Cultivo orgânico de brássicas: repolho, couve-flor, brócolis e couve


   A família Brassicaceae é composta por várias espécies com destaque para o repolho (Brassica oleracea var. italica), a couve-flor (Brassica oleracea var. botrytis) , o brócolis (Brassica oleracea var. capitata) e a couve ( Brassica oleracea var. acephala). Estas hortaliças possuem alto valor nutricional, sendo boa fonte de vitaminas B, C e K e ricas em sais minerais (cálcio e fósforo), essenciais para a formação dos ossos e dentes. Pesquisas recentes reforçam a tese de que o consumo de brássicas pode ajudar na prevenção e tratamento de doenças degenerativas. Estudo com 48 mil homens mostrou que o câncer de bexiga era menor no grupo que consumia mais brócolis, couve-flor e repolho. Por serem consumidas in natura, especialmente na forma de saladas, ou cozidas ligeiramente, é fundamental o cultivo orgânico (sem agroquímicos) para garantir a saúde do agricultor, do consumidor e também para preservar o meio ambiente e as futuras gerações. Pesquisa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa, com 20 espécies de plantas, incluindo frutas e hortaliças no Brasil, revelou que, das 3.130 amostras coletadas em 2009, 29 % apresentaram resultados insatisfatórios, ou seja, com resíduos de agrotóxicos, especialmente, os não autorizados para a cultura. Dentre as brássicas, a couve e o repolho foram as mais contaminadas por agrotóxicos, apresentando 44,2% e 20,5% das amostras coletadas com resíduos de agrotóxicos.
Recomendações técnicas
.Escolha correta da área e análise do solo: recomenda-se evitar áreas sujeitas à encharcamento, muito declivosas, e, já cultivadas com outras espécies da mesma família (repolho, couve-flor, couve e brócolis).
.Épocas de plantio e cultivares: as brássicas, embora tipicamente de inverno,foram adaptadas para cultivo também no verão. A época de plantio está diretamente relacionada com a escolha da cultivar e/ou híbrido. O plantio na época inadequada pode levar ao fracasso da lavoura pela produção precoce de cabeças pequenas ou até nem mesmo ocorrer a formação. Resultados de pesquisa obtidos na Estação Experimental de Urussanga (Epagri), evidenciaram os seguintes híbridos relacionados a seguir como os mais promissores.
Cultivo de março a junho no Litoral: Repolho – Fuyutoyo, AF-528, Emblem e Sagittarius; Couve-flor – Júlia F1, Sharon F1, AF-1182 e AF-1169 ;Brócolis - AF-817 e Majestic Crown.
Cultivo de julho a setembro no Litoral: Repolho Ombrios, Fuyutoyo, AF-528 e Emblem; Couve-flor – Barcelona Ag-324, Júlia F1, AF-919, Verona, AF-1182 e Sharon F1 ; Brócolis – AF-817, Legacy e AF-649.
.Produção de mudas: o transplante de mudas sadias e vigorosas produzidas em bandejas de isopor, com substratos de qualidade, em abrigos, garante o sucesso das culturas de repolho, couve flor, brócolis e couve.
.Preparo do solo: recomenda-se adotar o plantio direto ou o cultivo mínimo do solo. Para o cultivo de brássicas nos meses de julho a setembro, no Litoral, o mais indicado é a semeadura de adubos verdes no outono, isoladamente, ou em consórcio, incluindo aveia preta, ervilhaca e nabo forrageiro e, a abertura de covas ou sulcos para o plantio das mudas de brássicas. Pode-se também utilizar as plantas espontâneas como cobertura nas entrelinhas. Quando necessário, deve-se roçá-las para não competir por luz e nutrientes com as brássicas. As plantas de cobertura (adubos verdes ou plantas espontâneas) protegem o solo das chuvas torrenciais, da compactação, da erosão, mantêm o solo mais úmido, além de aumentar o teor de matéria orgânica e reciclar nutrientes devido ao sistema radicular mais profundo destas espécies.
.Adubação de plantio: as brássicas respondem bem à adubação orgânica que deve ser aplicada, com base na análise do solo, feita com antecedência, e nos teores de nutrientes do adubo orgânico a ser aplicado.
.Plantio e espaçamento: o plantio das mudas deve ser feito quando estas atingem 3 a 4 semanas de idade (10 a 15cm de altura ou 4 a 7 folhas definitivas), na profundidade que estavam na bandeja de isopor. O espaçamento recomendado varia de 0,8 a 1,0m entre fileiras por 0,4 a 0,6m entre plantas.
.Capinas, adubação de cobertura e manejo de plantas espontâneas: o período crítico de competição com as plantas espontâneas é de até 30 dias após o transplante. As capinas são feitas somente nas linhas de plantio, mantendo-se as plantas de cobertura ou ainda as plantas espontâneas nas entrelinhas.Quando necessário, deve-se roçar nas entrelinhas para evitar competição com as brássicas. A cobertura morta, utilizando-se palhas de arroz ou de milho, é outra alternativa para o manejo de plantas espontâneas, além de conservar a umidade no solo.As adubações de cobertura, se necessário, são feitas 15 a 20 dias após o transplante e 20 dias após a 1ª. A cobertura morta com palhas (arroz, milho, capim-elefante e outras),é outra alternativa para o manejo de plantas espontâneas.
.Irrigação: a irrigação é essencial para o sucesso da lavoura. Em geral, as brássicas necessitam de 500 mm de água em um ciclo médio de 120 dias. Recomenda-se o uso da irrigação por aspersão ou por gotejamento.
.Manejo de doenças e pragas: em sistema de produção equilibrado, não ocorre ataque de pragas e doenças. As principais doenças são: a podridão-negra (Xanthomonas campestris pv. Campestris) causada por bactéria e a alternariose (Alternaria brassicae e A. brassicicola) provocadas por fungos, ocorrem em condições de tempo quente e úmido. Para estas doenças, deve-se fazer o controle preventivo. Entre as medidas, destacam-se: 1) na produção de mudas utilizar sementes sadias, semeadas em bandejas de isopor com substrato isento de doenças; 2) utilizar cultivares e/ou híbridos resistentes; 3) rotação de culturas e 4) eliminar restos de culturas anteriores. No manejo das principais pragas, a traça (Plutella xylostella) e o curuquerê da couve (Ascia monuste orseis) recomenda-se, quando necessário, produtos à base de Bacillus thuringiensis, conhecido como dipel e o preparado de sálvia (planta medicinal e aromática). Modo de preparar a sálvia: derramar 1 L de água fervente sobre 2 colheres (sopa) de folhas secas de sálvia; tampar o recipiente e deixá-lo em repouso durante 10 minutos (infusão). Agitar bem, filtrar e pulverizar imediatamente sobre as plantas para repelir a borboleta branca que coloca os ovos nas folhas das plantas cultivadas, originando as lagartas que comem as folhas. Quando o ataque ocorre em apenas algumas plantas e, dependendo do tamanho da lavoura, a catação manual dos ovos e lagartas é uma prática eficiente. Para o manejo de pulgões, que surgem em condições de tempo seco e quente, recomenda-se os preparados à base de plantas (pimenta, alho, cebola, confrei , losna e coentro – ver matéria publicada em 1/7/2010). Modo de preparar a pimenta: bater 60 g de pimenta vermelha no liquidificador com 0,5 L de água e, em seguida acrescentar mais 0,5 L de água. Deixar amolecer (macerar) num recipiente por 12 horas. Dissolver um pedaço de sabão (50g) em 1 L de água quente e após misturar à calda como produto adesivo. Coar e diluir 1L do macerado para 5 L de água. Pulverizar as plantas atacadas. Para evitar o odor da pimenta, pulverizar, no mínimo, até 12 dias antes da colheita. A irrigação por aspersão e os inimigos naturais (joaninha), reduzem a incidência de pulgões.
Colheita: recomenda-se deixar quatro a seis folhas para proteção durante o transporte e manipulação dos produtos. Repolho: a cabeça deve estar bem compacta, fechada, com as folhas internas bem unidas umas às outras e as folhas superiores iniciando a enrolar-se para trás. Se for colhido antes, o repolho murcha rapidamente. Couve-flor: as cabeças são colhidas quando atingem o seu máximo desenvolvimento, mas antes de iniciarem a formação de "pêlos" e a emissão dos botões florais. Brócolis: a colheita deve ser feita quando as hastes, botões e cabeças apresentam cor verde-intenso. Os botões florais devem estar bem fechados, sem aparecer as pétalas amarelas das flores.
 Figura 1. Sálvia (planta medicinal e aromática) e pimenta (hortaliça-tempero), utilizadas em preparados que podem serem feitos na propriedade, são eficientes no manejo de lagartas e pulgões, respectivamente, que atacam a couve, repolho, couve-flor e brócolis, praticamente sem nenhum custo e, o que é melhor, não oferecem riscos ao produtor, consumidor e meio ambiente e, ainda protegem as futuras gerações.

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Com o objetivo principal de divulgar os conhecimentos adquiridos, baseados nas pesquisas realizadas na Epagri/Estação Experimental de Urussanga em Santa Catarina, nas consultas bibliográficas e, na experiência adquirida nos 32 anos de vida profissional como pesquisador da Epagri na área de hortaliças, estamos colocando este blog à disposição dos interessados. Outros objetivos são: intercâmbio e socialização de informações relevantes sobre agricultura orgânica.

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