Manejo ecológico de insetos-pragas: reconhecimento, danos e controle - Parte III


   Plantas saudáveis produzidas em solos com vida e, em ambientes equilibrados, normalmente, não são atacadas por pragas. No entanto, caso ocorra desequilíbrio do meio ambiente e surjam pragas causando danos aos cultivos, deve-se, em primeiro lugar, antes de iniciar um controle, reconhecer qual os insetos que costumam sempre provocar prejuízos à sua lavoura. Inspeção periódica na horta, deve ser realizada procurando-se detectar e conhecer os hábitos das possíveis pragas existentes, época de maior ocorrência, fase do desenvolvimento que causa maiores danos (larva, ninfa ou adulto), e plantas hospedeiras que se encontram próximas da lavoura. A maior parte das pragas ataca geralmente na primavera, estação do ano de fertilidade e de grande atividade na natureza. Elas podem causar vários danos nas plantas, além de favorecerem o surgimento de doenças, principalmente as fúngicas. As principais pragas que podem causar danos às hortaliças são: grilos, paquinhas, lagarta rosca, vaquinhas, pulgões, lesmas, curuquerê-da-couve, broca das cucurbitáceas e do tomateiro, traça das crucíferas e do tomateiro, lagarta-do-cartucho, mosca-branca, mosca minadora, tripes, ácaros e formigas cortadeiras.
 Grilos: com aparelho bucal mastigador, o adulto apresenta coloração marrom e pode medir até 2,5 cm de comprimento, sendo as pernas posteriores saltatórias. As fêmeas colocam até 970 ovos. O ciclo completo de ovo a adulto pode atingir a 90 dias. São polifagos (atacam várias plantas). Danos: tanto o adulto como as formas jovens apresentam hábitos noturnos, atacando preferencialmente sementeiras e viveiros, destruindo as raízes e plantinhas.
Paquinhas: também com aparelho bucal mastigador, o adulto tem asas marrom-escuras e mede cerca de 3 cm de comprimento. As pernas anteriores são escavadoras e as posteriores saltatórias. Possuem hábitos diferentes dos grilos por construírem galerias subterrâneas, entre 5 e 20 cm de profundidade. O ciclo biológico pode alcançar em torno de 10 meses, sendo a época de maior ocorrência de setembro a abril. Apresenta também hábito polífagos (atacam várias plantas. Danos: adultos e ninfas alimentam-se principalmente de raízes. Às vezes cortam pedaços da parte aérea da planta e carregam para seus túneis. Ocorrem geralmente em reboleiras.
Manejo de grilos e paquinhas : com extrato de pimenta; coloca-se uma quantidade de pimenta malagueta num frasco, acrescenta-se álcool para cobrí-las,  fecha-se e deixa-se curtir por pelo menos 3 dias. Após, o extrato já pode ser utilizado ou armazenado assim mesmo em local escuro. Em geral se utiliza uma colher de sopa deste extrato por litro de água para pulverizar as plantas. Mas também é possível utilizar dosagens mais fortes (até 1%) para aplicações em hortas. Seu uso deve ser repetido após chuvas ou irrigação. Usar luvas ao manipular a pimenta e vestimenta de proteção ao aplicar o extrato.
• Lagarta rosca: com aparelho bucal mastigador na fase de lagarta, os adultos são mariposas marrom-escuras com algumas manchas pretas. As lagartas atacam inúmeras plantas e ficam abrigadas no solo durante o dia, sendo que ao escurecer iniciam sua alimentação atacando o colo da planta e tubérculos. Quando são tocadas, enrolam-se (Figura 1). As lagartas atingem até 3,5 cm e podem viver até 30 dias. Ocorre o ano inteiro, com pico populacional em dezembro. Danos: as lagartas atacam as plantas nos primeiros 30 dias, reduzindo a densidade de plantio, sendo que o nível de dano varia para cada cultura. Manejo: o extrato de pimenta, além de controlar grilos e paquinhas, também é eficiente para o manejo de lagarta rosca; em áreas onde já apresentou problemas, é recomendável o preparo do solo 3 a 4 semanas antes do plantio; isca atrativa com óleo vegetal (50ml) + açúcar mascavo (40g) + farelo de trigo grosso (1kg) + suco cítrico (20ml) + bórax (5g), bem misturado, deixadas em porções protegidas nas proximidades das áreas mais frequentadas pelas lagartas também é eficiente no manejo da lagarta rosca; especialmente em hortas pequenas e com baixa ocorrência, o controle mecânico através de pequenas escavações próximas as plantas atacadas e posteriormente destruindo as lagartas, pode ser eficiente.
   
Figura 1. Lagarta rosca
Vaquinhas: os adultos são insetos polífagos (atacam várias culturas), pequenos besouros de cores variadas - verde-amarelo (Diabrotica), preto com manchas amarelas (Cerotoma) – Figura 2, verde metálica (Colaspis) e, tamanho aproximado de 10 mm. Ovos branco-amarelado são colocados isoladamente em fendas no solo. A larva conhecida como larva-alfinete (Figura 3) pode chegar até 10 mm de tamanho, alimentando-se de raízes de plantas (Figura 4) e tubérculos de batata. Na fase de larva os prejuízos são irreversíveis, pois tombam as plantinhas recém-emergidas (milho, feijão, feijão-vagem e outras) e furando raízes e tubérculos. Danos: os furos causados pelos insetos adultos nas folhas, associados aos danos causados pelas larvas, acarretam perdas na produtividade e qualidade dos cultivos.
 
 Figura 2. Vaquinha na fase de adulto causa danos através do desfolhamento das plantas, especialmente no início de desenvolvimento das culturas.
Figura 3. Vaquinha na fase de larva causa danos nas raízes das plantas recém-emergidas e também em raízes de batata-doce e tubérculos de batata (larva- alfinete)
 
 Figura 4. Danos nas raízes de milho, provocados pela larva-alfinete (vaquinha na fase de larva)
  
Pulgões: os pulgões (Figura 5) tem um ciclo de 5 a 6 dias , sendo que uma fêmea produz cerca de 60 ovos (por individuo). Todos os indivíduos são fêmeas, não precisando de machos para se multiplicar, e são rapidamente disseminados pela lavoura, caso não se controle os focos iniciais de infestação. São pequenos insetos (2 a 4mm) marrons, cinzas, esverdeados ou pretos que vivem em colônias, especialmente em brotações novas, nas folhas mais tenras e nos caules Danos: os pulgões causam prejuízos pela sucção da seiva nas folhas mais jovens e brotos tornando-os encarquilhados e expelem um líquido açucarado sobre as folhas. Este líquido propicia o desenvolvimento de um fungo negro, conhecido como fumagina (muito comum em pomares novos) que envolve toda a folha, provocando a perda na qualidade das folhas (hortaliças) mesmo após o controle. Podem transmitir viroses.Os períodos mais favoráveis ao surgimento dos pulgões são a primavera, o verão e o início do outono.
Figura 5. Ataque de pulgões em folha de couve

 Manejo de pulgões e vaquinhas: recomenda-se os preparados à base de plantas tais como pimenta e cebola para o manejo de pulgões e vaquinhas. Para o manejo de pulgões, outros preparados tais como, de cavalinha-do-campo, losna, confrei , samambaia, cinamomo, coentro e cravo-de-defunto também são eficientes (ver como preparar através de matérias já postadas neste blog). No manejo de vaquinhas, na fase adulta, ainda existem as plantas que podem servir como iscas atrativas, tais como abobrinha caserta , tajujá , porongo ou cabaça. O uso de variedades resistentes, como por exemplo, a cultivar de batata-doce Brazlândia roxa, é eficiente no manejo da larva-alfinete (fase larval da vaquinha) que ataca as raízes deste cultivo. Também um bom preparo do solo, associado a uma boa amontoa (chegamento de terra) no cultivo de batata, reduz significativamente os danos causados pelas larvas-alfinete em tubérculos de batata. No manejo de pulgões deve-se evitar o uso exagerado de adubação nitrogenada, utilizar a irrigação como forma de reduzir a infestação e também culturas atrativas aos diversos inimigos naturais (joaninhas, vespinhas e crisopídeo); o sorgo favorece o aumento da população de crisopídeo. Dentre os inimigos naturais dos pulgões, destaca-se a joaninha. Ainda, no manejo de pulgões é muito importante manter a vegetação nativa nas proximidades da lavoura, pois serve de abrigo e alimento aos inúmeros inimigos naturais dos pulgões.

• Lesmas: são moluscos de cor escura (Figura 6) que atacam geralmente à noite. São hermafroditas e expelem um muco, que ao secar, deixa um risco característico. Durante o dia esconde-se embaixo de tocos, palhas e lugares úmidos. Podem ser vetores de parasitóides intestinais em humanos. Danos: além de prejudicar a saúde humana, as lesmas atacam as folhas e as raízes de plantas pequenas e tenras.
Figura 6. Lesmas
 Manejo : proteção dos canteiros colocando cal virgem ou cinzas de madeira ao redor dos canteiros; o uso de armadilhas – uso de sacos de aniagem úmidos ao redor dos canteiros, colocados à tarde, servem como abrigo, podendo ser mortos no dia seguinte com água quente, esmagamento ou com água sanitária. Outra armadilha é o uso de lata de azeite com uma tampa aberta, enterradas com abertura no nível do solo, colocando um pouco de cerveja misturada com sal. Ainda pode ser utilizado o preparado com chuchu – colocar dentro de latas rasas, como as de azeite, pedaços de chuchu cortados ao meio e adicionar sal. Essa mistura é bastante atrativa, possibilitando posteriormente a destruição através do esmagamento ou água quente ou ainda água sanitária.
 

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Com o objetivo principal de divulgar os conhecimentos adquiridos, baseados nas pesquisas realizadas na Epagri/Estação Experimental de Urussanga em Santa Catarina, nas consultas bibliográficas e, na experiência adquirida nos 32 anos de vida profissional como pesquisador da Epagri na área de hortaliças, estamos colocando este blog à disposição dos interessados. Outros objetivos são: intercâmbio e socialização de informações relevantes sobre agricultura orgânica.

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