segunda-feira, 10 de abril de 2017

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.brPara ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo 8 – Manejo da água

Autores:  Henoque R. da Silva e Waldir A. Marouelli




Que problemas a água de irrigação pode apresentar?
     Os principais problemas estão relacionados à disponibilidade e à qualidade da água. Antes de implantar o projeto de irrigação é preciso avaliar se a fonte de água é suficiente para suprir a demanda das culturas a serem estabelecidas, e se os aspectos de natureza física, química e biológica da água não limitam sua utilização para a irrigação de hortaliças.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos físicos da água de irrigação?
     Na natureza, a água pode apresentar impurezas de ordem física que afetam seu uso na irrigação. A presença de partículas sólidas é o que mais restringe o uso da água na irrigação, pois essas partículas podem provocar entupimento em filtros, gotejadores e microaspersores, desgaste de bombas hidráulicas e tubulações, além de depositar sedimentos sobre as plantas afetando as trocas gasosas e a qualidade visual dos produtos. Outras características de menor importância dizem respeito a turbidez, cor, odor e temperatura da água.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos químicos da água de irrigação?
      As principais características químicas relacionam-se à salinidade, à proporção do elemento sódio em relação aos elementos cálcio e magnésio (razão de adsorção de sódio), ao pH e a elementos tóxicos às plantas. A salinidade está associada à quantidade total de sais solúveis presentes na solução do solo e a seus efeitos no desenvolvimento e produção das plantas. Os danos causados são devidos, principalmente, ao “aumento” da pressão osmótica da solução do solo, o que reduz a disponibilidade de água às plantas. A salinidade é expressa pela concentração de sais dissolvidos totais (SDT), em miligramas por litro (mg L-1) ou, mais comumente, pela condutividade elétrica (CE), 191 192 193 131 expressa em deciSiemens por metro (dS m-1).
     Elevadas concentrações de sódio trocável, relativamente ao cálcio e magnésio, especialmente quando a concentração salina for reduzida, aumentam a dispersão e movimentação das partículas finas reduzindo a porosidade e a infiltração, dificultando a reposição de água ao solo e a oxigenação na zona radicular. A proporção relativa de sódio em relação ao cálcio e magnésio é expressa em termos da Razão de Adsorção de Sódio (SAR).
     O pH é um indicador da acidez ou basicidade da água, quase nunca um problema para a irrigação. Valores de pH na faixa entre 6,5 e 8,4 são, no entanto, um indicativo da necessidade de se realizar análise mais detalhada da água. A água também pode conter íons como boro, cloreto e sódio, que, mesmo em concentrações reduzidas, podem ser tóxicos às plantas.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos biológicos da água de irrigação?
     Os principais problemas estão associados à transmissão de doenças, entupimentos de emissores e proliferação de algas e plantas aquáticas. Quando contaminada por efluentes não tratados (esgoto), a água é um meio eficiente de transmissão de doenças ao homem, as quais podem ser causadas por bactérias, protozoários, helmintos, vírus e fungos. A água também pode transmitir várias doenças às plantas.
     A proliferação de algas e bactérias pode causar problemas de entupimento de gotejadores e microaspersores. A proliferação de plantas aquáticas em canais de irrigação e reservatórios de água também pode acarretar problemas. Além disso, pode servir de criadouro para mosquitos e outros seres vivos transmissores de moléstias infecciosas.

Existe algum método simples para avaliar a qualidade da água de irrigação?
     Sim. Algumas características da água podem ser avaliadas visualmente in loco ou por meio de informações dos agricultores. A turbidez é o primeiro aspecto a ser observado. Água com aparência turva e opaca indica a presença de partículas em suspensão e/ou substâncias em solução. Em geral, a presença de argila e silte dá à água um aspecto barrento. Águas poluídas por efluentes não tratados (esgoto), em geral ricas em matéria orgânica, apresentam coloração acinzentada, e quanto mais escuras geralmente são mais contaminadas. Águas contaminadas por esgoto podem ainda ser identificadas pelo odor.
     Em relação à qualidade química, águas salobras indicam grande presença de sais e requerem manejo adequado para fins de irrigação. Informações de agricultores sobre possíveis danos causados pela água às culturas específicas e formação de camadas esbranquiçadas de sal na superfície do solo também são úteis ao se fazer uma avaliação qualitativa da água. A presença de ferro solúvel na água, que pode causar problemas sérios de entupimento de gotejadores, pode ser constatada por sua precipitação, que provoca a formação de pontos amarelados nas margens de fontes de água.

Que tipos de poluição podem afetar a qualidade da água de irrigação?
     Os principais poluentes da água de irrigação têm origem nos efluentes domésticos (esgoto), industriais (poluentes orgânicos e inorgânicos) e da própria atividade agrícola. A água pode ser o veículo de disseminação de doenças entre os seres vivos quando contaminada por agentes patogênicos (bactérias, protozoários, helmintos, vírus e fungos) ou químicos (nitrato, agrotóxicos, metais pesados).

Como a poluição da água pode afetar a produção de hortaliças no sistema orgânico?
     Primeiramente, não é recomendado o uso de águas contendo grau de poluição acima dos limites estabelecidos pela Resolução no 357, de 17 de março de 2005, do Conama/MMA. Portanto, o uso de águas com grau de contaminação acima do aceitável, além de desrespeitar as normas vigentes, pode não permitir a certificação da propriedade.
     A legislação brasileira sobre as normas de produção orgânica está em processo de construção. Atualmente, encontra-se distribuída em vários instrumentos de diretrizes e normas, os quais não contemplam em seu bojo os limites estabelecidos de qualidade de água de irrigação. Assim, até que se publique uma legislação específica, a qualidade da água estabelecida na Resolução 357/05 deve ser tomada como parâmetro, respeitados os limites máximos de contaminação por coliformes termotolerantes, pois a produção pode ser seriamente comprometida, dependendo do grau e da natureza da poluição da água.
     Águas poluídas, em geral, apresentam características físicas, químicas e biológicas que afetam negativamente o equilíbrio do sistema orgânico como um todo, especialmente a microbiologia do solo. Águas com alta concentração de metais pesados e nitrogênio podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, além de depositar e acrescentar resíduos tóxicos nos produtos.

Como proteger as fontes e os mananciais de água na propriedade?
     Basicamente, a proteção das fontes e mananciais de água tem por objetivo manter a quantidade e a qualidade da água disponível. Caso a fonte ou o manancial já estejam comprometidos, ações mitigadoras devem ser tomadas para melhorar a conservação da água. Práticas de manejo integrado de bacias hidrográficas, por exemplo, têm por objetivo melhorar a recarga dos sistemas hídricos que as compõem, proporcionando maior disponibilidade de água, com expressiva melhoria da qualidade.
     Dentro da propriedade agrícola, devem-se adotar práticas que proporcionem maior infiltração de água e o controle de erosão do solo. Dentre essas práticas, podem-se destacar:
• Preservação da vegetação nativa.
• Proteção de nascentes.
• Regulação do regime dos corpos de água por meio de represamento.
• Práticas diversas de conservação do solo, como construção de terraços, plantio em nível, sistema de plantio direto e recuperação da estrutura física e biológica dos solos por meio de adubação verde, uso de compostagem e cobertura morta (mulching).

Que sistemas de irrigação estão disponíveis, atualmente, para a produção orgânica de hortaliças?
     Em princípio, todos os sistemas de irrigação podem ser utilizados para a irrigação de hortaliças em sistema orgânico, com destaque para os sistemas por aspersão, por sulco e por gotejamento. Não existe nenhum sistema que possa ser recomendado indistintamente para todas as hortaliças, tipos de solo e condições climáticas, pois os sistemas apresentam características próprias, com custos variáveis, vantagens e desvantagens. Dentre os sistemas por aspersão, o convencional é o mais empregado em razão do menor custo e do fato de a produção de hortaliças em sistemas orgânicos ocorrer em áreas geralmente menores que 5 ha.

Existe alguma restrição para usar na agricultura orgânica sistemas de irrigação normalmente utilizados no cultivo convencional?
     Não, pois não existe sistema de irrigação específico para a agricultura orgânica. Entretanto, o sistema de irrigação a ser selecionado deve ser o que melhor se adapte a cada situação ou cultura, especialmente no que se refere ao favorecimento de doenças e ao custo.

Qual a relação entre sistemas de irrigação e incidência de pragas e doenças?
     Para que a maioria das doenças se desenvolva é fundamental a existência de água livre na folha ou água abundante no solo. Assim, a irrigação inadequada, seja na quantidade, na freqüência ou na forma de aplicação, favorece diretamente a ocorrência e a severidade da maioria das doenças nas plantas.
     Em geral, os sistemas por aspersão acentuam a sobrevivência e a dispersão de patógenos na lavoura, em razão de a água ser aplicada sobre a parte aérea das plantas, ao passo que os sistemas por gotejamento e, principalmente, por sulco favorecem as doenças causadas por patógenos de solo, especialmente em solos com problema de drenagem (argilosos ou compactados). Entretanto, a aspersão, em virtude da ação mecânica das gotas de água, minimiza a incidência de pragas, como ácaros, traça-do-tomateiro e pulgões, bem como de algumas doenças, como o oídio. O uso de irrigação por sulco ou gotejamento, especialmente em cultivo protegido, pode minimizar consideravelmente a incidência de doenças bacterianas em pimentão e tomate, por exemplo.

Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por sulco?

Vantagens
• Baixo investimento inicial.
• Uso reduzido de energia.
• Simplicidade na operação e na manutenção.
• Possibilidade de utilização de águas com sedimentos.
• Redução da incidência de doenças da parte aérea. Desvantagens • Requer terrenos planos ou sistematizados.
• Requer maior uso de água e de mão-de-obra.
• Inadequado para solos permeáveis (arenosos).
• Maior incidência de doenças de solo.
• Dificuldade de circulação de máquinas na área irrigada.
• Maior potencial de salinização e erosão do solo.

Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por aspersão?

Vantagens
• Pode ser utilizado em terrenos com diferentes declividades e solos de diferentes texturas, inclusive os arenosos.
 • Menor gasto de água que o sistema por sulco.
• Menor uso de mão-de-obra.
 • Melhor distribuição de água sobre o terreno.
 • Permite a aplicação de nutrientes via água de irrigação.
• Reduz o ataque de ácaros e outros insetos. Desvantagens
 • Maior custo de implantação que o sistema por sulco.
• Maior consumo de energia.
• Sofre interferência do vento.
• Perda de água por evaporação em climas secos e quentes.
 • Interferência nos tratamentos fitossanitários.
 • Maior incidência de doenças da parte aérea.

 Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por gotejamento?

Vantagens
 • Economia e eficiência no uso de água.
• Uso reduzido de energia e de mão-de-obra.
 • Não sofre ação de fatores climáticos.
• Pouca interferência nas práticas culturais.
• O sistema pode ser usado em solos de diferentes texturas, declividades e grau de salinidade.
 • Permite automação total da irrigação.
• A aplicação localizada da água reduz a incidência de plantas daninhas nas entrelinhas.
 • Reduz a incidência de doenças da parte aérea.
 • Permite a aplicação parcelada de diferentes nutrientes via água. Desvantagens
 • Elevado custo de implantação.
• Alto risco de entupimento de emissores.
 • Necessidade de remoção das linhas de gotejadores ao final do ciclo da cultura.
 • Favorece algumas doenças de solo, como a murcha bacteriana.
 • Requer cuidados especiais para o manejo e manutenção do sistema.
 • Alto custo de manutenção do sistema.

Qual a importância do manejo da irrigação no sistema de produção orgânica de hortaliças?
     As hortaliças são culturas altamente sensíveis tanto à falta quanto ao excesso de água. Portanto, a determinação do momento correto de se irrigar e da quantidade adequada de água a ser aplicada por irrigação é de importância primordial para a produção de hortaliças. Irrigar menos que o necessário restringe as atividades fisiológicas das plantas, comprometendo a produtividade e qualidade dos produtos colhidos. Por sua vez, irrigações em excesso favorecem maior incidência de doenças, lixiviação de nutrientes e gastos extras com água e energia.

Na agricultura orgânica, as irrigações devem ter a mesma freqüência e quantidade de água que na agricultura convencional?
     O uso de grandes quantidades de material orgânico em sistemas orgânicos de produção promove a melhoria da estrutura física do solo, o que favorece maior capacidade de retenção de água e o maior crescimento do sistema radicular. Assim, por causa do maior armazenamento de água, o intervalo entre irrigações e a quantidade de água a ser aplicada por irrigação devem ser ligeiramente maiores que no sistema convencional. No sistema orgânico, onde não é permitida a aplicação de agrotóxicos, turnos de rega mais espaçados permitem minimizar a incidência de doenças, pois aumentam a eficiência dos tratos fitossanitários e reduzem o tempo com água livre no solo e na superfície da planta.

Como determinar o momento correto de se irrigar?
     As irrigações devem ser feitas antes que a deficiência de água no solo e/ou na planta possa prejudicar a produção da cultura. Muito embora o murchamento das folhas no final do período matinal seja um indicativo visual da necessidade de irrigação, existem critérios mais precisos para determinar o momento correto para irrigar. Uma opção é avaliar a força com que a água está retida no solo (tensão matricial) ou a fração de água disponível no solo.
     A tensão matricial pode ser determinada direta ou indiretamente por diferentes tipos de sensores. O sensor mais conhecido é o tensiômetro, equipamento que mede a tensão de forma direta e contínua. Outro sensor, bastante simples e de baixo custo, é o Irrigas®, desenvolvido recentemente pela Embrapa Hortaliças. Outra opção é fazer o balanço de água no solo, e, nesse caso, o momento de irrigar é aquele em que as plantas tenham utilizado toda a água disponível. Maiores informações sobre ambos os critérios podem ser obtidos no livro Manejo da Irrigação em Hortaliças, publicado pela Embrapa Hortaliças. Na prática, a grande maioria dos agricultores avalia a umidade do solo visualmente, ou seja, de forma empírica. Nesse caso, dever-se-ia, pelo menos, avaliar a umidade na profundidade média das raízes e não na camada superficial do solo.

Como determinar a necessidade de água para cada tipo de hortaliça?
     A necessidade de água, que é variável ao longo do ciclo de crescimento das plantas, varia de hortaliça para hortaliça e até mesmo entre cultivares da mesma espécie. Depende ainda do sistema de irrigação, do sistema de cultivo e, principalmente, das condições climáticas.
     Portanto, não é uma tarefa simples calcular a quantidade de água a ser aplicada a cada irrigação. Plantas na fase inicial consomem menos água, ao passo que na fase de produção demandam mais água para manter os processos fisiológicos. O consumo diário de água, denominado evapotranspiração da cultura (ETc), é normalmente determinado por meio de equações, com base em variáveis climáticas, ou tanques de evaporação e de coeficientes de cultura (Kc). Valores de Kc, específicos para cada fase de desenvolvimento da cultura, estão disponíveis para as principais hortaliças e podem ser obtidos na publicação Manejo da Irrigação em Hortaliças, da Embrapa Hortaliças .

Como determinar a quantidade de água a ser aplicada por irrigação?
     Basicamente existem duas maneiras de calcular a quantidade de água a ser aplicada. A primeira baseia-se na quantidade de água  evapotranspirada pela cultura desde a última irrigação, ou seja, pela soma dos valores de ETc diários no período.
     A segunda consiste em determinar a quantidade de água necessária para elevar a umidade do solo, na profundidade das raízes, à capacidade de campo (teor de umidade que o solo atinge depois de drenado o excesso de água). Nesse caso, é necessário determinar em laboratório as características de retenção de água do solo a ser irrigado.
     Em ambos os procedimentos, deve-se levar em conta a eficiência de irrigação do sistema na determinação da quantidade de água a ser aplicada. A grande maioria dos produtores, todavia, determina a quantidade de água a ser aplicada por irrigação de forma empírica, baseada em tentativa e erro. Nesse caso, a quantidade de água deve ser a suficiente para molhar a camada de solo até na profundidade das raízes sem, contudo, encharcar o solo. Caso a umidade do solo abaixo do limite inferior do sistema radicular comece a aumentar, deve-se reduzir a quantidade de água nas irrigações subseqüentes.

Como determinar o tempo de irrigação para aplicar a água total necessária?
     O tempo para aplicar a quantidade total de água necessária por rega depende da intensidade de aplicação de água do sistema de irrigação. Assim, o tempo de irrigação em sistemas que aplicam água mais rapidamente será menor que sistemas que aplicam água lentamente. No caso de aspersão convencional, o tempo é função do espaçamento entre aspersores, do diâmetro de bocais e da pressão de serviço dos aspersores. Para gotejamento, o tempo é função da vazão e espaçamento entre gotejadores. Para o sistema por sulco, o tempo depende do espaçamento entre sulcos e do tipo de solo, devendo ser igual ao tempo necessário para a água atingir o final do sulco mais o tempo para que a quantidade de água necessária infiltre no solo.

É verdade que no sistema orgânico ocorre maior economia de água?
     Muito embora existam poucos estudos com esse enfoque, pode-se dizer que a economia é ligeiramente maior que no sistema convencional de produção. O menor gasto de água ocorre principalmente em razão do uso mais intensivo de material orgânico e de cobertura, que promovem a melhoria da estrutura física do solo e, conseqüentemente, o aumento de sua capacidade de armazenamento e de conservação de água. Assim, o intervalo entre irrigações no sistema orgânico pode ser maior que no sistema convencional, minimizando perdas de água por evaporação e percolação profunda.

Qual o melhor horário do dia para fazer as irrigações?
     Essa questão é de difícil resposta, pois depende de vários fatores, muitos deles pouco estudados. Em geral, o horário da irrigação tem pequena influência sobre o rendimento das culturas, exceto quando as regas são realizadas por aspersão, o que pode favorecer significativamente a severidade de doenças da parte aérea. A severidade depende do tipo de hortaliça, da pressão da população de patógenos, das condições climáticas e do tempo de molhamento foliar.
     A fim de minimizar o risco de algumas doenças da parte aérea, especialmente em regiões sujeitas à formação de orvalho, as regas por aspersão devem ser feitas preferencialmente depois das primeiras horas da manhã e antes das últimas horas da tarde, a fim de reduzir o tempo em que a água permanece sobre a folha. No sistema por aspersão, as regas devem ser feitas em horários sem vento ou com ventos de baixa intensidade. Irrigações durante períodos de ventos intensos, além de favorecer a maior evaporação de água, prejudica demasiadamente sua distribuição, podendo comprometer a produtividade.

Que outros aspectos devem ser considerados na escolha do horário de irrigação?
     Outros aspectos que não afetam a produtividade, mas que podem influenciar na escolha do horário da irrigação, estão relacionados à operação do sistema de irrigação, à disponibilidade de mão-de-obra e ao custo de energia. As companhias elétricas dispõem de tarifas com desconto especial para consumidores de irrigação agrícola. Os descontos, que dependem da região, podem variar entre 70 % e 90 %, para consumidores de alta tensão e entre 60 % e 73 %, para consumidores de baixa tensão. A exigência é que haja adesão do produtor ao programa e que as irrigações sejam feitas no horário noturno, entre 21h30 e 6h.
     A irrigação no período noturno apresenta a vantagem de minimizar as perdas de água por evaporação e, assim, conservar água e energia. Por sua vez, a irrigação noturna depende de maior grau de automatização do sistema de irrigação e da disponibilidade de mão-de-obra, além de envolver aspectos trabalhistas. Na escolha do horário de irrigação, outro fator importante é a capacidade do sistema de irrigação, pois este é geralmente dimensionado para funcionar durante um número máximo de horas por dia a fim de atender toda a área irrigada inicialmente prevista em projeto. Assim, muitas vezes, não se tem flexibilidade na escolha do horário de irrigação.

É necessário irrigar as hortaliças até no dia da colheita?
     Apenas as hortaliças folhosas devem ser irrigadas até na véspera da colheita. Para os demais tipos de hortaliças, as irrigações podem ser paralisadas vários dias antes da última colheita, pois o solo pode fornecer água às plantas por vários dias.
     A época correta de se paralisar as irrigações depende da textura do solo, do clima e da hortaliça cultivada. Em solos argilosos e clima ameno (temperatura baixa e umidade relativa alta), as irrigações podem ser paralisadas bem antes que em solos arenosos  e regiões de clima quente e seco. Em cultivos de cebola, batata e alho, por exemplo, as irrigações podem ser interrompidas de 5 a 10 dias antes da colheita. Em hortaliças do tipo fruto, como tomate e pimentão, as regas podem ser paralisadas entre 3 e 7 dias antes da última colheita.
Ferreira On 4/10/2017 02:31:00 AM Comentarios LEIA MAIS

sexta-feira, 10 de março de 2017



Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br; Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo7: Adubação Orgânica

Autores:  Ronessa B. de Souza e Flávia A. de Alcântara

O que são fertilizantes orgânicos?

     São fertilizantes (ou adubos) de natureza orgânica, ou seja, obtidos de matérias-primas de origem animal ou vegetal, sejam elas provenientes do meio rural, de áreas urbanas ou da agroindústria.
Os fertilizantes orgânicos podem ou não ser enriquecidos com nutrientes de origem mineral (não orgânica), podendo ser divididos em quatro tipos principais:
• Fertilizantes orgânicos simples.
• Fertilizantes orgânicos mistos.
• Fertilizantes orgânicos compostos.
• Fertilizantes organominerais.

O que é cada um desses tipos de fertilizante orgânico ?

• Fertilizantes orgânicos simples: fertilizante natural de origem animal ou vegetal. Exemplos: estercos animais, torta de mamona, borra de café.
• Fertilizantes orgânicos mistos: produto da mistura de dois ou mais fertilizantes orgânicos simples. Exemplo: cinzas (fonte principalmente de potássio (K)) + torta de mamona (fonte principalmente de nitrogênio (N))
• Fertilizantes orgânicos compostos: fertilizante não natural, ou seja, obtido por um processo químico, físico, físico-químico ou bioquímico, sempre a partir de matéria-prima orgânica, tanto vegetal como animal. Pode ser enriquecido com nutrientes de origem mineral. Exemplos: composto orgânico, vermicomposto (húmus de minhoca), lodo de esgoto.
• Fertilizantes organominerais: não passam por nenhum processo específico, são simplesmente o produto da mistura de fertilizantes orgânicos (simples ou compostos) com fertilizantes minerais.

Existem fertilizantes minerais de uso permitido na agricultura orgânica?

     Sim. Somente os fertilizantes minerais de origem natural e de baixa solubilidade são permitidos na agricultura orgânica, como os fosfatos naturais, os calcários e os pós de rocha. Em situações específicas, para uso restrito, uma vez constatada a necessidade de utilização do adubo e com autorização da certificadora, podem ser utilizados os termofosfatos, sulfato de potássio, sulfato duplo de potássio e magnésio de origem natural, sulfato de magnésio, micronutrientes e guano (fosfatos de origem orgânica – provenientes de excrementos de aves marinhas).


Pode-se fazer calagem no sistema orgânico?

     Sim. A calagem é permitida e a quantidade de calcário a ser utilizada deve ser calculada com base na análise química do solo.
Entretanto, a quantidade é geralmente limitada a 2 t/ha/ano.

Como saber que materiais são permitidos na adubação orgânica?

     Os padrões internacionais que regem a produção orgânica de alimentos estão agrupados na International Federation of Organic Agriculture Movements (Ifoam) e podem ser consultados pela internet no endereço <www.ifoam.org>. As normas brasileiras de produção orgânica constam da Instrução Normativa no 7, de 17/5/991, em que estão listados os materiais permitidos para uso na
adubação orgânica.

Existe algum problema em usar estercos frescos?

     Sim. Os estercos frescos podem conter microrganismos causadores de doenças no homem. Não devem ser utilizados no cultivo de hortaliças, pois podem contaminar as partes comestíveis das plantas. Esse problema pode ser resolvido pelo curtimento, ou envelhecimento do esterco em condições naturais, não controladas. Deve-se deixar o monte de esterco “envelhecer” em local coberto ou protegido com plástico ou lona contra chuvas, cujas águas lavam o esterco removendo os nutrientes. O tempo aproximado para ‘curtir’ é de 90 dias, dependendo das condições ambientais. O esterco curtido é uma massa escura com aspecto gorduroso, odor agradável de terra e sem nenhum mau cheiro.

O que é composto orgânico?

     Composto orgânico é o produto final da decomposição aeróbia (na presença de ar) de resíduos vegetais e animais. A compostagem permite a reciclagem desses resíduos e sua desinfecção contra pragas, doenças, plantas espontâneas e compostos indesejáveis. O composto orgânico atua como condicionador e melhorador das propriedades físicas, físico-químicas e biológicas do solo, fornece nutrientes, favorece o rápido enraizamento e aumenta a resistência das plantas.

Como é feito o composto orgânico?

     O composto orgânico é feito com resíduos vegetais, ricos em carbono (galhos, folhas, capim e outros), e resíduos animais, ricos em nitrogênio (esterco bovino, de aves e de outros animais, cama de aviário de matrizes, dentre outros). Quando se dispõe apenas de materiais pobres em N, como cascas de pínus, árvores velhas e capins, estes devem ser alternados com camadas de resíduos de leguminosas.
     A escolha da matéria-prima é importante para maior eficiência da compostagem. A relação  carbono/nitrogênio (C/N) inicial ótima (de 25–35:1) pode ser atingida com o uso de 75 % de restos vegetais variados e 25 % de esterco. Esses resíduos, vegetais e animais, são dispostos em camadas alternadas formando uma leira ou monte de dimensões e formatos variados.
     O formato mais usual é o de seção triangular, sendo a largura comandada pela altura da leira, a qual deve situar-se entre 1,5 m e 1,8 m. À medida que a pilha vai sendo formada, cada camada de material vai sendo umedecida com água, tomando-se o cuidado para que não haja escorrimento. A pilha deve ser revirada (parte de cima para baixo e parte de dentro para fora) aos 15, 30 e 45 dias. No momento das reviradas, o material deve ser umedecido para que a umidade fique em torno de 50 % a 60 % (na prática, atinge-se esse teor de umidade quando o material transmite a sensação de úmido ao ser tocado com as mãos, e, ao ser comprimido, não deixa escorrer água entre os dedos e forma um torrão que se desmancha com facilidade).
     Para manter a umidade ideal, a pilha deve ser coberta com palhas, folhas de bananeira ou lona de plástico. O local deve ser protegido do sol e da chuva (área coberta ou à sombra de uma árvore). Como exemplo, pode-se citar o composto produzido na Unidade de Produção de Hortaliças  orgânicas da Embrapa Hortaliças:

• 15 carrinhos-de-mão de capim braquiária roçado.
• 30 carrinhos de capim-napier.
• 20 carrinhos de cama de matriz de aviário.
• 13 kg de termofosfato.

     Formar camadas alternadas na seguinte ordem: braquiária, napier, cama de matriz e termofosfato, montando uma meda de 1 m x 10 m x 1,5 m (largura x comprimento x altura) para obtenção de 2.500 kg de composto orgânico após cerca de 90 dias.

Quais as vantagens do composto orgânico em relação ao esterco curtido?

     O composto orgânico é um produto estabilizado e mais equilibrado, em cujo processo de produção ocorreram todas as condições necessárias à eficiente fermentação aeróbica, dando-lhe qualidade superior à do esterco curtido como condicionador ou melhorador do solo. Além disso, é mais rico em nutrientes por constituir-se de resíduos vegetais e animais e por ser, muitas vezes, enriquecido com resíduos agroindustriais e adubos minerais.

Como saber quando o composto orgânico está pronto?

     O composto orgânico estará pronto para uso quando apresentar as seguintes características:
• Temperaturas normalmente inferiores a 35 oC.
• Redução do volume para 1/3 do volume inicial.
• Constituintes degradados fisicamente, não sendo possível identificá-los.
• Permite que seja moldado facilmente com as mãos.
• Cheiro de terra mofada, tolerável e até mesmo agradável para alguns.

Como enriquecer o composto orgânico?

     O enriquecimento do composto orgânico pode ser obtido com a adição, no momento de montagem da pilha, de fosfatos de reação ácida como fosfatos naturais (6 kg m-3), calcário (25 kg t-1 a 50 kg t-1), torta de cacau (40 kg m-3) ou de mamona (20 kg m-3 a 30 kg m-3), borra de café (50 kg m-3), cinzas, entre outros. O enriquecimento do composto orgânico deve ser feito de acordo com as exigências da cultura e a necessidade do solo. Geralmente, o enriquecimento com fósforo (P) só é recomendado nos 2 ou 3 anos iniciais de produção, e sua continuidade por mais tempo depende da disponibilidade de fósforo no solo.

O que é biofertilizante?

     É o material líquido resultante da fermentação de estercos, enriquecido ou não com outros resíduos orgânicos e nutrientes, em água. O processo de fermentação pode ser aeróbico (na presença de ar) ou anaeróbico (na ausência de ar). Os biofertilizantes podem ser aplicados via foliar, diluídos em água na proporção de 2 % a 5 %, ou no solo, via gotejamento. A forma como o biofertilizante atua nas plantas ainda não é completamente esclarecida e merece ser melhor estudada. Apresenta efeitos nutricionais (fornecimento de micronutrientes) e fitossanitários, atuando diretamente no controle de alguns fitoparasitas por meio de substâncias com ação fungicida, bactericida ou inseticida presentes em sua composição. Parece atuar equilibrando e tonificando o metabolismo da planta, tornando-a mais resistente ao ataque de pragas e doenças. Entre os biofertilizantes mais conhecidos destacam-se:

• Supermagro.
• Agrobio.
• Biofertilizante líquido (Vairo).

Como surgiram os biofertilizantes Vairo, Supermagro e Agrobio?

     O biofertilizante Vairo é o efluente pastoso resultante da fermentação anaeróbia da matéria orgânica em biodigestor.  O biodigestor é uma invenção secular, originária da Ásia, cujo objetivo primário era o saneamento de dejetos humanos e animais, e o secundário, a produção de gás metano, fonte alternativa de energia de baixo custo no meio rural.
     No Brasil, o uso do efluente líquido de biodigestores como fertilizante teve início na década de 1980 por extensionistas da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (Emater/Rio), principalmente pelo engenheiro agrônomo Antônio Carlos Vairo dos Santos. Esse biofertilizante é obtido a partir da fermentação, em sistema fechado (ausência de ar), do esterco fresco de gado ruminante, de preferência gado leiteiro.O Supermagro é uma variante do biofertilizante Vairo. Foi elaborado pelo Delvino Magro, fruticultor, técnico agrícola e secretário da Agricultura do Município de Ipê, Rio Grande do Sul. O Supermagro foi utilizado por ele por mais de 20 anos para o controle de doenças e pragas de fruteiras temperadas, especialmente maçã, no Sul do Brasil. É a formulação mais difundida atualmente, na qual são misturados ingredientes orgânicos e minerais, basicamente micronutrientes, todos submetidos à fermentação anaeróbica.
     Outra formulação bastante conhecida é o Agrobio, elaborado por pesquisadores da Estação  xperimental de Itaguaí, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro), desde 1997, e de composição semelhante ao Supermagro. É constituído igualmente de uma mistura de materiais orgânicos e minerais fermentados  erobicamente por 8 semanas.

Como preparar um biofertilizante na propriedade?

     Não há uma fórmula padrão para a produção de biofertilizante. Apresenta-se, a seguir, uma receita básica de biofertilizante líquido, na qual podem ser feitas variações:
Em uma bombona de plástico, colocam-se volumes iguais de esterco fresco e água, deixando um espaço vazio de 15 cm a 20 cm. Essa bombona deve ser fechada hermeticamente, adaptando-se uma mangueira fina de plástico em sua tampa. Uma extremidade da mangueira fica no espaço vazio da bombona e a outra deve ser imersa em um recipiente com água para permitir a saída do gás metano e impedir a entrada de ar (oxigênio). O final do processo, que dura de 30 a 40 dias, coincide com a cessação do borbulhamento observado no recipiente d’água, quando a solução deve ter atingido pH próximo de 7,0.
     Para separação da parte ainda sólida, o material deve ser coado em peneira e filtrado em um pano ou tela bem fina. Geralmente é utilizado diluído em água em concentrações variáveis de acordo com os diferentes usos e aplicações. É recomendado em dosagens mais elevadas de até 30 % do que as do Supermagro ou do Agrobio. Esse biofertilizante tem múltiplas finalidades, desde o controle de determinados fitopatógenos até a promoção de florescimento e enraizamento de algumas plantas cultivadas.

O que são os compostos de farelos ou bokashis?

     São compostos orgânicos produzidos a partir da mistura de argilas com farelos de cereais (arroz, trigo), torta de oleaginosas (soja, mamona), farinha de osso, farinha de peixe e outros resíduos.
Essa mistura é inoculada com microrganismos e submetida à fermentação aeróbica ou anaeróbica. O inoculante microbiano pode ser terra de mata (bosque natural), soja fermentada, microrganismos capturados da natureza por meio de arroz cozido ou inoculantes comerciais como o EM® (microrganismos eficazes). Sua composição deve ser ajustada de acordo com os ingredientes disponíveis e as necessidades nutricionais das culturas. Por utilizar matérias-primas nobres, de uso freqüente na alimentação animal, o bokashi é um fertilizante relativamente caro e rico em nutrientes, especialmente N, P e K.
     Existem diferentes formulações com duração variável de 3 a 21 dias para obtenção do composto. Durante o processo fermentativo aeróbio, a umidade deve permanecer em torno de 50 % a 60 % e a temperatura em torno de 50 oC. Na maioria das formulações, a movimentação da mistura é feita diariamente, uma vez que a temperatura eleva-se com facilidade por causa das boas características físicas (partículas pequenas) e químicas (riqueza em nutrientes) da matéria-prima.
     O final do processo caracteriza-se pela queda de temperatura. O composto de farelos mais conhecido é o Nutri Bokashi, produzido pela Kórin, empresa criada em 1995 pela Fundação Mokiti Okada, que utiliza os microrganismos eficazes (EM®) como inoculante.

O que são EM®?

     São preparados microbianos denominados “microrganismos eficazes” que servem como inoculante. Sua composição não é fornecida pelo fabricante (Fundação Mokiti Okada) e é apresentado como um preparado líquido que contém diversos tipos de microrganismos selecionados para desempenhar funções desejáveis com eficácia nas mais diversas situações. Os EM® são utilizados na produção do composto de farelos, na composição de rações, na água de bebida dos animais e em outros processos.

Deve-se proceder à análise de solo para fazer adubação orgânica?

     Sim. A análise química periódica é a única maneira de se conhecer a fertilidade do solo, ou seja, de saber se o solo está ácido ou não, e se os teores de macro e micronutrientes e de matéria orgânica estão adequados. É a partir dos resultados da análise química que se pode saber se há ou não  necessidade de calagem, que nutrientes estão em falta e quanto se deve aplicar de fertilizantes para aquela determinada cultura.

Que tipo de análise deve ser solicitada ao laboratório?

     Deve-se solicitar a análise de rotina, que geralmente consiste das determinações de pH, cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K), fósforo (P), alumínio (Al), acidez potencial (H+Al) e matéria orgânica. Havendo interesse específico de acordo com a exigência nutricional da cultura e sendo  economicamente viável para o produtor, recomenda-se solicitar também a análise do enxofre (S) e de micronutrientes.
     A textura não é uma característica química do solo, mas deve ser determinada em laboratório na primeira vez que se amostra a área. Seu conhecimento ajuda a entender o comportamento de certos nutrientes no solo e a determinar com maior precisão a necessidade de fornecimento destes. Nas amostragens posteriores do solo da mesma área não é necessário repetir a análise de textura, por ser uma característica física do solo que praticamente não sofre modificações. Em geral, os laboratórios de fertilidade do solo também fazem a determinação de textura.

Como calcular a quantidade de adubos a ser utilizada?

     Esse assunto ainda precisa ser melhor estudado, pois em olericultura orgânica o enfoque das adubações deve basear-se não apenas no aspecto químico da fertilidade do solo, mas também nos
componentes físicos, físico-químicos e biológicos do solo, levando em consideração inclusive os efeitos de médio e longo prazos do manejo da matéria orgânica. O cálculo da adubação para o plantio deve basear-se na análise química do solo, na composição química do adubo e na exigência da cultura.
     Em geral, as recomendações de material orgânico situam-se entre 10 t ha-1 e 50 t ha-1 de composto orgânico ou esterco curtido. Essas doses devem ser ajustadas de acordo com a cultura, com a qualidade do material, com as características químicas do solo que se vai cultivar, com a cultura antecessora e com o histórico de manejo orgânico. Como o sistema de manejo intensivo utilizado na produção de hortaliças tende a favorecer a elevação dos teores de nutrientes no solo com o decorrer do tempo, é importante considerar o efeito residual da adubação orgânica a fim de evitar desequilíbrios nutricionais.

É possível ter um exemplo do cálculo da quantidade de adubos?

Como exemplo, considere-se o plantio de 1 ha de cebola pelos critérios de interpretação e recomendação da agricultura convencional, cuja análise de solo indicasse a necessidade de 120 kg de N, 180 kg de K2O, 300 kg de P2O5. Na propriedade em questão, tem-se disponível o esterco bovino, cinzas e fosfato natural, cujas características estão apresentadas na Tabela 1.

 Tabela 1. Teores de nitrogênio, fósforo e potássio (% na matéria seca – MS e fatores de conversão (fc) de alguns fertilizantes.


Fertilizante                          Nitrogênio                          Fósforo                              Potássio
                                          % MS       fc                      % MS     fc                        % MS        fc

Esterco bovino                      5           20                     2,5         40                          5             20
Fosfato natural                      -             -                        30         3,3                         -               -
Cinzas                                   -             -                       2,5         40                          10           10
fc= 100% MS
Fonte: Souza e Resende2

2  SOUZA, J. L.; RESENDE, P. Manual de Horticultura Orgânica. Viçosa, MG: Aprenda Fácil, 2003. 564 p.


     Nesse caso, como fonte de N tem-se apenas o esterco bovino. Assim, para suprir todo o N recomendado (120 kg de N), a quantidade de esterco necessária será:

N = quantidade de N recomendada pela análise de solo x fc para N = 120 x 20 = 2.400 kg ha-1 de esterco bovino que fornece também:
P = kg ha-1 de esterco bovino: fc para P = 2.400/40 = 60 kg ha-1;
K = kg ha-1 de esterco bovino: fc para K = 2.400/20 = 120 kg ha-1.
Para completar o K, usam-se cinzas como adubo:
K = (quantidade recomendada de K - K fornecido pelo esterco bovino) x fc para K = (180-120) x 10 = 600 kg ha-1 de cinzas que fornecem também:
P = kg ha-1 de cinzas : fc para P = 600/40 = 15 kg ha-1.
Para completar o P, usa-se o fosfato natural:
P = (quantidade recomendada de P - P fornecido pelo esterco bovino - P fornecido pelas cinzas) x fc para P = (300-60-15) x 3,3 = 742 kg ha-1 de fosfato natural.

     Portanto, para atender as recomendações indicadas pela análise de solo para o plantio de 1 ha de cebola deve-se aplicar 2.400 kg de esterco bovino, 600 kg de cinzas e 742 kg de fosfato natural.
     Esses cálculos levam em consideração apenas a constituição química dos adubos, porém os aspectos físico e biológico do solo e o efeito residual das adubações, muito importantes nos sistemas de produção orgânicos, não são considerados. Portanto, as quantidades recomendadas no exemplo devem ser ajustadas de acordo com a situação específica (características climáticas, de solo e  histórico de manejo de cada local) do sistema de produção.

O que fazer para corrigir uma eventual deficiência no meio do ciclo da cultura?

     Sistemas orgânicos efetivamente equilibrados e sustentáveis não devem apresentar deficiências minerais. Contudo, falhas na escolha das culturas, no manejo ou na própria concepção do sistema, especialmente na fase de transição para o sistema orgânico, podem propiciar o aparecimento de deficiências. Nesse caso, a correção pode ser feita por meio de aplicações de biofertilizantes, cuja formulação pode ser ajustada de acordo com a necessidade das culturas. Pode-se preparar diferentes formulações de biofertilizantes enriquecidos com os diversos macro e micronutrientes.

O que fazer para corrigir a toxidez?

     Situações de toxidez são raras em sistemas orgânicos. Em solos de baixa fertilidade, como os latossolos da região do Cerrado, no(s) primeiro(s) ano(s) de cultivo, é possível ocorrer toxidez de magnésio (Mn) e/ou de ferro (Fe). Nesse caso, a correção se faz com a calagem calculada de acordo com a análise de solo e na quantidade permitida para sistemas orgânicos. Por causa de seu alto poder tampão, a adição de matéria orgânica ao solo ajuda a corrigir problemas de excessos e deficiências de nutrientes, especialmente de micronutrientes, com muitos dos quais forma quelatos, regulando a disponibilidade para as plantas.

Quais as principais fontes de nitrogênio permitidas na produção orgânica?

     Estercos puros de animais diversos, cama e urina de animais, espécies leguminosas de adubos verdes (mucunas, crotalárias, guandu, feijão-de-porco, feijão-bravo-do-ceará, etc.), resíduos agroindustriais como torta de oleaginosas (mamona, algodão, soja) e de cacau, palhadas e resíduos de culturas leguminosas como soja e feijão, farinha de sangue, farinha de peixe, composto orgânico,
biofertilizantes, bokashis, entre outros.

Quais as principais fontes de potássio, fósforo e micronutrientes permitidas para uso na produção orgânica?

     As principais fontes são:
• Para potássio: cinzas, cascas de café, pós de rochas silicatadas com altos teores de potássio, talos de banana, entre outros.
• Para fósforo: fosfatos naturais e farinha de ossos.
• Para micronutrientes: alguns pós de rocha, estercos, fontes minerais permitidas (óxido de cobre e outros utilizados nos biofertilizantes).

     De acordo com a Instrução Normativa no 7, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, podem ser utilizados sulfato de potássio e sulfato duplo de potássio e magnésio (de origem mineral natural), termofosfatos, sulfato de magnésio, ácido bórico (quando não utilizado diretamente sobre as plantas e o solo) e carbonatos (como fonte de micronutrientes). Entretanto, esses produtos só podem ser empregados se a necessidade de utilização for indicada pela análise e se esses fertilizantes  estiverem livres de substâncias tóxicas. Além disso, a permissão para utilização depende também das normas da certificadora.


Ferreira On 3/10/2017 09:56:00 AM Comentarios LEIA MAIS

segunda-feira, 10 de abril de 2017

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Capítulo 8: Manejo da água

Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.brPara ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo 8 – Manejo da água

Autores:  Henoque R. da Silva e Waldir A. Marouelli




Que problemas a água de irrigação pode apresentar?
     Os principais problemas estão relacionados à disponibilidade e à qualidade da água. Antes de implantar o projeto de irrigação é preciso avaliar se a fonte de água é suficiente para suprir a demanda das culturas a serem estabelecidas, e se os aspectos de natureza física, química e biológica da água não limitam sua utilização para a irrigação de hortaliças.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos físicos da água de irrigação?
     Na natureza, a água pode apresentar impurezas de ordem física que afetam seu uso na irrigação. A presença de partículas sólidas é o que mais restringe o uso da água na irrigação, pois essas partículas podem provocar entupimento em filtros, gotejadores e microaspersores, desgaste de bombas hidráulicas e tubulações, além de depositar sedimentos sobre as plantas afetando as trocas gasosas e a qualidade visual dos produtos. Outras características de menor importância dizem respeito a turbidez, cor, odor e temperatura da água.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos químicos da água de irrigação?
      As principais características químicas relacionam-se à salinidade, à proporção do elemento sódio em relação aos elementos cálcio e magnésio (razão de adsorção de sódio), ao pH e a elementos tóxicos às plantas. A salinidade está associada à quantidade total de sais solúveis presentes na solução do solo e a seus efeitos no desenvolvimento e produção das plantas. Os danos causados são devidos, principalmente, ao “aumento” da pressão osmótica da solução do solo, o que reduz a disponibilidade de água às plantas. A salinidade é expressa pela concentração de sais dissolvidos totais (SDT), em miligramas por litro (mg L-1) ou, mais comumente, pela condutividade elétrica (CE), 191 192 193 131 expressa em deciSiemens por metro (dS m-1).
     Elevadas concentrações de sódio trocável, relativamente ao cálcio e magnésio, especialmente quando a concentração salina for reduzida, aumentam a dispersão e movimentação das partículas finas reduzindo a porosidade e a infiltração, dificultando a reposição de água ao solo e a oxigenação na zona radicular. A proporção relativa de sódio em relação ao cálcio e magnésio é expressa em termos da Razão de Adsorção de Sódio (SAR).
     O pH é um indicador da acidez ou basicidade da água, quase nunca um problema para a irrigação. Valores de pH na faixa entre 6,5 e 8,4 são, no entanto, um indicativo da necessidade de se realizar análise mais detalhada da água. A água também pode conter íons como boro, cloreto e sódio, que, mesmo em concentrações reduzidas, podem ser tóxicos às plantas.

Quais os principais problemas relacionados aos aspectos biológicos da água de irrigação?
     Os principais problemas estão associados à transmissão de doenças, entupimentos de emissores e proliferação de algas e plantas aquáticas. Quando contaminada por efluentes não tratados (esgoto), a água é um meio eficiente de transmissão de doenças ao homem, as quais podem ser causadas por bactérias, protozoários, helmintos, vírus e fungos. A água também pode transmitir várias doenças às plantas.
     A proliferação de algas e bactérias pode causar problemas de entupimento de gotejadores e microaspersores. A proliferação de plantas aquáticas em canais de irrigação e reservatórios de água também pode acarretar problemas. Além disso, pode servir de criadouro para mosquitos e outros seres vivos transmissores de moléstias infecciosas.

Existe algum método simples para avaliar a qualidade da água de irrigação?
     Sim. Algumas características da água podem ser avaliadas visualmente in loco ou por meio de informações dos agricultores. A turbidez é o primeiro aspecto a ser observado. Água com aparência turva e opaca indica a presença de partículas em suspensão e/ou substâncias em solução. Em geral, a presença de argila e silte dá à água um aspecto barrento. Águas poluídas por efluentes não tratados (esgoto), em geral ricas em matéria orgânica, apresentam coloração acinzentada, e quanto mais escuras geralmente são mais contaminadas. Águas contaminadas por esgoto podem ainda ser identificadas pelo odor.
     Em relação à qualidade química, águas salobras indicam grande presença de sais e requerem manejo adequado para fins de irrigação. Informações de agricultores sobre possíveis danos causados pela água às culturas específicas e formação de camadas esbranquiçadas de sal na superfície do solo também são úteis ao se fazer uma avaliação qualitativa da água. A presença de ferro solúvel na água, que pode causar problemas sérios de entupimento de gotejadores, pode ser constatada por sua precipitação, que provoca a formação de pontos amarelados nas margens de fontes de água.

Que tipos de poluição podem afetar a qualidade da água de irrigação?
     Os principais poluentes da água de irrigação têm origem nos efluentes domésticos (esgoto), industriais (poluentes orgânicos e inorgânicos) e da própria atividade agrícola. A água pode ser o veículo de disseminação de doenças entre os seres vivos quando contaminada por agentes patogênicos (bactérias, protozoários, helmintos, vírus e fungos) ou químicos (nitrato, agrotóxicos, metais pesados).

Como a poluição da água pode afetar a produção de hortaliças no sistema orgânico?
     Primeiramente, não é recomendado o uso de águas contendo grau de poluição acima dos limites estabelecidos pela Resolução no 357, de 17 de março de 2005, do Conama/MMA. Portanto, o uso de águas com grau de contaminação acima do aceitável, além de desrespeitar as normas vigentes, pode não permitir a certificação da propriedade.
     A legislação brasileira sobre as normas de produção orgânica está em processo de construção. Atualmente, encontra-se distribuída em vários instrumentos de diretrizes e normas, os quais não contemplam em seu bojo os limites estabelecidos de qualidade de água de irrigação. Assim, até que se publique uma legislação específica, a qualidade da água estabelecida na Resolução 357/05 deve ser tomada como parâmetro, respeitados os limites máximos de contaminação por coliformes termotolerantes, pois a produção pode ser seriamente comprometida, dependendo do grau e da natureza da poluição da água.
     Águas poluídas, em geral, apresentam características físicas, químicas e biológicas que afetam negativamente o equilíbrio do sistema orgânico como um todo, especialmente a microbiologia do solo. Águas com alta concentração de metais pesados e nitrogênio podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, além de depositar e acrescentar resíduos tóxicos nos produtos.

Como proteger as fontes e os mananciais de água na propriedade?
     Basicamente, a proteção das fontes e mananciais de água tem por objetivo manter a quantidade e a qualidade da água disponível. Caso a fonte ou o manancial já estejam comprometidos, ações mitigadoras devem ser tomadas para melhorar a conservação da água. Práticas de manejo integrado de bacias hidrográficas, por exemplo, têm por objetivo melhorar a recarga dos sistemas hídricos que as compõem, proporcionando maior disponibilidade de água, com expressiva melhoria da qualidade.
     Dentro da propriedade agrícola, devem-se adotar práticas que proporcionem maior infiltração de água e o controle de erosão do solo. Dentre essas práticas, podem-se destacar:
• Preservação da vegetação nativa.
• Proteção de nascentes.
• Regulação do regime dos corpos de água por meio de represamento.
• Práticas diversas de conservação do solo, como construção de terraços, plantio em nível, sistema de plantio direto e recuperação da estrutura física e biológica dos solos por meio de adubação verde, uso de compostagem e cobertura morta (mulching).

Que sistemas de irrigação estão disponíveis, atualmente, para a produção orgânica de hortaliças?
     Em princípio, todos os sistemas de irrigação podem ser utilizados para a irrigação de hortaliças em sistema orgânico, com destaque para os sistemas por aspersão, por sulco e por gotejamento. Não existe nenhum sistema que possa ser recomendado indistintamente para todas as hortaliças, tipos de solo e condições climáticas, pois os sistemas apresentam características próprias, com custos variáveis, vantagens e desvantagens. Dentre os sistemas por aspersão, o convencional é o mais empregado em razão do menor custo e do fato de a produção de hortaliças em sistemas orgânicos ocorrer em áreas geralmente menores que 5 ha.

Existe alguma restrição para usar na agricultura orgânica sistemas de irrigação normalmente utilizados no cultivo convencional?
     Não, pois não existe sistema de irrigação específico para a agricultura orgânica. Entretanto, o sistema de irrigação a ser selecionado deve ser o que melhor se adapte a cada situação ou cultura, especialmente no que se refere ao favorecimento de doenças e ao custo.

Qual a relação entre sistemas de irrigação e incidência de pragas e doenças?
     Para que a maioria das doenças se desenvolva é fundamental a existência de água livre na folha ou água abundante no solo. Assim, a irrigação inadequada, seja na quantidade, na freqüência ou na forma de aplicação, favorece diretamente a ocorrência e a severidade da maioria das doenças nas plantas.
     Em geral, os sistemas por aspersão acentuam a sobrevivência e a dispersão de patógenos na lavoura, em razão de a água ser aplicada sobre a parte aérea das plantas, ao passo que os sistemas por gotejamento e, principalmente, por sulco favorecem as doenças causadas por patógenos de solo, especialmente em solos com problema de drenagem (argilosos ou compactados). Entretanto, a aspersão, em virtude da ação mecânica das gotas de água, minimiza a incidência de pragas, como ácaros, traça-do-tomateiro e pulgões, bem como de algumas doenças, como o oídio. O uso de irrigação por sulco ou gotejamento, especialmente em cultivo protegido, pode minimizar consideravelmente a incidência de doenças bacterianas em pimentão e tomate, por exemplo.

Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por sulco?

Vantagens
• Baixo investimento inicial.
• Uso reduzido de energia.
• Simplicidade na operação e na manutenção.
• Possibilidade de utilização de águas com sedimentos.
• Redução da incidência de doenças da parte aérea. Desvantagens • Requer terrenos planos ou sistematizados.
• Requer maior uso de água e de mão-de-obra.
• Inadequado para solos permeáveis (arenosos).
• Maior incidência de doenças de solo.
• Dificuldade de circulação de máquinas na área irrigada.
• Maior potencial de salinização e erosão do solo.

Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por aspersão?

Vantagens
• Pode ser utilizado em terrenos com diferentes declividades e solos de diferentes texturas, inclusive os arenosos.
 • Menor gasto de água que o sistema por sulco.
• Menor uso de mão-de-obra.
 • Melhor distribuição de água sobre o terreno.
 • Permite a aplicação de nutrientes via água de irrigação.
• Reduz o ataque de ácaros e outros insetos. Desvantagens
 • Maior custo de implantação que o sistema por sulco.
• Maior consumo de energia.
• Sofre interferência do vento.
• Perda de água por evaporação em climas secos e quentes.
 • Interferência nos tratamentos fitossanitários.
 • Maior incidência de doenças da parte aérea.

 Quais as vantagens e desvantagens do sistema de irrigação por gotejamento?

Vantagens
 • Economia e eficiência no uso de água.
• Uso reduzido de energia e de mão-de-obra.
 • Não sofre ação de fatores climáticos.
• Pouca interferência nas práticas culturais.
• O sistema pode ser usado em solos de diferentes texturas, declividades e grau de salinidade.
 • Permite automação total da irrigação.
• A aplicação localizada da água reduz a incidência de plantas daninhas nas entrelinhas.
 • Reduz a incidência de doenças da parte aérea.
 • Permite a aplicação parcelada de diferentes nutrientes via água. Desvantagens
 • Elevado custo de implantação.
• Alto risco de entupimento de emissores.
 • Necessidade de remoção das linhas de gotejadores ao final do ciclo da cultura.
 • Favorece algumas doenças de solo, como a murcha bacteriana.
 • Requer cuidados especiais para o manejo e manutenção do sistema.
 • Alto custo de manutenção do sistema.

Qual a importância do manejo da irrigação no sistema de produção orgânica de hortaliças?
     As hortaliças são culturas altamente sensíveis tanto à falta quanto ao excesso de água. Portanto, a determinação do momento correto de se irrigar e da quantidade adequada de água a ser aplicada por irrigação é de importância primordial para a produção de hortaliças. Irrigar menos que o necessário restringe as atividades fisiológicas das plantas, comprometendo a produtividade e qualidade dos produtos colhidos. Por sua vez, irrigações em excesso favorecem maior incidência de doenças, lixiviação de nutrientes e gastos extras com água e energia.

Na agricultura orgânica, as irrigações devem ter a mesma freqüência e quantidade de água que na agricultura convencional?
     O uso de grandes quantidades de material orgânico em sistemas orgânicos de produção promove a melhoria da estrutura física do solo, o que favorece maior capacidade de retenção de água e o maior crescimento do sistema radicular. Assim, por causa do maior armazenamento de água, o intervalo entre irrigações e a quantidade de água a ser aplicada por irrigação devem ser ligeiramente maiores que no sistema convencional. No sistema orgânico, onde não é permitida a aplicação de agrotóxicos, turnos de rega mais espaçados permitem minimizar a incidência de doenças, pois aumentam a eficiência dos tratos fitossanitários e reduzem o tempo com água livre no solo e na superfície da planta.

Como determinar o momento correto de se irrigar?
     As irrigações devem ser feitas antes que a deficiência de água no solo e/ou na planta possa prejudicar a produção da cultura. Muito embora o murchamento das folhas no final do período matinal seja um indicativo visual da necessidade de irrigação, existem critérios mais precisos para determinar o momento correto para irrigar. Uma opção é avaliar a força com que a água está retida no solo (tensão matricial) ou a fração de água disponível no solo.
     A tensão matricial pode ser determinada direta ou indiretamente por diferentes tipos de sensores. O sensor mais conhecido é o tensiômetro, equipamento que mede a tensão de forma direta e contínua. Outro sensor, bastante simples e de baixo custo, é o Irrigas®, desenvolvido recentemente pela Embrapa Hortaliças. Outra opção é fazer o balanço de água no solo, e, nesse caso, o momento de irrigar é aquele em que as plantas tenham utilizado toda a água disponível. Maiores informações sobre ambos os critérios podem ser obtidos no livro Manejo da Irrigação em Hortaliças, publicado pela Embrapa Hortaliças. Na prática, a grande maioria dos agricultores avalia a umidade do solo visualmente, ou seja, de forma empírica. Nesse caso, dever-se-ia, pelo menos, avaliar a umidade na profundidade média das raízes e não na camada superficial do solo.

Como determinar a necessidade de água para cada tipo de hortaliça?
     A necessidade de água, que é variável ao longo do ciclo de crescimento das plantas, varia de hortaliça para hortaliça e até mesmo entre cultivares da mesma espécie. Depende ainda do sistema de irrigação, do sistema de cultivo e, principalmente, das condições climáticas.
     Portanto, não é uma tarefa simples calcular a quantidade de água a ser aplicada a cada irrigação. Plantas na fase inicial consomem menos água, ao passo que na fase de produção demandam mais água para manter os processos fisiológicos. O consumo diário de água, denominado evapotranspiração da cultura (ETc), é normalmente determinado por meio de equações, com base em variáveis climáticas, ou tanques de evaporação e de coeficientes de cultura (Kc). Valores de Kc, específicos para cada fase de desenvolvimento da cultura, estão disponíveis para as principais hortaliças e podem ser obtidos na publicação Manejo da Irrigação em Hortaliças, da Embrapa Hortaliças .

Como determinar a quantidade de água a ser aplicada por irrigação?
     Basicamente existem duas maneiras de calcular a quantidade de água a ser aplicada. A primeira baseia-se na quantidade de água  evapotranspirada pela cultura desde a última irrigação, ou seja, pela soma dos valores de ETc diários no período.
     A segunda consiste em determinar a quantidade de água necessária para elevar a umidade do solo, na profundidade das raízes, à capacidade de campo (teor de umidade que o solo atinge depois de drenado o excesso de água). Nesse caso, é necessário determinar em laboratório as características de retenção de água do solo a ser irrigado.
     Em ambos os procedimentos, deve-se levar em conta a eficiência de irrigação do sistema na determinação da quantidade de água a ser aplicada. A grande maioria dos produtores, todavia, determina a quantidade de água a ser aplicada por irrigação de forma empírica, baseada em tentativa e erro. Nesse caso, a quantidade de água deve ser a suficiente para molhar a camada de solo até na profundidade das raízes sem, contudo, encharcar o solo. Caso a umidade do solo abaixo do limite inferior do sistema radicular comece a aumentar, deve-se reduzir a quantidade de água nas irrigações subseqüentes.

Como determinar o tempo de irrigação para aplicar a água total necessária?
     O tempo para aplicar a quantidade total de água necessária por rega depende da intensidade de aplicação de água do sistema de irrigação. Assim, o tempo de irrigação em sistemas que aplicam água mais rapidamente será menor que sistemas que aplicam água lentamente. No caso de aspersão convencional, o tempo é função do espaçamento entre aspersores, do diâmetro de bocais e da pressão de serviço dos aspersores. Para gotejamento, o tempo é função da vazão e espaçamento entre gotejadores. Para o sistema por sulco, o tempo depende do espaçamento entre sulcos e do tipo de solo, devendo ser igual ao tempo necessário para a água atingir o final do sulco mais o tempo para que a quantidade de água necessária infiltre no solo.

É verdade que no sistema orgânico ocorre maior economia de água?
     Muito embora existam poucos estudos com esse enfoque, pode-se dizer que a economia é ligeiramente maior que no sistema convencional de produção. O menor gasto de água ocorre principalmente em razão do uso mais intensivo de material orgânico e de cobertura, que promovem a melhoria da estrutura física do solo e, conseqüentemente, o aumento de sua capacidade de armazenamento e de conservação de água. Assim, o intervalo entre irrigações no sistema orgânico pode ser maior que no sistema convencional, minimizando perdas de água por evaporação e percolação profunda.

Qual o melhor horário do dia para fazer as irrigações?
     Essa questão é de difícil resposta, pois depende de vários fatores, muitos deles pouco estudados. Em geral, o horário da irrigação tem pequena influência sobre o rendimento das culturas, exceto quando as regas são realizadas por aspersão, o que pode favorecer significativamente a severidade de doenças da parte aérea. A severidade depende do tipo de hortaliça, da pressão da população de patógenos, das condições climáticas e do tempo de molhamento foliar.
     A fim de minimizar o risco de algumas doenças da parte aérea, especialmente em regiões sujeitas à formação de orvalho, as regas por aspersão devem ser feitas preferencialmente depois das primeiras horas da manhã e antes das últimas horas da tarde, a fim de reduzir o tempo em que a água permanece sobre a folha. No sistema por aspersão, as regas devem ser feitas em horários sem vento ou com ventos de baixa intensidade. Irrigações durante períodos de ventos intensos, além de favorecer a maior evaporação de água, prejudica demasiadamente sua distribuição, podendo comprometer a produtividade.

Que outros aspectos devem ser considerados na escolha do horário de irrigação?
     Outros aspectos que não afetam a produtividade, mas que podem influenciar na escolha do horário da irrigação, estão relacionados à operação do sistema de irrigação, à disponibilidade de mão-de-obra e ao custo de energia. As companhias elétricas dispõem de tarifas com desconto especial para consumidores de irrigação agrícola. Os descontos, que dependem da região, podem variar entre 70 % e 90 %, para consumidores de alta tensão e entre 60 % e 73 %, para consumidores de baixa tensão. A exigência é que haja adesão do produtor ao programa e que as irrigações sejam feitas no horário noturno, entre 21h30 e 6h.
     A irrigação no período noturno apresenta a vantagem de minimizar as perdas de água por evaporação e, assim, conservar água e energia. Por sua vez, a irrigação noturna depende de maior grau de automatização do sistema de irrigação e da disponibilidade de mão-de-obra, além de envolver aspectos trabalhistas. Na escolha do horário de irrigação, outro fator importante é a capacidade do sistema de irrigação, pois este é geralmente dimensionado para funcionar durante um número máximo de horas por dia a fim de atender toda a área irrigada inicialmente prevista em projeto. Assim, muitas vezes, não se tem flexibilidade na escolha do horário de irrigação.

É necessário irrigar as hortaliças até no dia da colheita?
     Apenas as hortaliças folhosas devem ser irrigadas até na véspera da colheita. Para os demais tipos de hortaliças, as irrigações podem ser paralisadas vários dias antes da última colheita, pois o solo pode fornecer água às plantas por vários dias.
     A época correta de se paralisar as irrigações depende da textura do solo, do clima e da hortaliça cultivada. Em solos argilosos e clima ameno (temperatura baixa e umidade relativa alta), as irrigações podem ser paralisadas bem antes que em solos arenosos  e regiões de clima quente e seco. Em cultivos de cebola, batata e alho, por exemplo, as irrigações podem ser interrompidas de 5 a 10 dias antes da colheita. Em hortaliças do tipo fruto, como tomate e pimentão, as regas podem ser paralisadas entre 3 e 7 dias antes da última colheita.

sexta-feira, 10 de março de 2017

PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS - Capítulo7: Adubação Orgânica



Fonte: Livro da Embrapa Hortaliças – Brasília, DF. Interessados em adquirir o livro “PRODUÇÃO ORGÂNICA DE HORTALIÇAS – Coleção 500 Perguntas – 500 Respostas” devem entrar em contato através do email: vendas@sct.embrapa.br; Para ver o livro completo, acessar: http://mais500p500r.sct.embrapa.br/view/pdfs/90000021-ebook-pdf.pdf

     Com o objetivo de divulgar e aumentar o conhecimento sobre agricultura orgânica,  estamos transcrevendo  do livro, algumas perguntas e respostas que consideramos mais relevantes.

Capítulo7: Adubação Orgânica

Autores:  Ronessa B. de Souza e Flávia A. de Alcântara

O que são fertilizantes orgânicos?

     São fertilizantes (ou adubos) de natureza orgânica, ou seja, obtidos de matérias-primas de origem animal ou vegetal, sejam elas provenientes do meio rural, de áreas urbanas ou da agroindústria.
Os fertilizantes orgânicos podem ou não ser enriquecidos com nutrientes de origem mineral (não orgânica), podendo ser divididos em quatro tipos principais:
• Fertilizantes orgânicos simples.
• Fertilizantes orgânicos mistos.
• Fertilizantes orgânicos compostos.
• Fertilizantes organominerais.

O que é cada um desses tipos de fertilizante orgânico ?

• Fertilizantes orgânicos simples: fertilizante natural de origem animal ou vegetal. Exemplos: estercos animais, torta de mamona, borra de café.
• Fertilizantes orgânicos mistos: produto da mistura de dois ou mais fertilizantes orgânicos simples. Exemplo: cinzas (fonte principalmente de potássio (K)) + torta de mamona (fonte principalmente de nitrogênio (N))
• Fertilizantes orgânicos compostos: fertilizante não natural, ou seja, obtido por um processo químico, físico, físico-químico ou bioquímico, sempre a partir de matéria-prima orgânica, tanto vegetal como animal. Pode ser enriquecido com nutrientes de origem mineral. Exemplos: composto orgânico, vermicomposto (húmus de minhoca), lodo de esgoto.
• Fertilizantes organominerais: não passam por nenhum processo específico, são simplesmente o produto da mistura de fertilizantes orgânicos (simples ou compostos) com fertilizantes minerais.

Existem fertilizantes minerais de uso permitido na agricultura orgânica?

     Sim. Somente os fertilizantes minerais de origem natural e de baixa solubilidade são permitidos na agricultura orgânica, como os fosfatos naturais, os calcários e os pós de rocha. Em situações específicas, para uso restrito, uma vez constatada a necessidade de utilização do adubo e com autorização da certificadora, podem ser utilizados os termofosfatos, sulfato de potássio, sulfato duplo de potássio e magnésio de origem natural, sulfato de magnésio, micronutrientes e guano (fosfatos de origem orgânica – provenientes de excrementos de aves marinhas).


Pode-se fazer calagem no sistema orgânico?

     Sim. A calagem é permitida e a quantidade de calcário a ser utilizada deve ser calculada com base na análise química do solo.
Entretanto, a quantidade é geralmente limitada a 2 t/ha/ano.

Como saber que materiais são permitidos na adubação orgânica?

     Os padrões internacionais que regem a produção orgânica de alimentos estão agrupados na International Federation of Organic Agriculture Movements (Ifoam) e podem ser consultados pela internet no endereço <www.ifoam.org>. As normas brasileiras de produção orgânica constam da Instrução Normativa no 7, de 17/5/991, em que estão listados os materiais permitidos para uso na
adubação orgânica.

Existe algum problema em usar estercos frescos?

     Sim. Os estercos frescos podem conter microrganismos causadores de doenças no homem. Não devem ser utilizados no cultivo de hortaliças, pois podem contaminar as partes comestíveis das plantas. Esse problema pode ser resolvido pelo curtimento, ou envelhecimento do esterco em condições naturais, não controladas. Deve-se deixar o monte de esterco “envelhecer” em local coberto ou protegido com plástico ou lona contra chuvas, cujas águas lavam o esterco removendo os nutrientes. O tempo aproximado para ‘curtir’ é de 90 dias, dependendo das condições ambientais. O esterco curtido é uma massa escura com aspecto gorduroso, odor agradável de terra e sem nenhum mau cheiro.

O que é composto orgânico?

     Composto orgânico é o produto final da decomposição aeróbia (na presença de ar) de resíduos vegetais e animais. A compostagem permite a reciclagem desses resíduos e sua desinfecção contra pragas, doenças, plantas espontâneas e compostos indesejáveis. O composto orgânico atua como condicionador e melhorador das propriedades físicas, físico-químicas e biológicas do solo, fornece nutrientes, favorece o rápido enraizamento e aumenta a resistência das plantas.

Como é feito o composto orgânico?

     O composto orgânico é feito com resíduos vegetais, ricos em carbono (galhos, folhas, capim e outros), e resíduos animais, ricos em nitrogênio (esterco bovino, de aves e de outros animais, cama de aviário de matrizes, dentre outros). Quando se dispõe apenas de materiais pobres em N, como cascas de pínus, árvores velhas e capins, estes devem ser alternados com camadas de resíduos de leguminosas.
     A escolha da matéria-prima é importante para maior eficiência da compostagem. A relação  carbono/nitrogênio (C/N) inicial ótima (de 25–35:1) pode ser atingida com o uso de 75 % de restos vegetais variados e 25 % de esterco. Esses resíduos, vegetais e animais, são dispostos em camadas alternadas formando uma leira ou monte de dimensões e formatos variados.
     O formato mais usual é o de seção triangular, sendo a largura comandada pela altura da leira, a qual deve situar-se entre 1,5 m e 1,8 m. À medida que a pilha vai sendo formada, cada camada de material vai sendo umedecida com água, tomando-se o cuidado para que não haja escorrimento. A pilha deve ser revirada (parte de cima para baixo e parte de dentro para fora) aos 15, 30 e 45 dias. No momento das reviradas, o material deve ser umedecido para que a umidade fique em torno de 50 % a 60 % (na prática, atinge-se esse teor de umidade quando o material transmite a sensação de úmido ao ser tocado com as mãos, e, ao ser comprimido, não deixa escorrer água entre os dedos e forma um torrão que se desmancha com facilidade).
     Para manter a umidade ideal, a pilha deve ser coberta com palhas, folhas de bananeira ou lona de plástico. O local deve ser protegido do sol e da chuva (área coberta ou à sombra de uma árvore). Como exemplo, pode-se citar o composto produzido na Unidade de Produção de Hortaliças  orgânicas da Embrapa Hortaliças:

• 15 carrinhos-de-mão de capim braquiária roçado.
• 30 carrinhos de capim-napier.
• 20 carrinhos de cama de matriz de aviário.
• 13 kg de termofosfato.

     Formar camadas alternadas na seguinte ordem: braquiária, napier, cama de matriz e termofosfato, montando uma meda de 1 m x 10 m x 1,5 m (largura x comprimento x altura) para obtenção de 2.500 kg de composto orgânico após cerca de 90 dias.

Quais as vantagens do composto orgânico em relação ao esterco curtido?

     O composto orgânico é um produto estabilizado e mais equilibrado, em cujo processo de produção ocorreram todas as condições necessárias à eficiente fermentação aeróbica, dando-lhe qualidade superior à do esterco curtido como condicionador ou melhorador do solo. Além disso, é mais rico em nutrientes por constituir-se de resíduos vegetais e animais e por ser, muitas vezes, enriquecido com resíduos agroindustriais e adubos minerais.

Como saber quando o composto orgânico está pronto?

     O composto orgânico estará pronto para uso quando apresentar as seguintes características:
• Temperaturas normalmente inferiores a 35 oC.
• Redução do volume para 1/3 do volume inicial.
• Constituintes degradados fisicamente, não sendo possível identificá-los.
• Permite que seja moldado facilmente com as mãos.
• Cheiro de terra mofada, tolerável e até mesmo agradável para alguns.

Como enriquecer o composto orgânico?

     O enriquecimento do composto orgânico pode ser obtido com a adição, no momento de montagem da pilha, de fosfatos de reação ácida como fosfatos naturais (6 kg m-3), calcário (25 kg t-1 a 50 kg t-1), torta de cacau (40 kg m-3) ou de mamona (20 kg m-3 a 30 kg m-3), borra de café (50 kg m-3), cinzas, entre outros. O enriquecimento do composto orgânico deve ser feito de acordo com as exigências da cultura e a necessidade do solo. Geralmente, o enriquecimento com fósforo (P) só é recomendado nos 2 ou 3 anos iniciais de produção, e sua continuidade por mais tempo depende da disponibilidade de fósforo no solo.

O que é biofertilizante?

     É o material líquido resultante da fermentação de estercos, enriquecido ou não com outros resíduos orgânicos e nutrientes, em água. O processo de fermentação pode ser aeróbico (na presença de ar) ou anaeróbico (na ausência de ar). Os biofertilizantes podem ser aplicados via foliar, diluídos em água na proporção de 2 % a 5 %, ou no solo, via gotejamento. A forma como o biofertilizante atua nas plantas ainda não é completamente esclarecida e merece ser melhor estudada. Apresenta efeitos nutricionais (fornecimento de micronutrientes) e fitossanitários, atuando diretamente no controle de alguns fitoparasitas por meio de substâncias com ação fungicida, bactericida ou inseticida presentes em sua composição. Parece atuar equilibrando e tonificando o metabolismo da planta, tornando-a mais resistente ao ataque de pragas e doenças. Entre os biofertilizantes mais conhecidos destacam-se:

• Supermagro.
• Agrobio.
• Biofertilizante líquido (Vairo).

Como surgiram os biofertilizantes Vairo, Supermagro e Agrobio?

     O biofertilizante Vairo é o efluente pastoso resultante da fermentação anaeróbia da matéria orgânica em biodigestor.  O biodigestor é uma invenção secular, originária da Ásia, cujo objetivo primário era o saneamento de dejetos humanos e animais, e o secundário, a produção de gás metano, fonte alternativa de energia de baixo custo no meio rural.
     No Brasil, o uso do efluente líquido de biodigestores como fertilizante teve início na década de 1980 por extensionistas da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (Emater/Rio), principalmente pelo engenheiro agrônomo Antônio Carlos Vairo dos Santos. Esse biofertilizante é obtido a partir da fermentação, em sistema fechado (ausência de ar), do esterco fresco de gado ruminante, de preferência gado leiteiro.O Supermagro é uma variante do biofertilizante Vairo. Foi elaborado pelo Delvino Magro, fruticultor, técnico agrícola e secretário da Agricultura do Município de Ipê, Rio Grande do Sul. O Supermagro foi utilizado por ele por mais de 20 anos para o controle de doenças e pragas de fruteiras temperadas, especialmente maçã, no Sul do Brasil. É a formulação mais difundida atualmente, na qual são misturados ingredientes orgânicos e minerais, basicamente micronutrientes, todos submetidos à fermentação anaeróbica.
     Outra formulação bastante conhecida é o Agrobio, elaborado por pesquisadores da Estação  xperimental de Itaguaí, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro), desde 1997, e de composição semelhante ao Supermagro. É constituído igualmente de uma mistura de materiais orgânicos e minerais fermentados  erobicamente por 8 semanas.

Como preparar um biofertilizante na propriedade?

     Não há uma fórmula padrão para a produção de biofertilizante. Apresenta-se, a seguir, uma receita básica de biofertilizante líquido, na qual podem ser feitas variações:
Em uma bombona de plástico, colocam-se volumes iguais de esterco fresco e água, deixando um espaço vazio de 15 cm a 20 cm. Essa bombona deve ser fechada hermeticamente, adaptando-se uma mangueira fina de plástico em sua tampa. Uma extremidade da mangueira fica no espaço vazio da bombona e a outra deve ser imersa em um recipiente com água para permitir a saída do gás metano e impedir a entrada de ar (oxigênio). O final do processo, que dura de 30 a 40 dias, coincide com a cessação do borbulhamento observado no recipiente d’água, quando a solução deve ter atingido pH próximo de 7,0.
     Para separação da parte ainda sólida, o material deve ser coado em peneira e filtrado em um pano ou tela bem fina. Geralmente é utilizado diluído em água em concentrações variáveis de acordo com os diferentes usos e aplicações. É recomendado em dosagens mais elevadas de até 30 % do que as do Supermagro ou do Agrobio. Esse biofertilizante tem múltiplas finalidades, desde o controle de determinados fitopatógenos até a promoção de florescimento e enraizamento de algumas plantas cultivadas.

O que são os compostos de farelos ou bokashis?

     São compostos orgânicos produzidos a partir da mistura de argilas com farelos de cereais (arroz, trigo), torta de oleaginosas (soja, mamona), farinha de osso, farinha de peixe e outros resíduos.
Essa mistura é inoculada com microrganismos e submetida à fermentação aeróbica ou anaeróbica. O inoculante microbiano pode ser terra de mata (bosque natural), soja fermentada, microrganismos capturados da natureza por meio de arroz cozido ou inoculantes comerciais como o EM® (microrganismos eficazes). Sua composição deve ser ajustada de acordo com os ingredientes disponíveis e as necessidades nutricionais das culturas. Por utilizar matérias-primas nobres, de uso freqüente na alimentação animal, o bokashi é um fertilizante relativamente caro e rico em nutrientes, especialmente N, P e K.
     Existem diferentes formulações com duração variável de 3 a 21 dias para obtenção do composto. Durante o processo fermentativo aeróbio, a umidade deve permanecer em torno de 50 % a 60 % e a temperatura em torno de 50 oC. Na maioria das formulações, a movimentação da mistura é feita diariamente, uma vez que a temperatura eleva-se com facilidade por causa das boas características físicas (partículas pequenas) e químicas (riqueza em nutrientes) da matéria-prima.
     O final do processo caracteriza-se pela queda de temperatura. O composto de farelos mais conhecido é o Nutri Bokashi, produzido pela Kórin, empresa criada em 1995 pela Fundação Mokiti Okada, que utiliza os microrganismos eficazes (EM®) como inoculante.

O que são EM®?

     São preparados microbianos denominados “microrganismos eficazes” que servem como inoculante. Sua composição não é fornecida pelo fabricante (Fundação Mokiti Okada) e é apresentado como um preparado líquido que contém diversos tipos de microrganismos selecionados para desempenhar funções desejáveis com eficácia nas mais diversas situações. Os EM® são utilizados na produção do composto de farelos, na composição de rações, na água de bebida dos animais e em outros processos.

Deve-se proceder à análise de solo para fazer adubação orgânica?

     Sim. A análise química periódica é a única maneira de se conhecer a fertilidade do solo, ou seja, de saber se o solo está ácido ou não, e se os teores de macro e micronutrientes e de matéria orgânica estão adequados. É a partir dos resultados da análise química que se pode saber se há ou não  necessidade de calagem, que nutrientes estão em falta e quanto se deve aplicar de fertilizantes para aquela determinada cultura.

Que tipo de análise deve ser solicitada ao laboratório?

     Deve-se solicitar a análise de rotina, que geralmente consiste das determinações de pH, cálcio (Ca), magnésio (Mg), potássio (K), fósforo (P), alumínio (Al), acidez potencial (H+Al) e matéria orgânica. Havendo interesse específico de acordo com a exigência nutricional da cultura e sendo  economicamente viável para o produtor, recomenda-se solicitar também a análise do enxofre (S) e de micronutrientes.
     A textura não é uma característica química do solo, mas deve ser determinada em laboratório na primeira vez que se amostra a área. Seu conhecimento ajuda a entender o comportamento de certos nutrientes no solo e a determinar com maior precisão a necessidade de fornecimento destes. Nas amostragens posteriores do solo da mesma área não é necessário repetir a análise de textura, por ser uma característica física do solo que praticamente não sofre modificações. Em geral, os laboratórios de fertilidade do solo também fazem a determinação de textura.

Como calcular a quantidade de adubos a ser utilizada?

     Esse assunto ainda precisa ser melhor estudado, pois em olericultura orgânica o enfoque das adubações deve basear-se não apenas no aspecto químico da fertilidade do solo, mas também nos
componentes físicos, físico-químicos e biológicos do solo, levando em consideração inclusive os efeitos de médio e longo prazos do manejo da matéria orgânica. O cálculo da adubação para o plantio deve basear-se na análise química do solo, na composição química do adubo e na exigência da cultura.
     Em geral, as recomendações de material orgânico situam-se entre 10 t ha-1 e 50 t ha-1 de composto orgânico ou esterco curtido. Essas doses devem ser ajustadas de acordo com a cultura, com a qualidade do material, com as características químicas do solo que se vai cultivar, com a cultura antecessora e com o histórico de manejo orgânico. Como o sistema de manejo intensivo utilizado na produção de hortaliças tende a favorecer a elevação dos teores de nutrientes no solo com o decorrer do tempo, é importante considerar o efeito residual da adubação orgânica a fim de evitar desequilíbrios nutricionais.

É possível ter um exemplo do cálculo da quantidade de adubos?

Como exemplo, considere-se o plantio de 1 ha de cebola pelos critérios de interpretação e recomendação da agricultura convencional, cuja análise de solo indicasse a necessidade de 120 kg de N, 180 kg de K2O, 300 kg de P2O5. Na propriedade em questão, tem-se disponível o esterco bovino, cinzas e fosfato natural, cujas características estão apresentadas na Tabela 1.

 Tabela 1. Teores de nitrogênio, fósforo e potássio (% na matéria seca – MS e fatores de conversão (fc) de alguns fertilizantes.


Fertilizante                          Nitrogênio                          Fósforo                              Potássio
                                          % MS       fc                      % MS     fc                        % MS        fc

Esterco bovino                      5           20                     2,5         40                          5             20
Fosfato natural                      -             -                        30         3,3                         -               -
Cinzas                                   -             -                       2,5         40                          10           10
fc= 100% MS
Fonte: Souza e Resende2

2  SOUZA, J. L.; RESENDE, P. Manual de Horticultura Orgânica. Viçosa, MG: Aprenda Fácil, 2003. 564 p.


     Nesse caso, como fonte de N tem-se apenas o esterco bovino. Assim, para suprir todo o N recomendado (120 kg de N), a quantidade de esterco necessária será:

N = quantidade de N recomendada pela análise de solo x fc para N = 120 x 20 = 2.400 kg ha-1 de esterco bovino que fornece também:
P = kg ha-1 de esterco bovino: fc para P = 2.400/40 = 60 kg ha-1;
K = kg ha-1 de esterco bovino: fc para K = 2.400/20 = 120 kg ha-1.
Para completar o K, usam-se cinzas como adubo:
K = (quantidade recomendada de K - K fornecido pelo esterco bovino) x fc para K = (180-120) x 10 = 600 kg ha-1 de cinzas que fornecem também:
P = kg ha-1 de cinzas : fc para P = 600/40 = 15 kg ha-1.
Para completar o P, usa-se o fosfato natural:
P = (quantidade recomendada de P - P fornecido pelo esterco bovino - P fornecido pelas cinzas) x fc para P = (300-60-15) x 3,3 = 742 kg ha-1 de fosfato natural.

     Portanto, para atender as recomendações indicadas pela análise de solo para o plantio de 1 ha de cebola deve-se aplicar 2.400 kg de esterco bovino, 600 kg de cinzas e 742 kg de fosfato natural.
     Esses cálculos levam em consideração apenas a constituição química dos adubos, porém os aspectos físico e biológico do solo e o efeito residual das adubações, muito importantes nos sistemas de produção orgânicos, não são considerados. Portanto, as quantidades recomendadas no exemplo devem ser ajustadas de acordo com a situação específica (características climáticas, de solo e  histórico de manejo de cada local) do sistema de produção.

O que fazer para corrigir uma eventual deficiência no meio do ciclo da cultura?

     Sistemas orgânicos efetivamente equilibrados e sustentáveis não devem apresentar deficiências minerais. Contudo, falhas na escolha das culturas, no manejo ou na própria concepção do sistema, especialmente na fase de transição para o sistema orgânico, podem propiciar o aparecimento de deficiências. Nesse caso, a correção pode ser feita por meio de aplicações de biofertilizantes, cuja formulação pode ser ajustada de acordo com a necessidade das culturas. Pode-se preparar diferentes formulações de biofertilizantes enriquecidos com os diversos macro e micronutrientes.

O que fazer para corrigir a toxidez?

     Situações de toxidez são raras em sistemas orgânicos. Em solos de baixa fertilidade, como os latossolos da região do Cerrado, no(s) primeiro(s) ano(s) de cultivo, é possível ocorrer toxidez de magnésio (Mn) e/ou de ferro (Fe). Nesse caso, a correção se faz com a calagem calculada de acordo com a análise de solo e na quantidade permitida para sistemas orgânicos. Por causa de seu alto poder tampão, a adição de matéria orgânica ao solo ajuda a corrigir problemas de excessos e deficiências de nutrientes, especialmente de micronutrientes, com muitos dos quais forma quelatos, regulando a disponibilidade para as plantas.

Quais as principais fontes de nitrogênio permitidas na produção orgânica?

     Estercos puros de animais diversos, cama e urina de animais, espécies leguminosas de adubos verdes (mucunas, crotalárias, guandu, feijão-de-porco, feijão-bravo-do-ceará, etc.), resíduos agroindustriais como torta de oleaginosas (mamona, algodão, soja) e de cacau, palhadas e resíduos de culturas leguminosas como soja e feijão, farinha de sangue, farinha de peixe, composto orgânico,
biofertilizantes, bokashis, entre outros.

Quais as principais fontes de potássio, fósforo e micronutrientes permitidas para uso na produção orgânica?

     As principais fontes são:
• Para potássio: cinzas, cascas de café, pós de rochas silicatadas com altos teores de potássio, talos de banana, entre outros.
• Para fósforo: fosfatos naturais e farinha de ossos.
• Para micronutrientes: alguns pós de rocha, estercos, fontes minerais permitidas (óxido de cobre e outros utilizados nos biofertilizantes).

     De acordo com a Instrução Normativa no 7, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, podem ser utilizados sulfato de potássio e sulfato duplo de potássio e magnésio (de origem mineral natural), termofosfatos, sulfato de magnésio, ácido bórico (quando não utilizado diretamente sobre as plantas e o solo) e carbonatos (como fonte de micronutrientes). Entretanto, esses produtos só podem ser empregados se a necessidade de utilização for indicada pela análise e se esses fertilizantes  estiverem livres de substâncias tóxicas. Além disso, a permissão para utilização depende também das normas da certificadora.


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