Agricultor Familiar Transforma Monocultivo dependente de Agrotóxicos em Sistema Agroflorestal Biodiversificado e Orgânico

Family Farmer Turns monocropping dependent Pesticides in Agroforestry System biodiverse and Organic

COSTA Junior, Edgar Alves da 1; OLIVEIRA, Geraldo Xavier 2
1 UFSCAR Sorocaba, Bolsista CNPq, e dgac j @ yahoo.com.br ;
2 Autor da Experiência, aguacooperagua @ yahoo.com.br

Resumos do VIII Congresso Brasileiro de Agroecologia
– Porto Alegre/RS 25 a 28/11/2013 -


Resumo: Na região do Vale do Ribeira, perto de Sete Barras, no estado de São Paulo, foi fundada em 1997, a Associação dos Amigos e Moradores do Bairro Guapiruvú (“AGUA”), que a partir da construção da Agenda 21 local, vem estimulando os pequenos produtores da comunidade a implantar alternativas para uma agricultura sustentável. Esta associação criou uma cooperativa (AGUA-Cooperagua), visando desenvolver as atividades comerciais. A associação e cooperativa agregam, juntas, 121 famílias, na sua maioria, famílias tradicionais (comunidades “caiçaras”). O presente estudo tem por objetivo apresentar uma experiência que vem se consolidando ao longo de 12 anos na prática com Sistemas Agroflorestais, demonstrando a mudança e busca pela qualidade de vida, com menos dependência de insumos externos, otimização da mão-de-obra, a partir de um sistema que oferece diversidade e possibilidade de produtos e renda, aliado ao equilíbrio ecológico.

Palavras-Chave: Banana, Transição Agroecológica, Agricultura Familiar, Vale do Ribeira, Cooperativismo


Abstract: The Association of Friends and Residents of the Guapiruvu District ("AGUA") was founded in 1997 in Vale do Ribeira region, near Sete Barras, state of São Paulo.. In the domain of the local Agenda 21, the association has been encouraging small farmers of the community to implement alternatives for sustainable agriculture. This association has created a cooperative (AGUA-Cooperágua) in order to develop commercial activities. Combined, the association and cooperative aggregate 121 families, mostly traditional families of "native” communities. The present study presents an experience that is being consolidated for over 12 years with practices in agroforestry systems. It demonstrates changes and the search for quality of life, with less dependence on external inputs, labor optimization, based on a system that offers diversity of products and income sources, combined with ecological balance.

Keywords: Agroforestry, Pesticides, Banana, Agroecological Transition, Family Farming


Contexto
O agricultor Geraldo Xavier de Oliveira, morador do Bairro do Guapiruvú, em Sete Barras, no estado de São Paulo, juntamente com seus familiares, adquiriu uma propriedade em 1985 e a dividiram em partes iguais, ficando o agricultor com uma parcela que depois foi denominada Sítio Bela Vista. O sítio possui uma área total de oito hectares, deste total, aproximadamente três hectares são caracterizados por vegetação nativa e os cinco hectares restantes fazem parte do seu novo modelo de transição agroecológica. Na região do Bairrobdo Guapiruvú, próximo ao Parque Estadual de Intervales, produz-se muita banana a partir dos modelos convencionais, monocultivados, com constantes aplicações de adubos químicos e agrotóxicos, muitas vezes utilizando-se de pulverizações aéreas.
Os agricultores familiares estavam cansados deste tipo de sistema, que muitos deles, assim como o agricultor Geraldo, também fez parte. “Quem ganha é dominado pelo sistema capitalista, que quanto mais se produz, mais se empresta dos bancos, ou seja, compra e usa mais insumos, fazendo parte de um ciclo vicioso que será difícil de sair dele sem se Em 1997, esses agricultores formaram uma associação denominada AGUA ou (Associação dos Amigos e Moradores do Bairro Guapiruvú), que a partir da construção da Agenda 21 local está mudando a realidade do bairro e dos agricultores familiares que fazem parte deste conjunto.
A partir de 1999, após participar de um curso sobre sistemas agroflorestais, Geraldo resolveu modificar a sua forma de trabalhar com relação agricultura-meio ambiente, saindo de um sistema de monocultivo de bananeiras, mantido “a pleno sol” e submetido a freqüentes aplicações de agrotóxicos, para um sistema biodiversificado, buscando com isso, qualidade de vida e um envolvimento maior da família na produção. O presente estudo tem por objetivo apresentar uma experiência que vem se consolidando na prática com Sistemas Agroflorestais, demonstrando a mudança ou busca pela qualidade de vida, com menos dependência de insumos externos, otimização da mão-de-obra, a partir de um sistema que oferece diversidade e possibilidade de produtos e renda, aliado ao equilíbrio ecológico.


Descrição da experiência
A história do agricultor experimentador Geraldo, vem daqueles agricultores que resolveram buscar uma alternativa sustentável, empurrado pela experiência dura com a utilização de produtos químicos em sua produção. Até 1999, o agricultor conduziu sua produção de bananas em pleno monocultivo, super adensadas, para aproveitar a aplicação aérea de Óleo Mineral e Tilt, como também as aplicações constantes de adubos químicos (NPK, FTE, Bórax e etc).
Diante dos objetivos propostos pela associação, a comunidade, através de parcerias,realizou um curso sobre agrofloresta, recebendo o agricultor difusor de sistema agroflorestais, Ernest Göstch, para ministrar o curso. Neste curso, os agricultores perceberam a importância de se criar um equilíbrio no seu local de produção, o chamado equilíbrio ecológico, assim como olhar para sua pequena área e pensar num sistema para produzir diversos produtos, tanto para sua alimentação, como para comercialização do excedente, buscando com isso, geração de renda, produção de modo saudável, sem a necessidade de aplicações de adubos e, sim, da introdução de espécies que tenham essa função, bem como outras.
Geraldo plantou, de forma esparsa nos bananais, o palmiteiro jussara (Euterpe edulis) que vem sendo manejado. Existe dentro dessa área, um local com muitas matrizes e que vem sendo implantado por todo o bananal que além de proporcionar uma sombra rala para as bananeiras o agricultor pretende deixá-las crescer para que, comercialmente, seja vendido o suco da polpa, ou mesmo o palmito em conserva.
Outra espécie utilizada com tamanha importância pelo agricultor é o guapiruvú ou guapuruvú (Schizolobium parahyba), uma grande árvore da família das leguminosas, considerada pioneira de crescimento muito rápido, que forma uma copa a mais de vinte metros do chão e que deixa passar bastante luz para as bananeiras.
A madeira do guapiruvú é utilizada pelas indústrias de caixotaria e lâminas de compensados. Esta mesma planta pode ser vista atualmente, em regiões litorâneas do Estado de Santa Catarina. O mais interessante na estratégia da utilização desta planta está no seu efeito protetor, porque cria uma sombra rala, que permite a passagem da luz solar moderada e com isso, os agricultores acreditam que o efeito da Sigatoka Amarela, diminua mais que 70%. Na área do agricultor Geraldo, antes pulverizadas com TILT® e através de pulverização aérea, gerando custos e danos ambientais, são controladas atualmente com apenas 25% de óleo mineral, com bomba costal motorizada e espaçadas a cada 60 dias na proporção de 5:1 composta na maior parte por água.
Na sombra das bananeiras, ele deixa formar uma vegetação nativa espontânea, constituída principalmente por espécies medicinais, ocupando o “sub-bosque” e por espécies madeireiras nativas cujas sementes são introduzidas por ele, obtidas em sua área de mata nativa, ou no próprio viveiro da associação, ou ainda, trazidas por pássaros e pequenos mamíferos que freqüentemente visitam suas áreas.
Hoje, no bananal do Geraldo, existe em torno de 40 espécies nativas por hectare (além das espécies introduzidas com maior interesse, como a bananeira, o palmito e o guapuruvú).
Além dessas espécies, existem aquelas que são manejadas para a formação de biomassa, visando o melhoramento do solo e que são reservadas para fins madeireiros, medicinais e etc. Pequenas áreas dentro do bananal são mantidas e manejadas como “bancos de sementes” onde são preservadas matrizes de espécies florestais nativas.


Pontos fortes da experiência:
Diversidade de produtos em tempos diferentes (curto, médio e longo prazo); Maior independência financeira (sem financiamentos, dívidas com bancos e etc.); Há um maior equilíbrio de ataques de pragas e doenças, principalmente na banana; Aumento da biodiversidade (principalmente de aves e animais terrestre); Qualidade de vida e saúde (sem aplicação de agroquímicos), e conscientização ambiental; Investimento (abertura de uma poupança) para o futuro e principalmente para novas gerações; Através do sistema agroflorestal, se consegue quebrar regras da lei [por ex.: licença para comercialização de certos produtos de maneira legal (manejo)].


Pontos Fracos da experiência:
“Toma muito tempo e dá um trabalhão danado, não é como uma pessoa dizer que vai fazer tantas tarefas. Tem que observar e planejar tudo antes e quando for fazer, souber o que se deve plantar, podar...”, etc.; Retorno de uma implantação desde o início é de médio a longo prazo; O comércio (atacadista e varejista) ainda não está preparado para produtos de SAFs (querem produtos sempre em grandes quantidades e perfeitos); No caso deles (produtores de banana), há uma grande redução da produção.


Formas de comercialização e agregação de valor (cadeia produtiva)
Em 2004, os agricultores conseguiram a certificação de transição agroecológica de algumas áreas junto ao IMAFLORA e também formalizaram a COOPERAGUA, cooperativa que gerencia a comercialização dos agricultores associados. Com esta cooperativa, os agricultores compraram um caminhão, melhorando e facilitando a entrega direta dos produtos.
A comercialização, principalmente da banana, ainda é feita para intermediários. Porém, os agricultores sempre estão procurando encontrar mercados alternativos, bem como processarem alguns produtos para agregarem maior valor.


Objetivo comercial do Agricultor nos SAFs
Em curto prazo o principal objetivo é a comercialização de banana certificada. Como a associação pensa em ter uma agroindústria, os agricultores querem utilizar algumas frutas para o processamento de doces, compotas, etc.
O palmito Jussara, do qual principalmente utiliza-se a polpa na fabricação de sucos e em último caso o palmito em conserva. Em médio prazo, visa-se a comercialização de plantas medicinais e a longo prazo, o comércio de toras de madeiras de lei.


Resultados
O agricultor, desde 1999, quando ouviu pela primeira vez sobre a ideia do trabalho com sistemas agroflorestais, nunca mais deixou de buscar capacitação técnica. Para isso, o agricultor sempre procura participar de cursos, palestras sobre assuntos ligados à Agroecologia. O agricultor diz que é tão importante trocar experiências, realizar intercâmbios, que ter feito parte deste projeto para ele, é ter tido a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre SAFs e continuar acreditando que é possível a sustentabilidade na agricultura.


Localização
Bairro do Guapiruvú, município de Sete Barras, Vale do Ribeira, estado de São Paulo.


Agradecimentos
Agradeço pela oportunidade de participação no Projeto “Formação Agroflorestal em Rede na Mata Atlântica” – CONSAFs/FNMA, executado pelo PROTER – Programa da Terra Assessoria, Pesquisa e Educação Popular no Meio Rural, no Vale do Ribeira/SP

Figura 1 - Sistema Agroflorestal, demonstrando interação das árvores aliada à produção e proteção







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Parte 3 (Final)

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X Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva
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Obs.:  A parte 1  e  2 do Dôssie Abrasco - Um alerta sobre os impactos dos Agrotóxicos na Saúde, foram postados neste blog em 04/09/2012 e 13/03/2014, respectivamente
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Doenças e pragas de hortaliças em cultivos orgânicos: princípios e manejo


Autor:  Luiz Augusto Martins Peruch, engenheiro agrônomo, Dr., pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Urussanga, e-mail: lamperuch@epagri.sc.gov.br

Publicação:  O trabalho faz parte do Boletim Didático nº 88 “Produção orgânica de hortaliças no litoral sul catarinense” publicado pela Epagri. Interessados em adquirir a publicação completa e ilustrada com 205 páginas, devem entrar no site: www.epagri.sc.gov.br e acessar  os link “Publicações” e “Boletim didático”.


A agricultura “moderna” está baseada no uso intensivo de insumos. A adoção do sistema de monoculturas, o uso desequilibrado e altas doses de fertilizantes químicos e os agrotóxicos favoreceram a ocorrência de epidemias causadas por doenças e pragas em plantas. Para reduzir as perdas provocadas pelas doenças e pragas, o controle químico através da aplicação de agrotóxicos foi a principal ferramenta utilizada durante muitos anos. No entanto, a partir da publicação do livro “Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson, em 1962, os cientistas e a sociedade perceberam a necessidade de buscar alternativas para diminuir a utilização de agrotóxicos na agricultura.
Os agrotóxicos são apontados como formulações potencialmente perigosas, pois podem deixar resíduos nos alimentos, além de contaminar a água, o solo e os agricultores. Os agrotóxicos podem apresentar uma eficiência reduzida por ser afetados por inúmeros fatores (condições climáticas, especialmente no momento da aplicação e o local a ser protegido), além de selecionar populações resistentes de plantas espontâneas, pragas e microrganismos.
Um exemplo das sérias consequências à saúde humana do uso crescente e abusivo de agrotóxicos na agricultura são os casos de intoxicação e mortes registrados no Centro de Informações Toxicológicas (CIT) situado no Hospital Universitário da  Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, SC. No período de 1986 até 2007, o CIT detectou 9.933 intoxicações de agricultores e 210 mortes em Santa Catarina (Fonte: Centro de Informações..., 2008). Segundo os técnicos, esses números representam apenas uma parte da realidade. Estima-se que para cada notificação oficial ocorram pelo menos 10 casos que não são registrados. Isso se deve, em parte, pela dificuldade de diagnosticar corretamente os casos de intoxicação.
As pestes de plantas, causadas pelas diferentes classes de organismos vivos, devem ser encaradas como parte integrante de uma plantação. Todavia, cabe ao agricultor reconhecer e manejar as mais importantes na sua horta a fim de reduzir as perdas. Neste capítulo serão abordadas questões sobre a natureza das pestes –doenças e pragas de plantas, sintomas causados por elas, bem como métodos de controle aplicáveis no cultivo orgânico.

Razões do ataque das pragas e doenças
As hortaliças estão sujeitas a uma série de  doenças e pragas que causam danos às plantas. Os  microrganismos patogênicos (bactérias, fungos, nematoides e vírus) que causam doenças, quando encontram condições favoráveis, tornam-se muito ativos e as plantas, quando em condições desvantajosas, ficam sujeitas a eles. O olericultor deve procurar proporcionar condições que favoreçam as plantas, buscando, ao mesmo tempo, desfavorecer as doenças e as pragas. No caso específico das doenças é importante ter em mente que a ocorrência delas depende da exigência de um ambiente favorável (clima, solo, sistema de irrigação, etc.), de uma planta susceptível às doenças, da presença dos microrganismos e, em alguns casos, de um vetor (transmissor).
Uma das teorias mais aceitas para explicar, em parte, o ataque de pragas e doenças é a Teoria da Trofobiose desenvolvida por Francis Chauboussou (Chaboussou, 1987). A teoria baseia-se na quantidade dos tipos de substâncias presentes nos órgãos das plantas. Caso estejam presentes mais substâncias simples (aminoácidos), que são mais desejadas pelos microrganismos patogênicos e pragas, ocorre maior ataque das pestes. Por outro lado, se existirem substâncias mais complexas (proteínas), as pestes causarão menos danos. Vários são os fatores relacionados com o tipo de substância predominante: adubações com nutrientes altamente solúveis, clima, estádio de desenvolvimento da planta, aplicações de agrotóxicos e estimuladores de crescimento.
A deficiência ou excesso de um nutriente influencia significativamente a atividade dos outros elementos e o metabolismo da planta. Adubações desequilibradas deixam as plantas mais susceptíveis a pragas e doenças. Excesso de  nitrogênio ou carência de  potássio e  cálcio diminuem a resistência da parede celular, facilitando a penetração dos microrganismos e o ataque de pragas.

Formas de manejar as doenças e pragas de forma integrada

O manejo eficiente das doenças e pragas é baseado em dois princípios fundamentais:
É impossível controlar totalmente as pestes; por isso, o que se recomenda é manejar a cultura de forma a reduzir ao mínimo os danos causados.
O manejo integrado é um conjunto de medidas que incluem determinadas práticas culturais e, em certos casos, o controle alternativo (somente aqueles produtos permitidos na agricultura orgânica) para  evitar danos econômicos às culturas.
No manejo integrado de pestes, a manipulação das condições ambientais, adubações equilibradas, plantas resistentes e tratos culturais são alternativas ao controle químico convencional. A seguir, são discutidas formas de controle para pestes da parte aérea e do solo que podem ser usadas na agricultura orgânica.

Pragas e doenças  radiculares
As doenças e pragas  radiculares causadas por microrganismos patogênicos e insetos-pragas podem ser facilmente reconhecidas pelo fato de provocar os seguintes sintomas: amarelecimento, murcha, galhas, podridões de colo, de semente e de raiz, entre outras. Dificilmente são observadas em cultivos orgânicos de hortaliças, mas, se ocorrerem, podem ser manejadas com as práticas relacionadas a seguir.
Rotação de culturas: Esta é considerada a prática mais antiga no manejo de doenças e de pragas e continua sendo uma das mais eficientes entre os métodos culturais de controle. Os princípios de controle envolvido na rotação de culturas são:  redução ou destruição do meio que serve para multiplicação do  microrganismos patogênicos; e a melhoria das condições físicas, químicas e biológicas do solo.
No caso da horticultura orgânica, este método é normalmente usado e mantém as pestes do solo sob controle. Contudo, em áreas pequenas se faz somente a rotação de canteiros em períodos muito curtos, nem sempre dando tempo suficiente para eliminação das pestes. Nesses casos, deve-se aumentar o período de rotação plantando gramíneas, como aveia-preta ou milho.
Preparo do solo: Em casos de ataques anteriores e frequentes de doenças e pragas deve-se adotar o preparo adequado do solo para instalação da cultura como medida preventiva. Deve-se revolver muito bem o solo através de uma aração profunda, deixando-o exposto ao sol por uns dias. Repetir essa operação duas a três vezes e só depois realizar a gradagem. Essa prática destrói os micróbios por deixá-los expostos à radiação solar. Essa é uma prática válida para os fungos, bactérias e nematóides que atacam as hortaliças. Um bom preparo do solo pode reduzir o ataque de pragas, como a lagarta rosca e paquinhas, em várias hortaliças. Isso se deve ao fato de que esses insetos fazem ninhos no solo e o seu revolvimento mata a praga e destrói os seus ovos. Um bom preparo do solo no cultivo da batata e uma amontoa adequada terra (amontoa) evitam ataques de larvas-alfinete que perfuram os tubérculos.
Profundidade de plantio: A maior profundidade de plantio das sementes pode afetar negativamente algumas plantas. Apesar de favorecer o processo de germinação, o plantio profundo de sementes aumenta a suscetibilidade das plântulas.
Destruição dos restos culturais: Deve-se sempre, antes de iniciar o preparo do solo, retirar da lavoura os restos do cultivo anterior (ramos, folhas e frutos) e fazer compostagem com eles para evitar possíveis focos de doenças, especialmente se foram verificados focos de plantas murchas ou amarelecidas. Além desse tratamento dos restos culturais, recomenda-se destruir plantas que apresentam esses sintomas durante o cultivo. Essa é uma prática válida, especialmente para as espécies das famílias botânicas das solanáceas, cucurbitáceas e brássicas, que apresentam maior incidência de doenças e pragas.
Irrigação: Em algumas situações a irrigação pode ser benéfica para a planta e ruim para o  microrganismo patogênico, criando condições de menor estresse para a primeira e destruindo as estruturas do segundo. Contudo, quando em excesso, pode beneficiar o  microrganismo patogênico por incentivar alguma de suas fases de desenvolvimento, sendo maléfica para o hospedeiro. Em lavouras de tomate e pimentão deve-se evitar regar à tarde para que a superfície do solo esteja enxuta durante a noite. A água de irrigação, tanto na sementeira como no plantio definitivo, deve ser de boa qualidade e não contaminada por solo infestado microrganismos patogênicos ou por restos de culturas doentes. Ocorrendo doenças bacterianas (murchadeira e canela preta), é recomendável a suspensão da irrigação e também a retirada das plantas doentes. Muitas vezes, importantes doenças e pragas parte aérea são beneficiadas pela aspersão. O gotejamento é o mais favorável no aspecto de manejo de doenças. Para o manejo de pulgões e trips que atacam várias hortaliças, muitas vezes uma chuva ou mesmo uma irrigação por aspersão pode reduzir a infestação dessas pragas. Assim, o produtor deve reconhecer qual problema  é o  mais importante para adotar o sistema de irrigação que trará mais benefícios para o cultivo.
Cobertura morta e adição de matéria orgânica ao solo: Além dos efeitos favoráveis em relação à diminuição da erosão, manutenção da umidade do solo e outros, a cobertura do solo também pode influir na sobrevivência e disseminação dos microrganismos patogênicos e insetos-pragas. A cobertura do solo proporciona condições físicas, químicas e biológicas mais equilibradas, favorecendo o hospedeiro e os microrganismos benéficos do solo, reduzindo, assim, a incidência das doenças radiculares. Reduções das perdas de umidade, maior infiltração e absorção de água, menores temperaturas do solo e proteção contra o efeito do impacto das gotas de chuva são alguns dos outros efeitos positivos da cobertura de solo. A disseminação dos propágulos de microrganismos patogênicos também pode ser dificultada quando há cobertura do solo devida à redução do poder de respingo. Dessa maneira, esporos de fungos e células bacterianas não são depositados na parte aérea das plantas. A incorporação de material orgânico fornece energia e nutrientes ao solo, alterando drasticamente as condições ambientais para o crescimento e a sobrevivência das plantas e microrganismos. Essa prática também influencia o desenvolvimento das doenças de plantas, diminuindo ou aumentando a sua intensidade. Quando ocorre uma redução da doença, normalmente, estão envolvidas algumas das seguintes alterações: aumento das populações de microrganismos  benéficos que influenciam o desenvolvimento ou sobrevivência dos microrganismos patogênicos , alterações das propriedades físico-químicas dos solos e produção de substâncias tóxicas.
Na Figura 1 há uma representação de dois solos manejados de forma convencional e orgânica. O solo manejado organicamente tem mais vida, ou seja, uma grande quantidade de macro e microrganismos benéficos que impedem ou limitam o desenvolvimento das pragas e doenças.


 Figura 1. Representação de um solo manejado no sistema convencional (esquerda) e orgânico (direita)   
Fonte: Chaboussou (1995).


Doenças e pragas da parte aérea
As doenças e pragas da parte aérea são causadas por microrganismos patogênicos e insetos-pragas que causam os seguintes sintomas: manchas foliares, ferrugens, cancros, mosaicos, distorções das folhas, perfurações e morte de ramos e galhos.
Destruição dos restos culturais:  Com o advento da agricultura moderna, várias antigas práticas de controle de doenças caíram em desuso em face de praticidade e economicidade do controle químico. Práticas como a destruição de restos culturais são raramente executadas em várias culturas. Na cultura da cebola, por exemplo, a destruição dos restos culturais doentes por meio da compostagem pode reduzir a queima das pontas em até 50%. O enterrio fora da lavoura de folhas doentes de repolho, couve-flor e brócolis também contribui para manejar algumas de suas doenças mais importantes, pois na superfície do solo os microrganismos patogênicos  podem sobreviver por 2 meses ou mais. Outra opção é fazer a compostagem utilizando os restos vegetais dessas culturas.
Nutrição equilibrada: A adubação correta, com base em análise de solo, é fundamental, pois as plantas bem nutridas possuem maior resistência às doenças. O excesso de nitrogênio resulta na produção de tecidos jovens e suculentos, atrasando a maturidade da planta. Por outro lado, plantas mal supridas com esse elemento têm um fraco crescimento e amadurecimento precoce dos tecidos. Em ambos os casos a planta se torna mais susceptível ao ataque de doenças. Assim como o nitrogênio, o fósforo apresenta respostas variadas em relação às suas adubações e à severidade das doenças. Adubos fosforados solúveis, por exemplo, reduzem a severidade da sarna da batata, mas podem aumentar as perdas causadas por viroses em espinafre. Em relação ao potássio, geralmente, tem-se demonstrado seu efeito benéfico na redução da severidade de inúmeras doenças. Todavia, o excesso dele causa desequilíbrio nutricional e aumenta a severidade de outras doenças. O potássio atua diretamente em vários estágios do relacionamento microrganismos patogênicos  com a planta. O cálcio, por sua vez, está normalmente relacionado ao controle de doenças. A sarna da batata é um exemplo de doenças favorecidas por altos níveis de cálcio. Tratamentos no campo e na pós-colheita com compostos à base de cálcio são utilizados em diversas culturas por causa dos efeitos favoráveis na fisiologia dos frutos e na redução das perdas pós-colheita provocadas por doenças.
Densidade de plantas: Geralmente, quanto maior a densidade de plantas, maior a severidade da doença em virtude da maior proximidade das plantas, microferimentos causados por ocasião dos tratos culturais e alterações nas condições climáticas, aumentando a umidade próxima às folhas. Em plantios mais adensados existe a possibilidade de transmissão do microrganismos patogênicos devido aos microferimentos causados pelo contato de partes da planta.
Práticas culturais: Algumas práticas inadequadas podem favorecer o desenvolvimento de algumas doenças. A amontoa em pimentão e pepino não deve ser feita para evitar uma das principais doenças que ocorre na região do colo da planta. As desbrotas e capações realizadas no tomateiro devem ser feitas a mão, arrancando-se a parte a eliminar, sem esmagamento, para que a mão não fique  contaminada pelo suco da planta, que pode transportar  microrganismos patogênicos de uma planta para outra.
Época de plantio: A maior ou menor susceptibilidade das plantas em relação às doenças pode variar conforme a época de plantio. Em função disso, pode-se alterar a data de plantio de uma determinada cultura para fugir da época mais favorável ao desenvolvimento de doenças e pragas, assim como de seus vetores. O cultivo do tomateiro no outono, por exemplo, é considerado problemático nas regiões litorâneas de Santa Catarina em razão do ataque de vaquinhas, trips, vírus do vira-cabeça e da requeima. Já o cultivo de primavera é mais favorável para o tomateiro devido à menor ocorrência de doenças e pragas.
Material de propagação sadio e cultivares resistentes: A escolha de um material de propagação sadio é fundamental para o sucesso de uma cultura. Sendo assim, é importante, sempre que possível, utilizar cultivares resistentes ou materiais propagativos livres de pragas e doenças.
A seguir, são citados alguns exemplos de cultivares resistentes às doenças. O tomate do tipo cerejinha e do tipo italiano são considerados mais resistentes às pragas e doenças que os tomates de mesa tipo Santa Cruz e tipo Salada. No caso do repolho, os híbridos Fuyutoyo e Emblem são considerados resistentes à doença podridão-negra. O híbrido de couve-flor Júlia F1 é resistente à alternariose das brássicas.  Os cultivares de batata Epagri 361 Catucha e SCS365 Cota são resistentes à requeima e à pinta preta. Para prevenir viroses em alface, devem ser plantados os cultivares Regina, Verônica e Vera. O cultivar de batata-doce Princesa é resistente ao “mal-do-pé”, enquanto a Brazlândia Roxa é tolerante aos insetos que causam perfurações nas raízes. O cultivar de vagem Preferido é tolerante à ferrugem e à antracnose, e o Favorito tolera a ferrugem e o oídio. Por fim, as cenouras do grupo Brasília são resistentes ao sapeco. A outra opção, não menos importante, é o plantio de materiais sadios. Os microrganismos patogênicos  são transmitidos por sementes e outros materiais de propagação. O plantio de ramas de batata-doce sadias é uma opção para evitar a doença “mal do pé”, por exemplo.                                                                   Pulverização de fungicidas e inseticidas: Substâncias alternativas aos agrotóxicos que são permitidos na agricultura orgânica (calda bordalesa, calda sulfocálica, biofertilizantes, extratos vegetais e agentes de controle biológicos) devem ser utilizados somente quando necessário e de forma criteriosa, evitando-se o uso sistemático na forma de calendário. O inseticida biológico à base de Bacillus thurigiensis, conhecido comercialmente como Dipel, pode ser usado para manejar, especialmente, lagartas e traças que atacam as brássicas, bem como traças  e brocas do tomateiro e ainda as brocas das cucurbitáceas.


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Biodiversidade: Princípio básico para uma agricultura mais sustentável


     Um dos princípios para termos uma agricultura mais sustentável, através do sistema de produção orgânico, é a preservação e ampliação da biodiversidade ou diversidade biológica. Para o sucesso da agricultura orgânica deve-se procurar emitar, dentro do possível, o que ocorre numa floresta (Figura 1), onde todos os seres vivos estão em perfeito equilíbrio. As razões principais que justificam a preocupação com a conservação e ampliação da biodiversidade são: a) A biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da natureza, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas; b) A terra funciona como uma máquina complexa, onde cada espécie (simples micróbio ao ser humano) desempenha a sua parte para manter o planeta funcionando, normalmente. Se algumas destas partes desaparecerem, a máquina (terra) não conseguirá funcionar, normalmente e c) A biodiversidade representa um imenso potencial de uso econômico. A má notícia é que a biodiversidade está reduzindo drasticamente em função do aumento da taxa de extinção de espécies, graças ao impacto causado pelas atividades antrópicas, ou seja, aquelas desenvolvidas pelo homem.



Figura 1. Para termos uma agricultura mais sustentável, devemos imitar o que ocorre numa floresta que é rica em biodiversidade e todos os seres vivos estão em equilíbrio




Mas afinal, o que é biodiversidade? É a variedade e a variabilidade existente entre os organismos vivos e as complexidades ecológicas nas quais elas ocorrem. Pode ser entendida como uma associação de vários componentes hierárquicos tais como: ecossistema, comunidade, espécies, populações e genes em uma área definida. Em outras palavras, diversidade biológica ou biodiversidade, refere-se à variedade de vida, a variedade de espécies da flora, da fauna e de microrganismos, a variedade de funções ecológicas desempenhadas pelos organismos nos ecossistemas e a variedade de comunidades, hábitats e ecossistemas formados pelos organismos. A biodiversidade (bio=vida; diversidade= diferentes formas, diferentes tipos) varia com as diferentes regiões ecológicas, sendo maior nas regiões tropicais do que nos climas temperados. Biodiversidade refere-se tanto ao número (riqueza) de diferentes categorias biológicas quanto à abundância relativa (igualdade) dessas categorias, ou seja, o padrão de distribuição de indivíduos entre as espécies, deve ser proporcional à diversidade. A diversidade biológica possui, além de seu valor intrínseco, valor ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético. Com tamanha importância, é preciso evitar a perda da biodiversidade.



Impactos sobre a biodiversidade
      
     Os ambientalistas do mundo inteiro vêm alertando para a perda da diversidade biológica em todo o mundo e, particularmente nas regiões tropicais. A perda da biodiversidade que está afetando o planeta é causada, principalmente pelo homem e agravada pelo crescimento explosivo da população e distribuição desigual da riqueza. A intervenção humana em hábitats que eram estáveis aumentou significativamente, gerando perdas maiores de biodiversidade devido à destruição das florestas (Figura 2), a prática intensiva da agropecuária, através da exploração excessiva de espécies de plantas e animais, uso de híbridos, monoculturas (Figura 3), contaminação do solo, água e atmosfera por poluentes (agrotóxicos, adubos químicos, resíduos de indústrias e esgotos domésticos), introdução de espécies e doenças exóticas, a construção de barragens, a crescente urbanização, mudanças climáticas, além de outras atividades desenvolvidas pelo homem.
Figura 2. Devastação de florestas: além de causar a erosão do solo, reduz a biodiversidade, responsável pelo equilíbrio ecológico 


Figura 3. A monocultura, especialmente as extensas lavouras de soja,  reduz a biodiversidade e, em consequência, favorece o aumento de pragas, doenças e plantas espontâneas nos cultivos,  demandando maior uso de agrotóxicos e, em consequência, a extinção dos inimigos naturais dos insetos pragas


Mas porque é tão importante preservar e ampliar a biodiversidade? A restituição da biodiversidade vegetal permite o restabelecimento de inúmeras interações entre o solo, as plantas e os animais, resultando em efeitos benéficos para o agroecossistema. Entre estes efeitos pode-se citar: maior variedade na dieta alimentar e mais produtos para o mercado; uso eficaz e conservação do solo e da água, através da proteção com cobertura vegetal contínua, manejo da matéria orgânica e implantação de quebra ventos; otimização na utilização de recursos locais e controle biológico natural. A biodiversidade é o passado, presente e o futuro da humanidade.

Entre os motivos, mundialmente aceitos, para preservar e ampliar a biodiversidade, são citados:

- Motivos éticos, pois o ser humano tem o dever moral de proteger outras formas de vida, já que é espécie dominante no planeta;

- Motivos estéticos, uma vez que as pessoas apreciam a natureza e gostam de ver animais e plantas no seu estado selvagem;

- Motivos económicos; a diminuição de espécies pode prejudicar atividades já existentes (pesca de espécies com elevado valor comercial) e ainda comprometer a sua utilização futura como, por exemplo, a produção de medicamentos. È importante destacar que pelo menos 40% da economia mundial e 80% das necessidades dos povos, dependem dos recursos biológicos;

- Motivos funcionais da natureza, tendo em vista que a redução da biodiversidade leva a perdas ambientais. Isto acontece porque as espécies estão interligadas por mecanismos naturais com importantes funções (ecossistemas), tais como: a regulação do clima, purificação do ar, proteção dos solos e das bacias hidrográficas contra a erosão, controle de pragas e doenças, além de outras.

     Para saber mais sobre a importância da preservação da biodiversidade para o planeta, sugere-se acessar o link: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1230435



Agrobiodiversidade
     A biodiversidade é mais conhecida e possui um significado mais amplo, pois se refere às diferentes formas de vida existentes na natureza (mares, florestas, rios, solo e agricultura). Já a palavra agrobiodiversidade  (agro= agricultura) é pouco conhecida, embora seu uso venha aumentando devido à substituição das espécies e variedades crioulas por variedades e híbridos comercializados pelas empresas produtoras de sementes. A palavra agrobiodiversdade é mais específica e refere-se ao conjunto de seres vivos domesticados e usados na agricultura. O início do processo de domesticação das plantas é considerado como o início da atividade agrícola. Estima-se que isto tenha ocorrido há mais ou menos 10.000 anos. Pode-se dizer que as plantas e animais que hoje cultivamos e criamos, são frutos de um processo de domesticação e seleção, realizados por agricultores através das gerações, em diferentes partes do mundo. Ou seja a agrobiodiversidade é o resultado de um processo milenar de interação entre a natureza e o ser humano através da agricultura.

Manejo da agrobiodiversidade visando a produção sustentável de alimentos
     A biodiversidade é a base das atividades agrícolas, pecuárias, pesqueiras e florestais. A monocultura representa um dos maiores problemas do modelo agrícola praticado atualmente, pois não existindo diversificação de espécies numa determinada área, as pragas, doenças e plantas espontâneas ocorrem de forma mais intensa sobre o cultivo, tornando o sistema de produção mais instável e mais sujeito às adversidades. O equilíbrio biológico das propriedades, bem como o equilíbrio ambiental e o equilíbrio econômico, não podem ser mantidos com as monoculturas. Sistemas de produção diversificados são mais estáveis porque dificultam a multiplicação excessiva de determinadas pragas e doenças, permitindo um melhor equilíbrio no sistema, através da multiplicação de inimigos naturais e outros organismos benéficos e até repelência dos insetos pragas dos cultivos. Para o sucesso da produção orgânica, é fundamental  em primeiro lugar, diversificar a paisagem geral da propriedade, com o objetivo de restabelecer a cadeia alimentar entre todos os seres vivos, desde microrganismos até animais maiores. Para isso, é importante compor uma diversidade de espécies vegetais, de interesse comercial ou não, recomendando-se que se opte por espécies locais, adaptadas às condições edafo-climáticas da região.
    Mas como preservar e até ampliar a biodiversidade e ainda obter renda sem prejudicar o meio ambiente?   Várias práticas já eram adotadas na agricultura tradicional  e que foram parcialmente esquecidas com a chamada “modernização”. É preciso, urgentemente, resgatá-las sob pena de comprometer a vida no planeta, especialmente para as futuras gerações. Dentre estas práticas destacam-se:

Cordões de contorno ou cercas vivas: São faixas de vegetação que circundam a propriedade, permitindo isolamento das áreas de cultivo convencional em propriedades vizinhas. Também podem servir para divisão de áreas de cultivo (talhões) dentro da propriedade, especialmente com hortaliças,  com o objetivo de  auxiliar na implantação de esquemas de rotação de culturas e facilitar o gerenciamento da mesma e reduzir as necessidades de transporte e mão-de-obra, bem como reduzir os custos da atividade. Os cordões de contorno funciona como barreira fitossanitária, dificultando a livre circulação de pragas e doenças entre as propriedades vizinhas e entre os talhões, além de criar microclimas mais favoráveis aos cultivos e, ainda, formar áreas de refúgio e abrigo para inimigos naturais de pragas. Os cordões, que podem ser formados por uma ou várias espécies (capins, leucena, adubos verdes e até plantas de interesse econômico) incluindo a  própria vegetação natural (“mato” ou “inços”),  servem como quebra ventos,  (associando-se plantas altas com extratos mais baixos com plantas arbustivas e herbáceas), fontes de biomassa, reciclam nutrientes, reduzem a erosão e, ainda como abrigo e alimento dos inimigos naturais das pragas e também podem atrair e repelir os insetos pragas. Dentre as espécies de interesse econômico, podem ser citados, os cultivos de banana, mamão e outras espécies frutíferas, café, palmito, plantas melíferas, condimentares, medicinais e ornamentais (buganville, grevilia) ou uma combinação dessas espécies.  

Cultivo em faixas: Em sistemas orgânicos de produção, a vegetação local é muito importante para o equilíbrio ecológico dos insetos, por isso, deve ser manejada adequadamente, através das capinas em faixas desde o início do ciclo cultural (evitando-se as plantas espontâneas na linha de cultivo) e deixando-as nas entrelinhas dos cultivos comerciais de maior espaçamento. No caso de canteiros, deve-se retirar as plantas espontâneas no leito do canteiro e deixá-las entre os canteiros, mantendo-se corredores de refúgio próximo à área cultivada. Sempre que necessário, deve-se roçar as plantas espontâneas.  

Uso e manutenção de variedades crioulas: Variedades crioulas são variedades com variabilidade genética, rústicas, cultivadas e melhoradas ao longo do tempo e, conservadas pelos agricultores de geração em geração. Ao serem selecionadas as sementes vão se adaptando às mudanças climáticas com o tempo e, por isso, garantem maior estabilidade, ou seja, mesmo em condições desfavoráveis, ainda assim haverá alguma produção. Com a “modernização” da agricultura as variedades crioulas foram sendo substituídas por variedades industriais e, especialmente híbridos e, mais recentemente, transgênicos, causando a dependência dos agricultores, a perda da agrobiodiversidade e, o que é pior, aumentando o risco para a saúde das atuais e futuras gerações (ex.: sementes transgênicas). Além disso, a perda ou erosão genética, poderá ter outras consequências caso surja novas pragas e doenças nos cultivos, podendo resultar em perdas totais das lavouras.


Rotação de culturas:  A rotação de culturas é uma prática milenar que permite explorar os nutrientes do solo de maneira mais racional, evitando o seu esgotamento. Por isso, deve-se alternar culturas de famílias botânicas diferentes (espécies da mesma família possuem as mesmas pragas e doenças) mais exigentes com culturas menos exigentes em nutrientes (rústicas) e, que exploram profundidades diferentes do solo através das diferenças do sistema radicular. Além disso, a rotação de culturas evita a proliferação e acúmulo de doenças e pragas ao longo dos anos.  Esta prática é muito importante, especialmente para as hortaliças, pois algumas espécies das famílias das solanáceas (tomate, batata, pimentão e berinjela) , das cucurbitáceas (pepino, moranga, abóbora, melão e melancia) e das brássicas (repolho, couve-flor, brócolis e couve) são muito atacadas por pragas e doenças. Para maiores informações sobre rotação e sucessão de culturas, sugere-se ver a matéria postada neste blog, em 03/01/2011.

Cultivos consorciados: O consórcio caracteriza-se pelo plantio simultâneo de duas ou mais culturas na mesma área (ex.: milho, feijão e abóboras).  Também é importante no cultivo de hortaliças, pois abrange aspectos tanto ambientais quanto econômicos. A consorciação permite otimizar a produção pelo melhor aproveitamento da área explorando a combinação de espécies eficientes na utilização dos recursos de produção como espaço, nutrientes, água e luz e, maximizando seus lucros com melhor aproveitamento também dos insumos e da mão-de-obra. O consórcio pode ser utilizado somente com culturas de interesse econômico ou então com  cultivos que tragam retorno econômico associadas à espécies com função importante, tais como atração de inimigos naturais ou repelência aos insetos pragas ou ainda como melhoradora do solo (leguminosas). Um exemplo de consórcio bem sucedido é o caso do tomateiro com coentro, pois esta última espécie tem ação repelente às pragas que perfuram os frutos de tomate e ainda atrai a joaninha,  inimigo natural dos pulgões. Outro exemplo de consórcio bem sucedido é o plantio de milho visando a produção de espigas ainda verdes com a mucuna, sendo que esta última tem a função de melhorar o solo, reciclando nutrientes e promovendo a cobertura do mesmo e, ainda tem ação nematicida.  Para maiores informações sobre consorciação de culturas, sugere-se ver a matéria postada neste blog em 03/01/2011.

Adubação verde (“coquetel” e consórcio com os cultivos): O “coquetel” consiste no cultivo consorciado de diferentes espécies de adubos verdes que, de maneira geral, apresentam portes e hábitos de crescimento distintos e são cultivados em rotação e em consórcio com as culturas econômicas. Sempre que possível, sugere-se o consórcio de leguminosas (ex.: ervilhaca, feijão-de-porco e mucuna) e gramíneas (ex.: aveia, milho) e outras como o nabo forrageiro. Esta estratégia permite que as gramíneas que possuem decomposição mais lenta, forneçam uma cobertura residual mais estável, desfavorecendo as plantas espontâneas, enquanto que as leguminosas contribuem com um aporte maior de N e decomposição mais rápida. Por outro lado o nabo forrageiro, devido ao sistema radicular pivotante, contribui com uma melhor descompactação do solo. A combinação de mais de uma espécie de adubo verde pode trazer outros benefícios para o cultivo das culturas, tais como:

. Exploração de camadas diferenciadas do solo pelas raízes, melhorando a estrutura do solo e acumulando diferentes nutrientes;

. Velocidade distinta de decomposição dos resíduos com impacto na proteção do solo, manejo de plantas espontâneas e liberação de nutrientes;

. Aumento da diversidade biológica, tão importante para o equilíbrio ecológico, proporcionando impacto sobre a população de insetos benéficos pela oferta variada de abrigo, de néctar e de pólen.

     Para maiores informações sobre adubação verde, sugere-se ver as matérias postadas neste blog (Adubação verde:  Importância na proteção e fertilidade do solo e no manejo de plantas espontâneas, doenças e pragas; Adubação verde:  Manejo e importância na produção orgânica de hortaliças), em 26/10 e 13/11/2013, respectivamente.

Vegetação espontânea: Quanto maior o número de espécies de plantas espontâneas (“mato” ou “inços”) tanto melhor, por isso, deve-se estimular o máximo possível a emergência e crescimento destas plantas, pois além de servir como abrigo e alimento de vários inimigos das pragas dos cultivos, ainda cobrem o solo evitando a erosão e, ainda reciclam nutrientes para as plantas cultivadas. O manejo das plantas espontâneas (“mato” ou “inços”) pode ser feito de três formas: a) manutenção de áreas de refúgio fora da área cultivada. São áreas de vegetação para preservação e atração de inimigos naturais de pragas e pequenos predadores que auxiliam no controle de pragas; b) Cultivo de plantas de interesse comercial com faixas de vegetação espontânea (corredores de refúgio); c) pousio da área no sentido de estimular a diversidade de espécies de plantas espontâneas e a revitalização do solo. Como o próprio nome sugere, são áreas que garantem o “descanso” do solo, após cultivo intensivo, para reconstituir e conservar suas propriedades químicas, físicas e biológicas e d) Para cultivos de maior espaçamento é possível o consórcio com as plantas espontâneas nas entrelinhas, roçando-as quando necessário e, dessa forma aumentando a matéria orgânica deste solo.

Plantio direto e cultivo mínimo: Além de reduzir a erosão, aumentar a infiltração de água no solo e reduzir o escorrimento superficial e a evaporação de água, diminuir o surgimento das plantas espontâneas e reduzir a temperatura do solo nas horas mais quentes, estas práticas aumentam os teores de matéria orgânica, e, em consequência melhoram a vida no solo, favorecendo a diversidade dos organismos benéficos para os cultivos. 

Adição de matéria orgânica (composto orgânico, resíduos de cultivos, esterco de animais, biomassa): O solo é um meio vivo e dinâmico, constituindo o habitat de biodiversidade abundante; uma grama de solo em boas condições pode conter 600 milhões de bactérias pertencentes a 15.000 ou 20.000 espécies diferentes.. A atividade biológica que é dependente da quantidade de matéria orgânica presente no solo, elimina agentes patogénicos, decompõe a matéria orgânica e outros poluentes em componentes mais simples (frequentemente menos nocivos) e, ainda contribui para a manutenção das propriedades físicas e bioquímicas necessárias para a fertilidade e estrutura dos solos. A matéria orgânica que é a parte do solo que já foi ou ainda é viva, é constituída  principalmente de resíduos de origem vegetal ou animal, tais como estercos, restos de cultivos, vegetação natural, folhas e cascas de árvores, palhadas, raízes de plantas e, especialmente de composto orgânico (camadas intercaladas de vegetais com estercos de animais, constitui-se na maneira mais eficiente e de melhor qualidade para adicionar matéria orgânica ao solo). É a matéria orgânica que dá a cor escura aos solos e que garante que ele se mantenha “vivo”. Em solo muito claro, aparentemente sem vida, “fraco”, é provável que o teor de matéria orgânica seja muito baixo. A decomposição (processo de quebra, feita por microrganismos) da matéria orgânica nas condições do clima predominante no Brasil (tropical e subtropical), associado ao preparo intensivo do solo (revolvimento intenso) , faz com que seja muito rápida e fácil o processo de decomposição. Por isso, para manter o solo produtivo ao longo do tempo é necessário que se adicione ou se reponha a matéria orgânica com certa frequência, ou seja, a cada cultivo deve-se adicioná-la ao solo. Além de aumentar a disponibilidade de nutrientes para as culturas, a matéria orgânica melhora a estrutura do solo, tornando-o mais  leve e solto, aumenta  a capacidade de retenção e infiltração de água no solo e, ainda atua como fonte de alimento para os microrganismos decompositores e aumenta a população de minhocas, besouros, fungos, bactérias e outros organismos benéficos para a manutenção da vida no solo.


Leia Mais

Manejo de plantas espontâneas no sistema de produção orgânica de hortaliças



    

Circular Técnica, 62 - Embrapa Hortaliças
Brasília, DFJulho, 2008

Autores

Welington Pereira -  Eng. Agr., PhD, Embrapa Café Brasília-DF


Werito Fernandes de Melo -  Eng. Agr., MSc,.Embrapa Hortaliças Brasília-DF



     Plantas invasoras ou ervas daninhas são termos que têm sido muito empregados na literatura agrícola e botânica brasileira, gerando confusões e controvérsias a respeito de seus conceitos. Em um conceito amplo, planta daninha refere-se a “toda e qualquer planta que ocorre onde não é desejada”. Esta definição ampla inclui as soqueiras ou plantas voluntárias de certas culturas, como por exemplo, batata e batata-doce que crescem em outras culturas implantadas em sucessão. Em termos agrícolas, planta daninha pode ser conceituada como “toda e qualquer planta que germine espontaneamente em áreas de interesse humano e que, de alguma forma, interfere prejudicialmente nas suas atividades agropecuárias”.

     Em termos agroecológicos, plantas ou ervas espontâneas e plantas invasoras são as espécies de plantas que se originam na área de cultivo, podendo ser espécies nativas ou exóticas já estabelecidas. As espécies nativas referem-se àquelas que se  apresentam naturalmente na região, originárias da própria área, ao passo que espécies exóticas são as espécies introduzidas na região, que não são nativas ou originárias da própria área. A Instrução Normativa nº 007 do MAPA, de 17 de maio de 1999, adota, entre outras normas disciplinares para a produção vegetal orgânica, o termo plantas invasoras, sendo, entretanto, muito comum o uso do termo plantas espontâneas nos sistemas de produção orgânica.

     Uma das diferenças fundamentais do sistema orgânico em relação ao convencional é a promoção da agrobiodiversidade e da manutenção dos ciclos biológicos na unidade produtiva, procurando a sustentabilidade econômica, social e ambiental da unidade, no tempo e no espaço. Neste contexto, a flora presente assume grande importância quando as espécies da comunidade atuam como protetoras do solo, como hospedeiras alternativas de inimigos naturais, pragas, patógenos ou como mobilizadoras ou cicladoras de nutrientes, competição por água, etc. (Figura 1).

                                Foto: Gilmar Henz

Fig. 1. A manutenção da biodiversidade é muito importante na agricultura orgânica.


     O uso do termo “plantas daninhas” (Figura 2) não é apropriado para a agricultura orgânica, pois leva em conta apenas os efeitos negativos que elas causam sobre a produção agrícola, ignorando os seus efeitos positivos. É muito importante considerar a maneira pela qual as plantas interagem com seus vizinhos no agroecossistema, uma vez que há vários tipos, maneiras e graus de intensidade da interação entre elas. Assim, tem-se a protocooperação como o tipo positivo de interação ou associação, onde os dois parceiros são estimulados quando estão próximos o bastante para participar na interação. A associação de insetos benéficos com as plantas invasoras e as culturas representa provavelmente o exemplo mais conhecido de protocooperação na agricultura. Por outro lado, as plantas cultivadas e silvestres são hospedeiras de grande número de pragas e patógenos, servindo também de abrigo e fonte de alimento para os insetos benéficos. É importante observar que o conceito de planta daninhas é relativo, pois muitas delas podem trazer vantagens ao homem pelo enriquecimento da fauna benéfica, apesar de danificarem a produtividade biológica em determinadas fases dos cultivos.

                                Foto: Gilmar Henz

 Fig. 2. Em agricultura orgãnica, o uso do termo “plantas daninhas” não é apropriado.

  
     O crescimento das plantas espontâneas ao redor das hortaliças ou o estabelecimento de áreas ou faixas de vegetação espontânea, fora da área cultivada comercialmente, tem a vantagem de preservar ao máximo os aspectos naturais estabelecidos pelo ecossistema local.
     Na divisão dos talhões de cultivo, deve-se deixar as faixas de vegetação espontânea, também chamadas de corredores de refúgio (Figura 3), de 2 a 4 m de largura, para abrigar a fauna local benéfica. Em complemento, deve-se realizar o manejo da vegetação espontânea por meio de capinas em faixas para as culturas com maiores espaçamentos nas entrelinhas e a manutenção da vegetação entre os canteiros. Estas técnicas têm a vantagem de promover uma maior estabilidade do sistema produtivo, reduzindo normalmente os problemas com pragas e doenças. Sistemas diversificados podem diminuir a incidência de pragas e aumentar a atividade de inimigos naturais. Entre outras vantagens, a vegetação espontânea pode colaborar para a ciclagem de nutrientes de fácil mobilidade e, por cobrir o solo, pode protegê-lo contra a erosão.

                               Foto: Gilmar Henz
Fig. 3. Faixas de vegetação são importantes em agricultura orgânica como corredores de refúgio.


     Algumas plantas espontâneas podem ser indicadoras de solo pobre ou com  desequilíbrio de nutrientes (Tabela 1).

Tabela 1. Plantas espontâneas indicadoras de solos pobres ou com desequilibrio de
                 nutrientes.

Planta Espontânea
Características Indicadoras
Amendoim bravo ou leiteiro                        (Euphorbia heterophylla)
Desequilíbrio entre nitrogênio (N) e micronutrientes, sobretudo molibdênio (Mo) e cobre (Cu)
Azedinha (Oxalis oxyptera)
Solo argiloso, pH baixo, falta de cálcio (Ca), falta de molibdênio
Barba de bode (Aristilla pallens)
Terra de queimadas, pobre em fósforo (P), cálcio e potássio (K), solos com pouca água
Cabelo de porco (Carex spp.)
Pouco cálcio
Capim amargoso ou capim açu                     (Digitaria insularis)
Solos de baixa fertilidade
Capim caninha ou capim colorado
(Andropogon incanis)
Solos temporariamente encharcados, periodicamente queimados e com deficiência de fósforo
Capim-arroz (Echinochloa crusgalli var. crusgalli)
Solo rico em elementos tóxicos, como o alumínio na forma reduzida
Capim marmelada ou papuã                       (Brachiaria plantaginea)
Típico de solos constantemente arados, gradeados, com deficiência de zinco (Zn)
Capim rabo de burro (Andropogon sp.)
Indica solos ácidos com baixo teor de cálcio, camada impermeável entre 60 e 120 cm de profundidade
Capim-amoroso ou carrapicho                     (Cenchrus ciliatus)
Terra de lavoura empobrecida e muito compacta, pobre em cálcio
Caraguatá (Erygium ciliatum)
É freqüente em solos onde se praticam queimadas,com húmus ácido
Carrapicho-de-carneiro                    (Acanthosperum hispidum)
Deficiência em cálcio
Cavalinha (Equisetum sp.)
Solo com acidez de médio a elevado
Guanxuma (Sida spp.)
Quando tem um baixo crescimento, indica que o solo é pouco fértil
Mio-mio (Bacharis coridifolia)
Deficiência de molibdênio
Nabo (Raphanus raphanistrum)
Deficiência de boro (B) e manganês (Mn)
Picão branco (Galinsoga parviflora)
Solo com excesso de nitrogênio e deficiente em micronutrientes. É beneficiado pela deficiência de cobre
Samambaia (Pteridium auilinum)
Solo com altos teores de alumínio tóxico
Sapé (Imperata exaltata)
Solo ácidos. Ocorre também em solos deficientes em magnésio (Mg)
Tiririca (Cyperus rotundus)
Solo ácido, com carência de magnésio
Urtiga (Urtica urens)
Carência em cobre



      Entre as plantas indicadoras de solo fértil (Figura 4), pode-se citar a beldroega (Portulaca  oleracea), a chirca (Ruppatorium sp), o dente-de-leão (Taraxum oficialis) e a guanxuma  (Sida spp).

                                Foto: Gilmar Henz


Fig. 4. A beldroega (A) e a guanxuma (B) são indicadoras de solo fértil.


     Já o capim amargoso (Digitaria insularis) e o carrapicho (Cenchrus ciliatus) são  indicadores de solos de baixa fertilidade. Outras plantas predominam em áreas de queimadas, como barba-de-bode, capim colorado e o caraguatá, além de solos com desequilíbrio de nutrientes ou muito ácidos.
     A incidência das plantas espontâneas nas áreas de cultivo depende de vários fatores, que variam de acordo com o tipo de hortaliça, uma vez que são cultivadas em  diferentes espaçamentos, arranjos, densidades populacionais e ciclos culturais. Além disto, as hortaliças apresentam diferentes taxas de crescimento e arquitetura (Figura 5), que resultam em diferenças nos índices de área foliar, cobertura do solo e graus de interceptação da luz solar, fator essencial para o estímulo, germinação de sementes e ocorrência das plantas espontâneas.

                          
                                                Foto: Gilmar Henz


 Fig. 5. O milho-verde interfere na incidência de plantas espontâneas devido à arquitetura das plantas e sua velocidade de crescimento.



     As hortaliças que conseguem cobrir mais rapidamente o solo geralmente reduzem a incidência das plantas espontâneas na área cultivada.


O que é alelopatia?

     O termo alelopatia, segundo o interesse específico da área de manejo de plantas invasoras, se refere aos efeitos biológicos negativos das plantas de uma espécie vegetal sobre o desenvolvimento e o crescimento de plantas de outra espécie, por meio da  liberação de substâncias químicas orgânicas no ambiente comum. Assim, algumas plantas (cultivadas ou não) complementam sua agressividade pela liberação de substâncias tóxicas ou substâncias inibidoras de crescimento chamadas de aleloquímicos, por meio de exsudações pelas raízes (Figura 6) e lixiviação da matéria orgânica produzida.
     Em geral, quando essas substâncias são absorvidas por outras espécies, modificam o seu crescimento, reduzindo ou eliminando sua habilidade de competição. A  comprovação dos efeitos diretos dos aleloquímicos nas condições de campo é difícil, devendo, portanto, ter-se o cuidado de separar a alelopatia de outras formas de interferência negativa, especialmente a competição. Vários trabalhos na literatura demonstram que as hortaliças são bastante suscetíveis aos aleloquímicos. As leguminosas mucuna-preta e feijão-de-porco têm-se mostrado eficientes no processo de competição, alelopatia e, conseqüentemente, na redução do banco de sementes do solo.

                               Foto: Gilmar Henz

Fig. 6. A tiririca e o trevo são plantas espontâneas de difícil manejo na agricultura orgânica.


Redução de plantas espontâneas no início do cultivo das hortaliças

     A presença das plantas espontâneas no início do cultivo das hortaliças pode ser reduzida por meio de técnicas de manejo em pré-semeadura ou transplante da mudas. Também se pode planejar o uso de glebas associado a um programa de solarização dos talhões no período de altas temperaturas e antecipado aos plantios. O preparo do solo (Figura 7) e a pré-irrigação estimulam a germinação e o desenvolvimento das plantas invasoras. Recomenda-se fazer o preparo do solo de três a quatro semanas antes do plantio para permitir a germinação, o crescimento inicial e o controle pós-emergente das plantas emergidas ou em processo de germinação, por meio de capina manual, gradagem ou encanteiramento, todos de forma superficial para evitar revolver muito o solo novamente e provocar novos estímulos de germinação das sementes. O controle das plântulas espontâneas pode ser também feito com o uso do fogo, por meio de bicos aplicadores a gás, contribuindo assim para reduzir a presença das plantas espontâneas emergidas ou em processo de germinação, no início ou por ocasião do primeiro cultivo da hortaliça.
            

                               Foto: Gilmar Henz


Fig. 7. A aração e a gradagem são práticas agrícolas que interferem no ciclo de vida das plantas espontâneas.



Capina seletiva

     A capina seletiva consiste em arrancar aquelas plantas espontâneas que vêm amadurecendo, tendo já cumprido com o seu papel ecofisiológico, mantendo apenas as plantas jovens. A capina seletiva deve eliminar somente as espécies mais agressivas e/ou que estejam interferindo biologicamente. A matéria orgânica capinada é deixada sobre o solo.
     A análise do período em que as espécies de plantas invasoras competem com as hortaliças pelos fatores de crescimento é importante, sendo que a época e a duração do período em que a cultura e as plantas espontâneas coexistem influenciam na intensidade da interferência biológica.


Fontes de sementes de plantas espontâneas

     O uso de suplementos orgânicos, como o esterco de gado, pode constituir-se em fonte de plantas invasoras ou espontâneas, sobretudo quando o esterco de gado não tenha sido tratado suficientemente antes da sua aplicação no solo. Por exemplo, cerca de 20% das sementes de ançarinha-branca (Chenopodium album) permaneceram viáveis após a ingestão e obtenção do estrume curtido de gado. Em 1 kg de esterco foram contadas 42 sementes viáveis. O uso de compostagem pode aliviar esse problema, pois, as temperaturas normalmente alcançadas durante o processo de compostagem são suficientemente altas para matar a maioria das sementes (Figura 8). Assim, a perda total da viabilidade das sementes de várias espécies foi observada após a compostagem do esterco de gado por quatro semanas, alcançando temperaturas de 55 ºC a 65 ºC. Para alcançar uma redução significativa na viabilidade das sementes, a temperatura requerida deve ser acima de 46 ºC, sendo o tempo de compostagem menos importante do que a temperatura requerida.

  

                                              Foto: Gilmar Henz


Fig. 8. Solarização e coberturas inertes reduzem a incidência de plantas espontâneas.



Banco de sementes

     O banco de sementes do solo (BSS) consiste na reserva de sementes e propágulos vegetativos presentes na superfície e no interior do solo, composta das novas sementes produzidas anualmente, bem como das sementes “velhas” que persistem vivas no solo por vários anos ou mesmo décadas (Figura 9). O banco de sementes no solo representa um “arquivo de informações” das condições ambientais e das práticas culturais usadas, sendo também um fator importante da avaliação do potencial de infestação das plantas invasoras no presente e no futuro. O seu estudo permite estabelecer as relações quantitativas entre as populações de plantas presentes, sendo muito importante para os programas de manejo integrado. Práticas inadequadas de manejo tendem a aumentar o banco de sementes das plantas invasoras no solo agravando ainda mais o problema em cultivos sucessivos.
     Estima-se que somente 1 a 9% das sementes viáveis produzidas em um determinado ano germinam naquele mesmo ano, ficando, portanto, a grande maioria das sementes com germinação escalonada nos anos subseqüentes, dependendo do nível de  dormência, da distribuição no perfil do solo e dos estímulos recebidos para germinar.
     O tamanho e a composição botânica do BSS variam de acordo com os sistemas de cultivos. As sementes de espécies cultivadas geralmente não são muito competitivas porque apresentam baixa longevidade e rápida germinação.
     A grande diversidade de espécies de plantas espontâneas que infestam as áreas de cultivos de hortaliças está normalmente associada a ambientes com distúrbios constantes.
     Isto ocorre devido principalmente às suas características biológicas e reprodutivas que promovem elevada produção de sementes, eficiente dispersão de algumas espécies, dormência e longevidade das sementes e sobrevivência das plantas. Estas características, aliadas às peculiaridades do manejo realizado, normalmente, contribuem na geração de grandes bancos de sementes no solo, o que garante o potencial regenerativo de várias espécies. Assim, o BSS constitui–se na principal fonte das plantas espontâneas que ocorrem nos sistemas agroecológicos.
     Vários autores relataram que a rotação de culturas e o uso de adubos verdes reduzem o tamanho do banco de sementes no solo. As seqüências de cultivos propiciam diferentes modelos de competição, alelopatia e distúrbios do solo, com variação da pressão de seleção para plantas invasoras específicas. Isto se deve ao fato de que cada cultura apresenta uma gama de plantas ‘associadas’ variando normalmente com a localização geográfica. O uso de adubos orgânicos e a água de irrigação podem constituir em fonte de introdução sementes ou propágulos vegetativos de plantas na área cultivada.

                                           Foto: Ronessa Souza


Fig. 9. A compostagem reduz a viabilidade das sementes presentes nos estercos.


                   
                                Foto: Gilmar Henz

Fig. 10. O ‘Banco de Sementes no Solo (BSS)’ é a reserva de sementes e propágulos vegetativos das plantas na superfície e no interior do solo.


                                          Foto: Gilmar Henz

Fig. 11. Técnica corrente na agricultura convencional, o uso de herbicidas e dessecantes é expressamente proibido na agricultura orgânica.



Manejo da vegetação espontânea no cultivo orgânico

Em conformidade com a Instrução Normativa nº 007 do MAPA, de 17 de maio de 1999, o manejo das plantas invasoras deverá ser realizado mediante a adoção de uma ou mais das seguintes técnicas:

• emprego de cobertura vegetal, viva ou morta, no solo;
• meios mecânicos de controle;
• rotação de culturas;
• alelopatia;
• controle biológico;
• cobertura inerte, que não cause contaminação e poluição, a critério da certificadora;
• solarização;
• sementes e mudas isentas de plantas invasoras.





Circular Técnica, 62

Exemplares desta edição podem ser adquiridos na:  Embrapa Hortaliças
Endereço: BR 060 km 9 Rod. Brasília-Anápolis C. Postal 218, 70.531-970 Brasília-DF
Fone: (61) 3385-9115 ; Fax: (61) 3385-9042

1ª edição
1ª impressão (2008): 1000 exemplares

Comitê de  Publicações
Presidente: Gilmar P. Henz
Editor Técnico: Flávia A. Alcântara
Membros: Alice Maria Quezado Duval Edson Guiducci Filho Milza M. Lana

Expediente
Normalização Bibliográfica: Rosane M. Parmagnani
Editoração eletrônica: José Miguel dos Santos




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Objetivos!

Com o objetivo principal de divulgar os conhecimentos adquiridos, baseados nas pesquisas realizadas na Epagri/Estação Experimental de Urussanga em Santa Catarina, nas consultas bibliográficas e, na experiência adquirida nos 32 anos de vida profissional como pesquisador da Epagri na área de hortaliças, estamos colocando este blog à disposição dos interessados. Outros objetivos são: intercâmbio e socialização de informações relevantes sobre agricultura orgânica.

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