domingo, 19 de maio de 2013



Apicultura: Doce e lucrativo negócio

 Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, Jornalista da Epagri,  publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.2,  jul.2011


Além de ser uma importante fonte de renda no campo, a
apicultura é fundamental para a sobrevivência da agricultura
e a preservação ambiental


     É num processo da natureza extremamente organizado e de proporções minúsculas que se sustenta uma das cadeias produtivas mais importantes de Santa Catarina. De flor em flor, as abelhas coletam néctar para produzir o mel que, após incontáveis viagens, vai encher os favos nas colmeias. No final de cada safra, a soma dessas pequenas quantidades alcança volumes que, no Estado, variam de 6 mil a 8 mil toneladas por ano, movimentando cerca de R$ 30 milhões. 

     A união do trabalho de abelhas e apicultores coloca Santa Catarina na quarta posição entre os Estados produtores de mel do Brasil e em primeiro lugar quando se trata de produção por quilômetro quadrado. São cerca de 450 mil colmeias distribuídas entre 30 mil apicultores, que se reúnem em 60 associações ligadas à Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc). A maior densidade de colmeias está no sul, no Vale do Itajaí, na Grande Florianópolis e no norte, enquanto as melhores produtividades estão nos apiários do sul, da região serrana e do Vale do Itajaí. Cerca de 30% da produção é exportada.

     A vegetação e o clima diversificado favorecem a exploração da atividade e garantem a qualidade do mel catarinense. Estudos apontam Santa Catarina como o Estado brasileiro com a maior diversidade floral e de mel: são mais de 200 tipos do produto. Flores de eucalipto, vassouras, bracatinga, uva-do-Japão, laranjeira e demais plantas silvestres são as mais comuns.

     Para quem se dedica à atividade, as colmeias também fornecem pólen, própolis, geleia real, cera e apitoxina. Em Santa Catarina, esses produtos geram renda aos produtores, mas a maior importância das abelhas está no papel que elas desempenham na natureza: a  polinização das plantas. Sem elas, a reprodução de diversas espécies vegetais, muitas de interesse econômico, como maçã, pera, grãos, olerícolas e pastagens, estaria comprometida. “Com o serviço de polinização, as abelhas garantem um aumento na produção agrícola equivalente a mais de US$ 100 milhões anuais a Santa Catarina”, ressalta o médico-veterinário Walter Miguel, chefe da Epagri/Parque Ecológico Cidade das Abelhas (Peca).    

     Para os apicultores do sul do Estado, a polinização também gera renda. No início da primavera eles levam as colmeias para a região serrana, onde as alugam para polinizar mais de 20 mil hectares de pomares de maçã e obtêm uma safra de mel com espécies da região. No início do ano eles voltam para o sul, onde aproveitam o final das floradas, especialmente a do eucalipto, e colhem a segunda safra.

Simples e barato 
     A implantação de um apiário não exige grandes estruturas, como cercas e galpões, e pode ser feita em pequenas propriedades, aproveitando áreas impróprias para a agricultura e pecuária, desde que haja flora apícola na região. Por questões de segurança, o produtor não pode ser alérgico ao veneno da abelha e deve instalar o apiário a pelo menos 200 m de estradas e lavouras. O manejo é simples e pode ser feito com mão de obra familiar. “A apicultura é uma excelente fonte de renda porque os custos de produção são baixos, já que a maior fonte de alimentação das abelhas é natural e a atividade não utiliza insumos. O investimento inicial praticamente se paga no primeiro ano de produção”, ressalta Walter Miguel. 

     Para instalar um apiário com 50 colmeias, o veterinário calcula que sejam gastos aproximadamente R$ 4,5 mil na compra das caixas, que podem durar mais de dez anos se forem bem manejadas. Os enxames normalmente são encontrados na natureza e a extração e o envasamento do mel podem ser feitos em cooperativas ou associações com outros apicultores. 

     Walter garante que o investimento vale a pena mesmo para quem aposta em uma produção pequena. Em 50 colmeias, considerando uma produção de 30 kg de mel/colmeia/ano vendida a R$ 4,00/kg, o apicultor consegue obter cerca de R$ 6 mil por safra de mel. “Já um apicultor com 500 colmeias consegue tirar cerca de R$ 60 mil ao ano, o que equivale a uma renda mensal de aproximadamente R$5 mil. Mas, para alcançar bons resultados, é preciso se dedicar”, aconselha. 

Bom negócio 
     Interesse pelas abelhas não falta para Leo Kreusch, de 63 anos, que vive em Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí. Ele trocou as lavouras de fumo pelas colmeias e hoje é exemplo de que quando há dedicação a atividade é uma boa opção de renda. “A apicultura era uma tradição do meu pai que eu aprendi aos 10 anos de idade”, lembra. Há cerca de 30 anos, Leo decidiu resgatar a atividade. “Comprei equipamentos e me aperfeiçoei com cursos da Epagri”, conta. Com o conhecimento e o trabalho de Leo, as colmeias se multiplicaram e já faz 15 anos que a família deixou a produção de fumo. 

     São cerca de 200 colmeias na propriedade e em áreas alugadas. Na safra do ano passado, Leo colheu 35 kg de mel por colmeia, bem acima da média da região, que é de 25 kg. Parte da produção vai para entrepostos, mas a maior parcela é vendida na propriedade, pois os anos de trabalho no ramo já renderam ao apicultor uma freguesia fiel. “De um modo geral, os custos diminuíram e a renda aumentou com a apicultura, sem falar que não mexo mais com agrotóxicos”, revela. 

     Assim como aprendeu com o pai, Leo está passando a atividade para o filho Luiz Carlos, de 15 anos, que tem se interessado cada vez mais pelo apiário. “Ele já fez vários cursos e está gostando. No futuro, ele vai tocar o que eu estou fazendo”, afirma.

     No município, 22 apicultores mantêm cerca de 1.500 colmeias e são responsáveis por uma produção de 37 t de mel por ano. Seguindo o exemplo das abelhas, eles ajudam uns aos outros. “É um trabalho de equipe. Quando um vizinho chama, a gente vai e o trabalho acaba sendo uma diversão”, conta Leo, que também é presidente da Associação dos Apicultores de Vidal Ramos (Aapivira). A associação, fundada em 1990, auxilia na compra de materiais e equipamentos e na adequação dos estabelecimentos dos produtores. Até o início da próxima safra, em outubro, a Aapivira deve inaugurar uma unidade de extração de mel com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Hoje, a maioria dos associados faz a extração na propriedade.

     Flávio Majolo, que é extensionista da Epagri no Escritório Municipal de Vidal Ramos, acredita que a produção de mel do município pode ser duplicada sem risco de haver concorrência de florada entre as abelhas. “A região tem ótimo potencial apícola, com grandes áreas de mata nativa e eucalipto”, avalia. Mas, embora a Epagri incentive a atividade, a apicultura aos poucos se enfraquece na região. “Muitos produtores não aplicam as tecnologias aprendidas nos cursos, que são fundamentais para ter sucesso nos apiários”, explica.

     Em outras regiões do Estado, a situação se repete. Cerca de 3 mil produtores catarinenses são considerados profissionais, mas a maior parte tem até 100 colmeias e pratica a atividade apenas para complementar a renda. “O conhecimento chega até eles, mas a maioria não aproveita todo o potencial econômico da atividade”, conta Walter Miguel, do Peca.

     Essa situação mantém a produtividade média do Estado em um nível relativamente baixo: em torno de 15 kg de mel por colmeia/ano. O grande desafio da Epagri e das entidades do setor é ampliar esse número em 30% a 40% nos próximos anos. “Estamos concentrando esforços no desenvolvimento de material genético de qualidade, na adoção de técnicas adequadas de manejo e no incentivo ao associativismo, fazendo com que os apicultores adotem as novas tecnologias e melhorem a produtividade”, destaca o veterinário.

Pesquisa e extensão 
     A Epagri acumula mais de 50 anos de trabalho na apicultura, contribuindo com o crescimento do setor dentro e fora do Estado. Foi em Santa Catarina, por exemplo, que se desenvolveu o fumegador que é utilizado hoje nos apiários de abelhas africanizadas em todo o Brasil. O desenvolvimento de roupas e equipamentos humanizados, com mais segurança e ventilação, também tem contribuição da Epagri. 

     Desde 2009, as pesquisas da Empresa na área são conduzidas pela Estação Experimental de Videira. O Parque Ecológico Cidade das Abelhas, em Florianópolis, passou a atuar na capacitação de produtores, no apoio às atividades de extensão e às pesquisas, na sanidade apícola em parceria com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e na organização da cadeia produtiva em conjunto com a Faasc.

      Entre as pesquisas em andamento, destacam-se a seleção de colmeias a partir da avaliação de comportamento higiênico e produtividade de mel, a caracterização genética das abelhas em diferentes regiões de Santa Catarina e o monitoramento da infestação pelo ácaro Varroa destructor em apiários do Estado. “Somos colaboradores da Universidade Federal de Santa Catarina na avaliação de compostos bioativos e da qualidade do mel em diferentes regiões catarinenses”, acrescenta Cristiano João Arioli, pesquisador em entomologia da Estação Experimental de Videira. Também em parceria com a UFSC, a Epagri/Peca participa de uma pesquisa sobre a caracterização da própolis catarinense e seus efeitos farmacológicos. O estudo é conduzido em parceria com apicultores de dez regiões do Estado e já apresenta resultados promissores. 

     A criação de abelhas sem ferrão, ou indígenas, chamada de meliponicultura, é outra área que recebe atenção da Empresa. O Peca possui um meliponário, fruto do trabalho do técnico agrícola Ivanir Cella, para difundir tecnologias com foco na preservação ambiental. Além disso, a atividade pode gerar renda para os produtores, seja pela produção de mel, seja pela venda de famílias de espécies nativas. “Em termos quantitativos, não se deve comparar a produção das abelhas sem ferrão com a das abelhas Apis mellifera africanizadas, que são as mais criadas comercialmente em Santa Catarina. As primeiras têm produção bem menor, mas possuem grande importância ambiental, já que muitas espécies vegetais nativas são polinizadas exclusivamente por elas”, esclarece a médica-veterinária Mara Rúbia Pinto, pesquisadora do Peca.

Atenção ao manejo
     Outra contribuição da Epagri está na investigação das possíveis causas da mortalidade de abelhas que vem ocorrendo no Estado. A partir de 2007 houve ampla divulgação de um problema surgido nos Estados Unidos e na Europa, a CCD (sigla em inglês para Síndrome do Colapso das Colônias), que se caracteriza pelo desaparecimento das abelhas e cujas causas ainda não foram esclarecidas. “Com essa divulgação, os apicultores do Estado se alertaram. Situações que antes passavam despercebidas foram atribuídas a isso e recebemos relatos do que poderia ser a CCD”, conta Mara Rúbia. 

     A Epagri vem estudando a situação em parceria com outras instituições, mas com os dados levantados até agora não é possível atribuir as perdas à CCD. “A maior parte dos casos decorre de erros de manejo. Além disso, a vegetação nativa está dando lugar à monocultura e isso prejudica as abelhas, que precisam de aporte nutricional proteico diversificado e em quantidade adequada”, acrescenta a pesquisadora.

     Fome, frio e deficiências no manejo ainda são apontados como as principais causas de mortalidade de abelhas e redução de produtividade em Santa Catarina. Para se defender, as abelhas consomem mel e a reserva acaba rapidamente. Sem os devidos cuidados, os apicultores chegam a perder 15% a 30% das colmeias no outono e no inverno. 

     Os técnicos recomendam tomar algumas precauções para manter a temperatura dentro das colmeias, como não instalá-las em locais altos e descampados, reduzir o espaço de entrada das abelhas, expor as colmeias ao sol e vedar as frestas das caixas. “É importante usar uma ‘entretampa’ nos meses mais frios para diminuir os espaços vazios na colmeia”, reforça Walter Miguel. 

     Também é preciso observar a necessidade de alimentar as abelhas no outono e no inverno. Para ajudar os produtores nessa tarefa, a pesquisadora Mara Rúbia estudou a nutrição das abelhas em sua dissertação de mestrado. “Essa é uma das áreas menos estudadas e mais importantes na apicultura porque as abelhas não recebem medicamentos e precisam se fortalecer pela alimentação”, justifica. 

     A pesquisadora avaliou a eficiência de diferentes dietas até chegar às melhores alternativas para atender as necessidades nutricionais das abelhas. Ao final do estudo, um folder com as receitas foi publicado para orientar os apicultores. “As dietas não alteraram as características físico-químicas do mel produzido e podem ser consideradas adequadas para suplementação alimentar em época de escassez de recursos naturais”, conclui.

     Para levar todo esse conhecimento e as novas tecnologias ao campo, os cursos de apicultura oferecidos pela Epagri capacitam mais de 300 produtores por ano em todas as regiões do Estado, além de cerca de 35 técnicos que fazem atualização. O curso básico de apicultura dura de 3 a 5 dias e dá noções suficientes para o produtor iniciar a atividade. Mais tarde, ele pode se especializar com cursos como os de produção de pólen, geleia real e própolis. O produtor Leo Kreusch, de Vidal Ramos, que já fez sete cursos na Epagri, revela o segredo para crescer na atividade: “Para ser um bom apicultor, além de gostar do que faz, é preciso se aperfeiçoar.

Como o mel é produzido
     A principal fonte para a elaboração do mel é o néctar das flores. Em alguns locais, as abelhas também coletam a secreção de outros insetos para produzir o mel de melato. “Em Santa Catarina, encontramos o mel de melato produzido a partir da secreção de cochonilhas presentes na bracatinga”, explica a pesquisadora Mara Rúbia Pinto. 

     A produção do mel envolve várias reações. Em uma reação física, o néctar é desidratado até que o teor de umidade fique abaixo de 18%.Para isso, ocorre uma absorção de água no papo das abelhas e uma evaporação pelo bater das asas dos insetos na colmeia. Já a transformação dos açúcares do néctar em açúcares do mel ocorre pela ação das enzimas invertase, amilase e glicose-oxidase. “Após essa delicada transformação, as abelhas depositam o mel no interior dos alvéolos presentes nos favos e os cobrem com uma fina camada de cera num processo chamado de operculação. Nesse ponto, o mel é considerado ‘maduro’”, conta a pesquisadora.

     De acordo com a flor de origem, a cor do mel pode variar de quase transparente a quase negro. Quanto mais escuro, mais forte ao paladar e maiores os índices nutricionais, principalmente no teor de sais minerais. O sabor pode variar de doce suave até doce forte e, em alguns casos, como o do mel da bracatinga, pode ser ácido ou amargo. A consistência também varia: há mel líquido, cristalizado, granulado e cremoso.
Ferreira On 5/19/2013 01:08:00 PM Comentarios

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domingo, 19 de maio de 2013

Doce e lucrativo negócio



Apicultura: Doce e lucrativo negócio

 Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, Jornalista da Epagri,  publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.2,  jul.2011


Além de ser uma importante fonte de renda no campo, a
apicultura é fundamental para a sobrevivência da agricultura
e a preservação ambiental


     É num processo da natureza extremamente organizado e de proporções minúsculas que se sustenta uma das cadeias produtivas mais importantes de Santa Catarina. De flor em flor, as abelhas coletam néctar para produzir o mel que, após incontáveis viagens, vai encher os favos nas colmeias. No final de cada safra, a soma dessas pequenas quantidades alcança volumes que, no Estado, variam de 6 mil a 8 mil toneladas por ano, movimentando cerca de R$ 30 milhões. 

     A união do trabalho de abelhas e apicultores coloca Santa Catarina na quarta posição entre os Estados produtores de mel do Brasil e em primeiro lugar quando se trata de produção por quilômetro quadrado. São cerca de 450 mil colmeias distribuídas entre 30 mil apicultores, que se reúnem em 60 associações ligadas à Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc). A maior densidade de colmeias está no sul, no Vale do Itajaí, na Grande Florianópolis e no norte, enquanto as melhores produtividades estão nos apiários do sul, da região serrana e do Vale do Itajaí. Cerca de 30% da produção é exportada.

     A vegetação e o clima diversificado favorecem a exploração da atividade e garantem a qualidade do mel catarinense. Estudos apontam Santa Catarina como o Estado brasileiro com a maior diversidade floral e de mel: são mais de 200 tipos do produto. Flores de eucalipto, vassouras, bracatinga, uva-do-Japão, laranjeira e demais plantas silvestres são as mais comuns.

     Para quem se dedica à atividade, as colmeias também fornecem pólen, própolis, geleia real, cera e apitoxina. Em Santa Catarina, esses produtos geram renda aos produtores, mas a maior importância das abelhas está no papel que elas desempenham na natureza: a  polinização das plantas. Sem elas, a reprodução de diversas espécies vegetais, muitas de interesse econômico, como maçã, pera, grãos, olerícolas e pastagens, estaria comprometida. “Com o serviço de polinização, as abelhas garantem um aumento na produção agrícola equivalente a mais de US$ 100 milhões anuais a Santa Catarina”, ressalta o médico-veterinário Walter Miguel, chefe da Epagri/Parque Ecológico Cidade das Abelhas (Peca).    

     Para os apicultores do sul do Estado, a polinização também gera renda. No início da primavera eles levam as colmeias para a região serrana, onde as alugam para polinizar mais de 20 mil hectares de pomares de maçã e obtêm uma safra de mel com espécies da região. No início do ano eles voltam para o sul, onde aproveitam o final das floradas, especialmente a do eucalipto, e colhem a segunda safra.

Simples e barato 
     A implantação de um apiário não exige grandes estruturas, como cercas e galpões, e pode ser feita em pequenas propriedades, aproveitando áreas impróprias para a agricultura e pecuária, desde que haja flora apícola na região. Por questões de segurança, o produtor não pode ser alérgico ao veneno da abelha e deve instalar o apiário a pelo menos 200 m de estradas e lavouras. O manejo é simples e pode ser feito com mão de obra familiar. “A apicultura é uma excelente fonte de renda porque os custos de produção são baixos, já que a maior fonte de alimentação das abelhas é natural e a atividade não utiliza insumos. O investimento inicial praticamente se paga no primeiro ano de produção”, ressalta Walter Miguel. 

     Para instalar um apiário com 50 colmeias, o veterinário calcula que sejam gastos aproximadamente R$ 4,5 mil na compra das caixas, que podem durar mais de dez anos se forem bem manejadas. Os enxames normalmente são encontrados na natureza e a extração e o envasamento do mel podem ser feitos em cooperativas ou associações com outros apicultores. 

     Walter garante que o investimento vale a pena mesmo para quem aposta em uma produção pequena. Em 50 colmeias, considerando uma produção de 30 kg de mel/colmeia/ano vendida a R$ 4,00/kg, o apicultor consegue obter cerca de R$ 6 mil por safra de mel. “Já um apicultor com 500 colmeias consegue tirar cerca de R$ 60 mil ao ano, o que equivale a uma renda mensal de aproximadamente R$5 mil. Mas, para alcançar bons resultados, é preciso se dedicar”, aconselha. 

Bom negócio 
     Interesse pelas abelhas não falta para Leo Kreusch, de 63 anos, que vive em Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí. Ele trocou as lavouras de fumo pelas colmeias e hoje é exemplo de que quando há dedicação a atividade é uma boa opção de renda. “A apicultura era uma tradição do meu pai que eu aprendi aos 10 anos de idade”, lembra. Há cerca de 30 anos, Leo decidiu resgatar a atividade. “Comprei equipamentos e me aperfeiçoei com cursos da Epagri”, conta. Com o conhecimento e o trabalho de Leo, as colmeias se multiplicaram e já faz 15 anos que a família deixou a produção de fumo. 

     São cerca de 200 colmeias na propriedade e em áreas alugadas. Na safra do ano passado, Leo colheu 35 kg de mel por colmeia, bem acima da média da região, que é de 25 kg. Parte da produção vai para entrepostos, mas a maior parcela é vendida na propriedade, pois os anos de trabalho no ramo já renderam ao apicultor uma freguesia fiel. “De um modo geral, os custos diminuíram e a renda aumentou com a apicultura, sem falar que não mexo mais com agrotóxicos”, revela. 

     Assim como aprendeu com o pai, Leo está passando a atividade para o filho Luiz Carlos, de 15 anos, que tem se interessado cada vez mais pelo apiário. “Ele já fez vários cursos e está gostando. No futuro, ele vai tocar o que eu estou fazendo”, afirma.

     No município, 22 apicultores mantêm cerca de 1.500 colmeias e são responsáveis por uma produção de 37 t de mel por ano. Seguindo o exemplo das abelhas, eles ajudam uns aos outros. “É um trabalho de equipe. Quando um vizinho chama, a gente vai e o trabalho acaba sendo uma diversão”, conta Leo, que também é presidente da Associação dos Apicultores de Vidal Ramos (Aapivira). A associação, fundada em 1990, auxilia na compra de materiais e equipamentos e na adequação dos estabelecimentos dos produtores. Até o início da próxima safra, em outubro, a Aapivira deve inaugurar uma unidade de extração de mel com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Hoje, a maioria dos associados faz a extração na propriedade.

     Flávio Majolo, que é extensionista da Epagri no Escritório Municipal de Vidal Ramos, acredita que a produção de mel do município pode ser duplicada sem risco de haver concorrência de florada entre as abelhas. “A região tem ótimo potencial apícola, com grandes áreas de mata nativa e eucalipto”, avalia. Mas, embora a Epagri incentive a atividade, a apicultura aos poucos se enfraquece na região. “Muitos produtores não aplicam as tecnologias aprendidas nos cursos, que são fundamentais para ter sucesso nos apiários”, explica.

     Em outras regiões do Estado, a situação se repete. Cerca de 3 mil produtores catarinenses são considerados profissionais, mas a maior parte tem até 100 colmeias e pratica a atividade apenas para complementar a renda. “O conhecimento chega até eles, mas a maioria não aproveita todo o potencial econômico da atividade”, conta Walter Miguel, do Peca.

     Essa situação mantém a produtividade média do Estado em um nível relativamente baixo: em torno de 15 kg de mel por colmeia/ano. O grande desafio da Epagri e das entidades do setor é ampliar esse número em 30% a 40% nos próximos anos. “Estamos concentrando esforços no desenvolvimento de material genético de qualidade, na adoção de técnicas adequadas de manejo e no incentivo ao associativismo, fazendo com que os apicultores adotem as novas tecnologias e melhorem a produtividade”, destaca o veterinário.

Pesquisa e extensão 
     A Epagri acumula mais de 50 anos de trabalho na apicultura, contribuindo com o crescimento do setor dentro e fora do Estado. Foi em Santa Catarina, por exemplo, que se desenvolveu o fumegador que é utilizado hoje nos apiários de abelhas africanizadas em todo o Brasil. O desenvolvimento de roupas e equipamentos humanizados, com mais segurança e ventilação, também tem contribuição da Epagri. 

     Desde 2009, as pesquisas da Empresa na área são conduzidas pela Estação Experimental de Videira. O Parque Ecológico Cidade das Abelhas, em Florianópolis, passou a atuar na capacitação de produtores, no apoio às atividades de extensão e às pesquisas, na sanidade apícola em parceria com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e na organização da cadeia produtiva em conjunto com a Faasc.

      Entre as pesquisas em andamento, destacam-se a seleção de colmeias a partir da avaliação de comportamento higiênico e produtividade de mel, a caracterização genética das abelhas em diferentes regiões de Santa Catarina e o monitoramento da infestação pelo ácaro Varroa destructor em apiários do Estado. “Somos colaboradores da Universidade Federal de Santa Catarina na avaliação de compostos bioativos e da qualidade do mel em diferentes regiões catarinenses”, acrescenta Cristiano João Arioli, pesquisador em entomologia da Estação Experimental de Videira. Também em parceria com a UFSC, a Epagri/Peca participa de uma pesquisa sobre a caracterização da própolis catarinense e seus efeitos farmacológicos. O estudo é conduzido em parceria com apicultores de dez regiões do Estado e já apresenta resultados promissores. 

     A criação de abelhas sem ferrão, ou indígenas, chamada de meliponicultura, é outra área que recebe atenção da Empresa. O Peca possui um meliponário, fruto do trabalho do técnico agrícola Ivanir Cella, para difundir tecnologias com foco na preservação ambiental. Além disso, a atividade pode gerar renda para os produtores, seja pela produção de mel, seja pela venda de famílias de espécies nativas. “Em termos quantitativos, não se deve comparar a produção das abelhas sem ferrão com a das abelhas Apis mellifera africanizadas, que são as mais criadas comercialmente em Santa Catarina. As primeiras têm produção bem menor, mas possuem grande importância ambiental, já que muitas espécies vegetais nativas são polinizadas exclusivamente por elas”, esclarece a médica-veterinária Mara Rúbia Pinto, pesquisadora do Peca.

Atenção ao manejo
     Outra contribuição da Epagri está na investigação das possíveis causas da mortalidade de abelhas que vem ocorrendo no Estado. A partir de 2007 houve ampla divulgação de um problema surgido nos Estados Unidos e na Europa, a CCD (sigla em inglês para Síndrome do Colapso das Colônias), que se caracteriza pelo desaparecimento das abelhas e cujas causas ainda não foram esclarecidas. “Com essa divulgação, os apicultores do Estado se alertaram. Situações que antes passavam despercebidas foram atribuídas a isso e recebemos relatos do que poderia ser a CCD”, conta Mara Rúbia. 

     A Epagri vem estudando a situação em parceria com outras instituições, mas com os dados levantados até agora não é possível atribuir as perdas à CCD. “A maior parte dos casos decorre de erros de manejo. Além disso, a vegetação nativa está dando lugar à monocultura e isso prejudica as abelhas, que precisam de aporte nutricional proteico diversificado e em quantidade adequada”, acrescenta a pesquisadora.

     Fome, frio e deficiências no manejo ainda são apontados como as principais causas de mortalidade de abelhas e redução de produtividade em Santa Catarina. Para se defender, as abelhas consomem mel e a reserva acaba rapidamente. Sem os devidos cuidados, os apicultores chegam a perder 15% a 30% das colmeias no outono e no inverno. 

     Os técnicos recomendam tomar algumas precauções para manter a temperatura dentro das colmeias, como não instalá-las em locais altos e descampados, reduzir o espaço de entrada das abelhas, expor as colmeias ao sol e vedar as frestas das caixas. “É importante usar uma ‘entretampa’ nos meses mais frios para diminuir os espaços vazios na colmeia”, reforça Walter Miguel. 

     Também é preciso observar a necessidade de alimentar as abelhas no outono e no inverno. Para ajudar os produtores nessa tarefa, a pesquisadora Mara Rúbia estudou a nutrição das abelhas em sua dissertação de mestrado. “Essa é uma das áreas menos estudadas e mais importantes na apicultura porque as abelhas não recebem medicamentos e precisam se fortalecer pela alimentação”, justifica. 

     A pesquisadora avaliou a eficiência de diferentes dietas até chegar às melhores alternativas para atender as necessidades nutricionais das abelhas. Ao final do estudo, um folder com as receitas foi publicado para orientar os apicultores. “As dietas não alteraram as características físico-químicas do mel produzido e podem ser consideradas adequadas para suplementação alimentar em época de escassez de recursos naturais”, conclui.

     Para levar todo esse conhecimento e as novas tecnologias ao campo, os cursos de apicultura oferecidos pela Epagri capacitam mais de 300 produtores por ano em todas as regiões do Estado, além de cerca de 35 técnicos que fazem atualização. O curso básico de apicultura dura de 3 a 5 dias e dá noções suficientes para o produtor iniciar a atividade. Mais tarde, ele pode se especializar com cursos como os de produção de pólen, geleia real e própolis. O produtor Leo Kreusch, de Vidal Ramos, que já fez sete cursos na Epagri, revela o segredo para crescer na atividade: “Para ser um bom apicultor, além de gostar do que faz, é preciso se aperfeiçoar.

Como o mel é produzido
     A principal fonte para a elaboração do mel é o néctar das flores. Em alguns locais, as abelhas também coletam a secreção de outros insetos para produzir o mel de melato. “Em Santa Catarina, encontramos o mel de melato produzido a partir da secreção de cochonilhas presentes na bracatinga”, explica a pesquisadora Mara Rúbia Pinto. 

     A produção do mel envolve várias reações. Em uma reação física, o néctar é desidratado até que o teor de umidade fique abaixo de 18%.Para isso, ocorre uma absorção de água no papo das abelhas e uma evaporação pelo bater das asas dos insetos na colmeia. Já a transformação dos açúcares do néctar em açúcares do mel ocorre pela ação das enzimas invertase, amilase e glicose-oxidase. “Após essa delicada transformação, as abelhas depositam o mel no interior dos alvéolos presentes nos favos e os cobrem com uma fina camada de cera num processo chamado de operculação. Nesse ponto, o mel é considerado ‘maduro’”, conta a pesquisadora.

     De acordo com a flor de origem, a cor do mel pode variar de quase transparente a quase negro. Quanto mais escuro, mais forte ao paladar e maiores os índices nutricionais, principalmente no teor de sais minerais. O sabor pode variar de doce suave até doce forte e, em alguns casos, como o do mel da bracatinga, pode ser ácido ou amargo. A consistência também varia: há mel líquido, cristalizado, granulado e cremoso.

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