domingo, 19 de maio de 2013



Apicultura: Doce e lucrativo negócio

 Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, Jornalista da Epagri,  publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.2,  jul.2011


Além de ser uma importante fonte de renda no campo, a
apicultura é fundamental para a sobrevivência da agricultura
e a preservação ambiental


     É num processo da natureza extremamente organizado e de proporções minúsculas que se sustenta uma das cadeias produtivas mais importantes de Santa Catarina. De flor em flor, as abelhas coletam néctar para produzir o mel que, após incontáveis viagens, vai encher os favos nas colmeias. No final de cada safra, a soma dessas pequenas quantidades alcança volumes que, no Estado, variam de 6 mil a 8 mil toneladas por ano, movimentando cerca de R$ 30 milhões. 

     A união do trabalho de abelhas e apicultores coloca Santa Catarina na quarta posição entre os Estados produtores de mel do Brasil e em primeiro lugar quando se trata de produção por quilômetro quadrado. São cerca de 450 mil colmeias distribuídas entre 30 mil apicultores, que se reúnem em 60 associações ligadas à Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc). A maior densidade de colmeias está no sul, no Vale do Itajaí, na Grande Florianópolis e no norte, enquanto as melhores produtividades estão nos apiários do sul, da região serrana e do Vale do Itajaí. Cerca de 30% da produção é exportada.

     A vegetação e o clima diversificado favorecem a exploração da atividade e garantem a qualidade do mel catarinense. Estudos apontam Santa Catarina como o Estado brasileiro com a maior diversidade floral e de mel: são mais de 200 tipos do produto. Flores de eucalipto, vassouras, bracatinga, uva-do-Japão, laranjeira e demais plantas silvestres são as mais comuns.

     Para quem se dedica à atividade, as colmeias também fornecem pólen, própolis, geleia real, cera e apitoxina. Em Santa Catarina, esses produtos geram renda aos produtores, mas a maior importância das abelhas está no papel que elas desempenham na natureza: a  polinização das plantas. Sem elas, a reprodução de diversas espécies vegetais, muitas de interesse econômico, como maçã, pera, grãos, olerícolas e pastagens, estaria comprometida. “Com o serviço de polinização, as abelhas garantem um aumento na produção agrícola equivalente a mais de US$ 100 milhões anuais a Santa Catarina”, ressalta o médico-veterinário Walter Miguel, chefe da Epagri/Parque Ecológico Cidade das Abelhas (Peca).    

     Para os apicultores do sul do Estado, a polinização também gera renda. No início da primavera eles levam as colmeias para a região serrana, onde as alugam para polinizar mais de 20 mil hectares de pomares de maçã e obtêm uma safra de mel com espécies da região. No início do ano eles voltam para o sul, onde aproveitam o final das floradas, especialmente a do eucalipto, e colhem a segunda safra.

Simples e barato 
     A implantação de um apiário não exige grandes estruturas, como cercas e galpões, e pode ser feita em pequenas propriedades, aproveitando áreas impróprias para a agricultura e pecuária, desde que haja flora apícola na região. Por questões de segurança, o produtor não pode ser alérgico ao veneno da abelha e deve instalar o apiário a pelo menos 200 m de estradas e lavouras. O manejo é simples e pode ser feito com mão de obra familiar. “A apicultura é uma excelente fonte de renda porque os custos de produção são baixos, já que a maior fonte de alimentação das abelhas é natural e a atividade não utiliza insumos. O investimento inicial praticamente se paga no primeiro ano de produção”, ressalta Walter Miguel. 

     Para instalar um apiário com 50 colmeias, o veterinário calcula que sejam gastos aproximadamente R$ 4,5 mil na compra das caixas, que podem durar mais de dez anos se forem bem manejadas. Os enxames normalmente são encontrados na natureza e a extração e o envasamento do mel podem ser feitos em cooperativas ou associações com outros apicultores. 

     Walter garante que o investimento vale a pena mesmo para quem aposta em uma produção pequena. Em 50 colmeias, considerando uma produção de 30 kg de mel/colmeia/ano vendida a R$ 4,00/kg, o apicultor consegue obter cerca de R$ 6 mil por safra de mel. “Já um apicultor com 500 colmeias consegue tirar cerca de R$ 60 mil ao ano, o que equivale a uma renda mensal de aproximadamente R$5 mil. Mas, para alcançar bons resultados, é preciso se dedicar”, aconselha. 

Bom negócio 
     Interesse pelas abelhas não falta para Leo Kreusch, de 63 anos, que vive em Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí. Ele trocou as lavouras de fumo pelas colmeias e hoje é exemplo de que quando há dedicação a atividade é uma boa opção de renda. “A apicultura era uma tradição do meu pai que eu aprendi aos 10 anos de idade”, lembra. Há cerca de 30 anos, Leo decidiu resgatar a atividade. “Comprei equipamentos e me aperfeiçoei com cursos da Epagri”, conta. Com o conhecimento e o trabalho de Leo, as colmeias se multiplicaram e já faz 15 anos que a família deixou a produção de fumo. 

     São cerca de 200 colmeias na propriedade e em áreas alugadas. Na safra do ano passado, Leo colheu 35 kg de mel por colmeia, bem acima da média da região, que é de 25 kg. Parte da produção vai para entrepostos, mas a maior parcela é vendida na propriedade, pois os anos de trabalho no ramo já renderam ao apicultor uma freguesia fiel. “De um modo geral, os custos diminuíram e a renda aumentou com a apicultura, sem falar que não mexo mais com agrotóxicos”, revela. 

     Assim como aprendeu com o pai, Leo está passando a atividade para o filho Luiz Carlos, de 15 anos, que tem se interessado cada vez mais pelo apiário. “Ele já fez vários cursos e está gostando. No futuro, ele vai tocar o que eu estou fazendo”, afirma.

     No município, 22 apicultores mantêm cerca de 1.500 colmeias e são responsáveis por uma produção de 37 t de mel por ano. Seguindo o exemplo das abelhas, eles ajudam uns aos outros. “É um trabalho de equipe. Quando um vizinho chama, a gente vai e o trabalho acaba sendo uma diversão”, conta Leo, que também é presidente da Associação dos Apicultores de Vidal Ramos (Aapivira). A associação, fundada em 1990, auxilia na compra de materiais e equipamentos e na adequação dos estabelecimentos dos produtores. Até o início da próxima safra, em outubro, a Aapivira deve inaugurar uma unidade de extração de mel com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Hoje, a maioria dos associados faz a extração na propriedade.

     Flávio Majolo, que é extensionista da Epagri no Escritório Municipal de Vidal Ramos, acredita que a produção de mel do município pode ser duplicada sem risco de haver concorrência de florada entre as abelhas. “A região tem ótimo potencial apícola, com grandes áreas de mata nativa e eucalipto”, avalia. Mas, embora a Epagri incentive a atividade, a apicultura aos poucos se enfraquece na região. “Muitos produtores não aplicam as tecnologias aprendidas nos cursos, que são fundamentais para ter sucesso nos apiários”, explica.

     Em outras regiões do Estado, a situação se repete. Cerca de 3 mil produtores catarinenses são considerados profissionais, mas a maior parte tem até 100 colmeias e pratica a atividade apenas para complementar a renda. “O conhecimento chega até eles, mas a maioria não aproveita todo o potencial econômico da atividade”, conta Walter Miguel, do Peca.

     Essa situação mantém a produtividade média do Estado em um nível relativamente baixo: em torno de 15 kg de mel por colmeia/ano. O grande desafio da Epagri e das entidades do setor é ampliar esse número em 30% a 40% nos próximos anos. “Estamos concentrando esforços no desenvolvimento de material genético de qualidade, na adoção de técnicas adequadas de manejo e no incentivo ao associativismo, fazendo com que os apicultores adotem as novas tecnologias e melhorem a produtividade”, destaca o veterinário.

Pesquisa e extensão 
     A Epagri acumula mais de 50 anos de trabalho na apicultura, contribuindo com o crescimento do setor dentro e fora do Estado. Foi em Santa Catarina, por exemplo, que se desenvolveu o fumegador que é utilizado hoje nos apiários de abelhas africanizadas em todo o Brasil. O desenvolvimento de roupas e equipamentos humanizados, com mais segurança e ventilação, também tem contribuição da Epagri. 

     Desde 2009, as pesquisas da Empresa na área são conduzidas pela Estação Experimental de Videira. O Parque Ecológico Cidade das Abelhas, em Florianópolis, passou a atuar na capacitação de produtores, no apoio às atividades de extensão e às pesquisas, na sanidade apícola em parceria com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e na organização da cadeia produtiva em conjunto com a Faasc.

      Entre as pesquisas em andamento, destacam-se a seleção de colmeias a partir da avaliação de comportamento higiênico e produtividade de mel, a caracterização genética das abelhas em diferentes regiões de Santa Catarina e o monitoramento da infestação pelo ácaro Varroa destructor em apiários do Estado. “Somos colaboradores da Universidade Federal de Santa Catarina na avaliação de compostos bioativos e da qualidade do mel em diferentes regiões catarinenses”, acrescenta Cristiano João Arioli, pesquisador em entomologia da Estação Experimental de Videira. Também em parceria com a UFSC, a Epagri/Peca participa de uma pesquisa sobre a caracterização da própolis catarinense e seus efeitos farmacológicos. O estudo é conduzido em parceria com apicultores de dez regiões do Estado e já apresenta resultados promissores. 

     A criação de abelhas sem ferrão, ou indígenas, chamada de meliponicultura, é outra área que recebe atenção da Empresa. O Peca possui um meliponário, fruto do trabalho do técnico agrícola Ivanir Cella, para difundir tecnologias com foco na preservação ambiental. Além disso, a atividade pode gerar renda para os produtores, seja pela produção de mel, seja pela venda de famílias de espécies nativas. “Em termos quantitativos, não se deve comparar a produção das abelhas sem ferrão com a das abelhas Apis mellifera africanizadas, que são as mais criadas comercialmente em Santa Catarina. As primeiras têm produção bem menor, mas possuem grande importância ambiental, já que muitas espécies vegetais nativas são polinizadas exclusivamente por elas”, esclarece a médica-veterinária Mara Rúbia Pinto, pesquisadora do Peca.

Atenção ao manejo
     Outra contribuição da Epagri está na investigação das possíveis causas da mortalidade de abelhas que vem ocorrendo no Estado. A partir de 2007 houve ampla divulgação de um problema surgido nos Estados Unidos e na Europa, a CCD (sigla em inglês para Síndrome do Colapso das Colônias), que se caracteriza pelo desaparecimento das abelhas e cujas causas ainda não foram esclarecidas. “Com essa divulgação, os apicultores do Estado se alertaram. Situações que antes passavam despercebidas foram atribuídas a isso e recebemos relatos do que poderia ser a CCD”, conta Mara Rúbia. 

     A Epagri vem estudando a situação em parceria com outras instituições, mas com os dados levantados até agora não é possível atribuir as perdas à CCD. “A maior parte dos casos decorre de erros de manejo. Além disso, a vegetação nativa está dando lugar à monocultura e isso prejudica as abelhas, que precisam de aporte nutricional proteico diversificado e em quantidade adequada”, acrescenta a pesquisadora.

     Fome, frio e deficiências no manejo ainda são apontados como as principais causas de mortalidade de abelhas e redução de produtividade em Santa Catarina. Para se defender, as abelhas consomem mel e a reserva acaba rapidamente. Sem os devidos cuidados, os apicultores chegam a perder 15% a 30% das colmeias no outono e no inverno. 

     Os técnicos recomendam tomar algumas precauções para manter a temperatura dentro das colmeias, como não instalá-las em locais altos e descampados, reduzir o espaço de entrada das abelhas, expor as colmeias ao sol e vedar as frestas das caixas. “É importante usar uma ‘entretampa’ nos meses mais frios para diminuir os espaços vazios na colmeia”, reforça Walter Miguel. 

     Também é preciso observar a necessidade de alimentar as abelhas no outono e no inverno. Para ajudar os produtores nessa tarefa, a pesquisadora Mara Rúbia estudou a nutrição das abelhas em sua dissertação de mestrado. “Essa é uma das áreas menos estudadas e mais importantes na apicultura porque as abelhas não recebem medicamentos e precisam se fortalecer pela alimentação”, justifica. 

     A pesquisadora avaliou a eficiência de diferentes dietas até chegar às melhores alternativas para atender as necessidades nutricionais das abelhas. Ao final do estudo, um folder com as receitas foi publicado para orientar os apicultores. “As dietas não alteraram as características físico-químicas do mel produzido e podem ser consideradas adequadas para suplementação alimentar em época de escassez de recursos naturais”, conclui.

     Para levar todo esse conhecimento e as novas tecnologias ao campo, os cursos de apicultura oferecidos pela Epagri capacitam mais de 300 produtores por ano em todas as regiões do Estado, além de cerca de 35 técnicos que fazem atualização. O curso básico de apicultura dura de 3 a 5 dias e dá noções suficientes para o produtor iniciar a atividade. Mais tarde, ele pode se especializar com cursos como os de produção de pólen, geleia real e própolis. O produtor Leo Kreusch, de Vidal Ramos, que já fez sete cursos na Epagri, revela o segredo para crescer na atividade: “Para ser um bom apicultor, além de gostar do que faz, é preciso se aperfeiçoar.

Como o mel é produzido
     A principal fonte para a elaboração do mel é o néctar das flores. Em alguns locais, as abelhas também coletam a secreção de outros insetos para produzir o mel de melato. “Em Santa Catarina, encontramos o mel de melato produzido a partir da secreção de cochonilhas presentes na bracatinga”, explica a pesquisadora Mara Rúbia Pinto. 

     A produção do mel envolve várias reações. Em uma reação física, o néctar é desidratado até que o teor de umidade fique abaixo de 18%.Para isso, ocorre uma absorção de água no papo das abelhas e uma evaporação pelo bater das asas dos insetos na colmeia. Já a transformação dos açúcares do néctar em açúcares do mel ocorre pela ação das enzimas invertase, amilase e glicose-oxidase. “Após essa delicada transformação, as abelhas depositam o mel no interior dos alvéolos presentes nos favos e os cobrem com uma fina camada de cera num processo chamado de operculação. Nesse ponto, o mel é considerado ‘maduro’”, conta a pesquisadora.

     De acordo com a flor de origem, a cor do mel pode variar de quase transparente a quase negro. Quanto mais escuro, mais forte ao paladar e maiores os índices nutricionais, principalmente no teor de sais minerais. O sabor pode variar de doce suave até doce forte e, em alguns casos, como o do mel da bracatinga, pode ser ácido ou amargo. A consistência também varia: há mel líquido, cristalizado, granulado e cremoso.
Ferreira On 5/19/2013 01:08:00 PM Comentarios LEIA MAIS

sábado, 18 de maio de 2013



     No dia 22 de maio é comemorado no Brasil o “Dia do Apicultor”; a data foi escolhida por ser dia da Santa Rita de Cássia, padroeira dos apicultores. A data é importante para refletirmos sobre a importância das abelhas para o homem, meio ambiente e sustentabilidade do planeta em que vivemos e, também parabenizar o apicultor pelo belo trabalho realizado. Esta profissão tão importante precisa ser valorizada no Brasil e receber a devida atenção de todos, pela sua importância ecológica, econômica e na segurança alimentar. 

     A abelha, inseto milenar, está presente em toda a história da humanidade, desde o início dos tempos. Desde as mais remotas civilizações até as mais recentes descobertas, a abelha sempre esteve e está intimamente associada ao ser humano e sua evolução. As abelhas podem ser indicadores biológicos do equilíbrio ambiental, muito útil no esforço da conservação, da biodiversidade e na exploração sustentável do meio ambiente. As mudanças que o homem têm imposto ao seu ambiente vem reduzindo a abundância de abelhas silvestres, colocando em risco a produção de alimentos e a preservação de muitos ambientes naturais e das espécies que neles habitam. É urgente que se reconheça as abelhas e outros animais polinizadores como essenciais para a sustentabilidade da produção mundial de alimentos. Segundo pesquisadores, a produção de 2/3 da alimentação humana depende, direta ou indiretamente da polinização por insetos e, de acordo com estimativas feitas em 1998, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), há no mundo uma perda de U$54 bilhões devido a deficiência na polinização das plantas cultivadas.  




                  Abelha visitando uma flor

     O apicultor é aquele profissional que cria as abelhas, e especialmente a espécie Apis melifera L. que é conhecida como abelha doméstica, produtora de mel e cera. Dá-se o nome de "apicultura" à arte de criar abelhas. Pode ser praticada como hobby ou de modo profissional. É uma atividade muito antiga, originária do Oriente. A China, o México e a Argentina são os principais países exportadores de mel, e a Alemanha e o Japão são os maiores importadores. O papel do apicultor é amparar suas abelhas nos momentos mais difíceis, para poder se beneficiar nos estágios em que as colmeias se encontram na plenitude produtiva. Para tanto, é preciso que ele entenda que a colônia vive em constante ciclo; nos períodos de escassez de alimento, a família definha, os zangões são expulsos da colmeia, cai a postura da rainha e, consequentemente, diminui ou cessa a produção de mel, pólen, geleia real, própolis e cera. Nesse momento, entra em ação o apicultor, que socorre a colônia providenciando alimento artificial para as abelhas, reduzindo a entrada do orvalho nos períodos de frio, auxiliando na manutenção da temperatura do interior da colmeia, fornecendo cera, verificando o estado dos favos e etc. Não basta apenas ter algumas colmeias para ser apicultor. É preciso entender o comportamento social das abelhas, sua biologia e estar sempre se atualizando sobre as técnicas de manejo e produção. Isso torna essa arte ainda mais nobre e cativante, pois as descobertas se renovam. 

Apicultores em ação


     O mel foi a primeira substância adoçante da antiguidade, utilizado desde 5.000 a.C. Na pré-história, o alimento ingerido era uma mistura de mel, pólen e cera, pois não se sabia separar suas substâncias, sendo escasso e difícil encontrar um enxame. Somente em 400 a.C. é que começaram a armazenar em potes, sendo que os egípcios foram os primeiros na sua criação. O mel, produto que tem crescido em produção e exportação, é hoje responsável por uma cadeia produtiva diversificada que envolve todo país, com mais de 350 mil apicultores, além de 450 mil ocupações no campo e 16 mil empregos diretos no setor industrial. Segundo a Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), a produção apícola nacional triplicou nos últimos anos, chegando a 50 mil toneladas anuais, com uma perspectiva de no futuro produzir até 200 mil toneladas. Segundo levantamento do Sebrae - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, as exportações do mel renderam ao país uma receita de US$ 5,53 milhões em 2010. Além de elevar a renda e ser uma fonte riquíssima em proteínas, vitaminas, minerais, o cultivo de abelha pode ser um grande aliado para a preservação da natureza. Esses insetos são responsáveis pela reprodução de 40 a 90% dos vegetais devido ao processo de polinização, ou seja, cuidam do transporte de pólen de uma flor para outra, de acordo com INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. 
    
As abelhas são insetos sociais altamente organizados, que se destacam pela importância de seus produtos, especialmente o mel e, pela polinização de culturas. As abelhas melíferas organizam-se em três classes principais: as operárias (providenciam a alimentação), a rainha (põe ovos) e o zangão (acasala com a rainha). Algumas colmeias chegam a ter 110 mil abelhas, a grande maioria de operárias, sendo uma rainha e, cerca de 150 zangões. As abelhas são consideradas “insetos sociais” devido ao elevado grau de desenvolvimento social atingido. Agrupam-se em comunidades ou enxames onde existe uma organizada distribuição de tarefas. Cada família de abelhas possui uma única rainha, que tem como função a reprodução da espécie. Poucos dias após seu nascimento é fecundada por vários zangões no chamado “vôo nupcial”. Como é a única abelha fêmea fecundada, cabe à rainha colocar todos os ovos necessários à continuidade da família, mantendo a organização e coesão do enxame. Os zangões, abelhas macho mais fortes que as operárias, não possuem ferrão e não coletam pólen ou néctar; sua função é fecundar a rainha, vindo a morrer após o ato. Já as abelhas operárias são as fêmeas não fecundadas, menores que a rainha e que os zangões; são responsáveis pela construção, ventilação, limpeza e defesa da colmeia, além da alimentação da rainha, cuidado com ovos e crias, coleta de pólen, néctar e água e, produção de mel, geleia real e própolis; possuem veneno e ferrão, vivendo entre 28 e 50 dias.


                 
Objetivos e perspectivas da apicultura

     Entre os produtos que podem ser extraídos da colmeia, graças ao trabalho incansável das abelhas operárias, destacam-se: o mel, geléia real e própolis. O mel, produzido a partir do néctar que as abelhas operárias armazenam nos favos, é uma substância orgânica rica em ácidos, sais minerais, vitaminas, enzimas, proteínas, aminoácidos e hormônios, muito utilizado na alimentação humana, em cosméticos e como remédio (veja neste blog a matéria “Insetos benéficos e sua importância para o homem e meio ambiente”, postada em 28/10/2011, sobre as inúmeras propriedades medicinais do mel). O mel é produzido a partir das flores existentes ao redor da colmeia. Na colmeia, o néctar trazido pelas campeiras vai ser transformado em mel pelas outras abelhas, com um sabor e características especiais de acordo com as flores visitadas. Existem dezenas de variedades de mel de abelhas e, dependendo da floração e dos terrenos, variam de cor, aroma e sabor. Os apicultores conhecem o mel típico de sua região, e geralmente as flores que fornecem o néctar para a sua produção. A Geléia Real é produzido pelas abelhas para alimentação das larvas jovens da colmeia e para a rainha, durante toda sua vida; contém hormônios, vitaminas, aminoácidos, enzimas, lipídios e outras substâncias que agem sobre o processo de regeneração celular. O Própolis é produzido a partir de resinas e bálsamos coletados das plantas e modificado pelas abelhas operárias através de secreções próprias. Por sua eficácia terapêutica, é indicado para gripes, resfriados, dores de garganta, problemas de mau hálito, aftas e gengivites, bem como para fortificar o organismo. Também pode ser usado como cicatrizante em feridas, cortes, micoses, espinhas, verrugas e frieiras. Ainda pode ser extraído da colmeia, o Néctar, um líquido doce e rico em açúcar, colhido pelas abelhas para fazer o mel, empregado pelos gregos para preparar a ambrosia, bebida feita a partir da mistura de vinho, água e mel e a Cera. Em função das excelentes propriedades dos produtos apícolas, surgiu a Apiterapia; é a ciência da cura das enfermidades com produtos apícolas, embora tendo uma denominação nova, é uma medicina antiga e tradicional usada por muitos povos. 

     Há 80 milhões de anos as abelhas desempenham a importante tarefa de polinizar plantas e, por isso, são responsáveis pela produção de alimentos. A polinização é a transferência de grãos de pólen (gameta masculino) das anteras (órgãos masculinos) de uma flor para o estigma (parte do aparelho reprodutor feminino) da mesma flor ou de outra flor da mesma espécie. Sem essa transferência, não há a fecundação das plantas e, sem plantas, não tem como alimentar o mundo, pois não há a formação das sementes e frutos. Veja neste blog mais informações sobre a polinização, através da matéria “Insetos benéficos e sua importância para o homem e meio ambiente” postada em 28/10/2011. 

     São as abelhas que garantem a diversidade e o equilíbrio do ecossistema. Estudos apontam que 50% da biomassa de uma floresta tropical seja formada por formigas, vespas, abelhas e cupins. Cerca de 75% das culturas e 80% das espécies de plantas dotadas de flores dependem da polinização. Portanto, as abelhas constituem-se nos principais polinizadores bióticos da natureza. Frequentemente os agricultores não percebem a grande fração de polinização que é realizada pelas abelhas nativas e resultados de polinização inadequada acabam sendo interpretados como problemas de clima ou doenças. Boa parte da agricultura só existe por causa da polinização das abelhas e insetos! Ou seja, o próprio funcionamento da natureza - suas interações ecológicas - produzem "serviços" ecossistêmicos dos quais a humanidade e outros seres vivos utilizam para sobreviver. A conservação desses serviços depende da conservação da própria natureza e de seus diferentes ecossistemas. Quando o homem promove ações direcionadas à conservação, manutenção ou melhoria desses serviços ecossistêmicos para benefício da sociedade, tais ações são chamadas "Serviços Ambientais". Segundo pesquisadores, o valor anual global dos serviços ambientais prestados pelas abelhas na polinização de alimentos para o homem foi estimado em 2008 como sendo de 153 bilhões de euros, que corresponderam à 9,5% do valor da produção agrícola de alimentos utilizados pelo homem em 2005. 


     O Brasil tem uma apicultura em desenvolvimento, mas precisamos fortalecê-la mais através de um esforço conjunto para educação popular, conscientização da importância das abelhas, conservação dos recursos naturais e restauração ambiental, por exemplo, com o incentivo ao plantio de espécies vegetais com flores para as abelhas, especialmente árvores e jardins. No nosso país, muitos apicultores criam também abelhas nativas, chamadas de abelhas indígenas sem ferrão ou meliponíneos. Estas abelhas nativas, encontradas por toda parte, atuam na polinização de muitas plantas geralmente cultivadas pelo pequeno agricultor. Muitas espécies produzem mel. Entretanto, este mel é diferente do produzido pelas colônias de Apis mellifera. É mais líquido e considerado muito medicinal. No momento não pode ser vendido no comércio nem exportado, por ainda não estar regulamentado pelo Ministério da Agricultura. No Brasil de hoje, onde se expande a agricultura, uma das maiores fontes de recursos financeiros do País, precisamos atuar junto à comunidade rural para desenhar uma paisagem agrícola amigável aos polinizadores, implementar o cooperativismo forte e traçar um plano de ação bem delineado para que possamos preservar e utilizar os serviços ambientais prestados pelas nossas abelhas. Estas ações serão a base para a apicultura sustentável e para a segurança alimentar, através da utilização sustentável de abelhas como polinizadoras. 



Causas do declínio da polinização

     As abelhas são seres fundamentais para a manutenção da vegetação natural e cultivada, pois contribuem para a perpetuação de muitas espécies nativas e de culturas agrícolas. Sua preservação é importante devido ao papel fundamental que desempenham na cadeia biológica: fazer a polinização e garantir, dessa forma, a continuidade das espécies de flores de onde insetos e outros animais retiram seu alimento. 


     A agressão ambiental verificada em escala cada vez mais acentuada atinge em cheio as abelhas e outros insetos polinizadores. Pelas mãos dos homens, o desmatamento, a poluição, as queimadas, os incêndios florestais, o uso indiscriminado de agrotóxicos, principalmente nas extensas áreas de monocultivo, tem colocado a vida das abelhas em perigo. Áreas cobertas com vegetação nativa apresentam, em geral, um número considerável de espécies de plantas que servem como fonte de néctar e pólen para insetos polinizadores. A substituição destas áreas por monoculturas, que normalmente florescem por um curto período de tempo, leva a uma severa redução no número e diversidade de polinizadores. Os herbicidas e as capinas (manuais e mecanizadas) reduzem o número de flores silvestres, fornecidos por plantas consideradas espontâneas ou “daninhas”, pela destruição de áreas e/ou faixas naturais e artificiais. O resultado final é uma área com uma quantidade muito pequena de polinizadores naturais e uma grande demanda por polinização durante o período de florescimento das plantas cultivadas. Tudo isto contribui para a perda de biodiversidade e serviços de polinização na área, pois as espécies remanescentes não conseguem compensar a perda de polinização resultante do desaparecimento das demais espécies. 





     No Brasil, a questão dos agrotóxicos é preocupante. Segundo pesquisadores, somente no período de 40 anos entre 1964 e 2004 o consumo de agrotóxicos no país aumentou 700%. A partir de 2008, o Brasil tornou-se o campeão mundial no consumo de agrotóxicos. A aplicação de agrotóxicos reduz ainda mais a presença de polinizadores em áreas cultivadas, pois os inseticidas utilizados para matar as pragas fazem o mesmo com os insetos polinizadores. Alguns fungicidas podem, também, ter um grande impacto sobre os polinizadores, por reduzirem o número de visita às flores das culturas, ao exercerem ação repelente ou reduzirem a viabilidade do pólen, decorrentes de aberrações cromossômicas. Vários relatos sobre mortalidade de abelhas, presumivelmente devido a contaminações pelo uso inadequado de agrotóxicos, têm ocorrido recentemente no país. Nos últimos 15 anos tem-se notado considerável aumento da mortalidade das abelhas, em especial na região sul do país. O certo é que o sumiço das abelhas mudaria completamente todo o ecossistema, afetando significativamente a vida de todos nós. A boa notícia é que alguns órgãos do governo estão preocupados e, por isso, estão tomando algumas medidas no sentido de minimizar o grave problema. 


IBAMA vai reavaliar agrotóxicos prejudiciais às abelhas

     Foi publicado no Diário Oficial da União (DOU), em 19/7/2012, um comunicado do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) que dá início formal ao processo de reavaliação de agrotóxicos associados à efeitos nocivos às abelhas. Quatro ingredientes ativos que compõem esses agrotóxicos serão reavaliados: Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil. O primeiro a passar pelo processo de reavaliação será o Imidacloprido, que é a mais comercializada destas quatro substâncias. Só em 2010, empresas declararam ao IBAMA a comercialização de 1.934 toneladas de Imidacloprido, cerca de 60% do total comercializado destes quatro ingredientes. Entre os produtos comerciais à base de Fipronil os mais conhecidos são Amulet, Klap, Standak, Belure, Blitz, entre outros. O imidacloprido tem formulações comerciais de nome Poncho, Gaúcho, Confidor WG, entre outros. Esta iniciativa do IBAMA segue diretrizes de políticas públicas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) voltadas para a proteção de polinizadores. As diretrizes do MMA acompanham a preocupação mundial sobre a manutenção de populações de polinizadores naturais, como as abelhas. A decisão do IBAMA se baseou em pesquisas científicas e em decisões adotadas por outros países. Estudos científicos recentes indicam que o uso destas substâncias é prejudicial para insetos polinizadores, em especial para as abelhas, podendo causar a morte ou alterações no comportamento destes insetos. As abelhas são consideradas os principais polinizadores em ambientes naturais e agrícolas, e contribuem para o aumento da produtividade agrícola, além de serem diretamente responsáveis pela produção de mel. 

     Como medida preventiva, o IBAMA proibiu provisoriamente a aplicação por aviões de agrotóxicos à base de Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil em qualquer tipo de cultura. O uso de inseticidas que contem esses ingredientes ativos por meio de aplicação aérea tem sido associado a morte de abelhas em diferentes regiões do país, o que motivou a proibição. No prazo de três meses as empresas produtoras de agrotóxicos devem incluir uma frase de alerta para o consumidor nas bulas e embalagens de produtos que contenham um ou mais dos compostos químicos destacados na portaria. A mensagem padrão informará que a aplicação aérea não é mais permitida e que o produto é tóxico para abelhas. Além disso, constará da mensagem que o uso é proibido em épocas de floração ou quando observada a visitação de abelhas na lavoura. 

     Segundo o coordenador-geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do IBAMA, Márcio de Freitas, “ as medidas adotadas visam proteger este importante serviço ambiental de polinização, que comprovadamente aumenta a produtividade agrícola. O intuito da reavaliação é contribuir para agricultura e apicultura brasileiras.” Das 100 culturas agrícolas produzidas que representam 90% da base de alimento mundial, cerca de 70 % são polinizadas por abelhas, completou o coordenador-geral. Ao final do processo de reavaliação, o IBAMA poderá manter a decisão de suspensão da aplicação por aviões destes produtos, ou revê-la. Caso o resultado dos estudos indiquem, o IBAMA poderá adotar outras medidas de restrição ou controle destas substâncias. Confira a frase de advertência que deverá ser incorporada às bulas e embalagens do produtos que contém Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil: 

“Este produto é tóxico para abelhas”. A aplicação aérea NÃO É PERMITIDA. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades. 



Agrotóxicos causam curto-circuito nas abelhas 

     Um estudo europeu mostrou que os agrotóxicos usados para proteger cultivos podem embaralhar os circuitos cerebrais das abelhas melíferas (produtoras de mel), afetando sua memória e sua capacidade de navegação, necessárias para encontrar comida, alertaram cientistas. Segundo artigo publicado na revista científica Nature Communications, isso poderia ameaçar colônias de abelhas inteiras, cujas funções polinizadoras são vitais para a produção de alimentos. A equipe de cientistas estudou os cérebros de abelhas produtoras de mel no laboratório, expondo-as à pesticidas Neonicotinoides usados em lavouras e, à Organofosfatos, o grupo de inseticidas mais usado no mundo (neste caso, o Coumafos), inclusive, para controlar infestações de ácaros em colmeias. Segundo os cientistas, quando expostos a concentrações similares dos dois pesticidas encontradas na natureza, os circuitos de aprendizagem nos cérebros das abelhas logo param de funcionar. "Juntas, as duas classes de pesticidas demonstraram ter um efeito negativo maior no cérebro das abelhas e que podem inibir o aprendizado das abelhas produtoras de mel", explicou um dos coautores do estudo, Christopher Connolly, do Instituto de Pesquisa Médica da Universidade de Dundee, no Reino Unido. "As polinizadoras têm comportamentos sofisticados enquanto se alimentam, que exigem que aprendam e se lembrem de tratos florais associados à comida", acrescentou sua colega, Geraldine Wright, do Centro de Comportamento e Evolução da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. "A interrupção desta importante função tem implicações profundas na sobrevivência de colônias de abelhas produtoras de mel, porque as que não conseguem aprender não conseguirão encontrar comida", emendou. A descoberta foi feita em meio a um intenso debate sobre o uso continuado de Neonicotinoides. Há duas semanas, países europeus rejeitaram uma proposta de proibição por dois anos do grupo de inseticidas que atinge o cérebro, depois da oposição da indústria agroquímica. Apicultores da Europa, da América do Norte e de outras partes do mundo estão preocupados com o chamado distúrbio de colapso das colônias, um fenômeno no qual as abelhas adultas abruptamente desaparecem das colmeias - algo que tem sido atribuído a ácaros, vírus e fungos, pesticidas ou a uma combinação desses fatores.

     As abelhas são 80% dos insetos polinizadores de plantas. Sem elas, muitos cultivos seriam incapazes de frutificar ou, então, teriam de ser polinizados a mão. Os cientistas afirmam que suas descobertas podem levar a uma reavaliação do uso de pesticidas. "Nossos dados sugerem que o uso amplo de Coumafos, como acaricida, é um risco desnecessário para a saúde das abelhas melíferas", afirmou Connolly, que propôs o uso de ácidos orgânicos para o controle de ácaros nas colmeias. Em termos de pesticidas para a proteção de cultivos, a indústria agroquímica argumenta que alternativas aos Neonicotinoides seriam mais tóxicas para as abelhas. "Uma comparação direta das alternativas parece ser o único caminho" para encontrar a opção menos nociva, afirmou o cientista. Comentando o estudo, Francis Ratnieks, professor de apicultura da Universidade de Sussex, disse que as concentrações usadas na pesquisa pareciam altas. "Não surpreende que altas concentrações de inseticidas sejam nocivas, mas não sabemos se os baixos níveis de inseticidas Neonicotinoides no néctar e no pólen de plantas tratadas também são nocivos no mundo real", acrescentou. Além disso, o uso de Coumafos é ilegal em grande parte da Europa e não é amplamente usado nos Estados Unidos, afirmou Ratnieks, citado pelo Science Media Centre, em Londres. Apicultores franceses pediram ao Ministério da Agricultura a proibição de pesticidas Neonicotinoides, enquanto a CE (Comissão Europeia) analisa a adoção de uma norma específica sobre o caso. "A situação é catastrófica", disse Henri Clément, porta-voz dos apicultores franceses, afirmando que a taxa de mortalidade das abelhas passou de 5% na década de 1990 para 30% atualmente, o que provocou uma redução dramática na produção de mel na França, para 16 mil toneladas. Clément se reuniu com os legisladores, aos quais pediu apoio ao seu apelo pela proibição dos Neonicotinoides, e pediu a criação de um "comitê de apoio à alternativas aos pesticidas". Este ano, a CE já propôs a suspensão do uso de três produtos Neonicotinoides nas culturas de milho, canola, girassol e algodão, pois eles contribuem para uma alta notável na mortalidade das abelhas. 



Abelhas são bioindicadoras de poluição no ambiente
Fonte: Revista Agropecuária Catarinense, vol. 25, nº 2, jul. 2012

     Uma pesquisa realizada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) revelou que as abelhas são bioindicadoras de poluição ambiental. Esta conclusão foi baseada no fato de que as abelhas operárias ao recolherem o néctar, a água e o pólen das flores, quase todos os recursos ambientais (solo, vegetação, água e ar) são explorados e, durante este processo, diversos microrganismos, produtos químicos e partículas suspensos no ar são interceptados pelas abelhas e podem ser ficar aderidos ao corpo ou ser ingeridos por elas. Este fato indica que os produtos apícolas podem ser usados como bioindicadores para monitoramento de impacto ambiental causado por fatores biológicos, químicos e físicos. Segundo a pesquisadora, a análise de elementos-traço no pólen pode biomonitorar o ambiente, podendo ser uma forma de prevenir a contaminação ambiental. 






Ferreira On 5/18/2013 11:59:00 AM 4 comments LEIA MAIS

terça-feira, 7 de maio de 2013


Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, jornalista da Epagri, publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.3, nov.2011



     A lavoura em nada lembra uma horta tradicional. Dentro de uma estrutura coberta por plástico e protegida por telas nas laterais, tomates saudáveis e graúdos crescem livres de qualquer insumo químico. Eles são produzidos no abrigo de cultivo desenvolvido pela Epagri/Estação Experimental de Itajaí (EEI), que viabilizou a produção de tomate orgânico em solo barriga-verde – proeza impensável até a década de 90, antes do surgimento dessa tecnologia.  “O abrigo funciona como um guarda-chuva”, explica o engenheiro agrônomo José Ângelo Rebelo. A cobertura evita as chuvas em excesso sobre a planta, dificultando o surgimento de doenças, enquanto a tela barra a entrada de insetos. “Algumas pragas, como a broca--pequena-do-tomate, dificilmente são controladas por produtos alternativos usados na agricultura orgânica”, justifica o engenheiro-agrônomo Euclides Schallenberger. Simples e barata, a solução exigiu anos de estudo e hoje abarca uma série de tecnologias desenvolvidas pelos pesquisadores. Um exemplo é o tutoramento dos tomateiros, que deve ser vertical – e não cruzado, como era feito tradicionalmente – para ventilar melhor as plantas. Pelo mesmo motivo, as linhas de plantio devem ser feitas no sentido norte-sul. Sob os beirados do abrigo, calhas coletam a água da chuva e a conduzem até reservatórios que abastecem um sistema de irrigação por gotejamento. “Ele fornece água de acordo com a demanda da planta”, explica Rebelo. Além de ser mais econômico, o gotejamento evita o surgimento de doenças porque direciona a água apenas para as raízes. Hoje, produtores catarinenses de tomate orgânico usam esse modelo de abrigo e muitos aproveitam as vantagens do sistema para produzir outras hortaliças. “Não há impedimento para o cultivo de nenhuma hortaliça em abrigo. A única recomendação é evitar o plantio em épocas em que a temperatura dentro dele prejudica o desenvolvimento da cultura”, orienta Schallenberger. Na produção de pepino, esse sistema oferece uma vantagem a mais. Os pesquisadores descobriram que, nos abrigos revestidos por tela, a semeadura dos pepineiros pode ser feita diretamente no solo, sem a necessidade de produzir as mudas em bandejas. Nas plantações do Estado, a técnica reduz custos, adianta a colheita em cerca de cinco dias e eleva a produtividade em 20%.


Futuro sustentável
     Essas e outras tecnologias para a produção orgânica vêm sendo estudadas desde 1990 pelo Programa de Pesquisa em Hortaliças da Estação Experimental de Itajaí. O desafio é buscar alternativas que garantam a produção competitiva, sustentável e de qualidade. Há cerca de 60 espécies de hortaliças importantes no consumo humano e isso explica a complexidade dos estudos sobre os quais os cientistas se debruçam. A importância econômica das culturas é outro ponto forte: Santa Catarina é um dos principais produtores brasileiros de alho, cebola, batata, tomate, repolho, pepino para picles, beterraba e batata-salsa, com lavouras distribuídas em todas as regiões. Por meio de cursos, dias de campo, visitas e da ação dos extensionistas, pequenos e grandes produtores têm acesso a um pacote de tecnologias que não beneficiam apenas quem trabalha com a produção orgânica. “Disponibilizamos um sistema completo para qualquer agricultor, inclusive do modelo convencional, adotar as técnicas que quiser. O uso adequado dos agrotóxicos já é uma arma importante na defesa das plantas e na redução dos impactos ambientais”, diz Rebelo.

Mudança de vida
     Essas técnicas provocaram grandes transformações na propriedade da família Tribess, de Blumenau. Por muitos anos, o casal Maria Cristina e Werner produziu hortaliças no sistema convencional. “A situação foi ficando difícil. Era muita mão de obra, a chuva prejudicava as hortaliças e às vezes não tínhamos o que colher”, lembra Maria Cristina. Em busca de uma solução, o casal e os filhos Ademir, hoje com 33 anos, e Alfredo, de 19, fizeram cursos para conhecer as tecnologias da Epagri. Ainda desconfiados, mas bastante motivados pelo filho mais velho, os agricultores testaram o que aprenderam em uma área pequena. “Em 1996 construímos um abrigo de 7 x 3m para tomates que, na primeira safra, deu mais dinheiro do que 250 pés plantados fora dele. Depois disso, nunca mais plantamos em campo aberto”, conta Werner. Os resultados de cada colheita pagavam a ampliação do abrigo para a safra seguinte e a produção foi crescendo. “Mudamos toda a nossa forma de pensar e trabalhar”, revela a agricultora. Hoje a família cultiva tomate, pepino, feijão, alface, pimentão, berinjela e cebolinha. São colhidas cerca de 3 toneladas de tomate por mês e 2 toneladas mensais de pepino no verão. A produção é vendida para uma rede de supermercados que, em parceria com a Epagri, está organizando os olericultores que trabalham com cultivo protegido no município. As mudanças na vida dos Tribess são marcantes. A renda cresceu e é suficiente para sustentar uma família com cinco adultos. A velha casa de madeira foi substituída por uma nova, de alvenaria. O volume de produção praticamente dobrou, enquanto o serviço ficou mais leve. “Antes a gente produzia menos e faltava mão de obra. Agora não trabalhamos mais na chuva e o esforço é menor”, compara Werner. Na lavoura, o uso de insumos químicos já caiu 90%. Animada com os resultados, a família quer evoluir ainda mais e está em transição para a produção orgânica. “Não quero mandar para os outros os alimentos que não como, por isso reduzimos o uso de agrotóxicos”, revela Maria Cristina.

Nutrição na medida
     Os pesquisadores Rebelo e Schallenberger contam que o segredo da agricultura sustentável é dar à planta as condições que ela precisa para revelar seu potencial de produção e de defesa contra pragas e doenças. Esse processo passa por uma nutrição equilibrada e, por esse motivo, desde 1995 os agrônomos estudam a compostagem de materiais orgânicos buscando atender as necessidades de cada hortaliça. Analisando combinações de materiais, como capim-elefante, palha de arroz, crotalária, feijão-de--porco e estercos, eles trabalham para obter compostos com teores diferenciados de nutrientes. Esse processo é feito em um modelo de composteira que foi desenvolvido na EEI: trata-se de um abrigo com piso impermeável para evitar perda de nutrientes e contaminações ambientais. “A compostagem reduz os custos de produção, utiliza o que existe na propriedade e dá um fim adequado para resíduos com potencial poluente”, destaca Schallenberger. Praticamente todos os agricultores da região de Itajaí que produzem hortaliças de forma ecológica conhecem essas vantagens e fazem o próprio adubo. Além dos compostos, os pesquisadores estudam as melhores formas de aplicá-los. “Nossa hipótese é que podemos substituir qualquer adubação mineral pela orgânica; só precisamos saber quando e como aplicar”, explica Schallenberger. Após uma série de testes, eles descobriram que o composto orgânico pode ser aplicado todo de uma vez no plantio de tomate, pepino e repolho, substituindo o fertilizante mineral. “Essa técnica reduz a mão de obra do produtor, já que a adubação mineral geralmente é parcelada em três, quatro ou até cinco vezes”, diz o pesquisador. Agora, eles estudam a adubação de cenoura e alface.

Terra saudável
     O solo onde as hortaliças vão se desenvolver também precisa de atenção. Para reciclar os nutrientes, uma recomendação é semear espécies como aveia, ervilhaca, feijão-de-porco e crotalária. Mas para determinar o melhor manejo para cada hortaliça, os pesquisadores estão testando a eficiência de técnicas como plantio direto, cultivo mínimo e cobertura de palha. “Esses sistemas reduzem significativamente os custos com mão de obra para capina e mecanização do solo”, destaca Schallenberger. E se o objetivo é eliminar doenças do solo e controlar plantas espontâneas, a Epagri ensina os agricultores a fazer a solarização, um método ecológico e barato que foi adaptado pela EEI em 1995. Depois de revolver e molhar uma camada de terra, o agricultor cobre a área com um plástico. O calor do sol e a umidade eliminam nematoides, fungos e bactérias que causam murchas nas plantas, mas preservam os microrganismos que fazem bem para a lavoura. Outra opção para driblar os problemas do solo é usar porta-enxertos mais resistentes aos agentes dessas doenças. Para dar essa alternativa aos produtores, o pesquisador Rafael Cantú avalia porta-enxertos de tomateiro resistentes a nematoides, fungos e bactérias que provocam murchas.

Tesouro genético
     Nem mesmo as melhores técnicas de produção podem salvar a lavoura se as plantas não tiverem boa qualidade genética. Por isso, a motivação da seleção de cultivares de hortaliças para a produção orgânica é obter plantas mais produtivas, resistentes a doenças e com as qualidades que o mercado procura. No Banco Ativo de Germoplasma da EEI, uma espécie de tesouro genético que serve como fonte para essas pesquisas, são preservadas mais de 200 variedades de sementes “crioulas” de hortaliças como tomate, alface, pimentão, feijão, pepino, aipim e batata-doce com potencial para se transformar em renda nas lavouras do futuro. Outra preocupação é obter cultivares que permitam ao agricultor produzir as próprias sementes, o que nem sempre é possível com as variedades híbridas do mercado. “Além disso, nas indústrias de sementes as plantas são cruzadas entre si para serem uniformes e, por isso, não têm muitos genes de defesa”, acrescenta Rebelo. Depois das avaliações agronômicas, as variedades são testadas em pesquisas participativas pelos maiores interessados no assunto. Os agricultores acompanham todo o ciclo da cultura e, após a colheita, avaliam as características que julgam importantes para cada hortaliça, como tamanho, formato, facilidade de descascamento, tempo de cozimento e sabor em diferentes formas de preparo. O trabalho de seleção mais adiantado é o da alface. Cinco variedades estão em avaliação pelos produtores e, em breve, será lançada a primeira: a Litorânea. “Falta apenas fazer o último teste, mas os agricultores precisam estar organizados em associações para receber as sementes”, explica Rebelo. Em três anos, a EEI planeja lançar novos cultivares de batata-doce, em parceria com a Estação Experimental de Ituporanga, e tomateiros resistentes a doenças que permitirão ao agricultor retirar as próprias sementes, economizando cerca de R$ 10 mil por hectare em cada safra. Outra boa promessa são as variedades de aipim que devem chegar às propriedades em dois anos para incrementar a renda de mais de 3 mil famílias catarinenses que sobrevivem dessa cultura. Também de olho no mercado, os pesquisadores iniciaram a seleção de cultivares de pimenteira. “Estamos avaliando sabores, cores, formas e teores de capsaicina, a substância que confere o gosto picante à pimenta”, adianta Schallenberger.



Mudas e oportunidades
     Seja qual for a hortaliça, a qualidade das mudas é determinante para que a planta expresse seu potencial produtivo. No sistema desenvolvido na EEI, elas são feitas em canteiros móveis sob abrigos, com substratos adequados para cada espécie. “Há mais de dez anos nós produzimos mudas sem aplicar nenhum agroquímico, apenas com o manejo adequado do ambiente, da irrigação e da nutrição das plantas”, conta Rebelo. Com o treinamento oferecido pela Epagri, vários olericultores se especializaram nessa tarefa e, hoje, 100% das mudas de hortaliças são produzidos dessa forma em Santa Catarina. Um desses produtores é Heinz Passold. Da propriedade de 40 mil metros quadrados em Blumenau saem de 2 mil a 10 mil bandejas de mudas por mês, dependendo da época do ano. São hortaliças como repolho, couve-flor, beterraba, brócolis, nabo, couve-chinesa, alface, tomate, pimenta, berinjela, rúcula, chicória, almeirão, além de algumas flores, totalizando 140 espécies que abastecem 50 agropecuárias, floriculturas e produtores no Vale do Itajaí e no norte do Estado. Mas quem visita o empreendimento não imagina que há cerca de 15 anos Heinz não tinha dinheiro nem para comprar sementes. Demitido de uma indústria metalúrgica, ele procurou alternativas para sustentar a família, fez cursos da Epagri com a esposa Norma e, em um terreno de apenas 800m2, o filho de agricultores voltou às origens e começou a produzir frutas e hortaliças. Os primeiros anos foram difíceis. “Um dia, sem dinheiro, ofereci duas bandejas de mudas de alface para a dona de uma agropecuária em troca de sementes”, lembra. Troca feita, a comerciante pediu mais mudas, mas Heinz não tinha dinheiro para comprar material. “Eu tinha apenas vontade de trabalhar, então ela me deu algumas bandejas e sementes e comecei a fornecer mudas para a loja”, conta. De muda em muda, os resultados se multiplicaram. Hoje o negócio emprega toda a família – Heinz, a esposa, o filho e a nora –, além de 16 funcionários, sem contar a geração de empregos indiretos. Para chegar aonde estão, além de dedicação e força de vontade, Heinz e Norma contaram com a Epagri para aprender a produzir plantas saudáveis e de qualidade. Embora as mudas não sejam orgânicas, eles aplicam técnicas como cultivo protegido e produção de composto. “Antes eu não sabia o que era uma fórmula de adubo, os nutrientes que uma planta precisa, o que era uma doença, por que ela aparece, nem conhecia as pragas”, lembra Heinz. Aos 50 anos, o produtor planeja a sucessão do negócio. Em nove anos, quer se aposentar e passar as rédeas da propriedade para o filho e a nora. Jefferson, que tem 23 anos, está certo do que quer para seu futuro: “A gente tem que trabalhar onde se sente realizado, e eu estou feliz aqui”.





Produtividade do pepino salta 1.000%
     Grande parte das transformações pelas quais a produção de pepino de Santa Catarina passou nos últimos anos pode ser atribuída ao trabalho da Epagri. Antes dos estudos sobre o tutoramento da hortaliça, ela era cultivada de forma rasteira, o que provocava perda de frutos, reduzia a produtividade e o ciclo da planta e favorecia a entrada de doenças. Além disso, o manejo e a colheita eram difíceis e as plantas eram facilmente pisoteadas. Por volta de 1998, os pesquisadores começaram a avaliar diferentes tipos de tutoramento e concluíram que o método mais econômico e que exige menos mão de obra é o sistema vertical com fitilho. “Em ambiente mais seco e ventilado, cai o risco de doenças. Além disso, a colheita fica mais fácil e a produtividade aumenta de 30% a 40%”, detalha o pesquisador Euclides Schallenberger. Hoje, todo o pepino para picles produzido em Santa Catarina é tutorado dessa forma. A soma dessa e de outras tecnologias da EEI com as que foram lançadas pelo mercado, como cultivares mais produtivos, provocaram uma revolução nas plantações do Estado: nos últimos 15 anos, a produtividade média saltou de 8 para 80t/ha. “De todas as hortaliças, o pepino registrou a maior evolução em aumento de produtividade”, afirma o agrônomo. Santa Catarina é o principal produtor nacional de pepinos para picles, concentrando o maior parque agroindustrial brasileiro de conservas de hortaliças. A produção envolve mais de 3.500 famílias de agricultores que cultivam cerca de 1.800ha e têm na atividade uma das principais fontes de renda.


Ferreira On 5/07/2013 04:20:00 AM Comentarios LEIA MAIS

domingo, 5 de maio de 2013

Trabalho publicado pelo Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável em Microbacias Hidrográficas do                 Rio de Janeiro. Secretaria de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento. Niterói, RJ, 2008.

Autor: Fábio Cunha Coelho1
1Engenheiro Agrônomo, D.Sc., Professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF, Av. Alberto Lamego, 2.000 - Horto - 28013-600 - Campos dos Goytacazes - RJ.

1. Introdução

     Nossos pais e avós cultivavam a terra sem a utilização de adubos e, em alguns casos, o esterco era utilizado. A terra era mais fértil e eram obtidas boas produções de feijão, milho etc. Basta conversar com os mais antigos para confirmar essa informação.
     Algumas roças recém-formadas produzem muito bem quando são implantadas em terreno que antes possuía uma mata ou que ficou “descansando” por alguns anos. No entanto, com o passar dos anos, a produção diminui bastante, principalmente quando não são utilizadas adubações. Isso ocorre porque os nutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio etc.) são retirados do solo pelas plantas. Na época da colheita, são levados juntamente com as partes colhidas, ficando o solo cada vez mais pobre. Além disso, a matéria orgânica do solo vai sendo decomposta sem que haja reposição adequada (essa reposição geralmente ocorre em matas e florestas onde há equilíbrio entre decomposição e deposição de material orgânico no solo).
     As terras “cansadas” necessitam de adubação bem feita para que se recuperem mais rapidamente. Os adubos utilizados nas plantações podem ser químicos ou orgânicos, estes geralmente produzidos na propriedade agrícola (esterco, restos de cultura, composto orgânico etc.).
     A adubação orgânica é muito importante, principalmente em hortas e pomares, podendo ser utilizada, também, em roças de milho, feijão e outras. É importante porque, além de fornecer nutrientes para as plantas, melhora as condições físicas do solo, possibilitando maior penetração das raízes, e aumenta a retenção de água e minerais na camada superficial do solo, diminuindo a lixiviação (perda de nutrientes para camadas mais profundas).
     Muitos agricultores utilizam o esterco da criação para adubação, sendo esta uma boa alternativa para alguma melhoria das condições do solo, porém não resolvendo por si só os problemas de fertilidade. Além do esterco, pode-se utilizar o composto orgânico, que tem esse nome porque é composto de muitos materiais orgânicos, que são misturados de forma a se obter no final grande quantidade de adubo.
     A compostagem é um processo que pode ser utilizado para transformar diferentes tipos de resíduos orgânicos em adubo que, quando adicionado ao solo, melhora as suas características físicas, físico-químicas e biológicas. Proporciona mais vida ao solo, que apresenta produção por mais tempo e com mais qualidade. A técnica da compostagem foi desenvolvida com a finalidade de acelerar com qualidade a estabilização (também conhecida como humificação) da matéria orgânica. Na natureza, a humificação ocorre sem prazo definido, dependendo das condições ambientais e da qualidade dos resíduos orgânicos. No composto, podem ser utilizados os restos de cultura, como as palhas de feijão, milho, arroz, bagaços de cana, capim, serragem, esterco etc. A utilização de materiais originários da própria fazenda barateia os custos com adubação, sendo esta uma das vantagens da utilização do composto orgânico.
     Existem várias formas de se preparar o composto orgânico. Uma delas será apresentada de forma que, seguindo os passos propostos, o produtor tenha um composto pronto para ser utilizado como adubo orgânico de excelente qualidade.

2.Como fazer o composto orgânico?
● A primeira coisa a ser feita é um levantamento da disponibilidade de material para a confecção do composto. O esterco não pode faltar, no entanto, não é necessário que esteja curtido. Palhadas, bagaços, restos de comida, serragem e cascas também podem ser utilizados.
● Escolha a área onde será feito o composto. De preferência, deve ser plana e de fácil acesso, com possibilidade de irrigação.
● Após escolhida a área, limpe o local com uma capina.
● No terreno já capinado, faça uma camada com material vegetal (capim, serragem, bagaço etc.) de aproximadamente 20cm de altura por 2,0m de largura; o comprimento dependerá da disponibilidade de material (em grandes produções, o composto pode ter até mais de 20m de comprimento).
● É bom que seja feita uma leve compactação dessa primeira camada, pisoteando-se a palhada.
● Terminada a compactação, a palhada deve ser molhada com um regador ou mangueira de forma bem homogênea, interrompendo-se a irrigação antes que a água comece a escorrer.
● Terminada a primeira camada, faz-se uma segunda logo acima. Utiliza-se o esterco, que é distribuído com uma pá ou lata sobre a palhada até uma altura de aproximadamente 5cm.
● Com um regador ou mangueira, molhe o esterco de forma bem homogênea, interrompendo-se a irrigação logo que a água começar a escorrer.
 ● Sobre a camada de esterco, faz-se novamente uma camada de 20cm de material palhoso ou restos de culturas.
● Assim como foi feito na primeira camada inicial, compacte a palha pisoteando-a (suba no composto e ande sobre o mesmo, forçando um pouco com as botas para baixo para que a compactação fique bem feita).
● Após compactado, molhe novamente com um regador ou mangueira, parando de molhar logo que a água começar a escorrer. A compactação é feita para que o material vegetal fique o máximo possível sem espaços vazios em seu interior, de modo que os microrganismos tenham acesso mais fácil ao material que será degradado. Essa degradação ou decomposição da matéria orgânica ocorre pela ação de microrganismos (bactérias, fungos etc.) que liberam enzimas para o seu exterior, tendo essas enzimas o papel de quebrar grandes moléculas (proteínas, lipídeos, polissacarídeos etc.) em moléculas menores (aminoácidos, ácidos graxos, monossacarídeos etc.). Nessa “quebra” de grandes moléculas, muitos elementos que são nutrientes para as plantas são liberados (fósforo-P, potássio-K, cálcio-Ca, magnésio-Mg etc.), tornando-os disponíveis para as plantas.
 ● Feita a terceira camada de material palhoso, faz-se a quarta camada, que será de esterco, com altura de 5cm, aproximadamente, fazendo-se posteriormente a irrigação como já mencionado para as outras camadas.
● Assim, sucessivamente, vai-se fazendo uma camada de 20cm de material palhoso e uma de esterco de 5cm. Essa seqüência deve ser repetida até que o composto atinja altura de aproximadamente 1,5m, sendo importante que a última camada seja de material palhoso para que se evitem perdas de nitrogênio por volatilização (perdido para a atmosfera).
Figura 1. Compostagem: capim elefante anão + cama de aviário

● Completadas as camadas até a altura de 1,5m, o próximo passo é cobrir o composto totalmente (acima e lateralmente) com capim seco, para que se evitem grandes perdas de água por evaporação (alguns agricultores preferem construir seus compostos em local já sombreado, como por exemplo sob a copa de grandes árvores).

     É interessante questionar porque o composto é feito dessa forma, fazendo-se camadas sucessivas de 20cm de material palhoso, serragem ou restos de cultura e camadas de 5cm de esterco. Serragem ou palhadas de capim demoram bem mais a decompor que o esterco, por exemplo. Isso se deve, principalmente, à baixa concentração de nitrogênio que as palhadas e serragens possuem, dificultando a sobrevivência dos microrganismos (fungos, bactérias etc.) que decompõem a matéria orgânica. No esterco, há maior concentração de nitrogênio, que possibilita rápido crescimento da população de microrganismos, ocorrendo, assim, decomposição mais rápida pela ação das enzimas (proteínas que aceleram as reações químicas):
+ nitrogênio + microrganismos + enzimas decomposição + rápida
     Pesquisadores descobriram qual o teor de nitrogênio para que haja uma rápida decomposição da matéria orgânica (1 a 2% de N). No esterco, há excesso de nitrogênio (parte dele pode até ser perdido para a atmosfera na forma gasosa, por volatilização), enquanto na serragem e palhadas há deficiência. Calculou-se, então, a relação média de quantidades de esterco e outros materiais como palhadas, serragem etc., de modo que, ao misturá-los, se obtivesse uma concentração ótima de nitrogênio. A proporção de C e N é que regula a ação dos microrganismos, devendo a mistura de resíduos orgânicos ter relação C/N inicial em torno de 30, ou seja, os microrganismos precisam de 30 partes de carbono para cada parte de N consumida por eles.
     No meio rural, para facilitar a confecção inicial do composto, em vez de se misturar as palhadas com o esterco, observou-se que, fazendo camadas, o efeito é o mesmo que quando misturados, com a vantagem de gastar menos mão-de-obra (é mais fácil de fazer).
 ● Finca-se um vergalhão de ferro (uma vara de ferro) no composto de cima para baixo. Esse vergalhão é utilizado para se determinar a temperatura aproximada do composto. A temperatura aumentará devido à grande atividade dos microrganismos na decomposição.

     Fazendo-se uma comparação, é fácil entender que realmente quando há grande quantidade de indivíduos em um ambiente a temperatura aumentará. Por exemplo, quando se vai à igreja no domingo, e ela está lotada, sente-se calor, mesmo que esteja frio do lado de fora; isso ocorre porque o calor dissipado nas reações químicas (na digestão, nos movimentos dos músculos etc.) fica retido no interior do ambiente fechado (no caso a igreja), provocando o aumento da temperatura. Da mesma forma, no composto, a grande quantidade de microrganismos em plena atividade biológica (digestão, respiração etc.) faz com que a temperatura aumente (microrganismo = organismo bem pequeno que, de maneira geral, só pode ser observado com lentes bem possantes - microscópio).
     O ideal é que, no processo inicial de decomposição, a temperatura fique em torno de 60°C. Com a decomposição dos materiais orgânicos, a temperatura vai decrescendo, girando em torno de 40°C. O aumento da temperatura é altamente favorável, pois matará sementes de plantas daninhas, como também possíveis inóculos de doenças (que não suportam o aumento da temperatura) presentes nos restos de cultura.
     Com o passar dos dias, o vergalhão esquentará, caso o composto também esquente. Ao se retirar o vergalhão e encostar as costas da mão no mesmo, as seguintes avaliações poderão ser feitas:
Se estiver quente, mas suportável (ou seja, consegue-se ficar com as costas da mão encostadas no vergalhão por mais tempo), é sinal de que está tudo bem, a decomposição está ocorrendo de forma satisfatória;
Se o vergalhão estiver muito quente (não é possível ficar com as costas da mão encostadas por muito tempo), é sinal de que a atividade dos microrganismos está intensa e perdas de nitrogênio por volatilização estarão ocorrendo devido ao aumento de temperatura (o que não é bom, pois o composto ficará com menor teor de nitrogênio disponível para as plantas quando for utilizado na adubação).
Se o vergalhão estiver frio, pode ser que o composto esteja muito seco, o que dificulta a sobrevivência dos microrganismos. Nesse caso, faça uma irrigação. Porém, se após um dia, o composto não reaquecer, é sinal de que é preciso fazer um revolvimento (misturar as camadas).


3. O composto está muito quente. O que fazer?
Existem duas opções:
● Irrigar o composto.
● A segunda alternativa é fazer uma compactação, subindo-se sobre o composto e socando-se com os pés (que devem estar sempre calçados, de preferência com botas de borracha para que se evitem ferimentos e a possibilidade de se contrair o tétano - é aconselhável ainda que as pessoas que lidam com a fabricação do composto tomem antes a vacina anti-tetânica).
     Essas duas soluções diminuem a quantidade de ar no interior do composto, diminuindo, assim, a população de microrganismos por falta de oxigênio para a respiração.

4. Como fazer o revolvimento?

● Retire o capim que recobre o composto;
● Com uma enxada, vá cortando o composto de cima para baixo, a partir de uma das extremidades, como se fosse retirar fatias na vertical;
● Jogue para trás o material orgânico que vai caindo no chão, formando um monte atrás de você;
● Dessa forma, vai-se caminhando para a frente, cortando-se o composto e, atrás, vai sendo formado um novo composto de material semi-decomposto e bem misturado (essa prática economiza esforço e espaço, pois o composto revolvido vai sendo colocado no mesmo local em que já estava anteriormente);
● Terminada a mistura, recobre-se novamente o composto com o capim seco e enfia-se o vergalhão na vertical.

     A temperatura do composto subirá novamente, pois, com o material revolvido, haverá maior contato entre os microrganismos e a matéria orgânica que ainda não havia sido decomposta, possibilitando grande aumento da população de bactérias e fungos e a continuidade da decomposição.
     Até que o composto fique pronto para a utilização, decorrem, aproximadamente, três meses, sendo necessários dois ou três revolvimentos nesse período e irrigações semanais.
Figura 2. Para pilhas maiores, o uso do trator com lâmina é uma boa alternativa para se fazer os revolvimentos

5. Como saber se o composto está pronto?
● O composto fica com coloração escura;
● Observa-se que o material está bem decomposto, não sendo possível a distinção entre palhas, serragens ou o esterco;
● Quando se pega o composto com as mãos e esfrega-se com os dedos, tem-se a impressão de estar um pouco escorregadio (como se tivesse um pouco de sabão);
● Caso se faça o revolvimento, o composto não esquentará mais;
● O composto estará com relação C/N entre 10 e 15.

     Alguns agricultores desanimam devido à demora até que o composto fique em condições de uso; no entanto, aqueles que já utilizaram o composto na adubação continuam utilizando, devido as suas inúmeras vantagens (alta qualidade como adubo orgânico, economicidade etc.). Em locais onde há grande consumo de adubos orgânicos, é aconselhável a confecção de composto orgânico mensalmente, de forma que todo mês se tenha composto pronto para o uso.
     Quanto menor o tamanho dos resíduos orgânicos e mais variada a sua composição, mais rápida é a compostagem. Portanto, picar os materiais antes de formar as leiras e usar diferentes materiais, acelera a decomposição. Pode-se também fazer uma pasta aguada, contendo esterco fresco de curral, farinha de trigo e açúcar e molhar partes da leira, fazendo assim um concentrado (inóculo) de microrganismos capazes de iniciar o processo de decomposição. Geralmente, para cada 1kg de esterco fresco, usar 100g de farinha de trigo, 50g de açúcar e 5 litros de água. Misturar bem os ingredientes e umedecer bastante o material a ser decomposto.

6.Resumo dos principais passos

● Veja a disponibilidade de material;
● Escolha a área (plana, com disponibilidade de irrigação);
● Faça uma camada de 20cm de material palhoso, serragem ou restos de cultura;
● Irrigue a primeira camada;
● Faça uma camada de 5cm de esterco;
● Irrigue;
● Faça uma camada de material palhoso, serragem ou restos de cultura;
● Irrigue;
● Faça uma camada de 5cm de esterco e irrigue;
● Sucessivamente, faça camadas de palha, serragem ou restos de cultura de 20 cm de altura e camadas de esterco de 5cm de altura (não esquecendo de irrigar), até que o composto fique com aproximadamente 1,5m;
● Cubra o composto com capim seco;
● Finque um vergalhão de ferro;
● Se após alguns dias o vergalhão estiver quente, tudo bem;
● Se o vergalhão estiver muito quente, irrigue ou compacte o composto;
● Se o vergalhão estiver frio, faça o revolvimento;
● O composto estará pronto quando estiver com coloração escura, quando não se distinguirem os materiais originários, quando estiver escorregadio e quando não aquecer ao ser revolvido.


Quadro 1. Composição de alguns materiais empregados no                        preparo do composto (resultados em material seco a 110ºC).

 

MATERIAL



C/N

M.O.

C*

N

P2O5

K2O




g kg-1




Arroz (cascas)

63/1
850,0
472,5
7,5
1,5
5,3
Arroz (palhas)

39/1
543,4
304,2
7,8
5,8
4,1
Bagaço de cana

22/1
585,0
327,8
14,9
2,8
9,9
Banana(talos e cachos)

61/1
852,8
469,7
7,7
1,5
5,3
Banana (folhas)

19/1
889,9
490,2
25,8
1,9
-
Capim-colonião

27/1
910,3
504,9
18,7
5,3
-
Cápsulas (mamona)

44/1
943,3
519,2
11,8
2,9
18,1
Crotalaria juncea

26/1
914,2
507,0
19,5
4,0
13,1
Esterco (carneiro)

15/1
564,9
319,5
21,3
12,8
26,7
Esterco (cocheira)

18/1
458,8
252,0
14,0
5,2
17,4
Esterco (gado)

18/1
621,1
345,6
19,2
10,1
16,2
Esterco (galinha)

10/1
540,0
304,0
30,4
47,0
18,9
Esterco (porco)

10/1
462,8
254,0
25,4
49,3
23,5
Feijão guandu

29/1
959,0
524,9
18,1
5,9
11,4
Feijão de porco

19/1
885,4
484,5
25,5
5,0
24,1
Feijoeiro (palhas)

32/1
946,8
521,6
16,3
2,9
19,4
Milho (palhas)

112/1
967,5
537,6
4,8
3,8
16,4
Milho (sabugos)

101/1
452,0
525,2
5,2
1,9
9,0
Mucuna preta

22/1
906,8
492,8
22,4
5,8
29,7
Serragem de madeira

865/1
934,5
519,0
0,6
0,1
0,1
Torta (usina de açúcar)

20/1
787,8
438,0
21,9
23,2
12,3
Fonte: Adaptado de Kiehl (1981 e 1985) e Oliveira et al. (2005).


7.    Referências Bibliográficas

KIEHL, E. J. Fertilizantes orgânicos. São Paulo: Agronômica Ceres, 1985. 492 p.

KIEHL, E. J. Manual de Compostagem: maturação e qualidade do composto. Piracicaba: Ed. do Autor, 1998. 171 p.

 OLIVEIRA, A. M. G.; AQUINO, A. M.; CASTRO NETO, M. T. Compostagem caseira de lixo orgânico doméstico. Cruz das Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2005. 6 p. (Embrapa Mandioca e Fruticultura. Circular Técnica, 76).

OLIVEIRA, A. M. G.; DANTAS, J. L. L. Composto orgânico. Cruz das Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 1995. 12 p. (Embrapa Mandioca e Fruticultura. Circular Técnica, 23).

TEIXEIRA, L. B. et al. Processo de compostagem a partir de lixo orgânico urbano e caroço de açaí. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2002. 8 p. (Embrapa Amazônia Oriental. Circular Técnica, 29).

Ferreira On 5/05/2013 02:59:00 AM Comentarios LEIA MAIS

domingo, 19 de maio de 2013

Doce e lucrativo negócio



Apicultura: Doce e lucrativo negócio

 Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, Jornalista da Epagri,  publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.2,  jul.2011


Além de ser uma importante fonte de renda no campo, a
apicultura é fundamental para a sobrevivência da agricultura
e a preservação ambiental


     É num processo da natureza extremamente organizado e de proporções minúsculas que se sustenta uma das cadeias produtivas mais importantes de Santa Catarina. De flor em flor, as abelhas coletam néctar para produzir o mel que, após incontáveis viagens, vai encher os favos nas colmeias. No final de cada safra, a soma dessas pequenas quantidades alcança volumes que, no Estado, variam de 6 mil a 8 mil toneladas por ano, movimentando cerca de R$ 30 milhões. 

     A união do trabalho de abelhas e apicultores coloca Santa Catarina na quarta posição entre os Estados produtores de mel do Brasil e em primeiro lugar quando se trata de produção por quilômetro quadrado. São cerca de 450 mil colmeias distribuídas entre 30 mil apicultores, que se reúnem em 60 associações ligadas à Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (Faasc). A maior densidade de colmeias está no sul, no Vale do Itajaí, na Grande Florianópolis e no norte, enquanto as melhores produtividades estão nos apiários do sul, da região serrana e do Vale do Itajaí. Cerca de 30% da produção é exportada.

     A vegetação e o clima diversificado favorecem a exploração da atividade e garantem a qualidade do mel catarinense. Estudos apontam Santa Catarina como o Estado brasileiro com a maior diversidade floral e de mel: são mais de 200 tipos do produto. Flores de eucalipto, vassouras, bracatinga, uva-do-Japão, laranjeira e demais plantas silvestres são as mais comuns.

     Para quem se dedica à atividade, as colmeias também fornecem pólen, própolis, geleia real, cera e apitoxina. Em Santa Catarina, esses produtos geram renda aos produtores, mas a maior importância das abelhas está no papel que elas desempenham na natureza: a  polinização das plantas. Sem elas, a reprodução de diversas espécies vegetais, muitas de interesse econômico, como maçã, pera, grãos, olerícolas e pastagens, estaria comprometida. “Com o serviço de polinização, as abelhas garantem um aumento na produção agrícola equivalente a mais de US$ 100 milhões anuais a Santa Catarina”, ressalta o médico-veterinário Walter Miguel, chefe da Epagri/Parque Ecológico Cidade das Abelhas (Peca).    

     Para os apicultores do sul do Estado, a polinização também gera renda. No início da primavera eles levam as colmeias para a região serrana, onde as alugam para polinizar mais de 20 mil hectares de pomares de maçã e obtêm uma safra de mel com espécies da região. No início do ano eles voltam para o sul, onde aproveitam o final das floradas, especialmente a do eucalipto, e colhem a segunda safra.

Simples e barato 
     A implantação de um apiário não exige grandes estruturas, como cercas e galpões, e pode ser feita em pequenas propriedades, aproveitando áreas impróprias para a agricultura e pecuária, desde que haja flora apícola na região. Por questões de segurança, o produtor não pode ser alérgico ao veneno da abelha e deve instalar o apiário a pelo menos 200 m de estradas e lavouras. O manejo é simples e pode ser feito com mão de obra familiar. “A apicultura é uma excelente fonte de renda porque os custos de produção são baixos, já que a maior fonte de alimentação das abelhas é natural e a atividade não utiliza insumos. O investimento inicial praticamente se paga no primeiro ano de produção”, ressalta Walter Miguel. 

     Para instalar um apiário com 50 colmeias, o veterinário calcula que sejam gastos aproximadamente R$ 4,5 mil na compra das caixas, que podem durar mais de dez anos se forem bem manejadas. Os enxames normalmente são encontrados na natureza e a extração e o envasamento do mel podem ser feitos em cooperativas ou associações com outros apicultores. 

     Walter garante que o investimento vale a pena mesmo para quem aposta em uma produção pequena. Em 50 colmeias, considerando uma produção de 30 kg de mel/colmeia/ano vendida a R$ 4,00/kg, o apicultor consegue obter cerca de R$ 6 mil por safra de mel. “Já um apicultor com 500 colmeias consegue tirar cerca de R$ 60 mil ao ano, o que equivale a uma renda mensal de aproximadamente R$5 mil. Mas, para alcançar bons resultados, é preciso se dedicar”, aconselha. 

Bom negócio 
     Interesse pelas abelhas não falta para Leo Kreusch, de 63 anos, que vive em Vidal Ramos, no Alto Vale do Itajaí. Ele trocou as lavouras de fumo pelas colmeias e hoje é exemplo de que quando há dedicação a atividade é uma boa opção de renda. “A apicultura era uma tradição do meu pai que eu aprendi aos 10 anos de idade”, lembra. Há cerca de 30 anos, Leo decidiu resgatar a atividade. “Comprei equipamentos e me aperfeiçoei com cursos da Epagri”, conta. Com o conhecimento e o trabalho de Leo, as colmeias se multiplicaram e já faz 15 anos que a família deixou a produção de fumo. 

     São cerca de 200 colmeias na propriedade e em áreas alugadas. Na safra do ano passado, Leo colheu 35 kg de mel por colmeia, bem acima da média da região, que é de 25 kg. Parte da produção vai para entrepostos, mas a maior parcela é vendida na propriedade, pois os anos de trabalho no ramo já renderam ao apicultor uma freguesia fiel. “De um modo geral, os custos diminuíram e a renda aumentou com a apicultura, sem falar que não mexo mais com agrotóxicos”, revela. 

     Assim como aprendeu com o pai, Leo está passando a atividade para o filho Luiz Carlos, de 15 anos, que tem se interessado cada vez mais pelo apiário. “Ele já fez vários cursos e está gostando. No futuro, ele vai tocar o que eu estou fazendo”, afirma.

     No município, 22 apicultores mantêm cerca de 1.500 colmeias e são responsáveis por uma produção de 37 t de mel por ano. Seguindo o exemplo das abelhas, eles ajudam uns aos outros. “É um trabalho de equipe. Quando um vizinho chama, a gente vai e o trabalho acaba sendo uma diversão”, conta Leo, que também é presidente da Associação dos Apicultores de Vidal Ramos (Aapivira). A associação, fundada em 1990, auxilia na compra de materiais e equipamentos e na adequação dos estabelecimentos dos produtores. Até o início da próxima safra, em outubro, a Aapivira deve inaugurar uma unidade de extração de mel com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF). Hoje, a maioria dos associados faz a extração na propriedade.

     Flávio Majolo, que é extensionista da Epagri no Escritório Municipal de Vidal Ramos, acredita que a produção de mel do município pode ser duplicada sem risco de haver concorrência de florada entre as abelhas. “A região tem ótimo potencial apícola, com grandes áreas de mata nativa e eucalipto”, avalia. Mas, embora a Epagri incentive a atividade, a apicultura aos poucos se enfraquece na região. “Muitos produtores não aplicam as tecnologias aprendidas nos cursos, que são fundamentais para ter sucesso nos apiários”, explica.

     Em outras regiões do Estado, a situação se repete. Cerca de 3 mil produtores catarinenses são considerados profissionais, mas a maior parte tem até 100 colmeias e pratica a atividade apenas para complementar a renda. “O conhecimento chega até eles, mas a maioria não aproveita todo o potencial econômico da atividade”, conta Walter Miguel, do Peca.

     Essa situação mantém a produtividade média do Estado em um nível relativamente baixo: em torno de 15 kg de mel por colmeia/ano. O grande desafio da Epagri e das entidades do setor é ampliar esse número em 30% a 40% nos próximos anos. “Estamos concentrando esforços no desenvolvimento de material genético de qualidade, na adoção de técnicas adequadas de manejo e no incentivo ao associativismo, fazendo com que os apicultores adotem as novas tecnologias e melhorem a produtividade”, destaca o veterinário.

Pesquisa e extensão 
     A Epagri acumula mais de 50 anos de trabalho na apicultura, contribuindo com o crescimento do setor dentro e fora do Estado. Foi em Santa Catarina, por exemplo, que se desenvolveu o fumegador que é utilizado hoje nos apiários de abelhas africanizadas em todo o Brasil. O desenvolvimento de roupas e equipamentos humanizados, com mais segurança e ventilação, também tem contribuição da Epagri. 

     Desde 2009, as pesquisas da Empresa na área são conduzidas pela Estação Experimental de Videira. O Parque Ecológico Cidade das Abelhas, em Florianópolis, passou a atuar na capacitação de produtores, no apoio às atividades de extensão e às pesquisas, na sanidade apícola em parceria com a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e na organização da cadeia produtiva em conjunto com a Faasc.

      Entre as pesquisas em andamento, destacam-se a seleção de colmeias a partir da avaliação de comportamento higiênico e produtividade de mel, a caracterização genética das abelhas em diferentes regiões de Santa Catarina e o monitoramento da infestação pelo ácaro Varroa destructor em apiários do Estado. “Somos colaboradores da Universidade Federal de Santa Catarina na avaliação de compostos bioativos e da qualidade do mel em diferentes regiões catarinenses”, acrescenta Cristiano João Arioli, pesquisador em entomologia da Estação Experimental de Videira. Também em parceria com a UFSC, a Epagri/Peca participa de uma pesquisa sobre a caracterização da própolis catarinense e seus efeitos farmacológicos. O estudo é conduzido em parceria com apicultores de dez regiões do Estado e já apresenta resultados promissores. 

     A criação de abelhas sem ferrão, ou indígenas, chamada de meliponicultura, é outra área que recebe atenção da Empresa. O Peca possui um meliponário, fruto do trabalho do técnico agrícola Ivanir Cella, para difundir tecnologias com foco na preservação ambiental. Além disso, a atividade pode gerar renda para os produtores, seja pela produção de mel, seja pela venda de famílias de espécies nativas. “Em termos quantitativos, não se deve comparar a produção das abelhas sem ferrão com a das abelhas Apis mellifera africanizadas, que são as mais criadas comercialmente em Santa Catarina. As primeiras têm produção bem menor, mas possuem grande importância ambiental, já que muitas espécies vegetais nativas são polinizadas exclusivamente por elas”, esclarece a médica-veterinária Mara Rúbia Pinto, pesquisadora do Peca.

Atenção ao manejo
     Outra contribuição da Epagri está na investigação das possíveis causas da mortalidade de abelhas que vem ocorrendo no Estado. A partir de 2007 houve ampla divulgação de um problema surgido nos Estados Unidos e na Europa, a CCD (sigla em inglês para Síndrome do Colapso das Colônias), que se caracteriza pelo desaparecimento das abelhas e cujas causas ainda não foram esclarecidas. “Com essa divulgação, os apicultores do Estado se alertaram. Situações que antes passavam despercebidas foram atribuídas a isso e recebemos relatos do que poderia ser a CCD”, conta Mara Rúbia. 

     A Epagri vem estudando a situação em parceria com outras instituições, mas com os dados levantados até agora não é possível atribuir as perdas à CCD. “A maior parte dos casos decorre de erros de manejo. Além disso, a vegetação nativa está dando lugar à monocultura e isso prejudica as abelhas, que precisam de aporte nutricional proteico diversificado e em quantidade adequada”, acrescenta a pesquisadora.

     Fome, frio e deficiências no manejo ainda são apontados como as principais causas de mortalidade de abelhas e redução de produtividade em Santa Catarina. Para se defender, as abelhas consomem mel e a reserva acaba rapidamente. Sem os devidos cuidados, os apicultores chegam a perder 15% a 30% das colmeias no outono e no inverno. 

     Os técnicos recomendam tomar algumas precauções para manter a temperatura dentro das colmeias, como não instalá-las em locais altos e descampados, reduzir o espaço de entrada das abelhas, expor as colmeias ao sol e vedar as frestas das caixas. “É importante usar uma ‘entretampa’ nos meses mais frios para diminuir os espaços vazios na colmeia”, reforça Walter Miguel. 

     Também é preciso observar a necessidade de alimentar as abelhas no outono e no inverno. Para ajudar os produtores nessa tarefa, a pesquisadora Mara Rúbia estudou a nutrição das abelhas em sua dissertação de mestrado. “Essa é uma das áreas menos estudadas e mais importantes na apicultura porque as abelhas não recebem medicamentos e precisam se fortalecer pela alimentação”, justifica. 

     A pesquisadora avaliou a eficiência de diferentes dietas até chegar às melhores alternativas para atender as necessidades nutricionais das abelhas. Ao final do estudo, um folder com as receitas foi publicado para orientar os apicultores. “As dietas não alteraram as características físico-químicas do mel produzido e podem ser consideradas adequadas para suplementação alimentar em época de escassez de recursos naturais”, conclui.

     Para levar todo esse conhecimento e as novas tecnologias ao campo, os cursos de apicultura oferecidos pela Epagri capacitam mais de 300 produtores por ano em todas as regiões do Estado, além de cerca de 35 técnicos que fazem atualização. O curso básico de apicultura dura de 3 a 5 dias e dá noções suficientes para o produtor iniciar a atividade. Mais tarde, ele pode se especializar com cursos como os de produção de pólen, geleia real e própolis. O produtor Leo Kreusch, de Vidal Ramos, que já fez sete cursos na Epagri, revela o segredo para crescer na atividade: “Para ser um bom apicultor, além de gostar do que faz, é preciso se aperfeiçoar.

Como o mel é produzido
     A principal fonte para a elaboração do mel é o néctar das flores. Em alguns locais, as abelhas também coletam a secreção de outros insetos para produzir o mel de melato. “Em Santa Catarina, encontramos o mel de melato produzido a partir da secreção de cochonilhas presentes na bracatinga”, explica a pesquisadora Mara Rúbia Pinto. 

     A produção do mel envolve várias reações. Em uma reação física, o néctar é desidratado até que o teor de umidade fique abaixo de 18%.Para isso, ocorre uma absorção de água no papo das abelhas e uma evaporação pelo bater das asas dos insetos na colmeia. Já a transformação dos açúcares do néctar em açúcares do mel ocorre pela ação das enzimas invertase, amilase e glicose-oxidase. “Após essa delicada transformação, as abelhas depositam o mel no interior dos alvéolos presentes nos favos e os cobrem com uma fina camada de cera num processo chamado de operculação. Nesse ponto, o mel é considerado ‘maduro’”, conta a pesquisadora.

     De acordo com a flor de origem, a cor do mel pode variar de quase transparente a quase negro. Quanto mais escuro, mais forte ao paladar e maiores os índices nutricionais, principalmente no teor de sais minerais. O sabor pode variar de doce suave até doce forte e, em alguns casos, como o do mel da bracatinga, pode ser ácido ou amargo. A consistência também varia: há mel líquido, cristalizado, granulado e cremoso.

sábado, 18 de maio de 2013

As abelhas e o apicultor: A importância para as pessoas, meio ambiente e sustentabilidade do planeta



     No dia 22 de maio é comemorado no Brasil o “Dia do Apicultor”; a data foi escolhida por ser dia da Santa Rita de Cássia, padroeira dos apicultores. A data é importante para refletirmos sobre a importância das abelhas para o homem, meio ambiente e sustentabilidade do planeta em que vivemos e, também parabenizar o apicultor pelo belo trabalho realizado. Esta profissão tão importante precisa ser valorizada no Brasil e receber a devida atenção de todos, pela sua importância ecológica, econômica e na segurança alimentar. 

     A abelha, inseto milenar, está presente em toda a história da humanidade, desde o início dos tempos. Desde as mais remotas civilizações até as mais recentes descobertas, a abelha sempre esteve e está intimamente associada ao ser humano e sua evolução. As abelhas podem ser indicadores biológicos do equilíbrio ambiental, muito útil no esforço da conservação, da biodiversidade e na exploração sustentável do meio ambiente. As mudanças que o homem têm imposto ao seu ambiente vem reduzindo a abundância de abelhas silvestres, colocando em risco a produção de alimentos e a preservação de muitos ambientes naturais e das espécies que neles habitam. É urgente que se reconheça as abelhas e outros animais polinizadores como essenciais para a sustentabilidade da produção mundial de alimentos. Segundo pesquisadores, a produção de 2/3 da alimentação humana depende, direta ou indiretamente da polinização por insetos e, de acordo com estimativas feitas em 1998, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), há no mundo uma perda de U$54 bilhões devido a deficiência na polinização das plantas cultivadas.  




                  Abelha visitando uma flor

     O apicultor é aquele profissional que cria as abelhas, e especialmente a espécie Apis melifera L. que é conhecida como abelha doméstica, produtora de mel e cera. Dá-se o nome de "apicultura" à arte de criar abelhas. Pode ser praticada como hobby ou de modo profissional. É uma atividade muito antiga, originária do Oriente. A China, o México e a Argentina são os principais países exportadores de mel, e a Alemanha e o Japão são os maiores importadores. O papel do apicultor é amparar suas abelhas nos momentos mais difíceis, para poder se beneficiar nos estágios em que as colmeias se encontram na plenitude produtiva. Para tanto, é preciso que ele entenda que a colônia vive em constante ciclo; nos períodos de escassez de alimento, a família definha, os zangões são expulsos da colmeia, cai a postura da rainha e, consequentemente, diminui ou cessa a produção de mel, pólen, geleia real, própolis e cera. Nesse momento, entra em ação o apicultor, que socorre a colônia providenciando alimento artificial para as abelhas, reduzindo a entrada do orvalho nos períodos de frio, auxiliando na manutenção da temperatura do interior da colmeia, fornecendo cera, verificando o estado dos favos e etc. Não basta apenas ter algumas colmeias para ser apicultor. É preciso entender o comportamento social das abelhas, sua biologia e estar sempre se atualizando sobre as técnicas de manejo e produção. Isso torna essa arte ainda mais nobre e cativante, pois as descobertas se renovam. 

Apicultores em ação


     O mel foi a primeira substância adoçante da antiguidade, utilizado desde 5.000 a.C. Na pré-história, o alimento ingerido era uma mistura de mel, pólen e cera, pois não se sabia separar suas substâncias, sendo escasso e difícil encontrar um enxame. Somente em 400 a.C. é que começaram a armazenar em potes, sendo que os egípcios foram os primeiros na sua criação. O mel, produto que tem crescido em produção e exportação, é hoje responsável por uma cadeia produtiva diversificada que envolve todo país, com mais de 350 mil apicultores, além de 450 mil ocupações no campo e 16 mil empregos diretos no setor industrial. Segundo a Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), a produção apícola nacional triplicou nos últimos anos, chegando a 50 mil toneladas anuais, com uma perspectiva de no futuro produzir até 200 mil toneladas. Segundo levantamento do Sebrae - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, as exportações do mel renderam ao país uma receita de US$ 5,53 milhões em 2010. Além de elevar a renda e ser uma fonte riquíssima em proteínas, vitaminas, minerais, o cultivo de abelha pode ser um grande aliado para a preservação da natureza. Esses insetos são responsáveis pela reprodução de 40 a 90% dos vegetais devido ao processo de polinização, ou seja, cuidam do transporte de pólen de uma flor para outra, de acordo com INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. 
    
As abelhas são insetos sociais altamente organizados, que se destacam pela importância de seus produtos, especialmente o mel e, pela polinização de culturas. As abelhas melíferas organizam-se em três classes principais: as operárias (providenciam a alimentação), a rainha (põe ovos) e o zangão (acasala com a rainha). Algumas colmeias chegam a ter 110 mil abelhas, a grande maioria de operárias, sendo uma rainha e, cerca de 150 zangões. As abelhas são consideradas “insetos sociais” devido ao elevado grau de desenvolvimento social atingido. Agrupam-se em comunidades ou enxames onde existe uma organizada distribuição de tarefas. Cada família de abelhas possui uma única rainha, que tem como função a reprodução da espécie. Poucos dias após seu nascimento é fecundada por vários zangões no chamado “vôo nupcial”. Como é a única abelha fêmea fecundada, cabe à rainha colocar todos os ovos necessários à continuidade da família, mantendo a organização e coesão do enxame. Os zangões, abelhas macho mais fortes que as operárias, não possuem ferrão e não coletam pólen ou néctar; sua função é fecundar a rainha, vindo a morrer após o ato. Já as abelhas operárias são as fêmeas não fecundadas, menores que a rainha e que os zangões; são responsáveis pela construção, ventilação, limpeza e defesa da colmeia, além da alimentação da rainha, cuidado com ovos e crias, coleta de pólen, néctar e água e, produção de mel, geleia real e própolis; possuem veneno e ferrão, vivendo entre 28 e 50 dias.


                 
Objetivos e perspectivas da apicultura

     Entre os produtos que podem ser extraídos da colmeia, graças ao trabalho incansável das abelhas operárias, destacam-se: o mel, geléia real e própolis. O mel, produzido a partir do néctar que as abelhas operárias armazenam nos favos, é uma substância orgânica rica em ácidos, sais minerais, vitaminas, enzimas, proteínas, aminoácidos e hormônios, muito utilizado na alimentação humana, em cosméticos e como remédio (veja neste blog a matéria “Insetos benéficos e sua importância para o homem e meio ambiente”, postada em 28/10/2011, sobre as inúmeras propriedades medicinais do mel). O mel é produzido a partir das flores existentes ao redor da colmeia. Na colmeia, o néctar trazido pelas campeiras vai ser transformado em mel pelas outras abelhas, com um sabor e características especiais de acordo com as flores visitadas. Existem dezenas de variedades de mel de abelhas e, dependendo da floração e dos terrenos, variam de cor, aroma e sabor. Os apicultores conhecem o mel típico de sua região, e geralmente as flores que fornecem o néctar para a sua produção. A Geléia Real é produzido pelas abelhas para alimentação das larvas jovens da colmeia e para a rainha, durante toda sua vida; contém hormônios, vitaminas, aminoácidos, enzimas, lipídios e outras substâncias que agem sobre o processo de regeneração celular. O Própolis é produzido a partir de resinas e bálsamos coletados das plantas e modificado pelas abelhas operárias através de secreções próprias. Por sua eficácia terapêutica, é indicado para gripes, resfriados, dores de garganta, problemas de mau hálito, aftas e gengivites, bem como para fortificar o organismo. Também pode ser usado como cicatrizante em feridas, cortes, micoses, espinhas, verrugas e frieiras. Ainda pode ser extraído da colmeia, o Néctar, um líquido doce e rico em açúcar, colhido pelas abelhas para fazer o mel, empregado pelos gregos para preparar a ambrosia, bebida feita a partir da mistura de vinho, água e mel e a Cera. Em função das excelentes propriedades dos produtos apícolas, surgiu a Apiterapia; é a ciência da cura das enfermidades com produtos apícolas, embora tendo uma denominação nova, é uma medicina antiga e tradicional usada por muitos povos. 

     Há 80 milhões de anos as abelhas desempenham a importante tarefa de polinizar plantas e, por isso, são responsáveis pela produção de alimentos. A polinização é a transferência de grãos de pólen (gameta masculino) das anteras (órgãos masculinos) de uma flor para o estigma (parte do aparelho reprodutor feminino) da mesma flor ou de outra flor da mesma espécie. Sem essa transferência, não há a fecundação das plantas e, sem plantas, não tem como alimentar o mundo, pois não há a formação das sementes e frutos. Veja neste blog mais informações sobre a polinização, através da matéria “Insetos benéficos e sua importância para o homem e meio ambiente” postada em 28/10/2011. 

     São as abelhas que garantem a diversidade e o equilíbrio do ecossistema. Estudos apontam que 50% da biomassa de uma floresta tropical seja formada por formigas, vespas, abelhas e cupins. Cerca de 75% das culturas e 80% das espécies de plantas dotadas de flores dependem da polinização. Portanto, as abelhas constituem-se nos principais polinizadores bióticos da natureza. Frequentemente os agricultores não percebem a grande fração de polinização que é realizada pelas abelhas nativas e resultados de polinização inadequada acabam sendo interpretados como problemas de clima ou doenças. Boa parte da agricultura só existe por causa da polinização das abelhas e insetos! Ou seja, o próprio funcionamento da natureza - suas interações ecológicas - produzem "serviços" ecossistêmicos dos quais a humanidade e outros seres vivos utilizam para sobreviver. A conservação desses serviços depende da conservação da própria natureza e de seus diferentes ecossistemas. Quando o homem promove ações direcionadas à conservação, manutenção ou melhoria desses serviços ecossistêmicos para benefício da sociedade, tais ações são chamadas "Serviços Ambientais". Segundo pesquisadores, o valor anual global dos serviços ambientais prestados pelas abelhas na polinização de alimentos para o homem foi estimado em 2008 como sendo de 153 bilhões de euros, que corresponderam à 9,5% do valor da produção agrícola de alimentos utilizados pelo homem em 2005. 


     O Brasil tem uma apicultura em desenvolvimento, mas precisamos fortalecê-la mais através de um esforço conjunto para educação popular, conscientização da importância das abelhas, conservação dos recursos naturais e restauração ambiental, por exemplo, com o incentivo ao plantio de espécies vegetais com flores para as abelhas, especialmente árvores e jardins. No nosso país, muitos apicultores criam também abelhas nativas, chamadas de abelhas indígenas sem ferrão ou meliponíneos. Estas abelhas nativas, encontradas por toda parte, atuam na polinização de muitas plantas geralmente cultivadas pelo pequeno agricultor. Muitas espécies produzem mel. Entretanto, este mel é diferente do produzido pelas colônias de Apis mellifera. É mais líquido e considerado muito medicinal. No momento não pode ser vendido no comércio nem exportado, por ainda não estar regulamentado pelo Ministério da Agricultura. No Brasil de hoje, onde se expande a agricultura, uma das maiores fontes de recursos financeiros do País, precisamos atuar junto à comunidade rural para desenhar uma paisagem agrícola amigável aos polinizadores, implementar o cooperativismo forte e traçar um plano de ação bem delineado para que possamos preservar e utilizar os serviços ambientais prestados pelas nossas abelhas. Estas ações serão a base para a apicultura sustentável e para a segurança alimentar, através da utilização sustentável de abelhas como polinizadoras. 



Causas do declínio da polinização

     As abelhas são seres fundamentais para a manutenção da vegetação natural e cultivada, pois contribuem para a perpetuação de muitas espécies nativas e de culturas agrícolas. Sua preservação é importante devido ao papel fundamental que desempenham na cadeia biológica: fazer a polinização e garantir, dessa forma, a continuidade das espécies de flores de onde insetos e outros animais retiram seu alimento. 


     A agressão ambiental verificada em escala cada vez mais acentuada atinge em cheio as abelhas e outros insetos polinizadores. Pelas mãos dos homens, o desmatamento, a poluição, as queimadas, os incêndios florestais, o uso indiscriminado de agrotóxicos, principalmente nas extensas áreas de monocultivo, tem colocado a vida das abelhas em perigo. Áreas cobertas com vegetação nativa apresentam, em geral, um número considerável de espécies de plantas que servem como fonte de néctar e pólen para insetos polinizadores. A substituição destas áreas por monoculturas, que normalmente florescem por um curto período de tempo, leva a uma severa redução no número e diversidade de polinizadores. Os herbicidas e as capinas (manuais e mecanizadas) reduzem o número de flores silvestres, fornecidos por plantas consideradas espontâneas ou “daninhas”, pela destruição de áreas e/ou faixas naturais e artificiais. O resultado final é uma área com uma quantidade muito pequena de polinizadores naturais e uma grande demanda por polinização durante o período de florescimento das plantas cultivadas. Tudo isto contribui para a perda de biodiversidade e serviços de polinização na área, pois as espécies remanescentes não conseguem compensar a perda de polinização resultante do desaparecimento das demais espécies. 





     No Brasil, a questão dos agrotóxicos é preocupante. Segundo pesquisadores, somente no período de 40 anos entre 1964 e 2004 o consumo de agrotóxicos no país aumentou 700%. A partir de 2008, o Brasil tornou-se o campeão mundial no consumo de agrotóxicos. A aplicação de agrotóxicos reduz ainda mais a presença de polinizadores em áreas cultivadas, pois os inseticidas utilizados para matar as pragas fazem o mesmo com os insetos polinizadores. Alguns fungicidas podem, também, ter um grande impacto sobre os polinizadores, por reduzirem o número de visita às flores das culturas, ao exercerem ação repelente ou reduzirem a viabilidade do pólen, decorrentes de aberrações cromossômicas. Vários relatos sobre mortalidade de abelhas, presumivelmente devido a contaminações pelo uso inadequado de agrotóxicos, têm ocorrido recentemente no país. Nos últimos 15 anos tem-se notado considerável aumento da mortalidade das abelhas, em especial na região sul do país. O certo é que o sumiço das abelhas mudaria completamente todo o ecossistema, afetando significativamente a vida de todos nós. A boa notícia é que alguns órgãos do governo estão preocupados e, por isso, estão tomando algumas medidas no sentido de minimizar o grave problema. 


IBAMA vai reavaliar agrotóxicos prejudiciais às abelhas

     Foi publicado no Diário Oficial da União (DOU), em 19/7/2012, um comunicado do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) que dá início formal ao processo de reavaliação de agrotóxicos associados à efeitos nocivos às abelhas. Quatro ingredientes ativos que compõem esses agrotóxicos serão reavaliados: Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil. O primeiro a passar pelo processo de reavaliação será o Imidacloprido, que é a mais comercializada destas quatro substâncias. Só em 2010, empresas declararam ao IBAMA a comercialização de 1.934 toneladas de Imidacloprido, cerca de 60% do total comercializado destes quatro ingredientes. Entre os produtos comerciais à base de Fipronil os mais conhecidos são Amulet, Klap, Standak, Belure, Blitz, entre outros. O imidacloprido tem formulações comerciais de nome Poncho, Gaúcho, Confidor WG, entre outros. Esta iniciativa do IBAMA segue diretrizes de políticas públicas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) voltadas para a proteção de polinizadores. As diretrizes do MMA acompanham a preocupação mundial sobre a manutenção de populações de polinizadores naturais, como as abelhas. A decisão do IBAMA se baseou em pesquisas científicas e em decisões adotadas por outros países. Estudos científicos recentes indicam que o uso destas substâncias é prejudicial para insetos polinizadores, em especial para as abelhas, podendo causar a morte ou alterações no comportamento destes insetos. As abelhas são consideradas os principais polinizadores em ambientes naturais e agrícolas, e contribuem para o aumento da produtividade agrícola, além de serem diretamente responsáveis pela produção de mel. 

     Como medida preventiva, o IBAMA proibiu provisoriamente a aplicação por aviões de agrotóxicos à base de Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil em qualquer tipo de cultura. O uso de inseticidas que contem esses ingredientes ativos por meio de aplicação aérea tem sido associado a morte de abelhas em diferentes regiões do país, o que motivou a proibição. No prazo de três meses as empresas produtoras de agrotóxicos devem incluir uma frase de alerta para o consumidor nas bulas e embalagens de produtos que contenham um ou mais dos compostos químicos destacados na portaria. A mensagem padrão informará que a aplicação aérea não é mais permitida e que o produto é tóxico para abelhas. Além disso, constará da mensagem que o uso é proibido em épocas de floração ou quando observada a visitação de abelhas na lavoura. 

     Segundo o coordenador-geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do IBAMA, Márcio de Freitas, “ as medidas adotadas visam proteger este importante serviço ambiental de polinização, que comprovadamente aumenta a produtividade agrícola. O intuito da reavaliação é contribuir para agricultura e apicultura brasileiras.” Das 100 culturas agrícolas produzidas que representam 90% da base de alimento mundial, cerca de 70 % são polinizadas por abelhas, completou o coordenador-geral. Ao final do processo de reavaliação, o IBAMA poderá manter a decisão de suspensão da aplicação por aviões destes produtos, ou revê-la. Caso o resultado dos estudos indiquem, o IBAMA poderá adotar outras medidas de restrição ou controle destas substâncias. Confira a frase de advertência que deverá ser incorporada às bulas e embalagens do produtos que contém Imidacloprido, Tiametoxam, Clotianidina e Fipronil: 

“Este produto é tóxico para abelhas”. A aplicação aérea NÃO É PERMITIDA. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades. 



Agrotóxicos causam curto-circuito nas abelhas 

     Um estudo europeu mostrou que os agrotóxicos usados para proteger cultivos podem embaralhar os circuitos cerebrais das abelhas melíferas (produtoras de mel), afetando sua memória e sua capacidade de navegação, necessárias para encontrar comida, alertaram cientistas. Segundo artigo publicado na revista científica Nature Communications, isso poderia ameaçar colônias de abelhas inteiras, cujas funções polinizadoras são vitais para a produção de alimentos. A equipe de cientistas estudou os cérebros de abelhas produtoras de mel no laboratório, expondo-as à pesticidas Neonicotinoides usados em lavouras e, à Organofosfatos, o grupo de inseticidas mais usado no mundo (neste caso, o Coumafos), inclusive, para controlar infestações de ácaros em colmeias. Segundo os cientistas, quando expostos a concentrações similares dos dois pesticidas encontradas na natureza, os circuitos de aprendizagem nos cérebros das abelhas logo param de funcionar. "Juntas, as duas classes de pesticidas demonstraram ter um efeito negativo maior no cérebro das abelhas e que podem inibir o aprendizado das abelhas produtoras de mel", explicou um dos coautores do estudo, Christopher Connolly, do Instituto de Pesquisa Médica da Universidade de Dundee, no Reino Unido. "As polinizadoras têm comportamentos sofisticados enquanto se alimentam, que exigem que aprendam e se lembrem de tratos florais associados à comida", acrescentou sua colega, Geraldine Wright, do Centro de Comportamento e Evolução da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. "A interrupção desta importante função tem implicações profundas na sobrevivência de colônias de abelhas produtoras de mel, porque as que não conseguem aprender não conseguirão encontrar comida", emendou. A descoberta foi feita em meio a um intenso debate sobre o uso continuado de Neonicotinoides. Há duas semanas, países europeus rejeitaram uma proposta de proibição por dois anos do grupo de inseticidas que atinge o cérebro, depois da oposição da indústria agroquímica. Apicultores da Europa, da América do Norte e de outras partes do mundo estão preocupados com o chamado distúrbio de colapso das colônias, um fenômeno no qual as abelhas adultas abruptamente desaparecem das colmeias - algo que tem sido atribuído a ácaros, vírus e fungos, pesticidas ou a uma combinação desses fatores.

     As abelhas são 80% dos insetos polinizadores de plantas. Sem elas, muitos cultivos seriam incapazes de frutificar ou, então, teriam de ser polinizados a mão. Os cientistas afirmam que suas descobertas podem levar a uma reavaliação do uso de pesticidas. "Nossos dados sugerem que o uso amplo de Coumafos, como acaricida, é um risco desnecessário para a saúde das abelhas melíferas", afirmou Connolly, que propôs o uso de ácidos orgânicos para o controle de ácaros nas colmeias. Em termos de pesticidas para a proteção de cultivos, a indústria agroquímica argumenta que alternativas aos Neonicotinoides seriam mais tóxicas para as abelhas. "Uma comparação direta das alternativas parece ser o único caminho" para encontrar a opção menos nociva, afirmou o cientista. Comentando o estudo, Francis Ratnieks, professor de apicultura da Universidade de Sussex, disse que as concentrações usadas na pesquisa pareciam altas. "Não surpreende que altas concentrações de inseticidas sejam nocivas, mas não sabemos se os baixos níveis de inseticidas Neonicotinoides no néctar e no pólen de plantas tratadas também são nocivos no mundo real", acrescentou. Além disso, o uso de Coumafos é ilegal em grande parte da Europa e não é amplamente usado nos Estados Unidos, afirmou Ratnieks, citado pelo Science Media Centre, em Londres. Apicultores franceses pediram ao Ministério da Agricultura a proibição de pesticidas Neonicotinoides, enquanto a CE (Comissão Europeia) analisa a adoção de uma norma específica sobre o caso. "A situação é catastrófica", disse Henri Clément, porta-voz dos apicultores franceses, afirmando que a taxa de mortalidade das abelhas passou de 5% na década de 1990 para 30% atualmente, o que provocou uma redução dramática na produção de mel na França, para 16 mil toneladas. Clément se reuniu com os legisladores, aos quais pediu apoio ao seu apelo pela proibição dos Neonicotinoides, e pediu a criação de um "comitê de apoio à alternativas aos pesticidas". Este ano, a CE já propôs a suspensão do uso de três produtos Neonicotinoides nas culturas de milho, canola, girassol e algodão, pois eles contribuem para uma alta notável na mortalidade das abelhas. 



Abelhas são bioindicadoras de poluição no ambiente
Fonte: Revista Agropecuária Catarinense, vol. 25, nº 2, jul. 2012

     Uma pesquisa realizada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) revelou que as abelhas são bioindicadoras de poluição ambiental. Esta conclusão foi baseada no fato de que as abelhas operárias ao recolherem o néctar, a água e o pólen das flores, quase todos os recursos ambientais (solo, vegetação, água e ar) são explorados e, durante este processo, diversos microrganismos, produtos químicos e partículas suspensos no ar são interceptados pelas abelhas e podem ser ficar aderidos ao corpo ou ser ingeridos por elas. Este fato indica que os produtos apícolas podem ser usados como bioindicadores para monitoramento de impacto ambiental causado por fatores biológicos, químicos e físicos. Segundo a pesquisadora, a análise de elementos-traço no pólen pode biomonitorar o ambiente, podendo ser uma forma de prevenir a contaminação ambiental. 






terça-feira, 7 de maio de 2013

Inovação na horta


Reportagem realizada por Cinthia Andruchak Freitas, jornalista da Epagri, publicada na Revista Agropecuária Catarinense, v.24, n.3, nov.2011



     A lavoura em nada lembra uma horta tradicional. Dentro de uma estrutura coberta por plástico e protegida por telas nas laterais, tomates saudáveis e graúdos crescem livres de qualquer insumo químico. Eles são produzidos no abrigo de cultivo desenvolvido pela Epagri/Estação Experimental de Itajaí (EEI), que viabilizou a produção de tomate orgânico em solo barriga-verde – proeza impensável até a década de 90, antes do surgimento dessa tecnologia.  “O abrigo funciona como um guarda-chuva”, explica o engenheiro agrônomo José Ângelo Rebelo. A cobertura evita as chuvas em excesso sobre a planta, dificultando o surgimento de doenças, enquanto a tela barra a entrada de insetos. “Algumas pragas, como a broca--pequena-do-tomate, dificilmente são controladas por produtos alternativos usados na agricultura orgânica”, justifica o engenheiro-agrônomo Euclides Schallenberger. Simples e barata, a solução exigiu anos de estudo e hoje abarca uma série de tecnologias desenvolvidas pelos pesquisadores. Um exemplo é o tutoramento dos tomateiros, que deve ser vertical – e não cruzado, como era feito tradicionalmente – para ventilar melhor as plantas. Pelo mesmo motivo, as linhas de plantio devem ser feitas no sentido norte-sul. Sob os beirados do abrigo, calhas coletam a água da chuva e a conduzem até reservatórios que abastecem um sistema de irrigação por gotejamento. “Ele fornece água de acordo com a demanda da planta”, explica Rebelo. Além de ser mais econômico, o gotejamento evita o surgimento de doenças porque direciona a água apenas para as raízes. Hoje, produtores catarinenses de tomate orgânico usam esse modelo de abrigo e muitos aproveitam as vantagens do sistema para produzir outras hortaliças. “Não há impedimento para o cultivo de nenhuma hortaliça em abrigo. A única recomendação é evitar o plantio em épocas em que a temperatura dentro dele prejudica o desenvolvimento da cultura”, orienta Schallenberger. Na produção de pepino, esse sistema oferece uma vantagem a mais. Os pesquisadores descobriram que, nos abrigos revestidos por tela, a semeadura dos pepineiros pode ser feita diretamente no solo, sem a necessidade de produzir as mudas em bandejas. Nas plantações do Estado, a técnica reduz custos, adianta a colheita em cerca de cinco dias e eleva a produtividade em 20%.


Futuro sustentável
     Essas e outras tecnologias para a produção orgânica vêm sendo estudadas desde 1990 pelo Programa de Pesquisa em Hortaliças da Estação Experimental de Itajaí. O desafio é buscar alternativas que garantam a produção competitiva, sustentável e de qualidade. Há cerca de 60 espécies de hortaliças importantes no consumo humano e isso explica a complexidade dos estudos sobre os quais os cientistas se debruçam. A importância econômica das culturas é outro ponto forte: Santa Catarina é um dos principais produtores brasileiros de alho, cebola, batata, tomate, repolho, pepino para picles, beterraba e batata-salsa, com lavouras distribuídas em todas as regiões. Por meio de cursos, dias de campo, visitas e da ação dos extensionistas, pequenos e grandes produtores têm acesso a um pacote de tecnologias que não beneficiam apenas quem trabalha com a produção orgânica. “Disponibilizamos um sistema completo para qualquer agricultor, inclusive do modelo convencional, adotar as técnicas que quiser. O uso adequado dos agrotóxicos já é uma arma importante na defesa das plantas e na redução dos impactos ambientais”, diz Rebelo.

Mudança de vida
     Essas técnicas provocaram grandes transformações na propriedade da família Tribess, de Blumenau. Por muitos anos, o casal Maria Cristina e Werner produziu hortaliças no sistema convencional. “A situação foi ficando difícil. Era muita mão de obra, a chuva prejudicava as hortaliças e às vezes não tínhamos o que colher”, lembra Maria Cristina. Em busca de uma solução, o casal e os filhos Ademir, hoje com 33 anos, e Alfredo, de 19, fizeram cursos para conhecer as tecnologias da Epagri. Ainda desconfiados, mas bastante motivados pelo filho mais velho, os agricultores testaram o que aprenderam em uma área pequena. “Em 1996 construímos um abrigo de 7 x 3m para tomates que, na primeira safra, deu mais dinheiro do que 250 pés plantados fora dele. Depois disso, nunca mais plantamos em campo aberto”, conta Werner. Os resultados de cada colheita pagavam a ampliação do abrigo para a safra seguinte e a produção foi crescendo. “Mudamos toda a nossa forma de pensar e trabalhar”, revela a agricultora. Hoje a família cultiva tomate, pepino, feijão, alface, pimentão, berinjela e cebolinha. São colhidas cerca de 3 toneladas de tomate por mês e 2 toneladas mensais de pepino no verão. A produção é vendida para uma rede de supermercados que, em parceria com a Epagri, está organizando os olericultores que trabalham com cultivo protegido no município. As mudanças na vida dos Tribess são marcantes. A renda cresceu e é suficiente para sustentar uma família com cinco adultos. A velha casa de madeira foi substituída por uma nova, de alvenaria. O volume de produção praticamente dobrou, enquanto o serviço ficou mais leve. “Antes a gente produzia menos e faltava mão de obra. Agora não trabalhamos mais na chuva e o esforço é menor”, compara Werner. Na lavoura, o uso de insumos químicos já caiu 90%. Animada com os resultados, a família quer evoluir ainda mais e está em transição para a produção orgânica. “Não quero mandar para os outros os alimentos que não como, por isso reduzimos o uso de agrotóxicos”, revela Maria Cristina.

Nutrição na medida
     Os pesquisadores Rebelo e Schallenberger contam que o segredo da agricultura sustentável é dar à planta as condições que ela precisa para revelar seu potencial de produção e de defesa contra pragas e doenças. Esse processo passa por uma nutrição equilibrada e, por esse motivo, desde 1995 os agrônomos estudam a compostagem de materiais orgânicos buscando atender as necessidades de cada hortaliça. Analisando combinações de materiais, como capim-elefante, palha de arroz, crotalária, feijão-de--porco e estercos, eles trabalham para obter compostos com teores diferenciados de nutrientes. Esse processo é feito em um modelo de composteira que foi desenvolvido na EEI: trata-se de um abrigo com piso impermeável para evitar perda de nutrientes e contaminações ambientais. “A compostagem reduz os custos de produção, utiliza o que existe na propriedade e dá um fim adequado para resíduos com potencial poluente”, destaca Schallenberger. Praticamente todos os agricultores da região de Itajaí que produzem hortaliças de forma ecológica conhecem essas vantagens e fazem o próprio adubo. Além dos compostos, os pesquisadores estudam as melhores formas de aplicá-los. “Nossa hipótese é que podemos substituir qualquer adubação mineral pela orgânica; só precisamos saber quando e como aplicar”, explica Schallenberger. Após uma série de testes, eles descobriram que o composto orgânico pode ser aplicado todo de uma vez no plantio de tomate, pepino e repolho, substituindo o fertilizante mineral. “Essa técnica reduz a mão de obra do produtor, já que a adubação mineral geralmente é parcelada em três, quatro ou até cinco vezes”, diz o pesquisador. Agora, eles estudam a adubação de cenoura e alface.

Terra saudável
     O solo onde as hortaliças vão se desenvolver também precisa de atenção. Para reciclar os nutrientes, uma recomendação é semear espécies como aveia, ervilhaca, feijão-de-porco e crotalária. Mas para determinar o melhor manejo para cada hortaliça, os pesquisadores estão testando a eficiência de técnicas como plantio direto, cultivo mínimo e cobertura de palha. “Esses sistemas reduzem significativamente os custos com mão de obra para capina e mecanização do solo”, destaca Schallenberger. E se o objetivo é eliminar doenças do solo e controlar plantas espontâneas, a Epagri ensina os agricultores a fazer a solarização, um método ecológico e barato que foi adaptado pela EEI em 1995. Depois de revolver e molhar uma camada de terra, o agricultor cobre a área com um plástico. O calor do sol e a umidade eliminam nematoides, fungos e bactérias que causam murchas nas plantas, mas preservam os microrganismos que fazem bem para a lavoura. Outra opção para driblar os problemas do solo é usar porta-enxertos mais resistentes aos agentes dessas doenças. Para dar essa alternativa aos produtores, o pesquisador Rafael Cantú avalia porta-enxertos de tomateiro resistentes a nematoides, fungos e bactérias que provocam murchas.

Tesouro genético
     Nem mesmo as melhores técnicas de produção podem salvar a lavoura se as plantas não tiverem boa qualidade genética. Por isso, a motivação da seleção de cultivares de hortaliças para a produção orgânica é obter plantas mais produtivas, resistentes a doenças e com as qualidades que o mercado procura. No Banco Ativo de Germoplasma da EEI, uma espécie de tesouro genético que serve como fonte para essas pesquisas, são preservadas mais de 200 variedades de sementes “crioulas” de hortaliças como tomate, alface, pimentão, feijão, pepino, aipim e batata-doce com potencial para se transformar em renda nas lavouras do futuro. Outra preocupação é obter cultivares que permitam ao agricultor produzir as próprias sementes, o que nem sempre é possível com as variedades híbridas do mercado. “Além disso, nas indústrias de sementes as plantas são cruzadas entre si para serem uniformes e, por isso, não têm muitos genes de defesa”, acrescenta Rebelo. Depois das avaliações agronômicas, as variedades são testadas em pesquisas participativas pelos maiores interessados no assunto. Os agricultores acompanham todo o ciclo da cultura e, após a colheita, avaliam as características que julgam importantes para cada hortaliça, como tamanho, formato, facilidade de descascamento, tempo de cozimento e sabor em diferentes formas de preparo. O trabalho de seleção mais adiantado é o da alface. Cinco variedades estão em avaliação pelos produtores e, em breve, será lançada a primeira: a Litorânea. “Falta apenas fazer o último teste, mas os agricultores precisam estar organizados em associações para receber as sementes”, explica Rebelo. Em três anos, a EEI planeja lançar novos cultivares de batata-doce, em parceria com a Estação Experimental de Ituporanga, e tomateiros resistentes a doenças que permitirão ao agricultor retirar as próprias sementes, economizando cerca de R$ 10 mil por hectare em cada safra. Outra boa promessa são as variedades de aipim que devem chegar às propriedades em dois anos para incrementar a renda de mais de 3 mil famílias catarinenses que sobrevivem dessa cultura. Também de olho no mercado, os pesquisadores iniciaram a seleção de cultivares de pimenteira. “Estamos avaliando sabores, cores, formas e teores de capsaicina, a substância que confere o gosto picante à pimenta”, adianta Schallenberger.



Mudas e oportunidades
     Seja qual for a hortaliça, a qualidade das mudas é determinante para que a planta expresse seu potencial produtivo. No sistema desenvolvido na EEI, elas são feitas em canteiros móveis sob abrigos, com substratos adequados para cada espécie. “Há mais de dez anos nós produzimos mudas sem aplicar nenhum agroquímico, apenas com o manejo adequado do ambiente, da irrigação e da nutrição das plantas”, conta Rebelo. Com o treinamento oferecido pela Epagri, vários olericultores se especializaram nessa tarefa e, hoje, 100% das mudas de hortaliças são produzidos dessa forma em Santa Catarina. Um desses produtores é Heinz Passold. Da propriedade de 40 mil metros quadrados em Blumenau saem de 2 mil a 10 mil bandejas de mudas por mês, dependendo da época do ano. São hortaliças como repolho, couve-flor, beterraba, brócolis, nabo, couve-chinesa, alface, tomate, pimenta, berinjela, rúcula, chicória, almeirão, além de algumas flores, totalizando 140 espécies que abastecem 50 agropecuárias, floriculturas e produtores no Vale do Itajaí e no norte do Estado. Mas quem visita o empreendimento não imagina que há cerca de 15 anos Heinz não tinha dinheiro nem para comprar sementes. Demitido de uma indústria metalúrgica, ele procurou alternativas para sustentar a família, fez cursos da Epagri com a esposa Norma e, em um terreno de apenas 800m2, o filho de agricultores voltou às origens e começou a produzir frutas e hortaliças. Os primeiros anos foram difíceis. “Um dia, sem dinheiro, ofereci duas bandejas de mudas de alface para a dona de uma agropecuária em troca de sementes”, lembra. Troca feita, a comerciante pediu mais mudas, mas Heinz não tinha dinheiro para comprar material. “Eu tinha apenas vontade de trabalhar, então ela me deu algumas bandejas e sementes e comecei a fornecer mudas para a loja”, conta. De muda em muda, os resultados se multiplicaram. Hoje o negócio emprega toda a família – Heinz, a esposa, o filho e a nora –, além de 16 funcionários, sem contar a geração de empregos indiretos. Para chegar aonde estão, além de dedicação e força de vontade, Heinz e Norma contaram com a Epagri para aprender a produzir plantas saudáveis e de qualidade. Embora as mudas não sejam orgânicas, eles aplicam técnicas como cultivo protegido e produção de composto. “Antes eu não sabia o que era uma fórmula de adubo, os nutrientes que uma planta precisa, o que era uma doença, por que ela aparece, nem conhecia as pragas”, lembra Heinz. Aos 50 anos, o produtor planeja a sucessão do negócio. Em nove anos, quer se aposentar e passar as rédeas da propriedade para o filho e a nora. Jefferson, que tem 23 anos, está certo do que quer para seu futuro: “A gente tem que trabalhar onde se sente realizado, e eu estou feliz aqui”.





Produtividade do pepino salta 1.000%
     Grande parte das transformações pelas quais a produção de pepino de Santa Catarina passou nos últimos anos pode ser atribuída ao trabalho da Epagri. Antes dos estudos sobre o tutoramento da hortaliça, ela era cultivada de forma rasteira, o que provocava perda de frutos, reduzia a produtividade e o ciclo da planta e favorecia a entrada de doenças. Além disso, o manejo e a colheita eram difíceis e as plantas eram facilmente pisoteadas. Por volta de 1998, os pesquisadores começaram a avaliar diferentes tipos de tutoramento e concluíram que o método mais econômico e que exige menos mão de obra é o sistema vertical com fitilho. “Em ambiente mais seco e ventilado, cai o risco de doenças. Além disso, a colheita fica mais fácil e a produtividade aumenta de 30% a 40%”, detalha o pesquisador Euclides Schallenberger. Hoje, todo o pepino para picles produzido em Santa Catarina é tutorado dessa forma. A soma dessa e de outras tecnologias da EEI com as que foram lançadas pelo mercado, como cultivares mais produtivos, provocaram uma revolução nas plantações do Estado: nos últimos 15 anos, a produtividade média saltou de 8 para 80t/ha. “De todas as hortaliças, o pepino registrou a maior evolução em aumento de produtividade”, afirma o agrônomo. Santa Catarina é o principal produtor nacional de pepinos para picles, concentrando o maior parque agroindustrial brasileiro de conservas de hortaliças. A produção envolve mais de 3.500 famílias de agricultores que cultivam cerca de 1.800ha e têm na atividade uma das principais fontes de renda.


domingo, 5 de maio de 2013

Composto Orgânico

Trabalho publicado pelo Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável em Microbacias Hidrográficas do                 Rio de Janeiro. Secretaria de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento. Niterói, RJ, 2008.

Autor: Fábio Cunha Coelho1
1Engenheiro Agrônomo, D.Sc., Professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF, Av. Alberto Lamego, 2.000 - Horto - 28013-600 - Campos dos Goytacazes - RJ.

1. Introdução

     Nossos pais e avós cultivavam a terra sem a utilização de adubos e, em alguns casos, o esterco era utilizado. A terra era mais fértil e eram obtidas boas produções de feijão, milho etc. Basta conversar com os mais antigos para confirmar essa informação.
     Algumas roças recém-formadas produzem muito bem quando são implantadas em terreno que antes possuía uma mata ou que ficou “descansando” por alguns anos. No entanto, com o passar dos anos, a produção diminui bastante, principalmente quando não são utilizadas adubações. Isso ocorre porque os nutrientes (nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio etc.) são retirados do solo pelas plantas. Na época da colheita, são levados juntamente com as partes colhidas, ficando o solo cada vez mais pobre. Além disso, a matéria orgânica do solo vai sendo decomposta sem que haja reposição adequada (essa reposição geralmente ocorre em matas e florestas onde há equilíbrio entre decomposição e deposição de material orgânico no solo).
     As terras “cansadas” necessitam de adubação bem feita para que se recuperem mais rapidamente. Os adubos utilizados nas plantações podem ser químicos ou orgânicos, estes geralmente produzidos na propriedade agrícola (esterco, restos de cultura, composto orgânico etc.).
     A adubação orgânica é muito importante, principalmente em hortas e pomares, podendo ser utilizada, também, em roças de milho, feijão e outras. É importante porque, além de fornecer nutrientes para as plantas, melhora as condições físicas do solo, possibilitando maior penetração das raízes, e aumenta a retenção de água e minerais na camada superficial do solo, diminuindo a lixiviação (perda de nutrientes para camadas mais profundas).
     Muitos agricultores utilizam o esterco da criação para adubação, sendo esta uma boa alternativa para alguma melhoria das condições do solo, porém não resolvendo por si só os problemas de fertilidade. Além do esterco, pode-se utilizar o composto orgânico, que tem esse nome porque é composto de muitos materiais orgânicos, que são misturados de forma a se obter no final grande quantidade de adubo.
     A compostagem é um processo que pode ser utilizado para transformar diferentes tipos de resíduos orgânicos em adubo que, quando adicionado ao solo, melhora as suas características físicas, físico-químicas e biológicas. Proporciona mais vida ao solo, que apresenta produção por mais tempo e com mais qualidade. A técnica da compostagem foi desenvolvida com a finalidade de acelerar com qualidade a estabilização (também conhecida como humificação) da matéria orgânica. Na natureza, a humificação ocorre sem prazo definido, dependendo das condições ambientais e da qualidade dos resíduos orgânicos. No composto, podem ser utilizados os restos de cultura, como as palhas de feijão, milho, arroz, bagaços de cana, capim, serragem, esterco etc. A utilização de materiais originários da própria fazenda barateia os custos com adubação, sendo esta uma das vantagens da utilização do composto orgânico.
     Existem várias formas de se preparar o composto orgânico. Uma delas será apresentada de forma que, seguindo os passos propostos, o produtor tenha um composto pronto para ser utilizado como adubo orgânico de excelente qualidade.

2.Como fazer o composto orgânico?
● A primeira coisa a ser feita é um levantamento da disponibilidade de material para a confecção do composto. O esterco não pode faltar, no entanto, não é necessário que esteja curtido. Palhadas, bagaços, restos de comida, serragem e cascas também podem ser utilizados.
● Escolha a área onde será feito o composto. De preferência, deve ser plana e de fácil acesso, com possibilidade de irrigação.
● Após escolhida a área, limpe o local com uma capina.
● No terreno já capinado, faça uma camada com material vegetal (capim, serragem, bagaço etc.) de aproximadamente 20cm de altura por 2,0m de largura; o comprimento dependerá da disponibilidade de material (em grandes produções, o composto pode ter até mais de 20m de comprimento).
● É bom que seja feita uma leve compactação dessa primeira camada, pisoteando-se a palhada.
● Terminada a compactação, a palhada deve ser molhada com um regador ou mangueira de forma bem homogênea, interrompendo-se a irrigação antes que a água comece a escorrer.
● Terminada a primeira camada, faz-se uma segunda logo acima. Utiliza-se o esterco, que é distribuído com uma pá ou lata sobre a palhada até uma altura de aproximadamente 5cm.
● Com um regador ou mangueira, molhe o esterco de forma bem homogênea, interrompendo-se a irrigação logo que a água começar a escorrer.
 ● Sobre a camada de esterco, faz-se novamente uma camada de 20cm de material palhoso ou restos de culturas.
● Assim como foi feito na primeira camada inicial, compacte a palha pisoteando-a (suba no composto e ande sobre o mesmo, forçando um pouco com as botas para baixo para que a compactação fique bem feita).
● Após compactado, molhe novamente com um regador ou mangueira, parando de molhar logo que a água começar a escorrer. A compactação é feita para que o material vegetal fique o máximo possível sem espaços vazios em seu interior, de modo que os microrganismos tenham acesso mais fácil ao material que será degradado. Essa degradação ou decomposição da matéria orgânica ocorre pela ação de microrganismos (bactérias, fungos etc.) que liberam enzimas para o seu exterior, tendo essas enzimas o papel de quebrar grandes moléculas (proteínas, lipídeos, polissacarídeos etc.) em moléculas menores (aminoácidos, ácidos graxos, monossacarídeos etc.). Nessa “quebra” de grandes moléculas, muitos elementos que são nutrientes para as plantas são liberados (fósforo-P, potássio-K, cálcio-Ca, magnésio-Mg etc.), tornando-os disponíveis para as plantas.
 ● Feita a terceira camada de material palhoso, faz-se a quarta camada, que será de esterco, com altura de 5cm, aproximadamente, fazendo-se posteriormente a irrigação como já mencionado para as outras camadas.
● Assim, sucessivamente, vai-se fazendo uma camada de 20cm de material palhoso e uma de esterco de 5cm. Essa seqüência deve ser repetida até que o composto atinja altura de aproximadamente 1,5m, sendo importante que a última camada seja de material palhoso para que se evitem perdas de nitrogênio por volatilização (perdido para a atmosfera).
Figura 1. Compostagem: capim elefante anão + cama de aviário

● Completadas as camadas até a altura de 1,5m, o próximo passo é cobrir o composto totalmente (acima e lateralmente) com capim seco, para que se evitem grandes perdas de água por evaporação (alguns agricultores preferem construir seus compostos em local já sombreado, como por exemplo sob a copa de grandes árvores).

     É interessante questionar porque o composto é feito dessa forma, fazendo-se camadas sucessivas de 20cm de material palhoso, serragem ou restos de cultura e camadas de 5cm de esterco. Serragem ou palhadas de capim demoram bem mais a decompor que o esterco, por exemplo. Isso se deve, principalmente, à baixa concentração de nitrogênio que as palhadas e serragens possuem, dificultando a sobrevivência dos microrganismos (fungos, bactérias etc.) que decompõem a matéria orgânica. No esterco, há maior concentração de nitrogênio, que possibilita rápido crescimento da população de microrganismos, ocorrendo, assim, decomposição mais rápida pela ação das enzimas (proteínas que aceleram as reações químicas):
+ nitrogênio + microrganismos + enzimas decomposição + rápida
     Pesquisadores descobriram qual o teor de nitrogênio para que haja uma rápida decomposição da matéria orgânica (1 a 2% de N). No esterco, há excesso de nitrogênio (parte dele pode até ser perdido para a atmosfera na forma gasosa, por volatilização), enquanto na serragem e palhadas há deficiência. Calculou-se, então, a relação média de quantidades de esterco e outros materiais como palhadas, serragem etc., de modo que, ao misturá-los, se obtivesse uma concentração ótima de nitrogênio. A proporção de C e N é que regula a ação dos microrganismos, devendo a mistura de resíduos orgânicos ter relação C/N inicial em torno de 30, ou seja, os microrganismos precisam de 30 partes de carbono para cada parte de N consumida por eles.
     No meio rural, para facilitar a confecção inicial do composto, em vez de se misturar as palhadas com o esterco, observou-se que, fazendo camadas, o efeito é o mesmo que quando misturados, com a vantagem de gastar menos mão-de-obra (é mais fácil de fazer).
 ● Finca-se um vergalhão de ferro (uma vara de ferro) no composto de cima para baixo. Esse vergalhão é utilizado para se determinar a temperatura aproximada do composto. A temperatura aumentará devido à grande atividade dos microrganismos na decomposição.

     Fazendo-se uma comparação, é fácil entender que realmente quando há grande quantidade de indivíduos em um ambiente a temperatura aumentará. Por exemplo, quando se vai à igreja no domingo, e ela está lotada, sente-se calor, mesmo que esteja frio do lado de fora; isso ocorre porque o calor dissipado nas reações químicas (na digestão, nos movimentos dos músculos etc.) fica retido no interior do ambiente fechado (no caso a igreja), provocando o aumento da temperatura. Da mesma forma, no composto, a grande quantidade de microrganismos em plena atividade biológica (digestão, respiração etc.) faz com que a temperatura aumente (microrganismo = organismo bem pequeno que, de maneira geral, só pode ser observado com lentes bem possantes - microscópio).
     O ideal é que, no processo inicial de decomposição, a temperatura fique em torno de 60°C. Com a decomposição dos materiais orgânicos, a temperatura vai decrescendo, girando em torno de 40°C. O aumento da temperatura é altamente favorável, pois matará sementes de plantas daninhas, como também possíveis inóculos de doenças (que não suportam o aumento da temperatura) presentes nos restos de cultura.
     Com o passar dos dias, o vergalhão esquentará, caso o composto também esquente. Ao se retirar o vergalhão e encostar as costas da mão no mesmo, as seguintes avaliações poderão ser feitas:
Se estiver quente, mas suportável (ou seja, consegue-se ficar com as costas da mão encostadas no vergalhão por mais tempo), é sinal de que está tudo bem, a decomposição está ocorrendo de forma satisfatória;
Se o vergalhão estiver muito quente (não é possível ficar com as costas da mão encostadas por muito tempo), é sinal de que a atividade dos microrganismos está intensa e perdas de nitrogênio por volatilização estarão ocorrendo devido ao aumento de temperatura (o que não é bom, pois o composto ficará com menor teor de nitrogênio disponível para as plantas quando for utilizado na adubação).
Se o vergalhão estiver frio, pode ser que o composto esteja muito seco, o que dificulta a sobrevivência dos microrganismos. Nesse caso, faça uma irrigação. Porém, se após um dia, o composto não reaquecer, é sinal de que é preciso fazer um revolvimento (misturar as camadas).


3. O composto está muito quente. O que fazer?
Existem duas opções:
● Irrigar o composto.
● A segunda alternativa é fazer uma compactação, subindo-se sobre o composto e socando-se com os pés (que devem estar sempre calçados, de preferência com botas de borracha para que se evitem ferimentos e a possibilidade de se contrair o tétano - é aconselhável ainda que as pessoas que lidam com a fabricação do composto tomem antes a vacina anti-tetânica).
     Essas duas soluções diminuem a quantidade de ar no interior do composto, diminuindo, assim, a população de microrganismos por falta de oxigênio para a respiração.

4. Como fazer o revolvimento?

● Retire o capim que recobre o composto;
● Com uma enxada, vá cortando o composto de cima para baixo, a partir de uma das extremidades, como se fosse retirar fatias na vertical;
● Jogue para trás o material orgânico que vai caindo no chão, formando um monte atrás de você;
● Dessa forma, vai-se caminhando para a frente, cortando-se o composto e, atrás, vai sendo formado um novo composto de material semi-decomposto e bem misturado (essa prática economiza esforço e espaço, pois o composto revolvido vai sendo colocado no mesmo local em que já estava anteriormente);
● Terminada a mistura, recobre-se novamente o composto com o capim seco e enfia-se o vergalhão na vertical.

     A temperatura do composto subirá novamente, pois, com o material revolvido, haverá maior contato entre os microrganismos e a matéria orgânica que ainda não havia sido decomposta, possibilitando grande aumento da população de bactérias e fungos e a continuidade da decomposição.
     Até que o composto fique pronto para a utilização, decorrem, aproximadamente, três meses, sendo necessários dois ou três revolvimentos nesse período e irrigações semanais.
Figura 2. Para pilhas maiores, o uso do trator com lâmina é uma boa alternativa para se fazer os revolvimentos

5. Como saber se o composto está pronto?
● O composto fica com coloração escura;
● Observa-se que o material está bem decomposto, não sendo possível a distinção entre palhas, serragens ou o esterco;
● Quando se pega o composto com as mãos e esfrega-se com os dedos, tem-se a impressão de estar um pouco escorregadio (como se tivesse um pouco de sabão);
● Caso se faça o revolvimento, o composto não esquentará mais;
● O composto estará com relação C/N entre 10 e 15.

     Alguns agricultores desanimam devido à demora até que o composto fique em condições de uso; no entanto, aqueles que já utilizaram o composto na adubação continuam utilizando, devido as suas inúmeras vantagens (alta qualidade como adubo orgânico, economicidade etc.). Em locais onde há grande consumo de adubos orgânicos, é aconselhável a confecção de composto orgânico mensalmente, de forma que todo mês se tenha composto pronto para o uso.
     Quanto menor o tamanho dos resíduos orgânicos e mais variada a sua composição, mais rápida é a compostagem. Portanto, picar os materiais antes de formar as leiras e usar diferentes materiais, acelera a decomposição. Pode-se também fazer uma pasta aguada, contendo esterco fresco de curral, farinha de trigo e açúcar e molhar partes da leira, fazendo assim um concentrado (inóculo) de microrganismos capazes de iniciar o processo de decomposição. Geralmente, para cada 1kg de esterco fresco, usar 100g de farinha de trigo, 50g de açúcar e 5 litros de água. Misturar bem os ingredientes e umedecer bastante o material a ser decomposto.

6.Resumo dos principais passos

● Veja a disponibilidade de material;
● Escolha a área (plana, com disponibilidade de irrigação);
● Faça uma camada de 20cm de material palhoso, serragem ou restos de cultura;
● Irrigue a primeira camada;
● Faça uma camada de 5cm de esterco;
● Irrigue;
● Faça uma camada de material palhoso, serragem ou restos de cultura;
● Irrigue;
● Faça uma camada de 5cm de esterco e irrigue;
● Sucessivamente, faça camadas de palha, serragem ou restos de cultura de 20 cm de altura e camadas de esterco de 5cm de altura (não esquecendo de irrigar), até que o composto fique com aproximadamente 1,5m;
● Cubra o composto com capim seco;
● Finque um vergalhão de ferro;
● Se após alguns dias o vergalhão estiver quente, tudo bem;
● Se o vergalhão estiver muito quente, irrigue ou compacte o composto;
● Se o vergalhão estiver frio, faça o revolvimento;
● O composto estará pronto quando estiver com coloração escura, quando não se distinguirem os materiais originários, quando estiver escorregadio e quando não aquecer ao ser revolvido.


Quadro 1. Composição de alguns materiais empregados no                        preparo do composto (resultados em material seco a 110ºC).

 

MATERIAL



C/N

M.O.

C*

N

P2O5

K2O




g kg-1




Arroz (cascas)

63/1
850,0
472,5
7,5
1,5
5,3
Arroz (palhas)

39/1
543,4
304,2
7,8
5,8
4,1
Bagaço de cana

22/1
585,0
327,8
14,9
2,8
9,9
Banana(talos e cachos)

61/1
852,8
469,7
7,7
1,5
5,3
Banana (folhas)

19/1
889,9
490,2
25,8
1,9
-
Capim-colonião

27/1
910,3
504,9
18,7
5,3
-
Cápsulas (mamona)

44/1
943,3
519,2
11,8
2,9
18,1
Crotalaria juncea

26/1
914,2
507,0
19,5
4,0
13,1
Esterco (carneiro)

15/1
564,9
319,5
21,3
12,8
26,7
Esterco (cocheira)

18/1
458,8
252,0
14,0
5,2
17,4
Esterco (gado)

18/1
621,1
345,6
19,2
10,1
16,2
Esterco (galinha)

10/1
540,0
304,0
30,4
47,0
18,9
Esterco (porco)

10/1
462,8
254,0
25,4
49,3
23,5
Feijão guandu

29/1
959,0
524,9
18,1
5,9
11,4
Feijão de porco

19/1
885,4
484,5
25,5
5,0
24,1
Feijoeiro (palhas)

32/1
946,8
521,6
16,3
2,9
19,4
Milho (palhas)

112/1
967,5
537,6
4,8
3,8
16,4
Milho (sabugos)

101/1
452,0
525,2
5,2
1,9
9,0
Mucuna preta

22/1
906,8
492,8
22,4
5,8
29,7
Serragem de madeira

865/1
934,5
519,0
0,6
0,1
0,1
Torta (usina de açúcar)

20/1
787,8
438,0
21,9
23,2
12,3
Fonte: Adaptado de Kiehl (1981 e 1985) e Oliveira et al. (2005).


7.    Referências Bibliográficas

KIEHL, E. J. Fertilizantes orgânicos. São Paulo: Agronômica Ceres, 1985. 492 p.

KIEHL, E. J. Manual de Compostagem: maturação e qualidade do composto. Piracicaba: Ed. do Autor, 1998. 171 p.

 OLIVEIRA, A. M. G.; AQUINO, A. M.; CASTRO NETO, M. T. Compostagem caseira de lixo orgânico doméstico. Cruz das Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 2005. 6 p. (Embrapa Mandioca e Fruticultura. Circular Técnica, 76).

OLIVEIRA, A. M. G.; DANTAS, J. L. L. Composto orgânico. Cruz das Almas: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 1995. 12 p. (Embrapa Mandioca e Fruticultura. Circular Técnica, 23).

TEIXEIRA, L. B. et al. Processo de compostagem a partir de lixo orgânico urbano e caroço de açaí. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2002. 8 p. (Embrapa Amazônia Oriental. Circular Técnica, 29).

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