Cultivo orgânico do feijão-de-vagem


   O feijão-de-vagem (Phaseolus vulgaris) é planta originária do México e da Guatemala. Para alguns, a Ásia tropical também é aceita também como local de origem desta espécie. O que diferencia o feijão-de-vagem dos outros feijões é o grão ser colhido ainda verde e ser consumido juntamente com a vagem. É uma leguminosa da família das fabaceae, assim como o feijão-fradinho, a ervilha, a soja, o feijão-preto e a fava italiana. A exploração comercial consiste no aproveitamento direto das vagens ainda tenras que são consumidas in natura ou industrializadas. O uso mais comum da vagem inteira ou picada, após ligeiro cozimento, é a salada temperada com óleo, sal e vinagre. Mas pode ser usada também em saladas mais elaboradas, juntamente com folhas verdes ou ainda numa salada de maionese, bem como em tortas, sopas, refogados,cozidos e omeletes. As vagens, além de serem fontes de vitaminas A, B1, B2 e C, ainda são ricas em fósforo, potássio e fibras. As vagens são excelentes controladores de acidose e indigestão e ainda agem sobre a glicemia, combatendo o diabetes. Por adaptar-se a clima seco e quente, preferindo temperaturas entre 15 e 30ºC, os preços mais elevados do produto ocorrem, normalmente, de junho a setembro.

 Escolha correta da área e análise do solo
Recomendam-se áreas não cultivadas com espécies da mesma família botânica nos últimos anos. Preferencialmente, devem-se utilizar solos leves e profundos, com mais de 3,5% de matéria orgânica e com boa drenagem. A análise do solo deve ser feita com antecedência para conhecimento da fertilidade do solo. Com base nessa análise, o técnico do município poderá fazer a recomendação adequada da acidez do solo e adubação orgânica.

Época de semeadura e cultivares
   A temperatura média ideal para o crescimento e polinização é de 18 a 30ºC e 15 a 25ºC, respectivamente. Em temperaturas abaixo de 15ºC as vagens ficam em forma de gancho. Temperaturas acima de 30ºC durante a floração levam ao aborto de flores, enquanto temperaturas entre 8 e 10ºC paralisam o crescimento. A planta não resiste a temperaturas abaixo de 0ºC. Os ventos durante o florescimento podem prejudicar a polinização ou causar a queda de flores por desidratação. Litoral Catarinense: Nas áreas livres de geadas, os períodos mais favoráveis vão de fevereiro até abril e de agosto até outubro. Em cultivo protegido, pode-se cultivar durante o inverno. Planalto Catarinense: De setembro até fevereiro. Cultivares indicadas: Tipo macarrão (vagem cilíndrica) – Estrela, Favorito, Campeão, Preferido e Predileto; tipo manteiga (vagem chata) – Maravilha e Teresópolis. Obs.: Todas as cultivares citadas são de crescimento indeterminado (exigem tutor) e tolerantes às doenças da ferrugem e antracnose, com exceção da Favorito, que é tolerante à ferrugem e ao oídio. Já existem no mercado as cultivares rasteiras de crescimento determinado que são mais precoces, podendo ser colhidas aos 55 a 60 dias após a semeadura.

Adubação orgânica
   Deve ser conforme recomendação, baseada na análise do solo e nos teores de nutrientes do adubo orgânico. Seguindo-se a recomendação e quando for utilizado o sistema de sucessão de culturas tomate/vagem, transplantado e semeado em julho/agosto e final de janeiro, respectivamente, aproveitando o mesmo tutor e o adubo residual do tomate, pode-se dispensar a adubação de plantio no feijão-de-vagem por ocasião da semeadura.

Semeadura e espaçamento
   O cultivo do feijão-de-vagem é realizado por semeadura direta em sulcos ou covas, feita manualmente ou com semeadora de tração mecânica ou manual. Espaçamento: 1,20 a 1,50m entre linhas por 40 a 50cm entre plantas.

 Irrigação
   Recomenda-se, a céu aberto e no cultivo protegido, o uso da irrigação por gotejamento. Fazer o controle da irrigação para não encharcar o solo e propiciar a entrada de doenças de solo. Deve-se realizar a irrigação somente pela manhã, principalmente no outono.

Adubação de cobertura e manejo de plantas espontâneas
    A adubação de cobertura, quando necessária, deve ser feita com base na análise do solo e nos teores de nutrientes do adubo orgânico, aos 20 e 40 dias após a germinação. A fase crítica da competição das plantas espontâneas com a cultura do feijão-de-vagem ocorre da germinação até os 40 dias. Nesse período,quando necessário, deve-se capinar na linha de plantio, mantendo-se uma cobertura de plantas espontâneas ou plantas de cobertura nas entrelinhas.

 Desbaste
   O desbaste é uma tarefa manual que consiste em retirar o excesso de plantas na fila de plantio. Realiza-se o desbaste aos 20 dias após a semeadura, deixando duas plantas por cova.

Tutoramento
   O tutoramento se faz necessário para evitar doenças, ordenar o crescimento das plantas e facilitar a colheita. Pode-se tutorar o feijão-devagem com varas, bambu, ráfia e tela agrícola. Para permitir maior ventilação entre as plantas, uma boa alternativa é o tutoramento vertical. Recomenda-se, sempre que possível, utilizar o sistema de sucessão de culturas tomate/vagem para aproveitamento do tutor.

Manejo de doenças e pragas
   As principais doenças que ocorrem no feijão-de-vagem são: antracnose, ferrugem, mancha angular, oídio e vírus-do-mosaico-comum (BCMV).

 Antracnose (Colletotrichum lindemuthianum) Este fungo causa uma das doenças mais destrutivas do feijão-de-vagem.Causa danos nos caules, pecíolos e nas vagens. Manejo: Usar cultivares tolerantes ou resistentes. Evitar plantio em locais úmidos e mal ventilados. Utilizar espaçamentos maiores entre plantas e filas. Fazer rotação de culturas. Suspender a irrigação caso seja por aspersão. Pulverizar com calda bordalesa a 0,5%.

 Ferrugem (Uromyces appendiculatus) Esta doença é causada por um fungo que pode atacar as hastes,mas predomina nas folhas. Manejo: Usar cultivares resistentes ou tolerantes. Fazer rotação de culturas. Evitar épocas quentes e chuvosas. Destruir os restos culturais através de compostagem. Pulverizar com calda bordalesa a 0,5%.

 Mancha angular (Phaeoisariopsis griseola) Esta doença fúngica se manifesta no caule, nas folhas e vagens, provocando, inicialmente, manchas circulares de cor castanha. Posteriormente, essas manchas adquirem coloração marrom-acinzentada e formato angular, sendo limitadas pelas nervuras das folhas. Manejo: Usar sementes sadias. Destruir os restos de culturas através de compostagem. Fazer rotação de culturas. Pulverizar com calda bordalesa a 0,5%.

 Oídio (Erysiphe polygoni). Esta doença fúngica ocorre sob condições de temperatura amena e baixa umidade, comuns em plantios tardios e no cultivo protegido. Os sintomas nas folhas são pequenas manchas ligeiramente mais escuras na face de cima da folha, que em seguida ficam cobertas por um mofo branco (Figura 1). Nessas condições as folhas podem morrer prematuramente. A doença pode atacar ramos e vagens, tornando estas malformadas e menores. Manejo: Fazer rotação de culturas. Utilizar a cultivar Favorito que é resistente ou tolerante à doença. Pulverizar com leite cru (10 a 15%).
 Figura 1. O fungo oídio que tem como principal sintoma a formação de um pó branco sobre as folhas, ataca o feijão-vagem (foto à direita) e as demais espécies da família das cucurbitáceas (melão, melancia, pepino, abóbora, abobrinha e moranga); o leite cru e fresco à 10-15 % (1 a 1,5 L para 100 L de água), pulverizado nas plantas atacadas é eficiente no manejo desta doença, mesmo no início da infecção.
Vírus-do-mosaico-comum (BCMV) Os sintomas produzidos por esta virose podem ser: mosaico, seca das folhas (necrose) e manchas locais. As vagens podem apresentar manchas verde-escuras. O vírus-do-mosaico-comum pode ser transmitido mecanicamente por afídios (pulgões) e através das sementes. Manejo: Usar semente certificada. Usar cultivares resistentes como a cultivar Predileto. Fazer adubação equilibrada. Controlar os pulgões. Evitar plantio próximo de campos mais velhos. Destruir os restos de culturas através de compostagem. Cuidar para não machucar as plantas durante os tratos culturais. Destruir plantas doentes através de compostagem.
 As principais pragas que atacam a cultura são: pulgões, vaquinhas, lagarta rosca, ácaro rajado e mosca minadora.

Os pulgões, insetos sugadores de seiva das plantas, paralisam o crescimento da planta e podem transmitir doenças viróticas.

As vaquinhas (Diabrotica speciosa) atacam as plantas na fase de adultos e de larvas, causando danos especialmente no início de desenvolvimento da cultura. Os adultos são besouros de cor verde e amarelo que provocam o desfolhamento das plantas (Figura 2). As larvas alimentam-se de raízes e nódulos deixando marcas e furos no local do ataque.
Figura 2. Danos causado pela vaquinha na folha de feijão-vagem – fase adulta
Manejo de pulgões e vaquinhas: recomenda-se os preparados à base de plantas tais como pimenta, alho, cebola, losna, confrei e outros (ver como preparar através de matérias já postadas neste blog). Diversas outras medidas também são recomendadas para o manejo destas pragas (ver matéria postada neste blog sobre "Manejo ecológico de insetos pragas – parte III).

  A lagarta rosca (Agrotis spp) é de coloração cinza-escuro de hábitos noturnos. Durante o dia ficam enroladas e abrigadas no solo. As lagartas cortam as plantas rente ao solo e em altas infestações as raízes são danificadas também. Manejo: aração e gradagem dos restos culturais; rotação de cultura; catação manual da lagarta enterrada nas proximidades da planta atacada; pulverização com preparado à base de pimenta.

 O ácaro rajado (Tetranychus urticae) geralmente ataca sob condições de alta temperatura e baixa umidade relativa do ar. Os sintomas mais evidentes nas folhas do feijoeiro são enrolamento, bronzeamento da parte de baixo das folhas, formação de uma "teia de aranha" sob a folha e manchas amarela na parte de cima da folha. Manejo: pulverize a lavoura com produtos à base de enxofre; pulverização com preparados à base de plantas tais como (ver como prepará-los em matérias já postadas neste blog); pulverização com calda sulfocálcica a 3% (cultura já desenvolvida).

 A mosca ou larva minadora (Liriomyza huidobrensis) são pequenas moscas com aproximadamente 2 mm de comprimento, escuros e raramente percebidos na lavoura. Os ovos são introduzidos no interior das folhas e a larva de cor amarela à marrom, mede cerca de 1-2mm. A larva faz galerias (minas) nas folhas (Figura 3), entre a epiderme superior e inferior da folha, alimentando-se do tecido parenquemático, provocando secamento. Infestações elevadas podem comprometer a produção. Manejo: evitar áreas sombreadas; pulverizar a cultura atacada com calda sulfocálcica a 1%, quando necessário.
 Figura 3. Danos na folha de feijão-vagem, causado pela larva minadora

Colheita
A cultura do feijão-de-vagem, normalmente, atinge seu ponto de colheita com 50 a 60 dias e entre 70 e 80 dias após o plantio, para as cultivares de crescimento determinado (rasteiras) e de crescimento indeterminado (tutoradas), respectivamente. O ponto de colheita ocorre cerca de 15 dias após o florescimento, estando a vagem com 20cm de comprimento, tenras e quebradiças. Deve-se evitar realizar a colheita nas horas mais quentes do dia para que não ocorra a murcha prematura. As vagens são colhidas manualmente e acondicionadas em caixas plásticas de colheita. Nesse momento, devemos ter o cuidado para não danificar as plantas ou machucar as vagens.

Classificação e embalagem
As caixas são levadas para um local onde é feita a classificação e a embalagem do produto. Esse local deve ser à sombra e ventilado. O feijão-de-vagem é comercializado nas Ceasas do País em caixa do tipo "k" com 15kg e nos sacos de ráfia com 10kg. Mais recentemente, embala-se o produto em bandejas de plástico ou de isopor com 500g a 1 kg.

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Com o objetivo principal de divulgar os conhecimentos adquiridos, baseados nas pesquisas realizadas na Epagri/Estação Experimental de Urussanga em Santa Catarina, nas consultas bibliográficas e, na experiência adquirida nos 32 anos de vida profissional como pesquisador da Epagri na área de hortaliças, estamos colocando este blog à disposição dos interessados. Outros objetivos são: intercâmbio e socialização de informações relevantes sobre agricultura orgânica.

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