparecimento. Se as pragas atingirem poucas plantas recomenda-se a eliminação das mesmas. O ácaro ataca a face inferior das folhas, causando amarelecimento, secamento ou uma tonalidade pardo-avermelhada. Um sinal típico da presença dos ácaros é um entrelaçamento de fios de seda, sobre o qual eles vivem. Para o controle existem alguns produtos de uso restrito que devem ser consultados junto às certificadoras. O controle dos pulgões é mais fácil, pode-se utilizar desde preparados a base de plantas e minerais até o controle biológico com joaninhas.

As doenças são mais acentuadas em climas quentes e úmidos. O mais grave e disseminado problema fitossanitário é a “mancha das folhas”, causada pelo fungo Mycosphaerella fragariae. O controle pode ser obtido seguindo alguns cuidados: plantio de variedades resistentes; escolha de um local bem arejado e sem excesso de umidade; além de uso de mudas sadias. Em caso de ataque a morangueiros deve-se descartar o material afetado. Se o ataque for às folhas sugere-se a retirada das atingidas.

Outro ponto importante para evitar problemas fitossanitários é a rotação de culturas, pois o morangueiro deve ser retirado do terreno após seu ciclo anual. Não se recomenda o replantio em seguida no mesmo local, nem o uso de plantas da família das solanáceas (tomate, batata, pimentão, berinjela) que podem transmitir viroses e fungos que atacam as raízes do morango. Neste caso, o ideal seria utilizar na rotação um adubo verde ou outra cultura comercial.

Colheita: Maior Parte é Comercializada “in natura”

Nas principais regiões produtoras do Sul do Brasil a colheita é realizada de agosto a dezembro (Figura 3). Após colheita e seleção os morangos são colocados em embalagens plásticas (PET) com capacidade variável dependendo do mercado (200 ou 350 gramas). Neste relato, os morangos orgânicos selecionados para consumo “in natura” representavam cerca de 70 % da quantidade colhida. Os frutos menores ou com pequenas imperfeições que não comprometam sua qualidade, são destinados a produção de polpa ou a venda para industrialização.

FIGURA 3 – Vista geral da cultura do morango orgânico em época  de colheita em  Caçapava do Sul, RS.
Segundo o produtor paranaense Anderson de Almeida, o morango orgânico é vendido em média a 33% acima do similar convencional. O mesmo produtor aponta algumas diferençasmarcantes em relação ao convencional: melhor aparência, maior durabilidade e resistência,melhor sabor e maior aproveitamento final. 

Em síntese, os produtores orgânicos têm obtido produções competitivas comparadas ao sistema convencional. No Paraná, a média de produtividade dos últimos anos tem ficado entre 300 a 500 gramas por planta. Nos Estados Unidos, estudos de GLIESSMAN et. al. (1996), mostraram uma superioridade de produção no sistema convencional. Entretanto, neste mesmo estudo os custos foram significativamente menores no sistema orgânico, fazendo com que o retorno econômico final fosse superior no orgânico, sem contar a melhoria das características biológicas do sistema. As experiências práticas não deixam dúvidas que o sistema de produção de morango orgânico tem sido competitivo em termos técnicos, econômicos e ecológicos, sendo uma alternativa viável para pequenas propriedades familiares.



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